Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina Poemas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de outubro de 2019

AMOR COMO EM CASA


Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.

Manuel António Pina de Ainda Não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde em Poesia Reunida

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O REGRESSO


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina em Comose Desenha Uma Casa

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

AS ESCADAS



Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras

Manuel António Pina

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO O SENHOR DA CAMA 28


A esperança é a última coisa a morrer,
disse ele antes de ter
dado o tiro na boca.
Tivesse ficado calado
e estaria ainda vivo, aqui ou noutro lado.
— OK: não posso dizer
que estivesse melhor
(em relação à sua actual, como hei-de dizer?, situação),
mas também ninguém
me pode dizer a mim que não.

Manuel António Pina

terça-feira, 10 de julho de 2018

OS TEMPOS NÃO


Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

sexta-feira, 13 de abril de 2018

TEORIA DAS CORDAS


Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

SÉTIMO DIA


                                                                                              Ao Manuel Hermínio


Voltámos, um a um, da tua morte

para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.

A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.

Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.

25/06/01

Manuel António Pina em Poesia Reunida

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia... 


Manuel António Pina

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

D'APRÉS D. FRANCISCO DE QUEVEDO


Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.

E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).

Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.

Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

CONSOLAÇÃO DE G. A PAULINA



«Os que, ao fim da vida toda,
regressaram à sua fortaleza,
já não têm agora tempo
nem espaço para oferecer à morte;
nem morte para oferecer a si mesmos.
Séneca na estufa esvaindo-se em vagaroso sangue,
aspergido sobre os escravos
como uma dádiva de recta vida.
É possível ser rico e ser recto? É.
Mas pode a morte ser
testemunha da vida?

Porque é tão difícil, Paulina, morrer em tom menor,
sem tragédia e sem justificações,
sem procurar inutilmente a salvação
da vida
(já que os bens ficam ao cuidado do testamenteiro),
é tão impertinente deixar escrito,
ainda por cima tão bem escrito:
‘Queimem o meu cadáver sem qualquer cerimonial’,
é tão decepcionante, tão desproporcionado!

Outros, menos desesperançados e menos amedrontados,
fitam com impacientes olhos os médicos
invejando-lhes a excelente saúde e a barba feita,
e por mais um dia de vida,
de penosa e vagarosa vida,
seriam capazes de trocar
cinquenta anos de riqueza e rectidão.
Esses parecem-me, a mim que
não sou um filósofo,
bem mais sólidos e irrefutáveis.

Ocorreu-me ontem que
não vejo o correio há uma semana,
e que nem por isso sou mais feliz ou mais infeliz;
a felicidade não depende certamente de coisas como o correio
ou como o temor ou o desejo,
depende talvez mais, pelo menos para já,
da certeza de que os papéis estão arrumados,
pagas as dívidas,
intacta ainda a possibilidade de morrer.
Um dia destes, se fosse caso disso,
escrever-te-ia sobre a discordante paixão da
imortalidade.
Agora é tarde, estão já
à porta os assassinos.
Teu Gallion.»

Manuel António Pina em Poesia Reunida

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 5 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Aquele Que Quer Morrer

Manuel António Pina
Capa e Desenhos de João B.
A Regra do Jogo, Lisboa, Junho de 1978

Transforma-se a Coisa Estrita no Escritor


Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer lugar.

(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.

Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A POESIA VAI


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina em Poesia Reunida

domingo, 10 de julho de 2016

OS LIVROS


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?


Manuel António Pina em Como se Desenha Uma Casa

Legenda: fotografia FreeportPress

terça-feira, 3 de maio de 2016

DEPOIS


Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas inacabadas.


Manuel António Pina em  Poesia Reunida

Legenda; fotografia de Jeanloup Sieff

segunda-feira, 21 de março de 2016

EXTREMA-UNÇÃO


Uma breve, amável mágoa à
flor dos olhos, um distante desapontamento,
morrias como se pedisses desculpa
por nos fazeres perder tempo.

Tinhas pressa mas não o mostravas,
receavas que não estivéssemos preparados,
e, suspenso sobre nós, esperavas
que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado.

Morrer não é motivo de orgulho,
mas estavas cansado de mais para te justificares.
Ainda por cima no mês de Julho,
com as férias marcadas, ausentes os familiares.

Tínhamos levado as crianças de casa,
feito os telefonemas, escolhido os dizeres.
O quarto fora arrumado, a cama mudada
com roupa lavada. Só faltava morreres.

Manuel António Pina em  Poesia Reunida

terça-feira, 5 de maio de 2015

O QUARTO COR-DE-ROSA


A casa tinha olhos
que nos olhavam
de debaixo da casa.

Por eles se via
para dentro de nós,
uns olhos silenciosos

por onde se via o mundo:
o quarto cor-de-rosa, o guarda-fatos,
o misteriosos mundo das escadas.

Quando mudámos
de casa
os olhos procuraram-nos em vão,

mas tínhamos cegado;
trouxéramos a visão.
os móveis, as coisas vi-

síveis e as invisíveis,
mas o que víamos
tinha lá ficado.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

quinta-feira, 23 de abril de 2015

ONDE AS MINHAS PALAVRAS NÃO CHEGAM


Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

Manuel  António Pina 3º dos Monólogos de Cuidados Intensivos em Poesia Reunida


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

BOM DIA, MANEL


Se por cá andasse - e que falta que ele nos faz! - o Manuel António Pina faria hoje 69 anos.

Homem de jornais, de cafés, de crónicas, poemas, livros para putos, os seus gatos, muitas cigarradas, o Manel, mais uma vez, vai ser hoje recordado, no Porto, pelos amigos que com ele trocaram passos e voltas.

Nada melhor que deixar um poema seu;


CUIDADOS INTENSIVOS III

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa. 

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

domingo, 20 de julho de 2014

OLHAR AS CAPAS


Poesia Reunida
(1974-2001)

Manuel António Pina
Capa: Ilda David
Assírio &Alvim, Lisboa Outubro de 2001

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher? 
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

BOM DIA, MANEL!


Se Manuel António Pina, ainda andasse entre nós a deliciar-nos com as suas palavras, faria hoje 70 anos
.
Para comemorar a efeméride, um grupo de amigos organizou um périplo pelos locais e pelos cafés – o que eu gosto dos cafés do Porto!.. – frequentados pelo Manuel António Pina: e onde serão lidos poemas seus: a Padaria Ribeiro, Livraria Lello, Café Piolho, Estação de Metro da Trindade, Café Orfeuzinho e o Café Convívio.

Se estivesse por lá, pegaria  em Como se Desenha uma Casa, parava na pág.13 e faria a leitura de O Regresso.

Assim:

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão  primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Legenda; fotografia do Café Piolho no Porto tirada de Caminha 2000