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terça-feira, 14 de maio de 2019

FELIZMENTE EXISTEM OS LIVROS


Comprar livros pelos seus começos, comprar livros pelos seus finais, comprar livros por uma frase, uma página, comprar livros pelas capas, comprar livros, signo diário de quem privilegiado se constitui por ter nascido e vivido numa casa em que havia uma pequena  estante com livros.

Aqui pelo Cais estivemos para apresentar começos e finais de livros, mas depois optámos por Olhar as Capas porque englobava tudo.

Maria Gabriela Llansol, e o começo do seu livro no seu livro Na Casa de  Julho e Agosto:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Ocorrem-me, entre tantos e tantos, dois excelentes começos de livros de autores portugueses

O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado».

 Os Cus de Judas de António Lobo Antunes:

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

E obviamente não posso deixar de lembrar o magistral começo de O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca:

«Antigamente, o Largo era o centro do mundo.»

Todo este escrevinhar porque hoje, por mor de algo que precisava consultar, peguei em OsNus e os Mortos, grande livro de Norman Mailer que tem um começo muito bem conseguido:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

São assim os livros, nossos companheiros de todas as horas.

Ou como escreve José Saramago em A Caverna:

«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los  numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»

Foi o que aconteceu com o livro do Norman Mailer.

E, de repente, saltou o começo.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

E AÍ PARECE QUE SOU SUFICIENTEMENTE BOM


Manuel da Fonseca, num dos seus poemas, deixou lavrado que os místicos andaram pelos séculos construindo noites geladas solidões.
Toda uma vida, se bem que haja breves lampejos de alguma felicidade, Mário-Henrique Leiria transportou aos ombros do seu débil corpo, geladas solidões que nem os amigos, os cigarros, os seus fiéis leitores, o gin, conseguiram aliviar.

Desde Carcavelos, em 17 de Dezembro de 1974 – Ah! o Natal! sempre o Natal - , corta a direito:

Acabo de receber a tua carta. O teu cartão. O teu cheque. Não sei bem que te dizer. Cartas tuas, todos os dias, se quiseres. Cartões também. Cheques, querida menina, faz-me o favor: não repitas. Olha que não é ingratidão, não é mesmo. Estou comovido e impressionado. Mas, Isabel, tenho um vício e um orgulho só aceito aquilo que obtenho por briga, seja ela qual for. Aceito o teu amor, todo, Obtive-o. É o que quero de ti. O teu dinheiro não posso. É teu e és tu quem o obtém. Percebes? Creio que sim. E agora, obrigado mesmo pelo cheque. Aliás veio a calhar, parece que a Jovília tem que ser operada em breve e sabes como são as coisas neste excelso país.
Eu aqui, desiludido (aliás já é costume), Estou retraído, à espera. Sabes bem que as coisas se fazem até ao fim, ou não se fazem. E por cá tudo vai pelo meio termo. Não aceito um socialismo que o não é, tal como nunca aceitei a tal democracia com escravos e tudo. Talvez eu seja radical demais (ou excessivamente honesto) para entrar no jogo. De jogos, só gosto de poker e aí parece que sou furiosamente bom. Mas só poker, mais nada.
Demiti-me de tudo. Estou só- Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.
Bem, deixemo-nos disto.
Cá por casa há frio. O malvado Vodka morde em toda a gente. Ainda bem.
A mãe, muito velhinha e cansada.
A Jovília continua com análise, biópsias, radiografias. Tem dores e chateia toda a gente. Deve ter que ser operada, não sei a quê. Nem estou interessado em saber.
Eu, dores de cabeça de manhã à noite, reumatismo excelente e incapaz de escrever. No entanto tenho mesmo de escrever as habituais besteiras para os jornais. Questão de dinheiro, mais nada.

domingo, 24 de setembro de 2017

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A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

domingo, 9 de julho de 2017

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Cada vez me espanto mais com os recortes que guardei ao longo dos anos sobre as coisas mais variadas e muitas – hoje – inexplicáveis.

Não é o caso do Suplemento Literário de A Capital dos dias 20 e 27 de Agosto de 1969.

Bons tempos em que havia suplementos literários, havia divulgação cultural, havia, boa ou má, crítica literária.

Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para o suplemento de 20 de Agosto:


Poemas e poetas antologiados:

Identidade – Miguel Torga
A Bicicleta pela Lua Dentro – Herberto Helder
XXVII – José Gomes Ferreira
Renúncia – Florbela Espanca
Fado para a Lua de Lisboa – David Mourão-Ferreira
Noite de Verão – Manuel da Fonseca
Noite Fechada – Cesário Verde
17 – João Apolinário
Apolo – Sebastião da Gama
Quando a Lua Vier Tocar-me o Rosto – Ana Hatherly
Lua – Sophia de Mello Breyner Andersen

Do poema de Manuel da Fonseca os Trovante fizeram uma canção que consta do álbum «Terra Firme» de 1987:



 Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para os depoimentos que solicitou:


Responderam ao inquérito:

José Gomes Ferreira, João Rui de Sousa, E,M, de Melo e Castro, David Morão-Ferreira, Maria Alberta Meneres, Manuel da Fonseca, Ana Hatherly.

Do depoimento de Maria Alberta Meneres:

«Nunca me preocupei com o lugar que a Lua tem ou não ocupado na minha poesia. Mas hoje, 14 de Agosto de 1969, lembrei-me de me preocupar. E descobri esta coisa espantosa, de perfeitamente inesperada: em vez de me ter sentido atraída, parece que devo ter tido sempre um certo medo da Lua!
Para mim agora a Lua é essencialmente um lugar. Não sei se os poetas continuarão a falar nos seus poemas da Lua de que falavam, ou de outra Lua de nunca falaram, nem sei mesmo se seria da Lua que eles falavam quando falavam da Lua. Eles o saberão ou não.
Eu apenas sei de mim: porque hei-de deixar de falar da Lua nos meus poemas, quando me apetecer, se a Lua sendo um lugar, pode ser meu caminho de passagem para outros lugares?»

Este é o depoimento escrito que José Gomes Ferreira enviou para Maria Teresa Horta:

quinta-feira, 23 de março de 2017

MARIA CAMPANIÇA


Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
Mas o jeito
das mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que quero ver nascer o sol!

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: serigrafia de Cipriano Dourado

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

QUOTIDIANOS


Há 30 anos, abria a primeira loja Continente.

Vem sempre à baila O Fogo e as Cinzas do Manuel da Fonseca, um dos inolvidáveis começos de livros da literatura portuguesa:

Antigamente o largo era o centro do mundo.

José Saramago deixa a nula apetência por centros comerciais, no romance A Caverna.

O centro comercial ocupa um espaço exagerado, no quotidiano das pessoas. 

Acabou-se a praça, o jardim ou a rua, como espaço público de convívio, de afectos.

O Jornal de Notícias perguntou ao escritor e jornalista César Príncipe o que o irritava profundamente:

Um país de grandes superfícies comerciais e de pequenas superfícies culturais.

António Lobo Antunes, numa das suas crónicas, fala dos passeios nos centros comerciais, aos domingos, depois do almoço:

Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a amedalha por fora, a Fernanda sobe o fato de treino e põe os dois fios de oro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria da Azóia e passamos o domingo no Centro Comercial.

sábado, 24 de outubro de 2015

33 ANOS



33 Anos sem Adriano Correia de Oliveira.

Capa e contra capa do álbum «Que Nunca Mais» gravado e, 1975.
Músicas de Adriano Correia de Oliveira para poemas de Manuel da Fonseca.

Para ilustração escolhi «Recado para Helena».


quinta-feira, 25 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Um lar é a base da cidadania.

Manuel da Fonseca

quarta-feira, 11 de março de 2015

UM HOMEM SÓ NÃO VALE NADA


Manuel da Fonseca.

Alentejano de Santiago do Cacém onde nasceu no dia 12 de Outubro de 1911.

Considerava-se um vagabundo sem noção do tempo, um simples contador de histórias, como um dia, à conversa com Maria Teresa Horta, disse. Escritor era algo que não lhe soava bem, tique de quem nunca se levou muito a sério. Augusto Abelaira contraria-o e declara que Manuel da Fonseca é um grande escritor. Sem mais. Sem menos. Ou, no dizer de Mário Sacramento, um Bertold Brecht que se ignora como tal.

São as pequenas coisas que conquistamos na vida e que, às vezes, têm o tamanho do nosso amor por elas, que nos levam para a frente, para outras derrotas, para outras pequenas vitórias.

O Homem e a sua luta por um mundo mais justo. Uma luta, por vezes, tão solitária.

Morreu a 11 de Março de 1993.

António LoboAntunes prestou-lhe uma lindíssima, e comovida, homenagem.

Está publicada no 1º volume das Crónicas:

Conhecemo-nos há muitos anos na festa do Avante metidos numa tenda como as cartomantes a autografar romances e a comer a poeira internacionalista da Ajuda. Lia-te desde a adolescência. Recordo-me da Seara de Vento com a capa do pintor Vespeira, de encontra alguns dos teus poemas na antologia que Jorge de Sena fez das líricas portuguesas. Encontrámo-nos no pó. Gostei do teu sorriso. Ficámos amigos. Jantávamos em tabernas do Bairro Alto e em restaurantes chineses, iluminavas o shop-suey com os teus olhinhos divertidos, passeávamos noite fora pela Praça das Flores e às quatro, cinco, seis sete da manhã deixava-te no Cais do Sodré porque nunca consentiste que te levasse ao Seixal, e eu ficava a ver-te afastar de boné de guarda-redes na cabeça na direcção do primeiro barco ou do último tasco, onde os travestis de voz subitamente grossa escondiam a sementeira da barba sob um reforço de cremes. Tu falavas e eu ouvia. Às vezes abria a boca para perguntar
- Tens escrito?
tu respondias depressa de mais
-Claro que sim
e eu sabia que não era verdade, que não trabalhavas, que talvez de tempos a tempos te sentasses à mesa em Santiago, diante do papel, mas havia qualquer coisa, não sei bem o quê, que te impedia de escrever, uma amargura que o pudor não deixava revelar, a dor de não te darem a importância e o lugar que eram os teus, o reconhecimento que neste país de oportunidades e de modas ofereciam a outros que não tinham o talento de começar uma história com a frase soberba Antigamente o largo era o centro do mundo, oito palavras sábias e mágicas que valem centenas de páginas que para aí se publicam.
De maneira que quando chegava a Feira do Livro, postava-me junto à barraquinha do teu editor, arengava às pessoas para comprarem os teus livros, agarrava-as pelo braço, mostrava-lhes o Cerromaior, mostrava-lhes a Aldeia Nova no tom dos vendedores de xarope para o cancro da Feira da Ladra, e ao fim do dia descíamos o parque, eu sempre a gritar
- Uma tarde estava eu na Praça da Liberdade chega um cavalheiro à minha beira e diz. Você está medalhado. Medalhado eu que não pratico ciclismo atletismo ou alpinismo? Medalhado sim porque com os romances do Manuel você tirou a bicha do corpo daquela criança, aquela maldita que a roía
e tu a rires ao meu lado até o crepúsculo se fechar sobre nós como uma redoma em cima de dois santinhos de barro, cada qual com o seu cálice de ginja num balcão dos Restauradores que é onde os santos se abastecem para a travessia da noite. De cotovelos no tampo de pau cheio de riscos e de auréolas roxas de copos de vinho perguntava-te
- Tens escrito?
e tu
- Claro que sim
e eu
- A sério?
e tu de pálpebras apertadas muito convicto
- Alguma vez te menti?
Parece que esta semana ouve imensa gente a visitar-te. Eu não. Primeiro porque seria de mau tom perguntar se tens escrito diante de uma data de estranhos. E segundo porque fiquei perto do telefone à espera de ouvir a tua voz do outro lado a convidar-me para o nascer do sol na Ribeira, sobre as chávenas de cacau da madrugada.
Ainda aqui estou ouviste? E mesmo que me garantam que te levaram dentro de uma caixa para Santiago não saio do pé do aparelho já que sei
(foi sempre assim)
que daqui a nada vais chamar-me.

domingo, 8 de março de 2015

POSTAIS SEM SELO


uma de vós, esta noite,
esqueça tudo que lhe ensinaram,
abandone o bordado e o estudo do piano
e seja, simplesmente mulher.

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1974


1 a 15 de Outubro

DEPOIS DE ASSUMIR as suas funções, o Presidente da República, General Costa Gomes, conferiu posse ao III Governo Provisório chefiado pelo Brigadeiro Vasco Gonçalves,

PALAVRAS FINAIS do discurso de posse de Vasco Gonçalves:


NUMA CRÓNICA publicada na 1ª página, José Carlos de Vasconcelos, sub-director do Diário De Notícias, chamou-lhe Um Domingo Vestido de Povo e citava o poeta Manuel da Fonseca:

Quando chega domingo
faço tensão de todas as  coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

AINDA NA 1ª página do Diário de Notícias de 7 de Outubro:


VITOR DIREITO na sua secção, De Vez em Quando, do República:


JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA no Diário de Lisboa:

A grande tarefa, a tarefa prioritária, neste momento em Portugal, consiste em esclarecer a maioria da população, em tirá-la do silêncio sortudo em que desde sempre viveu – Zé Povinho e bode expiatório de um país legal que lhe tirava as terras, servia as missas e matava os filhos!...


 Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa, Discusros de Vasco Gonçalves

segunda-feira, 21 de julho de 2014

NOITE DE VERÃO


Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
… aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
– mas baixa os olhos se algum homem passa…

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

sábado, 19 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Digam à minha neta! Digam-lhe que ela tem razão! Um homem só não vale nada!

Manuel da Fonseca

sexta-feira, 18 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL



P’ra tudo quanto é nascido
dizem que o sol alumeia,
mas uns têm a casa cheia
e outros o chão varrido!
Está isto mal dividido,
o mundo está mal composto,
uns vivendo com desgosto,
outros com muita alegria;
p’ra estes é sempre de dia
p’ra mim é sempre sol-posto!.

José da Graça Cabrita, poeta de Santa Luzia e, segundo Manuel da Fonseca, analfabeto.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

DAS MORTES DE PACHECO


Em 1995 Luiz Pacheco tinha 70 anos.

Numa entrevista de Março desse ano, feita por Mário Santos para o Público, lamentava-se que já andava por cá a demorar-se.

Morreu no dia 5 de Janeiro de 2008, mas José Gomes Ferreira, em 22 de Setembro de 1967, escrevinhava nos seus Dias Comuns que Pacheco tinha pouco tempo de vida.

Assim:

Em casa do Fafe, o Palma-Ferreira – que ontem falou pelos cotovelos – contou inúmeras histórias deste e daquele. Mas só uma me trespassou do peito às costas: a do Luís Pacheco que, segundo parece, pouco tempo tem de vida.
Coitado! Apodrece na mais extrema miséria e – pelo menos o palma-Ferreira teimou nesta afirmação terrível – anda à procura de comida pelos caixotes.
Senhores! Como é que um homem tão dinâmico, audaciosos e com a coragem da sinceridade (a que não faltava certa frescura de talento) se desprezou tanto e se deixou afogar até ao coração da lama?

José Gomes Ferreira morreu em 1985 e João Palma-Ferreira em 1987.

Ainda no ano de 1995, em Dezembro, Cláudia Galhós entrevistou Luiz Pacheco para o Blitz e lembrou-lhe:

Anda há quarenta anos a ameaçar que morre e afinal está a enterrar todos os outros…

Não se sabe o que o Pacheco terá pensado da pergunta, mas respondeu:

Deixe-os ir. Os que vão á minha frente vão todos bem. Há uns o Saramago teve uma pataleta e eu liguei-lhe logo: «Tu não te deixes morrer que ainda temos de ir juntos ao funeral do Pires.» (Nota do editor: e foram! - José Cardoso Pires morreu em 1998) Há gente da minha idade que passa o tempo nos médicos, nos exames, nas análises. Eu devo ter dez doenças mortais mas só me apanham lá em último caso.

Pacheco numa das suas muitas entrevistas, citando Manuel da Fonseca, dizia:

Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.

Ou ainda, Setembro de 2005, o Rodrigues da Silva, a perguntar-lhe:

Pensas na morte?

Ele a responder:

Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar. 

Legenda: fotografia de Rui Ochôa.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O HOMEM DO MALBORO


Soube-se hoje que Eric Lawson, um dos muitos rostos da publicidade para os cigarros Marlboro, morreu, com 72 anos, no passado dia 10.

Fumava desde os 14 anos e torna-se no terceiro homem da Marlboro a morrer de cancro.

Fumar mata, sabe-se, mas alguns continuam a fumar.

A mulher de Eric Lawson disse aos media norte-americanos que ele sabia que os cigarros o estavam a matar, mas não conseguia parar.

Escolhas.

Uma coisa é certa: a vida lança-nos, quando muito bem quer, para os braços da morte. 

Só não sabemos nem o dia nem a hora.


O escritor Manuel da Fonseca, amiúde, dizia: Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.

domingo, 18 de agosto de 2013

EI-LO QUE VOLTA!


Ainda ontem me ouvi dizer: o futebol, tal como eu o comecei a ver, já não existe.

Deixou de ser um belo espectáculo, a inteligência em movimento, como escreveu Albert Camus, para passar a ser um excelente negócio, com laivos de máfia guardados em cada transferência de jogadores.

O futebol regressou.

Tal como escreveu Mário Castrim, Jornal do Fundão, 16 de Julho de 1972, num contexto de época, mas que pode muito bem estender-se por todos os tempos:

Digo também eu que o futebol é uma arama poderosa mas mãos dos políticos os quais se servem dele (como de outras coisas) para distrair a atenção popular, para a dividir e até para baixar o nível de exigência.

Pois, o futebol regressou.

Tal como Manuel da Fonseca deixou vincado num poema em que fazia tenção de, chegando domingo, tentar as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.

O meu amigo, que era pintor,
Contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
Quando chega domingo,
Não há nada melhor que ir para o futebol…

Saúde-se, apesar de tudo, o regresso do futebol.

Não podendo deixar de dizer das saudades que já tínhamos de ouvir aquela frase tão querida dos jogadores, quando a derrota lhes bate à porta:

Há que levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo.

Legenda: adeptos do Benfica vaiando a equipa, após a derrota de hoje no Funchal.

Imagem de A Bola.

domingo, 21 de julho de 2013

A VOZ DA TERRA ALENTEJANA


Lisboa, Novembro de 1945, João José Cochofel em Opiniões Com Data:

Uma casual deambulação lírica pela cidade, na companhia do Manuel da Fonseca, acabou por levar-nos até à beira-rio, à hora em que os barcos da outra banda entornam sobre o Terreiro do paço a mancha negra de gente que rebressa de um dia de trabalho. Um pequeno grupo de homens do povo e de soldados adiantou-se a cantar. Alentejanos, sem dúvida alguma. E mais não foi preciso para que o Manuel saltasse para o meio dos desconhecidos e, sem hesitação, juntasse a sua voz à dolorosa voz colectiva da terra alentejana, ali orgulhosamente ostentada. Vieram-me as lágrimas aos olhos, de espanto e comoção. Mas com os alentejanos é assim. Está-lhe na massa do sangue. Todos os pretextos lhe servem para o canto em comum. Uma polifonia bárbara, de raiz ancestral e apreendida por instinto de geração em geração, quando muito reditível a arquétipos, mas insubmissa a regras.

José Gomes Gomes Ferreira tem um poema que diz que nunca viu um alentejano cantar sozinho.

Nunca vi um alentejano a cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta,
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.

Não me parece pois necessária
 outra razão
-ou desejo
de arrancar o sol do chão-
para explicar
a reforma agrária
do Alentejo.

É apenas uma certa maneira de cantar.

Legenda:

Opiniões com Data, João José Cochofel, Editorial Caminho, Lisboa Outubro de 1990.
Poeta Militante, 3º volume, José Gomes Ferreira, Moraes Editores, Lisboa Janeiro de 1978.

terça-feira, 2 de julho de 2013

POSTAIS SEM SELO


Avançando, coxia fora, noto pela primeira vez que há poucos passageiros. Sento-me no meu lugar, abro o jornal. Não consigo concentrar-me. Os pensamentos afastam-se da leitura. Lembro-me da família, os vizinhos, a vila, neste instante tão perto do comboio onde viajo. Teimo em ler. Mas, as recordações voltam. Nítida, ressoa-me na memória uma voz familiar:
- Olha que não deves ler nos comboios. Ou noutros meio de transporte.
- Porquê, tia?
- Porque pode provocar um descolamento da retina.

- Manuel da Fonseca em Crónicas Algarvias

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

RECORDAR É MORRER



Há 106 anos nascia, em Tomar, Fernando Lopes Graça.

Sabe, recordar é morrer, não tenho nada essa tendência para o passado.

Já um seu companheiro de lides culturais e revolucionárias, José Gomes Ferreira, deixou expresso em A Memória das Palavras:

Saudades, só do futuro!

Legenda: Fernando Lopes Graça com José Gomes Ferreira e Manuel da Fonseca, durante uma manifestação.