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domingo, 11 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Elogio da Loucura

Erasmo de Roterdão
Tradução: Berta Mendes
Prefácio e Notas: Manuel Mendes
Ilustrações: Holbein
Colecção Cosmos nº 80/81
Cosmos, Lisboa, Março de 1945

Na realidade, que é a vida?, se lhe tirardes os prazeres? Merece, então, o nome de vida? Aplaudi-me, meus amigos. Ah! eu sabia que éreis demasiadamente loucos, isto é, demasiadamente sábios, para não serdes da minha opinião… Os próprios estóicos amam o prazer; não o saberiam odiar. Bem dissimulam, bem tentam difamar a volúpia aos olhos do vulgo, cobrindo-a das injúrias mais atrozes, mas isso não passa de simples esgares, pois tratam de afastar os outros, para eles próprios a poderem gozar com maior liberdade. Mas, em nom de todos os deuses, dizei-me, então, qual é o instante da vida que não é triste, aborrecido, enfadonho, insípido, insuportável, se não for misturado com o prazer, isto é, com a loucura. Podia contentar-me com o testemunho de Sófocles, esse grande poeta, jamais suficientemente louvado, e que de mim fez um tão belo elogio, quando disse: A vida mais agradável é a que se vive sem espécie alguma de prudência.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

QUOTIDIANOS


Anos da ditadura.

O escritor Manuel Mendes, sportinguista, José MagalhãesGodinho, benfiquista, eram amigos e assumidos e corajosos contestatários da ditadura do Estado Novo.

Sempre que o Benfica perdia, Manuel Mendes, com o seu peculiar arrastar de rr, telefonava a Magalhães Godinho.

- Como está, meu caro amigo, tudo bem consigo, e seguia-se o bla bla sobre a derrota vermelha.

Um dia, à porta da Bertrand, Magalhães Godinho encontra o Manuel Mendes e interpela-o:

- Oh! Manel, você é meu amigo?

- Oh! meu caro Zé, que raio de pergunta, então não sou seu amigo?

- Então se é meu amigo, nunca mais me telefone quando o Benfica perder…


sábado, 10 de maio de 2014

OBVIAMENTE, DEMITO-O!



Primeira página do Diário de Lisboa de 10 de Maio de 1958.

Entrega no Supremo Tribunal do processo de candidatura do Almirante Américo Tomás proposta por 258 eleitores, em que se destacavam Oliveira Salazar, Marcelo Caetano e os habituais e eternos apoiantes do regime.

O candidato interrompia as suas funções de ministro e Oliveira Salazar sobraçava interinamente a pasta da Marinha.

Destaque para a Conferência de Imprensa que o general Humberto Delgado realizou no salão de chá do Chave de Ouro em Lisboa.

Pormenor do texto da Wikipédia:

Os cinco anos que viveu nos Estados Unidos modificam a sua forma de encarar a política portuguesa. Convidado por opositores ao regime de Salazar para se candidatar à Presidência da República, em 1958, contra o candidato do regime, Américo Tomás, aceita, reunindo em torno de si toda a oposição ao Estado Novo.
Numa conferência de imprensa da campanha eleitoral, realizada em 10 de Maio de 1958 no café Chave de Ouro, em Lisboa, quando lhe foi perguntado por um jornalista que postura tomaria em relação ao Presidente do Conselho Oliveira Salazar, respondeu com a frase "Obviamente, demito-o!".
Esta frase incendiou os espíritos das pessoas oprimidas pelo regime salazarista que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha com particular destaque para a entusiástica recepção popular na Praça Carlos Alberto no Porto a 14 de Maio de 1958.
Devido à coragem que manifestou ao longo da campanha perante a repressão policial foi cognominado «General sem Medo».
O resultado eleitoral não lhe foi favorável graças à fraude eleitoral montada pelo regime.


 Diversas correntes da Oposição Democrática marcaram presença na conferência de imprensa, personalidades como o Almirante Mendes Cabeçadas, Ramon de la Feria, Dias Amado, Abranches Ferrão, Teófilo carvalho santos, António Ramos de Almeida, Adão e Silva, José de Magalhães Godinho, Gustavo Soromenho, Manuel Mendes, Castro Soromenho, Cassiano Branco.

A mesa presidida por Humberto Delgado registava a presença de Vieira de Almeida, que fez a apresentação do candidato, Mário de Azevedo Gomes, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Rolão Preto, António de Macedo, Costa e Melo, Vasco da Gama Fernandes, Olivio França e Alcinda de Sousa.

Depois da declaração de Humberto Delgado seguiu-se um período de perguntas e respostas e a primeira pergunta, e respectiva resposta, ficaram para a História:


Outro pormenor do período de perguntas e respostas:


Transcreve-se a Nota do Dia da autoria de Norberto Lopes, director do Diário de Lisboa: 



Por fim, destaque para o título da entrevista do prof. Vieira de Almeida ao Diário de Lisboa:



Uma escrita longa a desse livro.

Qualquer coisa como´16 anos, e foram muitos e muitos os que escreveram páginas desse livro e não chegaram a ver a cor da Liberdade.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

JOSÉ GOMES FERREIRA


A morte de José Gomes Ferreira não me surpreendeu. Nas últimas vezes que com ele estive era visível que o anjo do fim lhe tocara no ombro. Foram oitenta e quatro anos de vida de poeta que ele soube encher de comunicabilidade poética e pessoal que raros conseguem alcançar.

Tenho para com José Gomes Ferreira uma dívida de gratidão que não vou pagar com esta crónica não obstante ela ser também uma imposição de consciência que devo à sua sensibilidade e à sua delicadeza e, por isso, à sua memória.

O meu primeiro contacto com José Gomes Ferreira data de há mais de quarenta naos. Estava no Colégio de santo Tirso e era meu professor o Padre António de Magalhães. Um dia, na aula, leu um poema de José Régio e outro de José Gomes Ferreira. Perante a nossa emoção, comentou: - Como vêem, a poesia não acabou ou em Portugal.

Conheci-o depois em Lisboa e não quero dizer que me tornei um íntimo, o que é ainda mais importante para aquilo que vou contar. Algumas vezes ia tomar café ao Montecarlo, onde com o Carlos de oliveira tinham mesa certa e onde acorria quem gostava de os ouvir. Aquele café estava de tal modo ligado a essa presença que o Paulo e Carmo lhe chamava o Montecarlos.

O José Gomes Ferreira, o Manuel da Fonseca e o Manuel Mendes foram os melhores conversadores do nosso tempo. O José Gomes tinha uma comunicabilidade e um despojamento de si próprio a contar as suas histórias que encantava aqueles que ali apareciam para o escutar. Lembro-me de lhe ouvir a sua experiência de crítico cinematográfico, das frases que usava quando os cineastas o chamavam para ele ir ver as «obras-primas»: - «O segredo é a gente dizer o vago como se fosse erudito, antecedido dum silêncio: o silêncio de Pacheco.» Terminou a história assim: - O pior foi quando quiseram que eu fizesse um filme. Um produtor chamou-me disposto a financiar um filme meu.»

Todos nós exclamámos: - «Então você não quis?»

Ele respondeu: - Não. Eu disse-lhe: eu não sei nada de cinema. Eu sou só crítico!»

Quando fui assessor para a cultura do então Ministro da Educação, Prof. Veiga Simão, ele, o Manuel Ferreira e eu, trabalhámos com alguma assiduidade na reabertura da Associação Portuguesa de Escritores. Foi um trabalho fácil pois estávamos os três igualmente empenhados e o Ministro fazia questão em reparar de algum modo aquela injustiça. Creio que a nossa amizade ficou com isso reforçada e foi com prazer que me inscrevi na nova associação de que ele foi presidente.

Quando veio a Revolução de Abril, tive alguns desgostos com conhecidos meus. Pessoas que até aí mantinham comigo relações cordiais e até algumas a quem eu, através da minha situação no Ministério, tinha podido fazer pequenos favores, era visível que procuravam evitar-me. Nesse aspecto a Revolução teve uma acção extraordinariamente benéfica no que diz respeito à higiene dos nossos conhecimentos e, até por isso, foi bom que tivesse acontecido.

Foi nessa altura que pude avaliar a qualidade moral e a delicadeza da sensibilidade do José Gomes Ferreira pois, durante o período revolucionário, não só redobrou da afabilidade e de atenções para comigo como ele, que nunca me mandava os seus livros – como disse, as nossas relações não o justificavam – passou a enviar-mos com dedicatórias duma grande cordialidade e amizade.

Esse tipo de homens está a desaparecer. Às vezes penso no que seria o José Gomes Ferreira se a sua revolução tivesse triunfado e lembro-me de Gorki, com o seu humanismo imediato, sempre a bater à porta de Lenine a tentar resolver situações individuais de injustiça daqueles que viveram na esperança mas a quem a máquina cega da revolução impiedosamente vitimava.

Temos um poeta a menos mas não podemos esquecer que o pequeno lote de energia que dá a uma comunidade a sua face humana também muito diminuiu com a sua morte.


António Alçada Baptista, crónica publicada em A Tarde de 18 de Fevereiro de 1985 e incluída em Um Olhar à Nossa Volta, Editorial Presença, Lisboa, Outubro de 2002.

Legenda: José Gomes Ferreira na tomada de posse dos primeiros corpos Gerentes da Associação Portuguesa de Escritores, em 14 de Junho de 1973, tendo a seu lado Sophia de Mello Breyner Amdresen, presidente da Assembleia Geral.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

IGREJAS CAEIRO (1917-2012)


Com 94 anos, morreu, hoje, Igrejas Caeiro.

O seu nome está, fortemente, ligado à História da Rádio Portuguesa.

Foi o criador de Os Companheiros da Alegria.

Em 1951 o Diário de Notícias, que chamara a si a organização da Vilta a Portugal em Bicicleta,  contactou Igrejas Caeiro para a organização de um espectáculo no final de cada etapa da prova.

A música e os versos de apresentação de Os Companheiros da Alegria entraram na vida dos portugueses: Uma nota de quinhentos não se pode deitar fora.

Em depoimento, publicado em A Telefonia, livro da autoria de Matos Maia, Igrejas Caeiro revela que os espectáculos passaram a ter tanto ou mais interesse que a Volta a Portugal.

Numa entrevista, concedida ao jornalista Pedro Rolo Duarte, para o Norte Desportivo de 11 de Fevereiro de 1954, disse que Nehru era o maior estadista da sua geração.

Salazar mandou Costa Leite “Lumbrales”, então Ministro da Presidência do Conselho de Ministros, emitir um despacho em que Igrejas Caeiro ficava impedido de qualquer actividade que dependesse da Inspecção dos Espectáculos.

Por iniciativa do Major Jorge Botelho Moniz, Igrejas Caeiro é convidado para produtor independente do Rádio Clube Português e Os Companheiros da Alegria passam a ser emitidos em cabina.
Um abrangente leque de rubricas transformaram-no, rapidamente, num programa de larga audiência.

Alguns colaboradores do programa: Manuela de Azevedo, Olavo d’Eça Leal, Mário Castrim, Manuel Mendes, Francisco Mata, Ferro Rodrigues, Santos Fernando, Nelson de Barros, Aníbal Nazaré, Artur Varatojo, Mário Domingues.

São desse tempo Os Diálogos de Olavo d’Eça Leal, A Lélé e o Zequinha (Vasco Santana e Irene Velez), O Casal Caeiro conversa com o Companheiro Ouvinte acerca de Literatura, O Parque Infantil.

Em Novembro de 1969, Igrejas Caeiro inaugura o Teatro Maria Matos e a actividade de empresário não lhe permitiram a manutenção de  Os Companheiros da Alegria.

Para além de homem da rádio, foi actor de cinema de teatro e, como militante do Partido Socialista, foi deputado à Assembleia da República e vereador da Câmara Municipal de Cascais.


Legenda: imagens tiradas de A Telefonia, Matos Maia, Círculo de Leitores, Maio 1995.

sábado, 11 de dezembro de 2010

COM A FACA LENTA DE RELER



No dia 11 de Dezembro de 1966, José Gomes Ferreira escreveu no 1º volume do seu diário “Dias Comuns:

Recebi a 2ª edição do “Segundo Livro do Bairro” do Manuel Mendes, e estive a abri-lo esta tarde, em Albarraque, com a faca lenta de reler, aqui e ali, alguns trechos que se me prendiam aos olhos. Ternura. Pequeno-burgueses à espera da morte. Vidas em gaiolas. E, sobretudo, “A Menina Angélica” – a faladora eterna a contar e a recontar misteriosos mexericos.

Segundo Livro do Bairro
Manuel Mendes
Capa de Carlos Botelho
“Sociedade de Expansão Cultural”, Lisboa s/d

terça-feira, 2 de novembro de 2010

AINDA A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ESCRITORES


Em Maio andei por aqui a relatar os acontecimentos que desembocaram na extinção, pela PIDE, da Sociedade Portuguesa de Escritores.

No utilíssimo bloguue “Frenesi livros”, deparo com a carta que o escritor Manuel Mendes endereçou a Joaquim Paço d’ Arcos, a propósito de A Dolorosa Razão de Uma Atitude, que define bem a estirpe e a verticalidade dos intelectuais que se opunham ao regime.

A Frenesi livros” tem à venda, por 175,00 euros, uma edição de Luuanda de Luandino Vieira, A Dolorosa Razão de Uma Atitude de Joaquim Paço d’Arcos, que tem junta a carta de Manuel Mendes:

«Ex.mo Senhor
Joaquim Paço d’Arcos
Ex.mo Senhor:
O meu primeiro impulso foi devolver-lhe, indignadamente, o pasquim que teve o atrevimento de me enviar, o que desde logo considerei como insultuoso. Todavia quis reflectir, ponderar nas minhas razões, evitando obedecer a movimento acaso inconsiderado, mas tentei ler segunda vez essa protérvia e não consegui: repugnou-me. V. Ex.cia devia, como as ninfas de Camões, tapar ao menos com um ligeiro cendal as pudibundas partes. É indecoroso o que exibe.
No seu acrisolado patriotismo – Heróis do mar!... –, V. Ex.cia mistura, desavergonhadamente, a Sociedade Transzambezia Railways, de que é mui prestante delegado do Governo, com a Companhia Portuguesa de Escritores, a que presidiu com tão fina elegância mundana. Tenha juízo e não ande a fazer dos outros parvos.
Todos sabemos – e nas dores do espírito e da carne – que tal insolência só é possível a coberto da censura. Sem ela, estaria V. Ex.cia caladinho como um rato. Abotoe a braguilha, para decoro nosso. Lições de patriotismo, não está V. Ex.cia em condições de as dar, mas antes de as receber, se pode em verdade entendê-las. Era o que nos faltava. Medite, por exemplo, como se comportou com a guerra da Argélia o Sartre, e os restantes dos cento e dez intelectuais franceses que ousaram protestar como lhes competia. Mas isso é gente de coluna vertebral direita e com os atributos da virilidade no seu lugar. A guerra dá para morrer – não há horror maior! –, mas dá também a uns tantos para ganhar alegremente a vidinha – não há infâmia que se lhe compare! Tenha pelo menos uns laivos, já não digo de pudor, mas de cautela, e nunca mais se atreva a estender a mão a quem ofendeu e das veras da alma o detesta
Lisboa, 20 de Junho de 1965
Manuel Mendes»

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PEDIDO DE AUTORIZAÇÃO


Ao Governador Civil de Lisboa foi enviado um pedido de autorização de uma reunião do M.U.D. e que se realizou na “Voz do Operário”.
A ordem de trabalhos, que foi enviada ao Governador Civil, tinha os seguintes pontos:

1º – Examinar o momento político actual à luz das afirmações e conclusões da Primeira Conferência da União Nacional.
2º - Deliberar sobre as condições em que os cidadãos presentes poderão intervir na solução do problema político nacional.
A reunião terá lugar no próximo dia 30 de Novembro pelas 20,30 horas, em local a designar, e participarão nela. Somente os signatários e os portadores de bilhetes de convite assinados por qualquer dos requerentes.
Ao abrigo do disposto no nº4 do artº 8º da Constituição
Pedem deferimento
Lisboa, 22 de Novembro de 1946
a)      Mário de Azevedo Gomes
Bento de Jesus Caraça
Maria Isabel de Aboim Inglês
Fernando Mayer Garção
Luciano Serrão de Moura
Alberto Dias
Manuel Tito de Morais
António Lobo Vilela
Manuel Mendes
Mário Soares

Edição da Comissão Central do M.U.D.

Preço 2$50

Composto e Impresso “Imprensa Beleza”, Rua da Rosa, 99 a 105 - LISBOA