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quinta-feira, 11 de julho de 2019

PRAÇA DA CANÇÃO


No dia 2 de Maio de 1974 chegou do exílio, em Argel, bateu à porta do PS que lhas escancarou.
Com ele vinha outro exilado, Fernando Piteira Santos, a quem um dia perguntaram porque se não tinha filiado no Partido Socialista e aquele que perguntou, ouviu a resposta: “Porque sou socialista”. 

No prefácio à 2ª edição de Praça da Canção, Mário Sacramento lembrava  a  notícia-crítica que escrevera, em 1965:

«Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estreiam, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.»

Numa carta datada de 12 de Fevereiro de 1973, Carlo Vittorio Cattaneo  contava a Jorge de Sena:

«No encontro romano, Alexandre O’ Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália) respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»

Em carta, datada de 7 de Março de 1973, Jorge de Sena responde:

«O que o O’Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom «popular» e «engagé» que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»

Carlo Vittorio Cattaneo publicará em 1975 «La Nuova Poesia Portoghese» e em Janeiro de 75 lembra a Jorge de Sena: «Manuel Alegre, se bem que poeta medíocre, me serve como exemplo de poesia política.»

A antologia dos poetas traduzidos por Vittorio Catttaneo inclui Herberto Helder, Ruy Belo, Pedro Tamen, Manuel Alegre, Armando Silva Carvalho, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Nuno Guimarães, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, Nuno Júdice.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

sábado, 5 de maio de 2018

ETECETERA


Em 2018, passam 20 anos sobre a atribuição a José Saramago do Prémio Nobel da Literatura.

Maria do Rosário Pedreira lembra no seu blogue Horas Extraordinárias:

«Há uns anos, pediam aos membros do P.E.N. uma sugestão de um autor português que devesse ser candidato ao Prémio Nobel, e o nome do escritor que colhesse mais «votos» era depois encaminhado para o P.E.N. Internacional que, suponho, teria voto na matéria e poderia propor nomeações. Eu puxei sempre a brasa à minha sardinha (de poeta) e indiquei, enquanto foi viva, Sophia de Mello Breyner e, depois, embora soubesse que provavelmente o recusaria, Herberto.»

Miguel Torga será o escritor português que mais vezes foi, pelos seus pares, indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Passou despercebida a notícia de que a Academia Sueca pediu formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura:

«Em nome da Academia Sueca temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018.

Os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram os nomes de Manuel Alegre, o mais votado, e Agustina Bessa-Luís.

Provavelmente, António Lobo Antunes, o eterno candidato português, não terá apreciado o gesto dos membros da Academia.

Mas tudo foi em vão.

Soube-se, hoje, que este ano não haverá Nobel da Literatura.

A Academia Sueca ficou sem quórum depois da última demissão e, por esse motivo, o prémio não pode ser atribuído. O impasse resulta do facto de, embora demissionários, os membros da Academia não poderem ser substituídos enquanto forem vivos.

Tudo começou em Novembro do ano passado, com o escândalo que envolve o fotógrafo Jean-Claude Arnault, marido da poeta Katarina Frostenson, um dos membros mais proeminentes da Academia: Arnault é acusado de assédio sexual por dezoito mulheres, mas, indiferente à controvérsia, Katarina Frostenson só se demitiu há poucas semanas.

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O Nobel da Literatura foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos.

Questionado pelo Diário de Notícias pela não atribuição do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes reagiu assim:

 «O assunto Nobel não me interessa.»

A PROCISÃO AINDA NÃO SAÍU DO ADRO

Depois das declarações de António Costa, Carlos César, Fernando Medina, António Arnaut e João Galamba, proferidas nas últimas horas, José Sócrates abandonou o Partido Socialista.

Em artigo, publicado no Jornal de Notícias esclarece:

«Durante quatro anos suportei todos os abusos: a encenação televisiva da detenção para interrogatório; a prisão para investigar; os prazos de inquérito violados sucessivamente como se estes não representassem um direito subjetivo que não está à disposição do Estado; a campanha de difamação urdida pelas próprias autoridades com sistemáticas violações do segredo de justiça; o juiz expondo na televisão a sua parcialidade com alusões velhacas; a divulgação na televisão de interrogatórios judiciais com a cumplicidade dos responsáveis do inquérito.
Na verdade, durante estes quatro anos não ouvi por parte da Direcção do PS uma palavra de condenação destes abusos, mas sou agora forçado a ouvir o que não posso deixar de interpretar como uma espécie de condenação sem julgamento.» 

O primeiro-ministro António Costa mostrou-se surpreendido porque «não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política.»

Mas respeita a decisão de José Sócrates.

A FECHAR

«Ordinariamente, todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações, e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal  são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»

Eça de Queiroz no Distrito de Évora em 1917

domingo, 21 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Ensaios de Domingo
3º Volume

Mário Sacramento
Capa: Jorge Machado Dias
Veja, Lisboa s/d

Não me levem a mal se apoiando-me apenas num livro que pode considerar-se de estreia, eu me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português. Assim o sinto, assim o devo escrever, muito embora não esqueça todos os que foram ou são maiores poetas do que ele em definidos (ou restritos) rumos ou tonas e modos do que em poesia podemos abarcar pela designação de neo-realismo. É que em Manuel Alegre não há singularidade, mas sim a espontaneidade dum lirismo vigilante que tem um só tema, um só modo e um só nome: poesia, e pelo qual desabrocha em plenitude e maturidade uma vocação que integra o que antes dele for sobretudo ensaio, esboço ou realização parcelar e mitigada.

(Da crítica a Praçada Canção de Manuel Alegre, publicada na Seara Nova, Maio de 1965).

sábado, 28 de outubro de 2017

QUE OS LIVROS ESTEJAM CONVOSCO|


O livro A Cavalo do Diabo, do José Cardoso Pires, comprei-o na Livraria do Centro Comercial Arco-Íris, ao lado de outro centro comerciak, o Apolo70.
O Centro ainda existe, a livraria já não.
Entro numa livraria como a borboleta atraída pela luz.
Gostava muito desta livraria, onde era atendido por gente simpática, estava longe a chegada dos computadores, e que sabia o que é ser livreiro.
Como poetizou Manuel Alegre:

Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros  quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

As livrarias, aos poucos, têm vindo a desaparecer.
Lembro sempre o arrepio de Jorge Silva Melo quando viu fechar uma livraria em Campo de Ourique:
Numa crónica a que chamou Já Fechou a Livraria, incluída no seu Século Passado, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.«Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei».
Num ranking elaborado pelo jornal britânico The Telegraph, há duas livrarias portuguesas entre as 16 que o jornal considera como as mais bonitas do mundo.
Uma em Lisboa, a Ler Devagar, outra no Porto, a Lello & Irmão.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

sexta-feira, 17 de março de 2017

FOI HÁ 50 ANOS




Já está à venda uma nova edição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre, comemorativa dos 50 anos da 1ª edição.

No meu exemplar pode ler-se:

Este livro edição do autor foi composto e impresso em Novembro de 1967 na Tipografia do Carvalhido no Porto.

A capa, composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro, não tem indicação de autor.

Deste livro, Adriano Correia de Oliveira, retirou poemas, musicou-os, e ao álbum não teve qualquer dúvida em dar-lhe o mesmo nome do livro.

A primeira faixa do álbum, E de Súbito um Sino, é também o primeiro poema do livro, cujos primeiros versos são ditos pelo actor Ruy Mendes:

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
 povo. Teu génio.

E o teu silêncio
É de súbito um sino
Tocado pelo vento

Em todas as aldeias do meu sangue.


Poemas e canto que marcam toda uma geração, e não só uma geração, diga-se.

Esta nova edição de O Canto e as Armas tem prefácio de Mário Cláudio.

Que começa assim:

O convívio com um texto no espaço que o justifica, quando não resulta de um privilégio da nossa escolha, poderá corresponder a uma consequência da força das circunstâncias. Calhou-me dialogar com O Canto e as Armas nas bolanhas da Guiné onde cumpria a minha comissão de serviço militar obrigatório, e no verbo «cumprir», e no adjectivo «obrigatório », não pouco se insinuará do animus que terá comparecido à leitura. Não se tratando de uma proposta «neonefelibata», igual às que aliás informavam boa parte da poesia que nesse tempo se ia escrevendo na chamada «Metrópole», o texto de Manuel Alegre engastava o «espírito» no exacto lugar que o segregara, e onde o subscritor destas linhas se encontrava. Eu estava numa guerra, e numa guerra injusta, na qual muitos se envolviam desmotivadamente, como estaria qualquer leitor de Moby Dick a bordo de um baleeiro de Nantucket, e em busca do Leviatã branquíssimo, ou de Guerra e Paz na estepe gelada da Campanha da Rússia, e sob o comando de Napoleão. E quanto ao vocabulário estruturante de toda a obra literária, eis que coincidia ele com o que por então povoava a nossa fala quotidiana, percorrida por «bazucas e morteiros e estilhaços», por «granadas», e por «metralhadoras». Não me recordo de outro livro, a não ser talvez o de Job, eleito em momentos de infortúnio, que se me tenha amassado tão imediatamente no sangue.
Mas O Canto e as Armas assegurar-nos-ia ainda, a muitos, e a mim também, a permanência de um horizonte longínquo, o da terra europeia que nos fora berço, evocando o regaço da Mãe superlativa, por quem clama ao que se diz cada soldado antes de ascender a herói ou, o que valerá o mesmo, ao plano de quem «jaz morto e arrefece». Era a absoluta ruralidade que investia por aquelas páginas, conforme à grande paisagem, natural e humana, que a desertificação não avassalara ainda, e que haveria de enquadrar os anos seguintes. Despertavam de facto por ali criptomnésias de um pequeno paraíso agro-pastoril, «arados» e uma «espiga», ou «uma flor de verde pinho», a pontuar «oitenta e nove mil quilómetros quadrados».

Alguns dos poemas de Praça da Canção, como os deste livro, registam o aparecimento de um tal País de Abril, adivinhações, sonhos de Manuel Alegre.

É em O Canto e as Armas que está Poemarma, onde a dado ponto se pode ler:

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Assim foi, como alguns, cada vez menos, se lembram.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REJEITAR A REJEIÇÃO!


O Acordo Ortográfico, em vigor desde 2011, é um disparate académico, uma infantilidade e uma irresponsabilidade do governo José Sócrates.

Que jornais, jornalistas, escritores, empresas, tenham aderido de imediato ao disparate, torna-o ainda maior.

Manuel Alegre no Público:

 «O ministro dos Negócios Estrangeiros diz que rejeita a revisão do acordo ortográfico. E eu rejeito essa forma de rejeição, porque a considero autoritária, arrogante, dogmática e deselegante para com a Academia das Ciências. A Academia, que é, de acordo com a lei, conselheira do Governo em matéria da língua, não foi ouvida nem achada no que diz respeito ao acordo. E limitou-se a apresentar, agora, um conjunto de sugestões indicativas para que se começasse a debater este assunto e para tentar melhorar, se possível, um acordo que nasceu mal, um acordo falhado.
Esta posição do ministro [Augusto Santos Silva], que fala em nome do Governo, revela um grande desprezo por todos aqueles que se têm oposto desde o princípio a este acordo. Desprezo por escritores, por gente das letras, por académicos, por professores e por muitos cidadãos que manifestam a sua oposição a este acordo, que está a fragmentar a língua e a dividir os portugueses. Já nem falo de mim, falo do Vasco Graça Moura, que mostrou de mil e uma maneiras todos os erros deste acordo, que, aliás, considerava inconstitucional. Não conheço nenhum escritor de nomeada que seja favorável a este acordo.»

sábado, 17 de setembro de 2016

QUE O ESQUECIMENTO NÃO VENÇA A MEMÓRIA


O 25 de Abril, enquanto golpe militar, criou condições políticas para acabar com a guerra, mas a guerra não acabou dentro das pessoas. Ninguém queria ouvir falar daquelas situações de isolamento, emboscada, bombardeamentos de napalm, cabeças cortadas. Incomodava os que cá ficaram e nada sabiam e os que de lá tinham voltado.


Manuel Alegre, Expresso 3 de Setembro de 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva

domingo, 10 de abril de 2016

ABRIL


Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!

Lado 1


Trova Do Vento Que Passa – Pensamento

Lado 2


 Capa Negra, Rosa Negra - Trova Do Amor Lusíada

Trova do Vento Que Passa

Poema de Manuel Alegre
Música de Adriano Correia de Oliveira

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

FADO PARA SUECOS


O tal livro que é uma enciclopédia do Fado para suecos entenderem, da autoria de Ulf Bergqvist, em duas páginas e meia aborda o Fado de Coimbra e refere os nomes de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso
Consegue perceber-se que o texto informa que Adriano e José Afonso foram opositores ao regime de Salazar.
Também que, António Almeida Santos, recentemente falecido, é referido como ministro de Mário Soares e intérprete de Fado de Coimbra.
Tudo isto sou eu que deduzo porque da língua sueca pesco zero.
Publicam-se versos da Grândola Vila Morena e, na página seguinte a tradução sueca de Trova do Vento Que Passa de Manuel Alegre.
Quase no fim é citado Cavaco Silva, não sei bem a que propósito.
Nem quero saber.
O que sei, e me interessa, é que a partir de 9 de Março vai dar de frosques.

Irra que foi demais tanto Cavaco!

sábado, 23 de janeiro de 2016

CORAÇÃO POLAR


Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.


Manuel Alegre

Legenda: não foi possível identificar o Autor/Origem da fotografia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

RUY CINATTI NA MESA DO CAFÉ




Entrar pela Parisiense e encontrar em cima das mesas prosas de Ruy Cinatti.

Prosas passadas a stencil, devidamente datadas.

Rui Cinatti policopiava poemas e textos que distribuía pelas ruas da cidade.

Por este tempo, estava de muita má disposição com o Partido Socialista.

Hei-de voltar à Parisiense, um café-pastelaria na esquina da Rua da Misericórdia com a Praça de Camões, onde paravam artistas de diversas artes.

Lembro-me da Luiza Neto Jorge, do Manuel João Gomes, do Jorge Silva Melo, do Vitor Silva Tavares, pelas tardes, sentadios naquelas mesas.

A Parisiense já não existe.

Está lá um daqueles hotéis a armar ao pingara-lhe.

Estes papéis do Ruy Cinatti, estão amarelecidos pelo tempo.

Clicando sobre os textos é possível uma melhor leitura.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ENTÃO A CASA FICAVA DIFERENTE


É a pele da terra, dizia o Lince, colocando as grandes fatias de musgo na canastra. O presépio de minha avó tinha fama. Construía-o junto à parede do fundo da sala de jantar, utilizando caixas de papelão e espelhos com que fazia as montanhas e os lagos da Judeia. Cobria os montes com flocos de neve, punha a cabana em Belém, com o Menino nas palhinhas, rodeado pela Mãe, por José, pelos pastores, pelo jumento e pela vaca. Depois as luzes, de várias cores. E uma estrela amarela que apontava para o caminho aos reis do Oriente.
Também armava a árvore de Natal, com um pinheiro que o Lince cortava em Romarim. Mas eu preferia o presépio. Sempre achei que o da minha avó era o mais bonito de Alma, mais ainda do que o da Igreja. Trazia os meus amigos para eles verem. E toda a gente admirava, até Aurélio Silveira e Florêncio Tavares, republicanos, laicos e anticlericais, ainda que considerassem Jesus Cristo como um correligionário.
Então a casa ficava diferente. Talvez por causa do cheiro do musgo, das luzes a acender e a apagar na árvore e no presépio, talvez porque era Natal e havia um não sei quê no ar, tudo mudava, a casa, as pessoas, o ritmo.


Manuel Alegre em Alma

domingo, 15 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


15 de Novembro de 1975

O título pertence à edição do Diário de Notícias de hoje.
O que Mário Soares classificou como algo de muito grave que se preparava em Lisboa, que levou os deputados do PS e do PPD, a refugiarem-se no norte do país, não passou de uma gigantesca manifestação de vontade popular, realizada na Praça do Comércio, sem qualquer tipo de incidentes. Tão pouco foi necessário gritar: «O Povo é Sereno».
A manifestação está marcada para amanhã.
No dia de hoje, as notícias e os comentários voltam-se para o cerco a S. Bento.
Sá Carneiro refere a Comuna de Lisboa e Manuel Alegre, num comício, salientou que «se o Norte não fosse como é, a Revolução já tinha sido desfeita».
A Crónica Parlamentar do Diário Popular, assinada por Adelino Cardoso, refere a fuga para o norte do país, dos deputados do PS e do PPD.:


No  Conselho de Ministros, o governo solidarizou-se com o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República, os ministros, os deputados, os funcionários sequestrados na Assembleia e declara que o Presidente da República e o Conselho da Revolução devem pronunciar-se sobre os gravíssimos acontecimentos.
O governo manifesta-se, ainda, contra o inacreditável alheamento do poder militar face ao cerco

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

33 ANOS



«Gente de Aqui e de Agora» é um álbum editado em Outubro de 1971.
A totalidade das músicas é da autoria de José Niza.
Os poemas são de Manuel Enriquez, Manuel Alegre, Conde de Monsaraz, Fernando Miguel Bernardes, Raul de carvalho, António Ferreira Guedes, António Aleixo

Emigração – E Alegre Se Fez Triste – O Senhor Morgadio – Cana Verde – A Vila de Alvito – Canção Tão Simples – Cantiga de Amigo – Para Rosalia -  Roseira Brava – História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro

Arranjos de José Calvário, José Niza, Rui Ressurreição – Thilo Krasmann

Adriano Correia de Oliveira, após este disco, recusa-se a enviar os poemas à Censura e até ao 25 de Abril não publicará mais discos.

Como ilustração escolhi « A Vila de Alvito».



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

33 ANOS


33 Anos sem Adriano Correia de Oliveira.

«Cantaremos» é editado em 1970..

Cantar de Emigração - Saudade Pedra e Espada - Fala do Homem Nascido - O Sol Préguntou à Lua - Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência -  Lágrima de Preta - Canção Com Lágrimas - Cantar Para Um Pastor - Como Hei-de Amar Serenamente - Sapateia - A Noite dos Poetas.

Poemas de Rosalia de Castro, Manuel Alegre, António Gedeão, Matilde Rosa Araújo, Fernando Assis Pacheco, A. Barahona da Fonseca
«O Sol Perguntou à Lua» e «Sapateia» são canções do folclore Açoreano.
Músicas de José Niza, Roberto Machado e Adriano Correia de Oliveira.

Arranjos de Rui Pato e Carlos Alberto Moniz
Acompanhamentos de Rui Pato, Tiago Velez, Raul Mendes e Adriano Correia de Oliveira.

Para ilustração escolhi 'Lágrima de Preta», poema de António Gedeão. 



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

33 ANOS



Reproduzidos os primeiros LPs que reuniram os trabalhos dispersos por singles e EPs, este é o primeiro LP  temático de Adriano que reúne poemas de Manuel Alegre, excepção feita a «Canção da Fonteira» com poema de António Cabral e «Por Aquele Caminho» com poema de José Afonso.
«O Canto e as Armas» foi publicado em 1969.
O disco abre com o poema «E de Súbito um Sino» dito pelo actor Rui Mendes.

«Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
povo. Teu génio.
E o teu silêncio
é de súbito um sino
tocado pelo vento
em todas as aldeias do meu sangue.»

E de Súbito um Sino – Raiz – E a Carne se Fez Verbo – E o Bosque se fez Barco – Peregrinação – A Batalha de Alcácer-Quibir – Regresso – Canção da Fronteira – Por Aquele Caminho – Tristeza – Trova do Vento que Passa nº 2 – As Mãos – Post Scriptum.

Acompanhamento à viola de Rui Pato.

Para ilustração escolhi «Por Aquele Caminho».


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

DE ALEGRE SE FEZ TRISTE


A campanha eleitoral dá os últimos suspiros.
Sorte nossa.
Por aqui, passou-nos completamente ao lado.
Já vimos de tudo.
Possivelmente, na segunda-feira, vamos ouvir os mesmos lamentos de quem lhes rouba as reformas e os empregos, os coloca no limiar da pobreza.
Não mais os lamentarei.
Mas, agora, se aqui trago a campanha é porque li algo que, completamente, me tira do sério.
Num comício do PS, Manuel Alegre teve esta tirada:
O que a CDU e o Bloco de Esquerda estão a fazer é um grande frete à direita.
Que tristeza, caro Alegre.
De quem tudo viu em Nambuangongo, esperava-se, outro olhar, outra lisura, outros… não sei o bem o quê…