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quinta-feira, 23 de maio de 2019

AINDA DORIS DAY


No arquivo da Shorpy apanhei esta fotografia, autoria de Milton Greene,  Setembro de 1953, tirada durante as filmagens do filme musical Calamity Jane.

Miguel Esteves Cardoso, crónica do Público,  lembrou que é triste perceber que uma pessoa pode viver 97 anos sem jamais receber o reconhecimento que merece.

Manuel S. Fonseca, na sua página negra, chutou forte e colocado:

«Se eu tivesse sido do teu tempo – e que tempo foi o teu tempo, que de tão limpinho não foi tempo nenhum? – teria bebido copos cínicos com  esse Oscar Levant, actor, pianista, compositor de tão sardónico talento, que fui mesmo ver ao cemitério de Westwood, minha aldeia de Los Angeles, se ainda lá estava a campa em que o enterraram. Ele sim, insuportando (ou desconseguindo de suportar!) esse fulgurante brilho dos teus olhos, a esplêndida brancura dos teus dentes, as tuas saias rodadas a deixar ver a robusta e dourada meia perna, as tuas mamas firmes apontadas a um céu sem nuvens, ele, Oscar Levant,  imor­ta­li­zou-te com a doçura desta frase: “Conheci Doris Day antes dela se tor­nar virgem.”»

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Continuo na mesma, não sabia então como é que se convertia o mundo, num mundo perfeito, e continuo hoje sem saber. Com uma pequena diferença, aprendi com os meus próprios erros, a temer os que sabem como fazer um mundo perfeito.

Manuel S. Fonseca em A Página Negra

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

ETECETERA


Certamente que existirão razões, mas o Movimento «MeToo» caiu num exagero hipócrita e perigoso, num fundamentalismo que não augura nada de bom.


Não tardou muito que meia dúzia de activistas do «MeToo» corressem a vandalizar uma estátua que na Florida regista o histórico beijo de um militar e de uma enfermeira felizes por o pesadelo da guerra ter terminado.

Brigitte Bardot, hoje com 85 anos, que sabe mais da poda a dormir que o «MeToo» todo de olhos abertos, disse numa entrevista que a maior parte das denúncias de abuso sexual no cinema, são casos hipócritas e afirmou que muitas intérpretes «aquecem os produtores para obter um papel.»

Sharon Stone quando lhe perguntaram sobre essa história do assédio sexual às actrizes, soltou uma sonora e larga gargalhada.

E Sharon Stone também sabe da poda.

QUOTIDIANOS

1.

O juiz Neto de Moura volta a estar na berlinda e sempre pelos piores motivos.

Um homem de 53 anos deu vários socos na cabeça da mulher perfurando-lhe um tímpano. A vítima fez queixa e o agressor ficou com pulseira eletrónica como medida de coação. O agressor recorreu da condenação e, em outubro do ano passado, o juiz Neto de Moura do tribunal da Relação do Porto retirou-lhe a pulseira eletrónica.

Quando os técnicos dos serviços prisionais bateram à porta da mulher para lhe retirarem a pulseira que também usava para prevenir as autoridades em caso de aproximação do ex-marido ficou em choque.

Disse: «Estou outra vez à mercê dele».

Que se há-de dizer mais sobre as aberrações desta sinistra personagem jurídica?

O que fazer?

2.

As mulheres ganham menos 2464 euros por ano do que os homens.

O fosso salarial entre homens e mulheres tem vindo a diminuir, mas ainda chega aos 176 euros por mês. Na semana que passou entrou em vigor a lei que obriga as empresas a colocar os dois géneros em pé de igualdade.

3.

Este mês de Fevereiro, quase a despedir-se, trouxe a morte dos actores Albert Finney e Bruno Ganz, também do realizador Stanley Donner.


No dia 8, com 82 anos morreu o actor inglês Albert Finney, um actor por excelência.

Nunca recebeu um óscar.

Foi para o lado onde dormiu melhor.

Uma das suas últimas nomeações, melhor actor secundário, ocorreu com o seu papel de advogado em «Erin Brockovich» de Steven Soderbergh em que contracenou com Júlia Roberts.

Mas nunca se mostrou entusiasmado com as diversas nomeações.

Aliás nunca pôs os pés numa cerimónia dos óscares.

«Vivo em Londres, É uma viagem que demora muito tempo, para depois chegar a um a  festa longa e estar ali sentado seis horas sem poder fumar ou beber. Uma perda de tempo.».



Sobre a morte de Bruno Ganz, ocorrida no dia 16, o crítico João Lopes chamou a atenção para os obituários internacionais da morte do actor:

«Sugiro The New York Times, The Guardian e a BBC; ou ainda as duas “bíblias” da indústria audiovisual dos EUA, Variety e The Hollywood Reporter. Que há de comum em todas essas evocações da notável carreira de Ganz? Uma simples omissão: nenhuma delas cita o filme de Tanner.
Eis uma evidência difícil de aceitar, sobretudo se julgarmos que os lugares de estacionamento concedidos pela capital do país aos automóveis de Madonna nos colocam no centro do mundo...»

Gosto prticularmente de dois filmes protagonizados por Bruno Ganz:: «As Asas do Desejo» de Wim Wenders e «A Cidade Branca» de Alain Tanner. Hei-de procurar uns papéis velhos e trazer esses filmes até ao «O Q’ué que Vai no Piolho?»


Por fim, a morte de Stanley Donner, ocorrida do dia 23.


Nem que seja pelo simples facto de ao ver a chuva cair, de imediato surgir a vontade de cantar, seja lá o que for.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A ALEGRIA E A TRISTEZA DO NATAL


A grande alegria do Natal é a sua tristeza.
A frase encontra-a num artigo sobre filmes de natal publicado no Expresso e assinada por Manuel. S. Fonseca:

«A minha pessoalíssima escolha é “Meet Me in Saint Louis”. Um pai de família é promovido na empresa e anuncia à mulher e filhas que, depois do Natal, partirão para a grande Nova Iorque, deixando a cidadezinha de Saint Louis. Esse é o último Natal que as quatro filhas passam com os amigos, os amores, os vizinhos que as mimam, essa intrincada rede de sentimentos e júbilo da pertença que as liga à cidade, ao bairro, à rua onde nasceram e crescem. E, tendo ficado lá fora, no jardim, os desolados bonecos de neve, quando no calor do quarto, uma das irmãs, Judy Garland, canta à maninha mais nova o “Have Yourself a Merry Little Xmas”, toda a turbulenta e antecipada emoção da despedida, da perda, do tempo que passa, tombam sobre as personagens e sobre nós. Judy Garland canta e diz que next year all our troubles will be miles awayDerrama-se no filme e do filme uma tristeza de seda. Choro eu, choramos todos: é Natal e a maior alegria do Natal é a sua tão belíssima e nocturna tristeza.»

Legenda: fotograma de Meet Me in Saint Louis

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO



A vida é uma monstruosa barreira à felicidade. Sem os impertinentes transtornos da vida realizaríamos todos os sonhos. Mas vem a vida e zás, ele é as prestações da casa, o trânsito, o governo da vida, os sindicatos da vida, o patronato da vida, estes empregos que não são vida, o raio da universidade que está contra a vida, o cabrão do doutoramento da vida que está a dar cabo de ti, e é a vida, a vida que não nos deixa ser aventureiros, heróicos marinheiros de céu e tanto mar.

Manuel S. Fonseca em Página Negra

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

POSTAIS SEM SELO


«Foi Jean-Luc que teve a culpa. Eu já amava desarvoradamente as canções de Charles Aznavour. Calções de 12 anos, ainda dar a mão a uma miúda me deixava em estado de temor e tremor, e já as canções dele me faziam estremecer de uma escondida emoção, por recear que pudesse ser um bocadinho mariquinhas.»

Manuel S. Fonseca no blogue A Página Negra

Legenda: capa do Libération

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

JERRY LEWIS (1926-2017)


Vejo-me, de repente, nas tardes do «piolho» a matar aqueles filmes do Jerry com o Dean Martin. Uma maltosa, na plateia, a partir o coco a rir, a arregalar o olho para raparigas insossas mas giras.
Tem filmes imperdíveis e uma interpretação de luxo em o «Rei da Comédia», de  
Martin Scorsese, que faz esquecer por completo o que em tempos dissera:
 «Tive um enorme sucesso fazendo de completo idiota».
O meu mundo tem cada vez menos gente. Gente que me ajudou a viver.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO



Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa.

Manuel S. Fonseca

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 5 de agosto de 2017

MUITO MAIS HOMEM QUE MULHER


Gosto de charutos e de boleros.

Alguém disse que, enquanto houver quem ouça boleros e fume charutos, continuará a ser nula a taxa de suicídio entre essas gentes.

Fiz apontamento.

Devo muitas coisas às bandas sonoras dos filmes de Pedro Almodovar.

Lembro Luz Casal e Chavela Vargas.

Chavela Vargas morreu no dia 5 de Agosto de 2012.

Lembrei-me de um excelente texto publicado por Manuel S. Fonseca:

A voz de Chavela era mais do que flores. Não sei se diga rouca se diga transgressora. Por muito que goste dela, e gosto, Chavela não é a minha cantora de boleros favorita, mas é a que tem a biografia mais excitante. Muito mais homem do que mulher, Chavela vestia calças, poncho vermelho e pistola à cinta. Charuto na boca, saía, num tempo em que as mulheres não conjugavam o verbo, com o alcalde de su ciudad y otros amigos pelas mais nocturnas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e disparava, antes ou depois, sobre o que eles disparassem. Terá dormido com mais mulheres do que eles todos juntos o que, mesmo que não seja verdade, também não é uma rematada mentira. Womanizer sem desculpa, foi o que foi.
Fez um tremendo sucesso com as suas rancheras, mas o que a ela me faz voltar e tantas vezes, é a sensibilidade dos boleros. O êxito fê-la saltar da ciudad para o mundo, Europas e Hollywood. Não deixou, por isso, de ser o homem que era, mulher portanto, roubando dos outros homens belas mulheres que nunca quiseram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brincado com bonecas. Dizem que beijou a boca fresca de Ava Gardner que a ela (ou ele?) se terá rendido de tiro e queda. Boa pontaria, digo eu. Agora, apareceu uma carta de Frida Kahlo a confessar tremores e olhar nublado: “…es erótica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escreveu a pintora em carta descoberta há pouco e que acusam de apócrifa.
Será, mas apócrifa é tudo o que não é a estarrecedora interpretação da canção que a Frida sempre La Chabela dedicou. La llorona que se pode ver e ouvir abaixo.
Chavela tinha 93 anos. Continuava a gostar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira. 




terça-feira, 1 de agosto de 2017

JEANNE MOREAU (1928-2017)


Aos 89 anos, morreu Jeanne Moreau.
Foi muito mais além, mas bastava o extraordinário desempenho em Jules e Jim realizado por François Truffaut, um daqueles casos em que o filme suplanta o livro , para que fique na história do Cinema.
Um filme que arrepiou a minha geração, e não só!


sexta-feira, 9 de junho de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Quando morrer e chegar ao céu, é tipo para dar uma seca maluca a Deus por tê-lo feito careca.

Marlon Brando sobre Frank Sinatra.

Segundo Manuel S. Fonseca, Brando ficou cheio de Sinatra em «Guys and Dolls», filme de Mankiewicz.

Sinatra foi contra a contratação de Marlon Brando para o papel de Sky, pois ele queria esse papel.

Sinatra detestava Brando, por ele, um não-cantor, ter sido a estrela do filme.

domingo, 4 de junho de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Nunca tinha visto um filme em que o peito do herói fosse maior do que o da heroína”, disse Groucho Marx à saída de um épico bíblico de Victor Mature

Manuel S. Fonseca, de uma crónica no Expresso

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

VELHAS CANÇÕES


Leio, numa crónica de Manuel S. Fonseca, que o compositor e actor Oscar Levant é o autor da frase: Conheci Doris Day antes dela se tornar virgem.

Estava convencido que era Groucho Marx e deixei essa autoria assim registada quando coloquei Que Sera Sera como um dos Clássicos do Meu Pai.

Inclino-me para a razão de Manuel S. Fonseca.

O nome de Oscar Levant serve para trazer aqui uma velha canção, também a sua mais conhecida composição: Blame It on My Youth.

A letra é de Edward Heyman e a canção data de 1934.

Ficam as interpretações de Nat King Cole, Frank Sinatra e Nancy Wilson.

Doris Day conta hoje 94 anos, tendo nascido no dia 3 de Abril de 1922.

Desde 2004, após a morte do seu único filho, Terry Melcher, leva uma vida reclusa e solitária.


Legenda: Doris Day no filme Calamaty Jane



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Não é um livro de meni­nos, é um livro de adul­tos.

Manuel S. Fonseca em Escrever é Triste

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não gostaria que Agosto findasse sem voltar a falar de Marilyn.

Todos os tempos são bons para se falar da Diva mas há aquele Agosto de 1962, aquele fatídico dia 5 em que se deixou morrer ou, simplesmente, a mataram.

Ainda acalento a esperança de que a verdadeira história se saberá ainda comigo por cá. Não me interessa assim muito, mera curiosidade porque, por óbvio, sei que a mataram.

Páginas primeiras de Marilyn, Últimas Sessões, Michel Schneider trata de nos dizer que fala de uma mulher cheia de vida, de humor, de desejos, tudo menos uma depressiva com tendências suicidas.

Agosto que é o tempo de uma noite de calor tórrido em Nova Iorque.

 Billy Wilder põe Marilyn a representar uma das cenas mais famosas do cinema.

Marilyn pergunta por uma brisa que a refresque e a andar passa pela grade de uma saída de ar do Metropolitano e o sopro que de lá sai levanta-lhe aquele vestido branco.

Uma lufada de ar fresco pode muito bem incendiar o mundo, tal como escreveu Manuel S. Fonseca.

O filme chama-se The Seven Year Itch, que em português se chamou O Pecado Mora ao Lado.

Folheio o livro de Schneider e faço paragem quando ele  vai buscar esse filme para colocar Billy Wilder a falar dos costumados atrasos de Marilyn:

Eu não tinha problemas com a Monroe. Marilyn tinha problemas com a Monroe. Havia nela qualquer coisa que a mordia, que a roía, que a devorava. Era um ser desacertado, à procura de uma parte perdida de si mesma. Como nessa cena de Some Like It Hot, em que, mal acordada e ébria, tinha de abrir todas as gavetas de uma cómoda e dizer: «Mas onde está esta garrafa de whisky?» Tínhamos colado uma etiqueta em cada uma das gavetas, para lhe lembrar a réplica. Não serviu de nada, e à sexagésima terceira tentativa em dois dias para filmar a cena, chamei-a à parte e perguntei: «O que é que não está a corre bem? Não te preocupes vamos conseguir.» Ela respondeu: «Preocupar-me com o quê?» Fizemos oitenta tentativas. Mas, contas feitas, valia a pena. É uma grande actriz. Mais vale Marilyn atrasada do que todas as outras actrizes dessa época. Se eu quisesse alguém que chegasse todos os dias a horas sabendo as réplicas de cor, contratava uma tia velha que tenho em Viena. Levanta-se sempre às cinco da manhã e nunca tem falhas de memória. Mas quem é que quereria vê-la no écran.

George George Cukor, que a dirigiu em Vamo-nos Amar e que não simpatizada nada com Marilyn, chegou a dizer que Marilyn era bastante dotada, que se subestimava., capaz de fazer coisas dificílimas, mas que não tinha confiança alguma em si.

Marilyn dizia-se uma dançarina que não sabe dançar”

Para os atrasos de Marilyn volto ao livro de Scheider:

Desde o início das filmagens, Geoge Cukor contabilizou trinta e nove horas perdidas apara a produção. Chego sempre atrasada. As pessoas imaginam que é por arrogância. É exactamente o contrário. Conheço montes de pessoas que são perfeitamente capazes de chegar a horas mas para não fazerem nada, só ficarem sentadas a contar a vida ou outro monte de burrices, É isso que espera de mim.

Razão tinha Billy Wilder quando lembrava a velha tia que tinha em Viena…  

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O filme é “Some Like it Hot”, de Billy Wil­der. Marilyn cami­nha pela pla­ta­forma da esta­ção de com­boios em direc­ção a Tony Cur­tis e Jack Lem­mon. A visão dela, de frente, abre-lhes os olhos de espanto. Entre­tanto passa e já estão agora a vê-la dou­tra pers­pec­tiva. Quanto mais a câmara fecha no olhar deles, mais aque­les olhos se dila­tam em estar­re­cido assom­bro. Wil­der dá-nos a seguir, em con­tra­campo, o melhor plano ame­ri­cano, se assim lhe posso cha­mar, que já se viu, enqua­drando da cin­tura para baixo a mulher que cami­nha. Vai den­tro de um ves­tido preto que ondula como nunca ondu­lou ves­tido algum. Há uma esplên­dida massa cor­po­ral que balança, oscila e, ó lábil curva, redon­da­mente se salienta.

Per­ce­bendo que a pla­teia já tem a cal­deira a fer­ver, o pró­prio com­boio saúda a graça que passa, sol­tando dois asso­bi­a­dos sopros de vapor que envol­vem, não digo Marilyn, mas uma boa parte de Marilyn, na humi­dade de pouco diá­fana nuvem.


Vi esta cena uma boa cen­tena de vezes. As per­nas de Marilyn, con­tei, dão 12 pas­sos cur­tos, há um pen­du­lar movi­mento de subida e des­cida do corpo, das ancas, uma osci­la­ção este-oeste dos simé­tri­cos “ron­deurs” que rija e ame­a­ça­do­ra­mente esti­cam o ves­tido. O nosso atro­pe­lado olhar chora e ri, agra­de­cendo à Cri­a­ção o gosto lúdico a que se entre­gou quando, che­gada ao fim das cos­tas huma­nas, diva­gou filo­so­fi­ca­mente, sope­sando cada metade da solu­ção nos pra­tos da sua justa balança. Ou não fosse a sime­tria a divina regra de toda a beleza.


Manuel S. Fonseca no Expresso, 5 de Janeiro de 2013

segunda-feira, 9 de março de 2015

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Dormir, ou fechar os olhos no cinema.

De certeza que já me aconteceu mas não guardo memória.

Alexandre O’ Neill dormia no cinema.

Pamela Ineichen, na Biografia Literária que Maria António Oliveira escreveu sobre O’Neill, conta:

Numa ocasião em Paris com o Artur Ramos e a Helena fomos ver um filme de Ingmar Bergman que estava proibido em Portugal, Como o Alexandre gostava de se sentar atrás, ficámos separados dos nossos amigos. Mal o filme começou, o Alexandre começou a ressonar. Era inútil tentar acordá-lo. À saída, o Artur perguntou-lhe o que ele pensava do filme. Qual não foi o meu espanto quando o Alexandre respondeu com toda a calma: «uma merda»! Ao chegarmos a casa disse-lhe: «Alexandre, francamente! Dormiste o filme inteiro, como é que pode s afirmar que o filme era uma merda?» «Se não fosse, não tinha dormido», respondeu-me ele com grande calma!

Recentemente, Manuel S. Fonseca confessava no blogue Escrever é triste:

Só vou ao cinema quando me ape­tece. Não tenho obri­ga­ções pro­fis­si­o­nais e se vou é por pra­zer. Vou e se me ape­te­cer dor­mir um boca­di­nho no meio de um filme, durmo. E perco, com dis­pli­cên­cia, mesmo fil­mes que são “fun­da­men­tais”, “essen­ci­ais” e ai meu Deus que com a arte não se brinca.
Brinca, sim senhor. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Mesmo que na vida, hoje, só pareça haver um fugidio tempo para a memória do tempo em que havia tanto, tão vagaroso tempo.

Manuel S. Fonseca, no Expresso

Legenda: pintura de Sue Krzyston.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

QUOTIDIANOS



Depois de no domingo voltarmos a saber o que é um dia de sol, o cinzento abateu-se, de novo, sobre a cidade.

Andamos para tirar uma série de fotografias, diariamente adiadas pelo tempo que tem feito.

Aproveitar, então, o dia para colocar recortes no arquivo, olhar os jornais atrasados amontoados ao canto da sala que mostram que cerca de 5% dos sem-abrigo de Lisboa têm um curso superior, que o trabalho escravo deixou de se circunscrever ao Alentejo e alastrou pelo país fora, que o sorteio, em que o governo, aos que pedem factura com  número de contribuinte, oferece automóveis topo de gama, parece convencer poucos consumidores, enquanto o dono de um pequeno cafés se lamenta que, enquanto está um cliente à espera que eu coloque os números no computador, estão quatro à espera que eu tire um café, que  juízes absolveram todos os arguidos do caso dos submarinos que umas dezenas de quadros de Miró, propriedade do BPN ,saíram ilicitamente de Portugal para serem leiloados em Londres, que o primeiro-ministro com aquela cara de sacaninha-pequenino diz que  estamos a caminhar para viver dentro das nossas possibilidades, que  a presidente da Assembleia da Republica sonha todos as noites com cravos a enfeitar chaimites, feitos pela Joana Vasconcelos para as comemorações do 25 de Abril, que a maioria dos bancos encerraram os seus exercícios com milhões de euros de prejuízo o que faz anunciar redução de salários e mais negociações para diminuir o número de trabalhadores, que os agentes culturais dizem que a cultura está a morrer em Portugal, que no final de 2013, o Estado tinha 563.595 trabalhadores, menos 22.000 do que no ano anterior, que ainda não se sabe se sairemos do estrangulamento troikiano  à irlandesa, ou se será uma saída limpa, seja lá o que isso for, apenas a certeza de que o que vier a suceder nos vai enterrar em mais austeridade, enquanto que Paquete de Oliveira, provedor do leitor do jornal Público, termina, deste modo,  um dos seus comentários:

O calendário que se segue é reinventar um país sem Eusébio.

O que me leva a regressar à leitura de um belo relato que Manuel S. Fonseca deixou no Escrever Triste:


Pé esquerdo puxa a bola para o pé direito e, corda invi­sí­vel, amarra o defesa louro. Pé direito devolve a bola para o bai­la­rino pé esquerdo e, raio laser de filme, há um guarda-redes imo­bi­li­zado. Pé esquerdo amo­roso, gen­til, inte­li­gente, cien­tí­fico, artís­tico, remata em vólei, colo­ca­dís­simo, colando a bola às redes junto ao poste esquerdo da baliza dos atur­di­dos, para­li­sa­dos, adver­sá­rios. Enzo Pérez, argen­tino, nas­cido em Men­doza, nas bor­di­nhas das Cor­di­lhei­ras do Andes, sabe que aca­bou de assi­nar uma obra-prima. Foi golo e Enzo corre, salta e abraça. A seguir, comove-se e deixa cor­rer uma lágrima. De ter­nura, saber-se-ia depois…

Será que amanhã vai continuar a chover?

Legenda: fotografia Duncan