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quinta-feira, 23 de maio de 2019

ETECETERA


Nasce uma igreja por mês em Portugal.
Em 15 anos, foram registadas 833 confissões religiosas. 97 surgiram nos últimos cinco anos.

1.

Esquecimento fatal em Baku. O judoca Anri Egutidze, representante de Portugal e candidato à vitória na categoria de 81 quilos na prova do Grand Slam, foi eliminado ao fim de 13 segundos quando, durante um movimento mútuo para derrubar o adversário, o telemóvel esquecido no quimono do judoca português caiu.

 2.

O primeiro-ministro israelita anunciou o início do processo para criar um novo colonato judaico no território sírio ocupado dos montes Golã, com o nome do Presidente dos EUA, que em Março reconheceu a soberania de Israel naquele território.

 3.

O trafulha Berardo disse na comissão de inquérito que lhe tinham pedido para ajudar os bancos.
Quando dava, como comentador, catequese aos domingos nas televisões, Marcelo Rebelo de Sousa, em 2007, elegeu Joe Berardo a figura do ano na economia portuguesa, pelo papel que tinha tido na definição do futuro do BCP.

4.

Quase cinco pessoas detidas por dia em processos de violência doméstica.
De 1 de Janeiro até 10 de Maio, a PSP deteve 247 pessoas e a GNR 382, mas o número final pode ser mais elevado.
Apesar das muitas detenções, a maioria dos inquéritos acaba arquivada. No ano passado, só 14,4% resultaram em acusação.

5.

Quase 1,8 milhões de portugueses estão em risco de pobreza e 17,3% da população, a maioria no norte e centro do país, sobrevivem com 467 euros por mês.

6.

Um homem de 32 anos morreu após ter sido esfaqueado no pescoço, na Praia da Rocha, depois de ter recusado dar um cigarro a outro homem.

7.

Tempos de crise.
Charo é uma prostituta amiga de Pepe Carvalho, detective dos romances de Manuel Vasquez Montálban.
Em Os Mares do Sul, Pepe pergunta a Charo:
- Como vai o negócio?
- Mal. Há uma concorrência tramada. Com isso da crise económica até as freiras se puseram a foder.                                   

quarta-feira, 15 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


- Há tempos costumava ler livros e num deles alguém tinha escrito: Gostava de chegar a um lugar de onde não quisesse regressar. Toda a gente procura esse lugar. Eu também. Há quem tenha léxico para expressar essa necessidade e há quem tenha dinheiro para expressá-la. Mas milhões e milhões de pessoas querem ir para o Sul.

Manuel Vásquez Montalbán em Os Mares do Sul

sábado, 7 de janeiro de 2017

LER PODE SER MELHOR QUE VIVER


Pode-se viver sem ler?

Pode, mas vive-se pior.

Há discursos sagrados em redor dos livros mas nada impede que Pepe Carvalho, o célebre detective de Manuel Vasquez Montalban, doente pelo Barcelona, bom garfo, amante de um bom cognac e um “puro” , também de boleros, admirador de mulheres nas “ramblas”, pusesse o detective de Manuel Vasquez Montalban, todas as noites acender a lareira com as páginas das suas leituras preferidas.

Num país de iletrados não é difícil encontrar ignorantes.

Pena é que sejam burros ao ponto de, orgulhosamente, afirmarem que nunca leram um livro, como se isso fosse uma prova de entrada no reino dos céus.

Números velhos, talvez de 2004, mostravam que 1 em cada 10 portugueses não sabe ler ou escrever. São os analfabetos absolutos. Depois há os alfabetizados (teoricamente) que não lêem (90% dos portugueses) e os que lêem, mas não sabem interpretar, nem assimilar o que lêem.

Conheço criaturas que frequentaram, ou tiraram um curso superior, sem ter um único livro em casa, mesmo do que andaram a cursar.

Como tudo isto acontece?

Diz quem andou por lá, que há estupendas “sebentas” nas nossas faculdades.

Cabe aqui a história do petiz a quem o Raul Solnado perguntou se gostava de ler e que lhe respondeu: “Evito!”
       
          Os nossos livros estão empoeirados
           canecas de cerveja ensinam melhor,
           a cerveja dá-nos  prazer,
           os livros só aborrecimentos.

Fia-te nos que gostam de ler, desconfia quando alguém te diz que não tem tempo para ler, dizia o meu avô, um leitor compulsivo.

Os pobres não lêem porque não têm meios e os ricos porque não querem.

É mais fácil passar o tempo a olhar para a televisão. Outros há que desviam o dinheiro que têm para outras prioridades: comprar um carro topo-de-gama, comprar uma casa na praia, férias em Punta Cana ou qualquer outro lugar exótico.

Lê-se porque sim, porque não se pode deixar de ler. 

A leitura é um hábito que, no entanto, necessita de constante exercício porque quando se perde o hábito de ler, a necessidade de ler, o prazer de ler, corre-se o risco de não se recuperar.

Não é bem como andar de bicicleta...

François Truffautt adaptou ao cinema um livro de Ray Bradbury: Farenheit  451.

Filme e livro perturbantes.

Ler é pecado, quem pensa é um fora da lei.

 Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, cantava o José Afonso,  Mao Tsé Tung  dizia que ler demasiado é prejudicial, Júlio César, na peça de Shakespeare, desconfiava de Cássio porque era magro e porque lia muito.

Escreveu Paul Valery que os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo, e o seu próprio conteúdo.

William Wrigley, milionário da pastilha elástica, ao mobilar o seu sumptuoso apartamento, em Chicago, deu ordens à secretária: Meça-me aquelas prateleiras e compre-me os livros suficientes para mas encher. Arranje-me uma data de livros de um verde e um encarnado vivos e com uma batelada de letras douradas. Quero uma vista catita.

Livros para completar a mobília, dizia o Eça de Queiroz.

Jorge Luis Borges afirmou que o paraíso, se existe, tem a forma de uma biblioteca e o poeta francês Stéphane Mallarmé sabia que tudo no mundo existe para se transformar em livro.

Nota do Editor: o título é uma frase do Jorge Silva Melo


Legenda: pintura de Di Cavalcanti

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Conesal é o protótipo dos novos ricos do novo regime democrático. É o self made man que trafica com as melhores influências; surpreende os tubarões falando-lhes a linguagem dos golfinhos e surpreende os golfinhos mordendo-os como um tubarão.

Manuel Vásquez Montalbán em O Premio

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

SARAMAGUEANDO


Em O Prémio o detective Pepe Carvalho, quinze anos depois, volta a encontrar Carmela em Madrid.

Manuel Vásquez Montálban, para descrever Carmela, em O Assassinato no Comité Central, inspirou-se em Pilar del Rio, que viria a ser mulher de José Saramago.

Esta é a parte evocativa em O Prémio:

Carvalho recordou as instruções dos comunistas que o receberam noa aeroporto: “Entra naquela cafetaria e verás uma moça sentadad a ler o Diário 16. Apresenta-te e ela vai-te acompanhar”. A rapariga entremeava boicadinhos de churro com um café pingado. Tinha as pernas bonitas embora magras e a franja permitia-lhe começar a cara com dois olhos esplêndidos, patéticos como a sua delgadez à Audrey Hepburn, sublinhada por um fato negro e lilás. Agora as pernas continuavam bonitas, embora mais carnudas, dentro das meias negras e transparentes. A fronte estava agora livre, muito alta e já não impunha a presença dos olhos, sempre bonitos e ainda que carregados por umas olheiras mais marcadas, mas que, talvez, pelas circunstâncias continuavam a ser patéticas.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Selvagens e Sentimentais

Javier Marías
Tradução: Salvato Telles de Menezes
Publicações Dom Quixote, Lisboa Junho de 2002

Vásquez Montalbán comentou há anos certeiramente que os indivíduos mudam de tudo menos de uma coisa. A ideologia, a religião, a mulher ou o marido, o partido político, o voto, as amizades, as inimizades, a casa, o carro, os gostos literários, cinematográficos ou gastronómicos, os costumes, as paixões, os horários, tudo está sujeito a mudança e mesmo a várias, que se sucedem com rapidez nos nossos tempos acelerados. A única coisa que não parece ser negociável é a equipa de futebol por que se tifa – como dizem em italiano – desde a infância. Tirando alguns vira-casacas impertinentes que na realidade não gostam desse desporto – já sabemos quem são, aqueles que se põem diante da televisão no dia da final do Mundial, para não ficarem arredados das conversas -, ninguém substitui por outro o clube dos seus calafrios. Pode ter-se maior ou menos simpatia secundária ou momentânea por esta ou aquela equipa, é possível admirara alguns jogadores alheios e cobiça-los; mas no que se refere a vibrar, sofrer e saltar de alegria, não há suplantação possível.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

ERAM FELIZES, SÓ QUE NÃO SABIAM...


- Contra o Franco estávamos melhor, Marga. Éramos uma sociedade civil com esqueleto crítico, estávamos contra, mas queríamos fervorosamente uma coisa: a democracia. Agora só sabemos que não queremos nada de tão importante como era acabar com a ditadura.

Manuel Vásquez Montalbán em O Prémio

domingo, 11 de novembro de 2012

IN VINO VERITAS


No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho.

Abriu o vinho novo, lia-se, nos meus tempos de miúdo à porta das tabernas de Lisboa, um ramo de palmeira pendurado e, para que não houvesse dúvidas: Directo do Lavrador.

Desde muito cedo ouvi dizer que Portugal ara um país agrícola.

E que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses.

Ninguém tem mais sede do que um bêbado.

Carne sem vinho não vale nada; vinho sem carne vale alguma coisa.

Nem comer sem vinho beber, nem assinar sem antes ler.

Coma até estar meio cheio e beba até estar meio bêbado.

O primeiro copo morde, o segundo beija e o terceiro abraça.

Quem bebe morre, quem não bebe morre, portanto o melhor é beber.

Do vinho e da mulher… livre-se o homem se puder…

É melhor morrer de bêbado do que morrer de sede.

Melhor beber e passar mal do que não beber e passar mal.

Fleming:: a penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes.

Louis Pasteur: o vinho é a mais sã das bebidas.

Benjamin Franklin: o vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes.

Na Bíblia pode ler-se que o vinho é o produto da terra e do trabalho do homem.

Nunca digas deste vinho não beberei.

Em tempos no Portugal profundo, conta quem por isso passou, que à falta de leite para as crianças, dava-se-lhes sopas de cavalo cansado: bocados, ou fatias de pão ocados de pão embebidos em vinho açucarado.



 Em Julho de 1983, havia 500 mil portugueses em regime de dependência directa do vinho o que, na Europa, nos colocava no segundo lugar logo a seguir à França.

Em Dezembro de 2000, um estudo concluía que Portugal era um dos cinco países da União Europeia em que o consumo do álcool aumentara nos últimos anos.

Em 2005 os portugueses enjeriam 2,8 milhões de litros de bebidas por dia, cada português, com mais de 15 anos bebia em média 115 de álcool. A cerveja era a bebida alcoólica mais consumida, seguida do vinho e de outras bebidas.

O raio da cerveja a sobrepor-se ao vinho.

Ainda hoje essa tendência se verifica.

Lembrava Manuel Vásquez Montalbán, que poderemos esperar de uma juventude que não sabe nem quer aprender a beber?

Só há uma coisa pior que beber – é não beber.

Shakespeare: um bom vinho possui a virtude: sobe-nos à cabeça e seca nela os vapores estúpidos, melancólicos e desabridos, torna o nosso entendimento sagaz, vivo e inventivo
Baudelaire: se o vinho desaparecesse da produção humana, creio que se faria na saúde e no intelecto do nosso planeta um vácuo, uma ausência, uma deficiência muito mais horrível do que todos os excessos e desvios que se considera o vinho responsável. Um homem que não bebe senão água possui um segredo a esconder dos seus semelhantes…

O capitão Kulkov, comandante de um cargueiro russo, dizia que num país de bêbados, alguém teria de permanecer sóbrio.

Mas não contem comigo!



Murmúrio de Mário-Henrique Leiria, saindo da redacção do República, pela porta das traseiras, a porta da tipografia: estou a morrer de sede por um gin-tónico.

O álcool dá vida à vida

José Gomes Ferreiras, numa das suas Heróicas:

Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho,

Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho.

Estando com os amigos, provado o vinho, poder dizer:

Que bela pomada!

Tenham um bom Dia de São Martinho!

Legenda:
a)      Cartaz da Junta Nacional doVinho, 1937
b)      Quadro de Amedeo Modigliani, Man With a Glass of Wine
c)      Quadro de José Malhoa, Os Bêbados

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CUIDADOS


Olha, Pepe, há que tratar das casas, senão caem-nos em cima.

Manuel Vásquez Montalbán em O Prémio

terça-feira, 18 de outubro de 2011

OLHAR AS CAPAS


O Prémio

Manuel Vásquez Montalbán
Tradução de Helen Ramos e Artur Ramos
Capa: José Serrão
Editorial Caminho
Lisboa, Março 1997

Era inacreditável, e inevitado por boa parte dos assistentes, atravessar o filtro de jornalistas mais ou menos especializados em prémios literários que vagueavam por entre os críticos e subcríticos estabelecidos que tinham acorrido para gozarem a sensação de que não eram como os outros e que podiam assistir à atribuição do Prémio Venice-Fundação Lázaro Conesal (cem milhões de pesetas, o mais valiosos da literatura europeia) apesar do desdém que sempre lhes merecera a relação entre o dinheiro graúdo e a literatura, ignorantes que uns sessenta por cento dos melhores escritores da História pertencem a famílias ricas e até poderosas. As câmaras de todas as televisões tinham registado a chegada das figuras mais conhecidas, seja por lhes conhecerem as caras, seja por receberem indicações do chefe da equipa, perito em saber quem era quem.

CHEGAR A UM LUGAR SEM QUERER REGRESSAR


Eram seis da tarde em Barcelona, meia-noite em Banguecoque, quando o coração de Manuel Vásquez Montalbán, deixou de bater.
À boa maneira policial morreu, num terminal do aeroporto, a aguardar uma ligação para Barcelona, onde esperava chegar a horas a Nou Camp para ver o seu Barcelona jogar com o Deportivo da Coruña.
O Barça, uma das suas muitas paixões, amante da boa vida, da boa mesa, da beleza das mulheres, que transportou todos os gostos e vícios para Pepe de Carvalho, um detective privado galego, a viver em Barcelona, que queimava livros para acender a lareira, os livros não são a vida, por mais que gostássemos que fossem, que sabia que quando uma mulher lhe chamava rico mio  de imediato o enrolaria num tapete,  porque é bom cair nos braços de uma mulher, mas melhor seria não ficar amarrado, não se morre de desejo mas não se regressa igual um Pepe de Carvalho para o cliente que lhe dizia que se ia matar. “será uma pena. Não evito suicídios. Só os investigo.
 Inexcedível gourmet, ex-comunista, duvida meu filho, da tua própria dúvida, desiludido com os caminhos que a esquerda passou a percorrer, passava ao lado dos clichés e, politicamente nada lhe corria como sonhara:
A esquerda centrada e centrista representada pela tendência dominante do PSOE, ajudou-me muito a reflectir sobre o papel do centro, De facto, não é outra coisa senão o maior buraco negro da história.

18 de Outubro de 2003
Sentado num terminal de aeroporto, a morte visitou-o, no momento em que, certamente, olhava o vazio, a memorizar mais uma das  aídas para Pepe de Carvalho:
- Como vai o negócio?
-Mal. Há uma concorrência tramada. Com isso da crise económica, até as freiras se puseram a foder.

domingo, 21 de novembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Assassinato no Comité Central

Manuel Vásquez Montalbán
Tradução: Manuel de Seabra
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote
Lisboa, 1982

- Interessa-te jantar com um comunista?
- Depende do que se jante. Além disso, bem sabes que não voto pelos comunistas.
- Arroz com amêijoas.
- E o vinho?
- Viña Esmeralda ou Watrau, segundo estejas com os humores adolescentes ou maduros.
- Adolescentes até à morte.
- Então Viña Esmeralda.
- O comunista é da facção aldrabice ou da facção nostálgica?
- Da facção gastronómica
- Já não sabem o que fazer para arranjar votos. Vou de smoking?
- Fato escuro

SARAMAGUEANDO


Ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher, dizem.

Sabe-se como Pilar del Rio conheceu José Saramago e o que desse encontro veio a acontecer.

Gostara muito de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e veio a Lisboa para fazer o percurso do livro: Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, Alto Santa Catarina, por aí fora. 

Telefonou a Saramago para o felicitar. Encontraram-se para um café, mantiveram correspondência e um dia ele perguntou-lhe se a podia visitar em Sevilha.

Na dedicatória de “Caim” Saramago escreveu:

“À Pilar como se dissesse água”.

Há-de também dizer que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que seria quando chegasse a sua hora.

Em “Uma Longa Viagem com José Saramago”,  diz a João Céu e Silva, que em “A Jangada de Pedra” existe a única referência autobiográfica que decididamente se lembra de ter colocado num dos seus livros.

João Céu e Silva há-de perguntar a Pilar del Rio:

“Quando leu os parágrafos de “A Jangada de Pedra” – e essa é a única parte da obra em que se está próximo do autobiográfico – que descrevem o vosso encontro o que é que sentiu?”.

Pilar responde-lhe:

“Quando os li reconheci a situação, mas não disse nada porque sei que o Saramago não deixa passar nada da sua vida privada para os livros. Calei-me e esperei que o José mo reafirmasse.”

As palavras encontram-se na pág. 119 de A Jangada de Pedra:

“Tem ali uma senhora à sua espera. Parou José à entrada da sala, viu uma mulher nova, uma rapariga, só pode ser esta, não há aqui outra pessoa, apesar de estar na contraluz dos cortinados das janelas parece simpática, ou mesmo bonita, veste calças e casaco azuis, de um tom que deve ser anil, tanto pode ser jornalista como não, mas ao lado da cadeira onde se senta tem uma pequena mala de viagem e sobre os joelhos um pau nem pequeno nem grande, entre um metro e um metro e meio, o efeito é perturbador, uma mulher assim vestida não se passeia pela cidade de pau na mão, Jornalista não será, pensou José Anaíço, pelo menos não estão à vista os instrumentos do ofício, bloco de papel, esferográfica, gravador.
A mulher levantou-se, e este gesto inesperado, pois está dito que as senhoras, segundo o manual de etiquetas e boas maneiras, devem esperar nos lugares que os homens se aproximem e as cumprimentem, então oferecerão a mão ou darão a face, de acordo com a confiança e o grau de intimidade e sua natureza, e farão o sorriso da mulher, educado, ou insinuante, ou cúmplice, ou revelador, depende. Este gesto, talvez não gesto, mas o estar ali, a quatro passos, levantada uma mulher esperando, ou, em vez disso, a súbita consciência de se ter suspendido o tempo enquanto não for dado o primeiro, é verdade que o espelho é testemunha, mas de um momento anterior, no espelho José Anaíço e a mulher ainda são dois estranhos, deste lado não, aqui, porque vão conhecer-se, conhecem-se já. Este gesto, este gesto de que antes não se pôde dizer tudo, fez mover-se o chão de tábuas como um convés, o arfar de um barco na vaga, lento e amplo, esta impressão não é confundível com o conhecido tremor de que fala Pedro Once, não vibram, de José Anaíço os ossos, mas todo o seu corpo sentiu, física e materialmente sentiu, que a península, por costume e comodidade de expressão ainda assim chamada, de facto e de natureza vai navegando, só o saiba por observação exterior, agora é por sua sensação própria que o sabe.”

Ainda por encontros, fica a saber-se, pela leitura de “Uma Longa Viagem com Saramago”, que Pilar del Rio inspirou a personagem Carmela no “Assassinato no Comité Central” de Manuel Vásquez Montalbán”.

 Pepe Carvalho conta assim:

“ – Entre naquele café e encontrará uma rapariga sentada a ler “Diario 16”. Apresente-se e ela   acompanha-o.
A rapariga combinava dentadinha de fartura com gole de de garoto, sem se ralar com a tonelagem de gente que tomava o pequeno-almoço à sua volta na sua extravagância de único ser humano sentado em todo o café.
- Teve boa viagem?
Depois no trajecto no carro propiciou uma amena conversa sobre o pouco que chovia ultimamente em Madrid e o muito que chovia dantes, por exemplo, quando ela era pequena. Tinha as pernas bonitas embora um pouco delgadas e a madeixa que lhe caía para atesta permitia-lhe começar a cara com dois olhos esplêndidos, com olheiras,  patéticos com a sua magreza à Audrey Hepburn, sublinhada pela roupa negra e lilaz.”

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


Os Mares do Sul

Manuel Vasquez Montalbán
Tradução: Manual de Seabra
Capa: Carlos Bravo
Biblioteca Visão
Abril/Controljornal/Edipresses
Lisboa, Novembro 2008

A viúva tinha-se levantado. Foi até ao cofre engastado atrás de um quadro de Maria Girona, abriu-o, preencheu um cheque, arrancou-o, entregou-o a Carvalho.
- Há cinquenta mil pesetas de gorjeta.
Carvalho assobiou, assumindo o papel de detective particular pago em dólares em Santa Mónica por uma cliente caprichosa.
- Que tudo fique entre nós os dois.
- É preciso aumentar o grupo: Viladecans, Adélia, a rapariga de San Magín, a sua família…
- Espero que não tenha contado nada à minha filha.
- Não. Nem poderei contar-lhe porque não voltarei a vê-la.
- Ainda bem.
- Esperava a sua alegria.
- Não sou uma mão possessiva, mas Yes está traumatizada pela morte do pai. Procura um pai.
- Estou a fazer-me velho, mas ainda não cheguei a essa idade em que a pederastia se encobre de desejos de rejuvenescer ou ao contrário.
Carvalho tinha-se levantado. Levantou uma mão semiaberta e deu-se por despedido. Mas à porta deteve-o a proposta da viúva:
- Não quer vir comigo aos mares do sul?
- Tudo pago?
- Com o que recebeu poderia pagar a viagem. Mas isso não seria problema.
À distância parecia mais frágil, mais pequena. De um tempo a esta parte, Carvalho tentava descobrir nos adultos as características e gestos que tiveram na adolescência e na infância. Isso parecia-lhe perigosamente indulgente. A viúva de Stuart Pedrell devia ter sido uma rapariga com toda a capacidade de entusiasmo deste mundo. Ainda havia mares nos seus olhos, e as suas feições maceradas evocavam o rosto de uma rapariga esperançada que desconhece como é breve a doença que separa o nascimento da velhice e da morte.
- Já não tenho idade para ser gigolô.
- Tudo lhe vem pelo lado sórdido: ou pederasta ou gigolô.
- Deformação profissional. Teria muito prazer em ir consigo. Mas tenho medo.
- De mim?
- Não. Dos mares do Sul. Tenho obrigações: uma cadela de meses e duas pessoas que de momento necessitam de mim ou julgam que necessitam.
- Será uma viagem curta.
- Há tempos costumava ler livros e num deles alguém tinha escrito: Gostava de chegar a um lugar de onde não quisesse regressar. Toda a gente procura esse lugar. Eu também. Há quem tenha léxico para expressar essa necessidade e há quem tenha dinheiro para expressá-la. Mas milhões e milhões de pessoas querem ir para o Sul.
- Adeus senhor Carvalho
Carvalho voltou a levantar a mão e saiu sem se virar.

domingo, 11 de julho de 2010

BOLAS PRÓ PINHAL!


Começou no dia 11 de Junho, terminou hoje.

A Espanha é o novo Campeão Mundial de Futebol.

Se fosse vivo, não sei se o catalão Manuel Vasquez Montalban estaria feliz. Possivelmente, sim. Nem que fosse pela circunstância de o seu Barcelona ser o esteio e o perfume da selecção espanhola.

Em Agosto de 1997, no “Le Monde Diplomatique”, Montalban escreveu um artigo que intitulou “O Futebol, Religião Laica Em Busca De Um Novo Deus”.

À boleia do “Euroxuto”, reproduzo um excerto desse artigo, que fica como a última “Bola Pró Pinhal” que, durante um mês, por aqui andou:

“Por isso os políticos cada vez ousam menos beliscar os clubes; não querem arriscar-se a ter de enfrentar um eleitorado organizado e virulento. O espectro do desemprego não provocará certamente uma nova tomada de Bastilha. Em contrapartida, afrontar os adeptos de um clube significa o risco de um novo assalto ao Palácio de Inverno. È bom não esquecer que um diferendo etno-futebolistico foi o detonador dos conflitos jugoslavos, e que uma simples ameaça administrativa contra o clube local pôs em pé de guerra toda a população de Sevilha em Maio de 1996.
Neste fim de milénio, o futebol apelidado de “ópio do povo” no tempo das ditaduras, tornou-se a droga dura das democracias. Permite responder à ausência de projecto das sociedades globalitárias e à parodoxal solidão das massas.”


Legenda: Nelson Mandela, e sua mulher, na festa de encerramento do Mundial da África do Sul.