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domingo, 11 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Homem do País Azul

Manuel Alegre
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990

- Não acredito nesta história, tu não és palestiniano.
- Quem sabe – respondeu -, já te disse que sou de um país azul. Pode ser a Palestina. A Palestina é um país azul.
À noite entregou-me um poema intitulado Palestina. Estava escrito em português:

Há um nome para escrever
Entre uma ferida e outra ferida
Um nome como não haver
Outro lugar para a vida

Há um nome para dizer
Onde só morte se diz
Um nome como não haver
Outro nome de país

Há um nome para morrer
Entre uma esquina e outra esquina
Um nome para nascer
Sobre o cerco e a ruína
Um nome como não haver
Outro sonho e outra sina
Senão a força de ser
Palestina.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Um Barco para Ítaca

Manuel Alegre
Colecção Poesia Nosso Tempo nº 2
Nosso Tempo, Águeda 1971

Penélope

Quem és tu ó estrangeiro? Quem és e donde vens?

Velho

Pode o homem ter muitos nomes e não ter nenhum
pode ter um só nome tendo muitos.
Pode ter uma pátria e já não ter nenhuma
ou tendo muitas ter uma só.
Pode ter uma pátria que nunca teve
e pode ter uma pátria que não há.

Penélope

Dizem que sabes notícias de Ulisses
dizem que és cegos mas vês.
Talvez tu saibas o onde
talvez tu saibas o quando.

Velho

Todo o homem tem um navio no coração
todo o homem tem um navio
tem um país a descobrir em cada mão
tem um rio no sangue tem um rio
todo o homem tem um navio no coração.
Todo o homem tem um onde e tem um quando
um tempo de partir um tempo de voltar
sete palmos na terra mil caminhos no mar.
Todo o homem se perde. Todo o homem se encontra.
E tem um tempo em que se mostra. E tem um tempo em que se esconde.
Todo o homem tem um por e tem um contra.
Todo o homem se perde. Todo o homem se encontra:
Todo o homem tem um quando e tem um onde.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Letras

Manuel Alegre
Colecção Poesia – Nosso Tempo nº 9
Centelha, Coimbra, Junho de 1974

S (ésse)

Direi de meu tempo que havia um S
havia uma sombra e um silêncio
havia um S de sigla e de suspeita
com suas seitas e seus sicários.

Não sei se o signo não sei se sina
não sei se simplesmente sujo.
Ou só servil. Ou só sevícia.

Havia um S de saturno
havia um susto
havia um S de soturno
havia um S de sol.

De meu tempo direi
que havia um S
de sepulcro.

Sentinela. Sentinelas.

Ou talvez selva. Talvez serpente.
S de sebo e de sebenta: seco seco.

E também senão. E também senil.

De meu tempo direi
Que havia um S
sem sentido.

E também Setembro. E também solstício.
Saga e safra.
Ou talvez semente. Ou talvez segredo.

Havia um S de sal e sílex
havia um silvo.
Havia uma sílaba ciciada.

E também o sonho: entre suar e ser.
(Como um soluço como um soluço).

De meu tempo direi
que havia um S
de sol e som.
Havia setembro e um assobio
contra um S de sombra e de silêncio.

sábado, 21 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Alma

Manuel Alegre
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Julho de 1996.

No Inverno a Escola era feia e triste. As mãos enregeladas, muitas delas cheias de frieiras, mal podiam pegar nas canetas. As orelhas doíam, a humidade do rio subia pela encosta acima e atravessava a roupa que era pouca e leve e muitas vezes rota e remendada. Eu olhava os pés descalços e cheios de feridas dos meus companheiros, as cabeças peladas, os rostos cobertos de impingens e sentia uma repugnância misturada com revolta.
Porque é que uns, poucos, tinham sapatos e outros, a maior parte, não?
Perguntei ao professor e ele ficou atrapalhado. Perguntei em casa e ficaram incomodados. Fiz muitas vezes essa pergunta. E de cada vez que a fazia sentia que estava a fazer uma pergunta inconveniente. Nunca ninguém me respondeu e continuo, de certo modo, a perguntar.
Porque ainda sinto o frio da escola. Ainda sinto o cheiro a pobreza, o pouco. Foi sobretudo isso que aprendi, além da gramática, das contas, da História Pátria, dos rios, das serras e das linhas de caminho-de-ferro. Aprendi a conjugar os verbos e nunca foi preciso o professor Lencastre virar-me de cabeça para baixo. Mas a quem tenho eu de agarrar pelos pés e bater com a cabeça no chão para que de uma vez por todas me digam porque é que uns usavam sapatos e outros não?

segunda-feira, 9 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Canto e as Armas

Manuel Alegre
Capa composta a partir de uma fotografia de Eduardo Gageiro
Colecção Nova Realidade nº 5
Edição do Autor, Novembro 1967

Venho de longe. Meu nome?
Meu nome é terra. Está escrito
Na palma da minha mão.
Meu tempo de não ter fome
Foi o tempo de eu mamar.
Aos seis meses era um homem:
Davam-me sopas de vinho
E eu ficava na canastra
Ficava quieto a dormir.
Minha mãe não tinha tempo
Para ter tempo comigo:
Dava-me sopas de vinho.
Talvez por isso este fogo
Que sempre tive no peito
Que aos seis meses eu ficava
Dormindo podre de bêbado.

E assim cresci por acaso,
Minha escola foram campos
Ribeiros árvores montes.
Meus livros foram os ninhos
Lagartos cobras besouros.
Aprendi tudo nas ervas
Aprendi tudo nos bichos.
Meu professor foi o vento.
Nunca soube ler meu nome.
Para quê? Meu nome é terra.
Está escrito na minha mão.

Não perdi nada que nunca
Tive nada que perder.
Há quem diga que perdi
Só o futuro. É possível.
Mas eu creio que nasci
Com tudo perdido antes.
Adiante. Desde cedo
Trabalhei por conta alheia
Sachei a terra mondei
Dei à terra o meu suor
Lavrei plantei. Não colhi.
Em casa levei porrada
Comi boroa dura
Chorei lágrimas de raiva.
Não que meu pai fosse mau.
Era a terra que comia
Seu coração sua vida.

"Trabalhar de sol a sol?
- queixava-se ele - para quê
Se são os outros que comem
tudo o que a gente semeia?
Na colheita que nos roubam
Roubam a vida de um homem.
Meu nome meu filho é terra:
Está escrito na minha mão".
E às vezes dizia: "Não!
Antes a morte ou a guerra
Do que ser escravo da terra
Que não é de quem trabalha".

Um dia meu pai matou-se.
Abriu os pulsos rasgou-os
com a ponta da navalha.
E o sangue correu correu.
Gravou na terra a vermelho
Esse nome que meu pai
Trazia escrito na mão.

Assim fiquei de repente
A ser o homem da casa
Com minha mãe meus irmãos
Que por essa altura andavam
Na mesma escola em que andei.

Foi num Domingo de Ramos
Que pela primeira vez
Eu soube o que era mulher.
E foi meu leito de núpcias
Um chão de pedra e carqueja.
(porém com penas e rosas
No corpo da minha amada).
E foi então que aprendi
Que morrer deve ser isto:
Uma vertigem uma queda
Até ao centro da terra.

Assim cresci. Fiz um filho.
Dei porrada na mulher
Que meu amor era raiva.
Não tinha beijos na boca
Não tinha festas nos dedos.
Estava seco seco seco.
A terra levava tudo.
Primeiro foi minha mãe
Mais tarde minha madrasta
Minha amante minha amada.
Mas a terra é uma rameira
A terra sugou meu sangue
A terra comeu meus dedos
Meu coração minha vida.
Fiquei seco seco seco.

Cada ano fiz um filho
Dei porrada na mulher
E na taberna voltei
A ter um fogo no peito
Como quando era menino.
Porém já meu coração
Não voava como dantes
Quando eu tinha no meu peito
Uma estrela um vento um pássaro.
Era raiva o que sentia.
E não sei se era do vinho
Se da raiva que sentia
Mas muitas vezes olhando
A palma da minha mão
Vi a sombra duma estrela
Vi o nome de meu pai
Escrito com sangue vermelho
Nas palmas da minha mão.

Trinta e sete anos correram
E em cada dia morri
Cada dia que vivi.
Enchi celeiros adegas.
Muitos comboios levavam
O trigo das minhas mãos.
Alguns dentes mastigavam
A farinha do meu corpo.
Algumas bocas bebiam
O vinho que era meu sangue.
Fiquei seco seco seco.

Até que um dia me disse:
"Trabalhar de sol a sol
Quando são outros que comem
O pão que a gente semeia?
Vou-me embora desta terra".

Vinham notícias de França:
"Cá a gente tem trabalho
Tem sindicatos bières
Vacances securité.
Deixa a terra. Vem-te embora!"

Então um dia levei
Minha mulher para a cama.
Poucas palavras lhe disse.
Apenas disse: "Mulher
Eu quero um filho que seja
O homem que nunca fui.
É meu sangue que te deixo
Minha vida que te dou.
Que ele cresça no teu corpo
Como a flor cresce na terra
Porque toda a minha vida
Se perdeu - mulher - na terra.
Que seja eu próprio o teu filho".

De novo na minha boca
Nasceram beijos. De novo
Meus dedos tiveram festas.
E então de novo senti
Esse modo de morrer:
Uma vertigem una queda
Até ao centro da terra.

Quando veio a madrugada
Eu disse: "Mulher adeus.
Vou-me embora para França".

E quando o dia chegou
Já estava longe de casa.

"Adeus prados e montanhas
rios árvores adeus.
Aqui fica minha vida.
Eu por mim vou seco seco".

E não sei se era saudade
Se eram lágrimas nos olhos
Mas de repente ao olhar
Eu vi os campos em volta
Cheios de espigas vermelhas:
Era o meu sangue florindo
Gota a gota em cada espiga.

Meu nome? Meu nome é terra.
Está escrito na minha mão.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

OLHAR AS CAPAS



Praça da Canção

Manuel Alegre

2ª edição
Prefácio de Mário Sacramento
Capa de Espiga Pinto.
Colecção Poesia e Ensaio Nº 18
Editora Ulisseia, Lisboa  s/d

NAMBUANGONGO MEU AMOR

Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.