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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Os Piratas

Manuel António Pina
Ilustrações: José Emídio
Edições ASA, Porto, Novembro de 2014

Há pessoas que não acreditam em ilhas. Acham que as ilhas são coisas inventadas, em que só se acredita quando se é criança. Por isso, chega um dia em que julgam que já não são crianças e deixam de acreditar em ilhas.
Outras pessoas pensam que uma ilha é uma terra rodeada de mar e de névoa por todos os lados. Todavia, no meio da névoa, dentro da ilha, está-se em muitas mais coisas do que numa terra, pode até estar-se num sítio desconhecido dentro de nós. Chamo-me Manuel e vivo numa ilha, ou uma ilha vive em mim, não tenho a certeza, uma ilha rodeada de mar e de névoa por todos os lados, principalmente pelo lado de dentro.

Colaboração da neta Maria Calisto

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Dito Em Voz Alta
Entrevistas sobre literatura, isto é sobre tudo

Manuel António Pina
Organização: Sousa Dias
Colecção Linhas de Fuga mº 11
Documenta, Lisboa Junho de 2016

Eu, que já fui agnóstico, agora sou mesmo ateu. Mas tenho muita sedução por religiões e por livros religiosos. Sou um grande leitor da Bíblia, embora laeia aquilo como um romance.

domingo, 16 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Cavalinho de Pau do Menino Jesus

Manuel António Pina
Capa e ilustrações: Danuta Wojciechowska
Jornal Expresso, Lisnoa 2004

Quando soube que o Menino Jesus tinha nascido, o Pai Natal ficou contentíssimo. Vestiu-se a correr, carregou e trenó com presentes e chamou as renas:
"Dasher, Dancer, Dunder... Venham depressa!" 
Quando a Mãe Natal, que fora fazer compras, chegou a casa, o Pai Natal já tinha atrelado as renas e estava pronto para partir.
"Onde vais?", perguntou, surpreendida, a Mãe Natal. "Ainda nem almoçaste..."
"Vou a Belém. Nasceu o Menino Jesus. é Natal!"
A Mãe Natal aproximou-se do trenó carregado até cima de presentes, pegou num grande embrulho e, abanado com a cabeça, virou-se para o Pai Natal:
"Um computador?! Não vês que os computadores ainda não foram inventados?..."
O Pai Natal desceu do trenó, embaraçado:
"Tens razão... Não me lembrei.."
"É muito distraído!", disse a Mãe Natal. E, dirigindo-se de novo ao trenó:
"É melhor eu verificar os outros presentes..."
Com a alegria do nascimento do Menino Jesus e com a vontade que tinha de o fazer feliz, o Pai Natal tinha carregado o trenó com os melhores presentes que encontrou: jogos de computador, um carro de bombeiros com telecomando, um comboio eléctrico, uma bicicleta...
"Que distraído, que distraído!", dizia a Mãe Natal enquanto ia tirando os presentes do trenó e os entregava aos elfos para que os guardassem novamente.
O Pai Natal estava muito envergonhado. Além disso, como a Mãe Natal continuava a tirar presentes do trenó e a dizer "Que distraído! Que distraído", começava a impacientar-se:
"Depressa, senão perco a Estrela de Belém e não encontro o caminho!"
Finalmente a Mãe Natal descarregou o trenó. Depois foi buscar um belíssimo cavalinho de pau castanho e dourado, com arreios vermelhos:
Leva o cavalinho. Não há rapaz que não goste de um cavalinho de pau..." De repente hesitou, voltando-se de novo para o Pai Natal:
"Tens a certeza de que não é uma Menina Jesus...?" 
"Absoluta!", disse o Pai Natal, já outra vez em cima do trenó.
Deu um beijo à Mãe Natal e gritou para as renas:
"Vamos, Dasher!, vamos Dancer!, vamos Prancer e Vixen! Força, Cometa!, força Cupido!, força Dunder e Blixem! Ohhooooo! Ohhooooo!..."
O trenó levantou voo céu fora, a caminho de Belém. A Mãe Natal ficou a acenar até ele desaparecer no horizonte. Depois pegou nos sacos das compras e entrou finalmente em casa.
Do Pólo Norte a Belém é uma longa viagem. Ainda por cima, Vixen estava muito constipada e tossiu e espirrou todo o caminho, tendo sido preciso parar várias vezes para ela tomar os remédios. Por isso, quando o Pai Natal chegou ao estábulo onde nascera o Menino Jesus e estacionou o trenó, já os camelos dos Reis Magos lá estavam, amarrados a grandes argolas.
"Que pena", pensou o Pai Natal. "Os Reis Magos chegaram primeiro que eu..."
Desceu do trenó, pegou no cavalinho de pau e dirigiu-se para a porta do estábulo. Mas, à porta, os seguranças dos Reis Magos barraram-lhe a entrada:
"Não se pode entrar!", disseram-lhe os guardas.
"Mas...", disse o Pai Natal. "Trago um presente de Natal para o Menino Jesus...!
"Seja o que for! Não pode entrar ninguém", repetiram os guardas, virando as costas.
O Pai Natal ficou desolado. Viera de tão longe, com um presente tão bonito! Olhou em volta e teve, então, uma ideia. Dunder era muito alta e, com a sua ajuda e com a de Blixem, subiu ao telhado do estábulo e meteu-se pela chaminé.
Não foi fácil porque o Pai Natal já não era um jovem  e porque o cavalinho de pau era grande de mais. Mas, ao cabo de várias tentativas, o Pai Natal conseguiu por fim descer pela chaminé e, pé ante pé, sem ninguém o ver, pôs o cavalinho no sapatinho do Menino Jesus.
Quando viu o presente, o Menino Jesus ficou felicíssimo. Um cavalinho de pau! Desinteressou-se imediatamente do ouro, do incenso e da mirra que lhe tinham trazido os Reis Magos.
Estes ficaram um pouco decepcionados. E, quando o Menino Jesus adormeceu na manjedoura, Nossa Senhora  procurou desculpá-lo:
"Não façam caso, é uma criança...", disse ela aos Reis Magos.
"Nós compreendemos, nós compreendemos", disseram Gaspar, Baltazar e Belchior. Mas, lá no fundo, achavam que um Deus, mesmo sendo apenas um menino, deveria apreciar prendas tão valiosas como as suas.
"Afinal é o Rei dos Reis...", comentaram uns com os outros, já de regresso aos seus reinos. "Onde é que já se viu um Rei ficar tão feliz com um cavalinho de pau?"
O Menino Jesus nunca mais se separou do cavalinho castanho de crina dourada. Pôs-lhe o nome de "Galope" e adormecia todas as noites abraçado a ele. E, quando a família fugiu para o Egipto, foi a única coisa que quis levar consigo, apesar de os pais terem insistido para que pensasse no seu futuro e levasse ouro.
No Egipto, longe de casa, sem amigos para brincar, "Galope" foi sempre o melhor companheiro do Menino Jesus. E, muitos anos depois, quando morreu na cruz e subiu ao Céu, a sua última lembrança foi o seu cavalinho de pau de crina dourada.


Os incitamentos do Pai Natal às renas são versos do poema infantil “An Account of a Visit from St. Nicholas”, de Clemente Clarke Moore, que terá dado origem à lenda de Santa Claus.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Anacronista

Manuel António Pina
Colecção Ficções nº 43
Edições Afrontamento, Porto, 1994

O que foi feito dos meus amigos e das coisas belas e desmesuradas por que todos nós perdemos e ganhámos a juventude? Olho em volta e resigno-me: os meus amigos cansaram-se e jazem agora em empregos rotineiros à espera da trombose ou do enfarte. Alguns passaram-se com armas e bagagens (e, naturalmente, proveito) para o lado do inimigo. Os melhores (mas que sei eu?) engordaram – para dizer a verdade, todos engordámos... – e tornaram-se cépticos e amargos carregando a nossa memória comum como um pecado envergonhado. Muitos morreram em guerras sem sentido, ou tão só de tédio, de longo e insuportável tédio. Outros partiram para improváveis distantes lugares; um enlouqueceu (e esse foi, se calhar, o que, imóvel e cegamente, partiu para mais longe).
Aquilo por que, há 20 anos, estávamos dispostos a perder tudo o que tínhamos (que não era, aliás, grande coisa: tempo, paciência, a breve vida), desmoronou-se mesmo antes de termos levantado as primeiras inseguras paredes. Atrás de nós veio pesadamente, a perigosíssima estirpe da chamada gente prática (laboriosas formigas que, enquanto cantávamos na rua e fugíamos à frente de todas as policias, mastigavam metodicamente as sebentas em sombrios quartos onde não chegavam o fogo dos sonhos nem o clamor da vida), e reduziu a utopia a dimensões razoáveis e geriveis. (Façamos-lhe, no entanto, justiça: talvez, quem sabe?, sem eles cedo a despensa se tivesse esgotado e a festa tivesse acabado mal e numa tremenda ressaca...)

sábado, 5 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Aquele Que Quer Morrer

Manuel António Pina
Capa e Desenhos de João B.
A Regra do Jogo, Lisboa, Junho de 1978

Transforma-se a Coisa Estrita no Escritor


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Os Papéis de K.

Manuel António Pina
Capa: pintura de Ilda David
Assírio &Alvim, Lisboa, Junho de 2003


Aquilo de que me lembro (num presente que me parece também já passado) está cheio não só de estranhezas e improbabilidades mas igualmente de vazios, de hesitações e de imprecisões, pois se calhar não me recordo de factos mas da minha recordação deles. Pode por isso suceder que o que recordo não seja o que ouvi; ou o que tenha ouvido a outra pessoa, noutro lugar, noutras circunstâncias; ou mesmo que o tenha eu próprio sonhado ou imaginado. Ouvi e li muitas coisas desde a minha distante primeira viagem ao estrangeiro, onde tudo (pelo menos aquilo de que agora me lembro) começa. Talvez, quem sabe?, nem essa viagem tenha acontecido, ou eu tenha lido, ou ouvido contar a ninguém. A matéria da memória é indefinida e insegura e nela, como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória), se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória

domingo, 20 de julho de 2014

OLHAR AS CAPAS


Poesia Reunida
(1974-2001)

Manuel António Pina
Capa: Ilda David
Assírio &Alvim, Lisboa Outubro de 2001

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher? 
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Crónica, Saudade da Literatura, 1984-2012 - antologia

Manuel António Pina
Selecção de crónicas de Sousa Dias
Assírio &Alvim, Lisboa Abril de 2013

O Menino Jesus, deitado, olhava em volta e não compreendia. Entrevia difusamente o rosto fatigado da mãe, o vulto de S. José mais atrás, os olhos grandes da vaca e do burro fitando-o. Chegavam-lhe de forma obscura o murmúrio das vozes e o cheiro dos animais; tinha frio. Via também, em qualquer sítio, como num sonho, rostos disformes, punhos, gente gritando, a enorme sombra de uma cruz, e não compreendia.
A dor, quando as mãos trémulas da mãe cortaram o cordão umbilical, o sabor do sangue dela na boca, as primeiras lágrimas, a primeira carícia, o corpo de Nossa Senhora, branco e transido, era tudo tão estranho! Um deus, sobre húmidas palhas, coberto de trapos, aprendia naquele instante coisas graves e essenciais: o frio, a dor, o mistério dos sentidos, o medo indistinto de algo que ainda não podia saber.
O deus transformara-se num frágil e confuso ser de sangue e de músculos, tocado por um dom extraordinário e novo, o da vida. Os pulmões do menino enchiam-se de áspero ar, os olhos de incompreensíveis imagens do mundo vasto e profundo do estábulo, e o sangue corria violentamente nas suas veias, líquido e quente, ruborizando-lhe as faces. E quando os seus pequenos dedos afloraram pela primeira vez o rosto próximo da mãe, o deus aprendeu subitamente, com uma alegria desconhecida, qualquer coisa densa e maravilhosa inacessível aos deuses.
Por um singular milagre repetido, um homem igual aos outros homens jazia imensamente numa tosca manjedoura, no fim de uma longa viagem interior. Um homem condenado a viver uma tragédia absurda, como a de todos os homens, um homem solitário e ferido de brusca e humana vida, tocado pela glória extrema da transformação e da morte. Os seus olhos olhavam pela primeira vez tudo, incapazes talvez de compreender o íntimo desígnio divino que o movia. Em algum improvável lugar, no entanto, os deuses conheciam agora algo único e absoluto sobre os homens e sobre si mesmos.
Pelo segredo essencial da infância, da «balya», por onde passa o caminho dos homens para o reino dos céus, passava também, naquele dia distante, o caminho dos deuses para a terra dos homens. Um deus nascera entre os homens, mas um homem como todos os outros nascera igualmente entre os deuses. E enquanto no estábulo de Belém a mãe dava o peito ao menino deus, noutro estábulo, noutro sítio, Adão menino estendia os braços e chegava sem pecado aos ramos altos da árvore
proibida.
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Os Livros
Manuel António Pina
Assírio &Alvim, Lisboa Novembro 2003


Como Rossetti resgatando a dádiva de amor
verso a verso ao corrupto corpo
de Elizabeth Eleanor, o escritor
é um ladrão de túmulos. E é um morto

dormindo um sono alheio, o do livro,
que a si mesmo se sonha digerindo
sua carne e seu sangue e dirigindo
a sua mão e o seu livre arbítrio.

Quem construiu a sua casa? Quem semeou
a sua vida, quem a colherá?
Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a
a outro e outro lha roubará.

Toma, come, leitor, este é o seu corpo,
a inabitada casa do livro,
também tu estás, como ele, morto,
e também não fazes sentido.

segunda-feira, 5 de março de 2012

OLHAR AS CAPAS


Como Se Desenha Uma Casa

Manuel António Pina
Capa: Outside/Inside, Joana Rego, 2004/Fotografia de Jorge e Lima Coelho
Assírio &Alvim, Lisboa, Outubro 2011

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fossemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.