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terça-feira, 10 de setembro de 2019

AQUELES COMBOIOS


 A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para o Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à espera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas-de-beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.

Manuel Hermínio Monteiro

Legenda: fotograma do filme Manhã Submersa de Lauro António

quarta-feira, 3 de julho de 2019

POSTAIS SEM SELO


O escritor tem apenas um aliado, o único, a sua alma gémea: o seu leitor. Que essa relação circule no mais íntimo dos silêncios só valoriza o que secretamente escutou as imperceptíveis vozes da criação.

Manuel Hermínio Monteiro em Urzes

Legenda: pintura de Henri Fartin-Latour

sábado, 1 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Fernando Fernandes – 47 Anos de Divulgação da Leitura

Organização: José da Cruz Santos
Capa: Armando Alves
Campo das Letras, Porto, Maio de 1999

Entra-se para o universo do livro definitivamente. Passado o noviciado é muito raro a algum deste meio optar por outra profissão exterior ao universo de Gutenberg. Por mais adversidades, crises económicas ou outras, o livro parece conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.
Em Portugal nunca houve cursos superiores ou secundários especializados de editores e ainda menos de livreiros carismáticos tenham deixado o seu nome na memória e no saber dos que fazem do livro a sua actividade e paixão.

Do depoimento de Manuel Henrique Monteiro.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

SÉTIMO DIA


                                                                                              Ao Manuel Hermínio


Voltámos, um a um, da tua morte

para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.

A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.

Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.

25/06/01

Manuel António Pina em Poesia Reunida

quinta-feira, 12 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Atenção aos estúpidos! Fazem pouco e têm sucesso…

Francesco Alberoni, citado por Manuel Hermínio Monteiro em Urzes

Legenda: Donald Trump

quarta-feira, 30 de março de 2016

POSTAIS SEM SELO


Só morre quem nós deixamos afundar-se no esquecimento.

Manuel Hermínio Monteiro em Urzes

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Comecemos com a clássica imagem de filmes. Em primeiro plano, o escritor. Está só com a sua velha máquina de escrever. A noite é tanta que a casa se confunde com o mundo. Os cigarros ardem no cinzeiro cheio de beatas. A luz desce conicamente do velho “abat-jour” iluminando o seu perfil nervoso e a folha branca onde crescem as palavras. A mulher chama-o da sala ao lado pela terceira vez. Pela quinta vez ele não responde. A mulher faz as malas e sai. Pela porta deixada aberta entra a fúria do vento. Ouve-se a chuva a cair no exterior e uma sucessão de portadas a bater.

Manuel Hermínio Monteiro, Elogio do Escritor em Urzes

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Urzes

Manuel Hermínio Monteiro
Vapa: Vasco Rosa
Edição O Independente, Lisboa, 2004

Ande-se por Portugal de norte a sul, nesta altura, e sentimos logo as marcas do Natal. Pequenos e grandes presépios. Cedros iluminados. Pais Natal de borracha. Ruas enfeitadas e milhares de luzinhas buliçosas e polícromas que nos piscam por detrás das vidraças. O presépio mais conhecido é o de Alenquer. A aldeia mais preparada a preceito é Sande, entre Lamego e a Régua, autodenominada «o presé­pio da Beira Alta». Nas terras do Norte, juntam, ao sabor dominante do bacalhau, o polvo. Come-se por todo o lado filhós, sonhos e rabanadas. Durante todo o dia 24 os rapa­zes transportam grandes quantidades de lenha para o centro da povoação. Em Barrancos, no Alentejo, a lenha começa a juntar-se desde a festa do 1º. de Dezembro. São medas de troncos e ramas de meter respeito.
À noite, após a consoada, acende-se a fogueira. E em Vilar de Perdizes reúne-se a aldeia em peso em volta do lume para cantar. As melhores fogueiras deverão manter a chama, dia e noite, até ao novo ano. Por todo o lado as festas natalícias portuguesas são de solidariedade e convívio. O consumismo é fenómeno urbano e muito recente for a dos grandes centros. Pelas nossas terras, o Natal sempre lembrou família, acolhimento, reconciliação e partilha. O menino Jesus desce do céu ao primeiro sono.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

SARAMAGUEANDO


O livro, no bom dizer do saudoso editor Manuel Hermínio Monteiro deve conter a própria vida dos que com ele lidam quotidianamente.

Sou do tempo em que os livros estavam ao cuidado de gente culta.

Orgulhosamente profissionais, livreiros e editores sabiam o que tinham entre mãos.

Com a chamada globalização, os livreiros foram substituídos por computadores e os grandes grupos editoriais como a Leya, Porto Editora, Bertrand  &Cª Lda, desataram a comprar pequenas e grandes editoras, não com o objectivo de as valorizar mas para, simplesmente, ganharem algo com o negócio.

Por exemplo, Miguel Pais do Amaral, um empresário de tudo e mais alguma coisa, constituiu a Leya e comprou, entre outras pequenas editoras, as Publicações Dom Quixote e a Editorial Caminho que têm nos seus catálogos diversos escritores portugueses e jóias da coroa como António Lobo Antunes, e José Saramago.

Numa entrevista à Notícias Sábado, Fevereiro de 2010:

Os carros são o meu hobby, é algo que me acompanha desde sempre. Em termos competitivos, fui evoluindo aos poucos e agora isto é o máximo. O prazer de correr é único e sinto-me um privilegiado.

Pierre Bourdieu, citado por Arnaldo Saraiva disse que o editor é um personagem duplo que deve saber conciliar a arte e o dinheiro.

Claro que é possível gostar de carros e de livros ou, como na aldeia de Asterix, ser-se bárbaro e gostar de flores, mas não é o caso do personagem que presidencialmente se senta numa cadeira do edifício Leya.

Mário de Carvalho, durante muitos anos editado pela Caminho, em 2012 abandonou o   grupo  Leya pois não estava sujeito a que tivessem demorado três anos para saber quem ele era.

Acho que quem sabe de livros, deve fazer livros, quem sabe de cervejas ou de sabonetes deve tratar de cervejas ou de sabonetes…

Quarta-feira ficámos a saber que José Saramago não volta a ser publicado pela Leya.

Não se conhecem os contornos da decisão, apenas se sabe que chegou ao fim uma relação editorial iniciada há 35 anos, com a publicação de A Noite.

A posição da Leya surge depois de uma das editoras do grupo a Editorial Caminho, ter anunciado deixar de publicar as obras de José Saramago, por falta de acordo com as herdeiras do Nobel da Literatura.

As herdeiras de José Saramago e a Editorial Caminho informam que não foi possível chegar a acordo sobre as condições contratuais que permitiriam continuar a publicar nesta editora a obra do escritor, lê-se num comunicado assinado pelas herdeiras do escritor, a viúva, Pilar del Rio, e a filha, Violante Saramago Matos, e ainda por Tiago Morais Sarmento e Zeferino Coelho, da Editorial Caminho.

José Sucena, administrador da Fundação José Saramago já tornou público que a instituição está a fazer diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e a quem Saramago sirva, e avançou a hipótese de, caso não seja encontrada uma editora, ser a própria fundação e editar os livros de José Saramago

Almeida Faria, João Tordo, José Eduardo Água Lusa, Ricahrd Zimler, João Tordo, os herdeiros de Sophia Mello Breyner Andresen, o anteriormente citado Mário de carvalho, já abandonaram a Leya.

Miguel Sousa Tavares seguiu o mesmo caminho e, hoje, em declarações ao Público,  fala de descontentamento quanto ao trabalho do grupo que, matou a identidade das editoras” que agregou desde a sua fundação, em 2008. Não creio que o grupo Leya esteja vocacionado para a edição de livros. A Leya partiu do princípio que juntando várias editoras faziam sinergias e conseguiam fazer melhor, mas isto não é como juntar as salsichas Nobre com as salsichas Aveirense.

sábado, 19 de outubro de 2013

ANTIGAS COMUNIDADES


Nunca se esquecerão estes cafés ou estas pastelarias provinciais tão exactas e barulhentas nos Domingos de Fevereiro. Às vezes ainda retardam as decorações natalícias. Mas o que melhor exibem são as taças e galhardetes ganhos pelo grupo desportivo local entre as escassas garrafas das prateleiras. Uma salamandra ou uma braseira rodeiam-se de gente comunicativa das bandejas e do incansável moinho de café. O «cheirinho» no café. A humidade mostra-se nas paredes sob as desafiadoras beldades tropicais dos calendários. Cinzeiros improvisados. Uma raposa embalsamada sobre o televisor. Os empregados transtornados pela muita solicitação. Uma cerveja que se entornou. A serradura que junta cascas de tremoços e amendoins pelo chão. As cores excessivas da televisão. E o relato de futebol por fundo. E as vozes a subir de tom. E a tosse. E a criança que começa a chorar. E o cão que entra para ser escorraçado. Oh estes cafés são os foros das antigas comunidades.

Manuel Hermínio Monteiro em Urzes, Edição O Independente Lisboa 2004

Legenda: fotografia de Willy Ronis

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DE QUE NÃO FALAMOS QUANDO FALAMOS MUITO


As palavras afastam. E porquê? Parole, parole, words, words, words. Palavras. Vivemos ensopados até aos ossos de palavras, explicavam as sombras silenciosas do convento de Muros. Palavras sábias, palavras-truque, palavras-chave. Palavras consensuais. Palavras-surpresa. Palavras oportunas. Palavras urgentes usadas por cada um com mais ou menos eficácia.
Em Muros, no antiquíssimo e modesto convento franciscano, com as suas hortas tão poeticamente organizadas no meio de uma floresta. Com uma via-sacra que leva ao cimo da montanha e um caminho de árvores seculares que conduz à praia, pareceu-me estarmos ainda mais afastados de nós mesmos e içados pelas palavras a um lugar tão alto que a realidade das coisas se torna vertiginosa. Se entre nós e as palavras há «metal Fundente», como tão bem diz o definitivo poema de Cesariny, «You are Wellcome to Elsinore», entre as coisas e as palavras jamais saberemos o que se intrometeu, para além de uma espécie de óleo cada vez mais industrial e mutável, que as articula ao seu nome. Como escreveu Ramón Gomez de la Serna, «os rios não conhecem os seus nomes». Pascoaes vai mais alto: «Deus não sabe como se chama.» E, quanto à literatura, escreveu o poeta de Regresso ao Paraíso: «A literatura é anti-divina e anti-satânica, um produto industrial.» No inebriante silêncio de Muros ia pensando que, mais do que evidenciadas preocupações com o próximo milénio, melhor seria invertermos o sentido da análise, regressando pacientemente, pelo caminho estreito, ao sabor primeiro do verbo baptismal
E a Galiza e a sua Costa da Morte que leva à finisterra seria uma bela paisagem para começar uma qualquer nova língua. E que Pascoaes diga que «no planeta há montes, campinas, rios, lagos, etc., mas não há qualquer paisagem». Eu digo que há: a Galiza.

Manuel Hermínio Monteiro, Ler s/d

Legenda: Costa da Morte, óleo de Rubén de Luis