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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

UM AVENTUREIRO DE GRANDE CALIBRE!


A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora.
Neste dia escreve carta a Óscar Lopes e conta-lhe que arranjou uma guerra com um colega professor que a Editora da Correspondência Saraiva/Lopes, elucida tratar-se de J. Rentes de Carvalho.
Olha que dois!

«Mas quando as relações são a nível propriamente funcional, em que é preciso agir e reagir em função de dados objectivos, falho completamente.
Foi o que agora aconteceu. Tive diante de mim um intriguista e aventureiro de grande calibre, que numa primeira fase procurou captar-me, e numa segunda intimidar-me. Quase desde o princípio percebi a qualidade do sujeito, mas não fui capaz de proceder como era objectivamente necessário. Deixei-me intimidar e ir a coisa longe demais. Faltou-me não só a capacidade de ver friamente os dados da questão, mas a força e a presença para me impor e para reagir a tempo.»

Em final de carta, Saraiva disserta sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

Por fim escreve:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.
Por Abril aconteceu o dia de todas as surpresas.
Tal como José Saramago, num poema-depois-feito-canção por Manuel Freire, previra:


Legenda: J. Rentes de Carvalho

sexta-feira, 4 de maio de 2018

ELES NÃO SABEM QUE O SONHO É UMA CONSTANTE DA VIDA


Eu tenho comigo trinta discos onde foram gravadas canções, feitas por diversos cantores de maior ou menor fama. Sobre poemas meus. Desses trinta discos dois deles foram-me oferecidos pelos seus criadores. Os restantes vinte e oito (e não estou em erro) foram comprados por mim quando, por acaso, os fui encontrando nas montras das casas de discos por onde passava.
O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.
Em Setembro de 1969 Manuel freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip. Comprei-o alguns dias depois após a sua saída, e treze dias depois de o ter comprado procurou-me, no liceu em que então eu trabalhava, o Liceu pedro Nunes, um locutor da televisão que me foi oferecer um exemplar. Disse-me então que tinha estado em paris, tendo levado o disco á Feira Internacional que aí decorria, onde um canadiano aí lhe disse que pretendia editá-lo, em língua francesa, no Canadá. Não sei qual foi o futuro desse desejo.
(…)
O disco de Manuel freire foi famoso. Em meados de 1971 já se tinham vendido mais de 10.000 exemplares. Em toda a parte foi cantado. Calculem, meus queridos tetranetos, que em 19 de Fevereiro de 1978, o padre da Igreja de S. Domingos disse, não cantou, durante a missa, o poema da Pedra Filosofal. Era domingo, e a missa foi televisionada.
(…)
Tenho comigo cinco discos do Manuel freire onde ele canta, com música sua, não só a “Pedra Filosofal” como também o “Poema da malta das naus”. Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

COM A ADMIRAÇÃO DE QUEM ESTAVA PRESENTE


Na primeira leitura que fiz das Poesias Completas de António Gedeão, Pedra Filosofal ficou logo assinalado como um das muitas poesias suas da minha preferência.
Quando naquela segunda-feira de Setembro de 1969, Manuel Freire cantou, no Programa ZIP-ZIP, a Pedra Filosofal, fiquei arrepiado.
António Gedeão, nas suas Memórias, expressa a ideia que foi Manuel Freire, musicando alguns dos seus poemas, permitiu que a sua poesia conseguisse um êxito generalizado e nunca imaginado.
Mas peguemos em algumas das passagens em que Gedeão aborda essa faceta da sua vida de poeta:

No ano de 1969 fui procurado pela Casa Valentim de Carvalho, importante produtor de discos, que me queria convidar para gravar um disco com poemas meus, ditos por mim. Em 28 de Março desse ano fui a Paço de Arcos aos respectivos estúdios, e aí disse sete poemas, à minha escolha. Tem graça que os disse todos de seguida sem ser necessária qualquer repetição. Conforme os disse à primeira, assim ficaram gravados com a admiração de quem estava presente. Não é costume ser assim. Devo dizer, na minha qualidade de ouvinte, que das dúzias de poemas meus que tenho ouvido dizer por outrem, é a minha dicção a que me agrada mais. Não há nisto nenhuma presunção. Isto quer dizer apenas que gosto mais de me ouvir a mim do que aos outros, ne recitação dos meus poemas.
O disco vendeu-se bem e a casa Valentim de Carvalho resolveu efectuar a gravação de um segundo disco, também dito por mim, de outros poemas. Em 21 de Março de 1971 voltei a Paço de Arcos e aí gravei o novo disco. Depois esperei. Esperei e a esperar terminou esse ano de 71. Entrámos em 72 até que no dia 10 de Março desse último ano, indo eu na rua, encontrei uma senhora conhecida que me disse já ter comprado aquele meu novo disco e, é claro, ter gostado muito. Ai, sim? Não sei de nada.
Fui então à Valemtim de carvalho a aí ao balcão disse à empregada que atendia os fregueses que eu era fulano de tal, que tinha gravado, naquela empresa, um disco meu e que não me tinham dado nenhum exemplar. Se ela não se importasse que fosse lá dentro ver se estava lá algum superior da casa, e lhe comunicasse o que se passava. A criatura foi lá dentro e tornou a aparecer com o disco na mão. Entregou-me, e eu, muito boa tarde, saí do estabelecimento.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

DESDE AQUELE QUARTO ANDAR ONDE NASCEU


Não conheço de António Gedeão, nenhum poema dedicado ao mar. Alusões variadas, chamamento de ondas, de marés, de espumas e de galés, combinações de palavras alusivas ao mar, insinuações marítimas, expressões de água salgada, tudo isso aparece na sua poesia. Mas aquela prontidão, aquele arroubo de mar alto, essa invocação quase divina do mar, do mar, do mar, não aprece nunca. A sua visão do grande oceano era nele, a configuração de um entendimento antropológico e físico.
O Poema da Malta da Naus é o exemplo inequívoco desse entendimento. É um poema extraordinário que configura uma maneira de ser portuguesa que se manifestou num período áureo da nossa História.
É que a atração pelo mar é característica dos povos que vivem perto dele e que não são assim tantos. Os homens das planícies, das montanhas, das savanas, dos desertos, têm outros tipos de relacionamento com o meio envolvente porventura tão apaixonado e aventureiro comos os povos que vivem com o mar como horizonte.
Outros sentimentos. Outros romantismos.
Aos rios, sim,  especialmente ao Tejo, esse rio estranhamente metalino que permaneceu recatado, que manteve a serenidade líquida por toda a sua vida, rio que visitou e sempre admirou e o encantou desde a infância, desde aquele quarto andar onde nasceu a olhar para ele, a seguir-lhe a ligeira ondulação e a conhecê-lo por inteiro como só o olhar de uma criança consegue vislumbrar, esse sim, essa água aprece em muitos poemas, esse rio é mencionado constantemente.

Cristina Carvalho em Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Príncipe Perfeito

Poema da Malta das Naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


Legenda;: capa do EP «Dulcineia» de Manuel Freire onde se encontra o Poema da Malta das Naus

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva

sábado, 9 de abril de 2016

ABRIL


Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!

Lado 1

Pedra Filosofal

Lado 2

Menina dos Olhos Tristes

Pedra Filosofal

Poema de António Gedeão
Música de Manuel Freire

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

terça-feira, 5 de abril de 2016

ABRIL


Outra vez Abril
Já lá vão 42 anos.
Parece que foi ontem.
E tanta coisa aconteceu.
Por este mês, vou mostrar algumas capas dos discos que, aqui pela casa, eram tocadas antes da sonhada madrugada.
25 de Abril sempre!

Lado 1

Dedicatória – Livre

Lado 2

Eles – Pedro o Soldado

Livre

Poema: Carlos de Oliveira
Música: Manuel Freire


Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

SARAMAGUEANDO


Neste EP, chamado Dulcineia, que é título do poema de José Gomes Ferreira, publicado em 1971, Manuel Freire faz a primeira abordagem a poemas de José Saramago.
O poema escolhido foi Fala do Velho do Restelo ao Astronauta.
Os outros poemas do disco, para os quais, Manuel Freire fez a música são Poema da malta das Naus de António Gedeão e Canção de Eduardo Olímpio.

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.

Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reuniu, em formato CD, músicas que fez para poemas de José Saramago. Juntou também a música que Luís Cília escreveu para Dia Não.

José Saramago escreveu na contra capa do CD:

Há palavras que atam e há palavras que separam. Estas são das que unem e aconchegam. Por isso, enquanto ele canta, eu vou dizendo baixinho o que escrevi. É uma forma de agradecer.


terça-feira, 15 de abril de 2014

O DIA DAS SURPRESAS


Lidos em 1966, a esmagadora maioria dos Poemas Possíveis estão assinalados a lápis.
Naturalmente, um desses poemas é Ouvindo Beethoven.
Uma boa dezena de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.
Num país cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.
Muitos, durante essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra canção lembra: até mortos vão a nosso lado.
Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.
Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem.

Venham leis e homens de balanças
Mandamentos d'aquém e d'além mundo
Venham ordens, decretos e vinganças
Desça em nós o juízo até ao fundo
Nos cruzamentos todos da cidade
A luz vermelha brilhe inquisidora
Risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura
A quantas mãos existam peçam dedos
Para sujar nas fichas dos arquivos
Não respeitem mistérios nem segredos
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte
Relógios a marcar a hora exacta
Não aceitem nem queiram outra arte
Que a prosa de registo, o verso-acta.
Mas quando nos julgarem bem seguros
Cercados de bastões e fortalezas
Hão-de ruir em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

quinta-feira, 13 de março de 2014

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE



Aproveitando a onda da chamada Primavera Marcelista, esse enorme equívoco em que tantos caíram, quando esquecemos que pode haver uma qualquer primavera que engana, Manuel Freire publicou seu primeiro EP.

Para além de um poema de sua autoria, Eles, Manuel Freire compôs a música para Dedicatória de Fernando Miguel Bernardes, Livre de Carlos de Oliveira e Pedro, o Soldado de Manuel Alegre.

Rapidamente tornaram-se hinos de intervenção, cantados um pouco por toda a parte.

Principalmente Livre, com aquele seu grito, retirado do Cancioneiro Popular, de não haver machado que corte a raiz ao pensamento.

Estávamos então unidos pelo desejo de derrubar uma ditadura.

Muitas vezes direi: naquele Portugal, o canto foi o melhor e mais eficiente sinal de protesto

Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SARAMAGUEANDO


Manuel Freire foi quem mais musicou poemas de José Saramago. Também foi, mera opinião pessoal,  quem melhor cantou esses poemas.


Este EP de Manuel Freire, editado em, 1971 contém “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, que foi a primeira abordagem, publicada, de Manuel Freire a poemas de José Saramago.

“Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome”.

Em 1973 Manuel Freire publica o EP “Abaixo D. Quixote” que contém “Ouvindo Beethoven”.
 No LP “Devolta”, publicado em 1978, Manuel Freire inclui “Dia Não” que, em 1967, tinha sido musicado por Luís Cília e que faz parte do 1º volume de “La Poésie Portugiase de Nos Jours et de Toujuors”, que Luís Cilia realizou durante o seu exílio em Paris.

“De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas.
Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco seja rude
Como pedras calcinadas
Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
que não finja mascaradas
De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas
Ah que saudades do sim
Nestas quadras desoladas”

Por ocasião dos 25 anos do 25 de Abril, Manuel Freire reúne, em formato CD, estes e outros poemas de José Saramago. Chamou-lhe “As Canções Possíveis” e é este o alinhamento do disco:

Circo
Nem Sempre a Mesma Rima
Tenho a alma queimada
Ouvindo Beethoven
Retrato do poeta quando jovem
Jogo do Lenço
Tenho um Irmão Siamês
Dispostos em Cruz
Fala do velho do Restelo ao Astronauta
A Ponte
Dia Não
É tão Fundo o Silêncio.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

SARAMAGUEANDO



Apenas com um livro publicado, “Os Poemas Possíveis”, Julho 1966, não sendo por esse tempo, alguém que tivesse chamado especiais atenções, José Saramago começou a ver alguns dos seus poemas musicados. Luís Cilia, nos três volumes de “La Poésie Portugaise de Nos Jours e de Toujours” e Manuel Freire, foram os que mais se distinguiram.

Por ocasião do 25º aniversário do 25 de Abril, a Editorial Caminho publicou este CD “As Canções Possíveis”:

“Estes poemas foram palavras caladas. Um dia longínquo (vai para trinta anos ou já os fez) Luís Cilia, lá no seu exílio em França, deu música e voz a algumas delas.
Depois no árido exílio interior, Pedro Barroso fez cantar Afrodite. E logo Manuel Freire se veio sentar a seu lado para ouvir Beethoven e pôr na boca do Velho do Restelo ditos que eram obra de razão.”

“Ouvindo Beethoven”, musicado por Manuel Freire em 1973, anuncia que o dia das surpresas estava para chegar:

"Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas."

 “As Canções Possíveis” foi uma cortesia natalícia de Luís Pinheiro de Almeida.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE

TAGUS TG 112
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes/Manuel Freire
Livre - Carlos Oliveira - Manuel Freire
Eles - Manuel Freire
Pedro O Soldado - Manuel Alegre/Manuel Freire

TAGUS TG 121
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Lutaremos Meu Amor - Daniel Filipe/Manuel Freire

Trova do Emigrante - Manuel Alegre/Manuel Freire
Trova - Manuel Alegre/Manuel Freire
O Sangue Não Dá Flor - Manuel Freire


ZIP ZIP  30.001/S
Arranjos e Supervisão - Thilo Krasmann

Pedra Filosofal - António Gedeão/Manuel Freire
Menina dos Olhos Tristes - Reynaldo Ferreira/Manuel Freire

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece noZip-Zip”, a cantar Pedra Filosofal” de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.
Em 1969 publicara o EP “Manuel Freire Canta Manuel Freire”, que inclui “Livre”, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.
Depois um outro EP, “Trovas,Trovas,Trovas”, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, "Lutaremos Meu Amor" disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.
Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.
Claro que a passagem pelo “Zip-Zip” projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.
Uma mera curiosidade: Manuel Freire nasceu a 25 de Abril de 1942.

“Livre”

“Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida
sem razão.

Nada apaga a luz que vive

num amor num pensamento,
porque é livre como o vento
porque é livre”.