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terça-feira, 12 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Preciso muito de noites, alimento-me delas, da solidão da casa quando já todos se deitaram, do silêncio apenas longe a longe interrompido por breves ruídos (o estalar dos móveis, uns passos ou um desentendimento entre os gatos, a respiração respirando), do tempo que parece ter parado. É a melhor altura para escrever ou para ler, ou então para não fazer absolutamente nada, apenas para estar.

Manuel António Pina em Ditoem Voz Alta

quarta-feira, 31 de julho de 2019

A CASA É A SOMBRA DO VIAJANTE


Talvez as viagens, todas as viagens, se façam principalmente pelo lado de dentro. Talvez, quem sabe?, o viajante, procurando um mundo, caminhe sempre de regresso a casa.
Porque tudo o que o viajante deixou atrás de si o segue. A casa é a sombra do viajante. Ele próprio é, provavelmente, apenas a sua sombra.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

Legenda: pintura de Claude Monet

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência e de toda a fé, a ponto de transformar as montanhas, se não tivesse o amor, eu nada seria.

São Paulo citado, numa entrevista, por Manuel António Pina.

Legenda: pintura de Édouard Manet

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Escrever é também um modo de ler por escrito. De qualquer forma, o escritor é sempre um leitor. No caso da minha poesia, talvez seja frequentemente um leitor lendo-se a ler.

Manuel António Pina em Dito em Voz Alta

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

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O texto de «Os Piratas» resultou do meu trabalho num projeto mais vasto (entretanto frustrado) ligado a um filme de Raúl Ruiz. Mantive o nome da personagem porque é também o meu nome e porque o conto é narrado na primeira pessoas, embora, pelo menos até onde sei, nada tenha de autobiográfico. O vasto mundo e eu mesmo são as únicas ilhas onde alguma vez vivi.

Nota de Manuel António Pina em Os Piratas.

Legenda: ilustração de José Emídio em Os Piratas

quarta-feira, 25 de abril de 2018

EI-LA A CIDADE


Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.
De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

Quarenta e quatro anos sobre a madrugada que esperávamos, lembrando Sophia, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

 Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

domingo, 4 de fevereiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


As palavras são seres intranquilos. Mesmo as mais conformadas e mais comuns, dessas que servem, não para dizer, mas para comunicar, têm sobressaltos e caprichos de sentido que nos deixam de repente ainda mais desamparados diante do ameaçador mundo de todos os dias. E palavras desmesuradas e antigas, pelas quais pensámos um dia ser capazes de morrer e que envelheceram connosco ou julgávamos mortas, assomam-nos ainda às vezes aos lábios vindas do fundo da memória (ou quem sabe?, do fundo do coração) como se dissessem: «Sou eu não me ouves chamar?»

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

domingo, 28 de janeiro de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Os filmes envelhecem? Os livros envelhecem? As canções envelhecem? Os heróis envelhecem?
Manuel António Pina diz-nos que a juventude é tempo, não é virtude e que ser jovem, como ser velho. é uma penosa tarefa, tantas vezes uma perigosíssima aventura.

Um filme: Pedro, o Louco.

«Vejo alguns filmes que encheram de confusão e emoção a minha juventude e os seus precipícios formais têm agora a profundidade da piscina de Charlot nos Tempos Modernos. De Pierrot le Fou, por exemplo, pouco resta: uma canção («Jamais j ene t’ai dit que je t’aimerais toujours, oh mon amour!»); Jeam-Paul Belmondo  conversando com Samuel fuller sobre cinema; Anna Karina dançando e cantando: «Ma ligne de chance, ma ligne de chance, dis-mois, cheri, qu’est-ce que t’en penses…». Vi-o de novo um doa destes e antes não o tivesse feito! As filhas comentaram com sarcamo: «É afinal este o filme de que tanto falas…?; e eu: «Não, não é este, é o que eu vi quando tinha 20 anos…»

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Penso coisas tão profundas e sinto-me tão mal que penso se não serei um Intelectual. E penso coisas tão mal e sinto-me tão profundo que devo ser o Maior Intelectual do Mundo!

Epígrafe de Pensamento de Inventão de Manuel António Pina

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Conversas Com Escritores

Inês Fonseca Santos
Capa: Inês Sena
Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Abril de 2017

A primeira vez que entre em casa de Manuel António Pina, um dos escritores portugueses que mais vezes entrevistei e visitei, e apesar de já ter então lido e relido toda a sua obra, fiquei a conhecer não apenas o poeta mas também o homem: o amante de gatos, o acumulador de papéis, o fumador de cigarrilhas, o leitor que preferia poesia e ensaio a ficção.
Ciente de tudo isto, Manuel António Pina tinha um plano secreto: reunir, num jantar os leitores de poesia. Todos os leitores portugueses de poesia. Achava que facilmente encontraria um restaurante onde coubessem 200 ou 300 pessoas. Num país com cerca de dez milhões de habitantes, num país que se diz de poetas, as tiragens dos livros de poesia oscilam entre os 100 e os 1000 exemplares. Proliferam as pequenas editoras, é certo, mas essas não publicam seguindo a lógica do mercado, publicam, sim, para satisfazer a vontade de ler desses 200 ou 300 portugueses que se interessam por poesia. E, no entanto, como bem nota Luís Quintais, «a literatura é uma província da poesia».

terça-feira, 21 de março de 2017

SEGUNDA VEZ


                                                Infelizes, que em vida descem à casa
                                                de Hades, morrendo assim duas vezes,
                                                quando os outros homens morrem só uma!
                                            
                                                                                             Odisseia, C. XII

Por muito menos se morre
chama-se a polícia os bombeiros
Verdadeiramente começo a ficar velho
Numa hora destas quem me chamarei?

Chamei-te. Morte verdadeiramente morta,
como só sucede uma vez na vida e na morte
Oh não me venham dizer que não chamei uma vez
de mais pela tua comida irremediável!

Os antigos chamavam as musas
ou a si próprios, eu estou velho pata tudo
Aproximo-me a grande velocidade de tudo
E nem nunca mais serei o mesmo nem serei diferente


Manuel António Pina em Poesia Reunida 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

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Houve uma altura em que pensava que escrevia para mim mesmo. Mas ninguém escreve para si mesmo, agora tenho a certeza absoluta. Mesmo que seja discreta, a escrita nunca é secreta; e mesmo se for secreta, nunca é feita só para si mesmo, há sempre um leitor a espreitar por cima do ombro. O próprio facto de se escrever, significa que há um leitor potencial. O Barthes falava da "familariedade social do poeta". O facto de se escrever numa língua, já implica um leitor algures, implica a leitura. Se fosse para nós mesmos, nem se escrevia, ou escrevíamos numa língua secreta. Mas Os Papéis de K não o fiz com intenção de publicação, sequer... Às vezes escreve-se só para ver, para ver no que dá. E foi a Ilda David, o livro até lhe é dedicado, que achou que se devia publicar aquilo. Tem muita ficção, mas tem muitas coisas verdadeiras, também, das minhas memórias.

Manuel António Pina

Legenda: pormenor da capa de Os Papéis de K. sob uma pintura de Ilda David

segunda-feira, 11 de julho de 2016

OBRIGADO, FUTEBOL


Obrigado, futebol, por tudo o que nos deste, pelo vinho e pela cicuta (e pelo esquecimento).
Obrigado pelos dias desordenados e pelas noites transbordantes, obrigado por não teres cabido em nós e por nós não termos cabido em nós, obrigado pelas lágrimas e pelo riso, pelas cataratas de cantos, pelo incêndio das bandeiras, pelo amarelo e pelo azul, pelo oiro e pela tempestade, obrigado pelo escândalo ruidoso da alegria, obrigado pelo regozijo e pela esperança, pelos muros efemeramente derrubados, por todos os abismos que, por um momento, se fecharam entre nós.
Agora que partiste, voltaram eles, saídos da sombra, os dos discursos, os das promessas, os economistas, os usurários, os eunucos («os eunucos devoram-se a si mesmos / lambuzam de saliva os maiorais…», cantava, recordas-te? o Zeca Afonso), os meros aldrabões. As palavras deixaram de ser límpidas e sonoras, e servem de novo, não para iluminar, mas para confundir, e as mãos para mistificar e para ocultar. Aqueles desconhecidos que ainda ontem abraçávamos na rua olhamo-los agora com estranheza e com desconfiança e, se vêm na nossa direcção, viramos a cara para o lado e apressamos o passo.

Que nos aconteceu, que ficámos sós?

De repente fez-se um grande silêncio: copos vazios, papéis pelo chão, realidade, sujidade. De que falaremos agora? Que diremos uns aos outros? Olha para nós, cabisbaixos como essas bandeiras pendendo ainda das últimas janelas, destroços cansados de um passado quase perfeito. As ruas estão de novo desertas e já ninguém passa de automóvel gritando e saudando-nos com os braços imensamente abertos.

Agora que tudo voltou a ser lento, sórdido e obscuro, obrigado, futebol, por nos teres permitido um instante de claridade.

Manuel António Pina, Visão, 29 de Julho de 2004

Legenda: Cristiano Ronaldo após a derrota com a Grécia no Euro 2004.

quinta-feira, 31 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Passo o tempo lendo ou escutando música
Voltamos sempre ao princípio, estamos perdidos!

Manuel António Pina em Poesia Reunida

domingo, 10 de janeiro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


No seguimento das sessões dedicadas à relação das obras de poetas com o cinema, a Medeia filmes apresenta, amanhã, às 21h15, uma sessão especial dedicada à relação do poeta Manuel António pina com o cinema.

As sessões anteriores foram dedicadas a Herberto Helder e Ruy Belo.

Participará nesta sessão Inês Fonseca Santos, poeta e autora do ensaio Regressar a Casa com Manuel António Pina (Ed. Abysmo). As leituras estarão a cargo de Filipa Leal e Luís Caetano. A encerrar a primeira parte do programa, será projectada a curta-metragem Asa Casas Não Morrem, de Inês Fonseca Santos e Pedro Macedo. Na segunda parte veremos, em cópia de 35mm, A Sombra do Caçadpr de Charles Laughton, “filme da vida” de Manuel António Pina.

Numa crónica,  Livros e Filmes Que Somos, publicada no Jornal de Notícias de 18 de Outubro de 2005, e incluída no livro Crónica, Saudade da Literatura, Manuel Anónio Pina escreveu assim sobre A Sombra do Caçador: 

Um dia, numa entrevista, perguntaram a Borges: «Quem é afinal?». «Eu não existo», respondeu Borges. «Eu sou todos os livros que li, todos os lugares que conheci, todas as pessoas que amei…». Somos feitos de memória. Mesmo aquilo de nós que não é circunstância individual é apenas memória, memória genética e memória da espécie. A própria imaginação é uma espécie de arte combinatória da memória (o Minotauro é um homem e um touro, a sereia uma mulher e um peixe…)
Se, como Borges, tivéssemos lido outros livros, ou tivéssemos visto outros filmes, seríamos outros, verdadeiros desconhecidos. Eu seria outro (alguém muito mais desoladamente pobre; e não o saberia) sem A Sombra do Caçador, de Charles Laughton. De facto, no meu coração pulsam desde sempre, como versos soltos, imagens inquietas de A Sombra do Caçador que se tornaram parte constituinte da minha experiência de mim e dos outros e da minha experiência vivida do mundo: o ameaçador perfil de Robert Mitchum a cavalo recortado contra o céu; o rio turbando-se de súbito ante a presença próxima do Mal; Lillian Gish protegendo as crianças com a grande espingarda e a sua pequenina voz cantando na noite contra o medo…
O filme passa hoje e amanhã no Teatro do Campo Alegre. Infelizmente estou longe do Porto e faltarei, não a um encontro com a minha infância, mas um inconcluso encontro comigo mesmo.

domingo, 27 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Onde ainda é possível hoje um pouco de silêncio, longe da contínua sucessão de notícias nas TV, rádios, jornais; da gritaria da publicidade; da música aos berros das discotecas, bares, corredores do Metro, ruas, praias; da chamada (raio de nome!) “música ambiente” dos centros comerciais, consultórios médicos, bancos, restaurantes, cafés, comboios, até das casas de banho e dos elevadores; do ruído estridente dos telemóveis; das conversas em voz alta; dos automóveis circulando de vidros abertos e leitor de CD no volume máximo; da chiadeira dos
travões; dos escapes; dos festejos de vitória nos dias de futebol; das celebrações gregárias que, por tudo e coisa nenhuma, enchem as ruas de todo o
género de turbas ululantes?
 Porque tememos tanto o silêncio? 

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


É assustador pensar que tudo o que temos e somos é memória e o que conhecemos de nós e da nossa vida talvez seja, como a memória de um poema, uma narrativa fragmentária e volúvel de outras vidas e outras palavras, nossas e alheias, com as quais construímos um irmão gémeo nosso, desconhecido, e que a nossa própria voz é provavelmente essa voz respondendo-nos quando perguntamos por nós. Que, quem quer que sejamos, somos talvez um outro, e que não sabemos, daquilo que de nós nos é dado saber, o que é a vida e o que é o sonho, ou medo, ou desejo.

Manuel António Pina

quarta-feira, 20 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


 Nós somos o que lemos.

Manuel António Pina 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



No dia 14 de Março a TAP fez 70 anos.

Já por uma e outra vez, a TAP foi colocada, aqui, no capítulo das Coisas extintas ou em vias de…

Não há duas sem três.

Foi durante muitos anos um exemplo de companhia aérea.

Pela simpatia dos seus pilotos, dos seus tripulantes, pela excelência da sua assistência e manutenção técnica, uma das mais competentes do mundo, por todos os seus trabalhadores.

Hoje é o que se sabe.

Os governos do centrão têm, por todos os meios e mais um, tentado a sua privatização.

A TAP vive, hoje, dos momentos mais graves da sua existência.

Uma greve selvagem dos pilotos, decretada por 10 dias, com ameaças de mais períodos, deixa, ainda mais, a companhia de rastos.


Pobres diabos!

Ficarão para a triste história, juntamente com este desgoverno Pedro/Paulo, de um dos maiores crimes económicos dos muitos que, nestes últimos anos, temos vindo a enfrentar.

Matando lentamente a companhia, resta saber o que lhes foi prometido pelo nojento frete que estão a fazer.

No topo, um anúncio que fui repescar às páginas do nº 1483, Maio de 1969, da Seara Nova, um anúncio que fala da existência de homens que não suportam estar colados ao chão. Esses seriam os pilotos da TAP:

Oferecemos-lhe dezenas de céus. E dezenas de terras. Oferecemos-lhe um viver cheio de à-vontade dentro da responsabilidade. Sem e com experiência de voo venha para piloto da TAP.


A destalhe de foice, fui às prosas do Manuel António Pina repescar esta crónica, publicada no Jornal de Notícias de 11 de Agosto de 2009, e a que chamou A Piedade Mata:


As más notícias são que a TAP atravessa, segundo o Conselho de Administração de Fernando Pinto, uma "crise gravíssima", tendo tido no ano passado 280 milhões de euros de prejuízos e vendo-se forçada a pedir sacrifícios aos trabalhadores e a recusar-lhes aumentos salariais.
As boas são que, no mesmo ano de 2008, os administradores atribuíram-se "prémios" com que duplicaram os seus vencimentos (Fernando Pinto, por exemplo, levou 816 mil euros, em vez dos miseráveis 30 mil mensais mais regalias que lhe cabiam); e que decidiram entretanto adquirir 42 automóveis topo de gama para si e as dezenas de directores avulsos que enxameiam a empresa, pois deslocavam-se todos em viaturas "velhas" de quatro anos, impróprias das suas altas funções. Trata-se de uma inovadora ideia de gestão: vão-se os dedos mas fiquem os anéis (e comprem-se mais). Deve-se, a inventiva ideia, a Dali que, contava Gala, era nos momentos em que atravessava "crises gravíssimas" que mais gastava, pois, argumentava ele, "a piedade dos vizinhos mata". A TAP pode morrer, mas ninguém há-de ter razões para se apiedar dos seus administradores.

terça-feira, 21 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


 A alegria da viagem é o regresso a casa.

Manuel António Pina

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.