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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Crónicas Algarvias

Manuel da Fonseca
Capa: Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Dezembro de 1986

Avançando, coxia fora, noto pela primeira vez que há poucos passageiros. Sento-me no meu lugar, abro o jornal. Não consigo concentrar-me. Os pensamentos afastam-se da leitura. Lembro-me da família, os vizinhos, a vila, neste instante tão perto do comboio onde viajo. Teimo em ler. Mas, as recordações voltam. Nítida, ressoa-me na memória uma voz familiar:
- Olha que não deves ler nos comboios. Ou noutros meio de transporte.
- Porquê, tia?
- Porque pode provocar um descolamento da retina.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Cerromaior

Manuel da Fonseca
Capa: Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa Dezembro de 1943

Mas a maior parte dos camponeses já havia feito as compras e enchera as vendas do largo. De quando em quando, atraídos pelas gargalhadas dos que estavam de fora, chegavam às portas.
O motivo do riso era a loucura mansa do aguadeiro, já bêbado, de fralda de camisa fora das calças, ajoelhado diante do burro.
- O meu burro é um santo!
Cada domingo, a bebedeira trazia novos aspectos à doidice do Zé da Água. Perante as gargalhadas gerais, obrigava o burro a bater com as patas repetidas vezes no chão enquanto agitava ele os pés descalços, num compasso marcado.
Estavam dançando o fandango. Por fim parou. Um sorriso alvar escorria-lhe do rosto e dos olhos aguadas e era, num momento, substituído por tal expressão de espanto que os olhos mortiços se lhe abriam atónitos:
- Ganha-me o pão e ainda dança que nem um homem! Que é o meu burro?!...Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo: É mais esperto que vocês todos juntos! Ajoelha de novo, põe as mãos e atira a voz para as alturas: Nosso Senhor mo guarde!... 
Continua a falar e o animal segue-o, rua acima. As bilhas vão escorrendo, duas de cada lado da albarda. De súbito, Zé da Água salta e dá punhadas no peito, enquanto grita para o largo:
- É mais esperto que vocês todos juntos!
Ajoelha de novo, põe as mãos a atira a voz para as alturas:
- Nosso Senhor mo guarde!...
Mas os rapazes aparecem de todos os lados em grande alarido. Querem demorar a cena:
- Xô, burro! Aí, xô!
No largo e na rua ressoam risadas até o aguadeiro desaparecer.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

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Aldeia Nova

Manuel da Fonseca
Capa: Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Junho de 1984

Rui enchia o peito de ar, lavava-se no sol. Mas já ia correndo rua abaixo. Uma grande vontade de correr. Onde estaria o Tóino e os outros? Ah! diria a avó que não queria voltar mais àquela casa! E diria também ao Estroina. Talvez lhe dessem razão… Deixassem-no andar, assim à sua vontade. Deixassem-no correr. Correr era bom. O bibe abria-se para os lados como asas. Deitava a cabeça para trás; o chão fugia-lhe debaixo dos pés. Nem via as casas, só o céu por cima dele. Entontecia, sentia-se livre como um pássaro. Se a mãe estivesse, não sereia nada daquilo a sua vida, não. A mãe deixava-o ser livre como um pássaro. Diria tudo isso ao avô: «Avô, desde que a mãezinha partiu, sinto-me preso como um pássaro numa gaiola!» Mas o avô não compreenderia as suas palavras. Nem a avó, nem o Estróina, ninguém!... O melhor era ir correndo, correndo sempre, correndo até tombar de cansado.

domingo, 24 de setembro de 2017

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Um Anjo no Trapézio

Manuel da Fonseca
Capa: Pilo da Silva
Colecção de Autores Portugueses nº 11
Prelo Editora, Lisboa 1968

O súbito acender das luzes da sala desfez o encanto. Houve como que uma surpresa e o alívio de ter sido de outros aquele drama. Recuperados, não por completo mas o suficiente para escaparem ao sortilégio, todos se encaminharam para as saídas. Pelo átrio, ainda a perturbação os acompanhava. No entanto, já procuravam descobrir qualquer assunto que os libertasse de vez. Era-lhes necessário chegar à sua o mais depressa possível.

sábado, 12 de agosto de 2017

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O Fogo e as Cinzas

Manuel da Fonseca
Colecção Os Livros das Três Abelhas nº 7
Publicações Europa-América s/d

Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a Vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido; o pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila.

terça-feira, 22 de abril de 2014

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Seara de Vento

Manuel da Fonseca
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 39
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1962

- O pai não devia ter ido com o Galrito.
- É o que eu penso. Mas nem cheguei a dizer nada. Ninguém me dá ouvidos nesta casa…
- Deixem-se disso! – interpõe com aspereza Armanda carrusca. – Eu acho que ele fez muitíssimo bem. Pois! A gente não pode é continuar assim.
- Não podemos, não. Mas o pai faz mal. Houvesse o que houvesse, ele nunca se devia ter metido com esses tipos. Demais, eu já lhe tinha dito que os homens andam a combinar uma ida à vila para pedirem trabalho.
- Lá vens tu com as tais ideias!...
Bonito! Isso de irem todos à vila, como um bando de mendigos, há-de dar um grande resultado… Que cada um tarte de si, e já lhe chega!
- A gente tem visto, avó – Mariana tira os pés das proximidades das brasas e endireita o tronco, muito séria. – Temos visto o que eles conseguem, o pai e os outros, cada um para seu lado. Convença-se de uma vez para sempre que só todos juntos hão-de alcançar alguma coisa. Um homem sozinho não vale nada.
- Não digas mais! Eu já sei o resto de cor e salteado!... Loas, rapariga, tudo isso são loas! Não há que ver, deram-te volta aos miolos. Que perderá o teu pai em ir ganhar uns escudos para que haja comida nesta casa
- Perde. E muito, fique sabendo. Até hoje, ainda há quem acredite que foi sempre honesto e que nunca roubou nada a ninguém. Mas, amanhã, quando se vier a saber onde vai arranjar dinheiro, quem é que acreditará nele?

sábado, 15 de outubro de 2011

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Poemas Completos

Manuel da Fonseca
Prefácio: Mário Dionísio
Capa: sem indicação de autor
Colecção  Poetas de Hoje nº 7
Portugália Editora, Lisboa, Abril 1963

Mataram a Tuna

Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve.
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar...)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

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À Lareira, Nos Fundos da Casa Onde o Retorta Tem o Café

Manuel da Fonseca
Capa de Armando Alves
Editorial Caminho, Lisboa, Agosto 2000

“- Traga a caldeirada. Mas, ao menos, espero que seja boa.
A frase soou a Daniel como uma ofensa.
- Maria! – gritou ele – Traz daí uma panela cheia! – e para o sujeito: - Aposto que nunca comeu na sua vida caldeirada como as que eu preparo!
- É o senhor que as prepara? – interrogou o sujeito.
De olhos semi-cerrados, Daniel soltou uma gargalhada:
- E então? Que é que as mulheres além do que é próprio delas, sabem fazer bem feito? Nada!”