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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CHÁ NUM ABRIL CHUVOSO


Assinado por Paulo Lourenço, o Jornal de Notícias publicou um trabalho sobre o fechar de portas da histórica Casa Pereira no Chiado, intitulado. «O adeus à casa de onde saiu o chá que acalmou Marcelo Caetano».

Respiga-se este pormenor:

«Sorridente, Lemos pai - natural da zona de Vila Real, apesar de desde muito novo radicado em Lisboa - recorda as vivências ao balcão. Questionado sobre se assistiu ao cerco de Salgueiro Maia ao Quartel do Carmo (que fica a uns escassos 300 metros), no 25 de Abril de 1974, acena negativamente com a cabeça, mas revela um pormenor inédito acerca desse dia: "Fechei a casa e fui-me embora. Mas antes ainda atendi um militar da GNR que veio cá buscar um chá para o presidente do Conselho, Marcello Caetano se acalmar".»

sábado, 5 de outubro de 2019

RELACIONADOS


Prestava serviço militar obrigatório no Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Raínha e, por esse motivo, uma qualquer entidade recensearam-me nessa cidade.

Se fossemos votar, tinham-nos avisado de que os nossos votos seriam rigorosamente vigiados.

Decidimos na mesma ir votar em força na Oposição Democrática.

Sabíamos da inutilidade dos nossos votos, mas isso era uma outra história.

Se nas sessões de instrução nocturna fazíamos, em lugar das balelas militares, a leitura de poemas de A Praça da Canção de Manuel Alegre, aquele domingo não era tempo de assobiar para o lado.

Ainda na noite das eleições, o comandante da unidade foi informado da expressão do voto dos milicianos na CDE. O número (cerca de 80) permitiu que não houvesse graves consequências. Quem daria instrução no dia seguinte?

Mas, obviamente, a PIDE ficou a saber das nossas opções políticas.

Copio da Wikipédia:

«As eleições legislativas portuguesas de 1969 foram as primeiras realizadas após a saída de António de Oliveira Salazar da Presidência do Conselho. Decorreram num clima de aparente abertura política, designado por Primavera Marcelista. Realizaram-se no dia 26 de Outubro, tendo concorrido quatro listas: União Nacional ("Lista A"), Comissão Eleitoral de Unidade Democrática ("Lista B"), Comissão Democrática Eleitoral("Lista D") e Comissão Eleitoral Monárquica ("Lista C"). A União Nacional elegeu a totalidade dos 130 deputados, obtendo 980 mil votos. As listas oposicionistas obtiveram somente 133 mil, não conseguindo , no quadro do sistema eleitoral maioritário e plurinominal, eleger qualquer deputado para a Assembleia Nacional.»

Para que a farsa dessas eleições fosse completa, Salazar, em estado vegetal. foi votar. 

Na fotografia que encima o texto, Salazar encontra-se ladeado por uma enfermeira e pela governanta Maria.

As eleições realizaram-se no dia 26 de Outubro de 1969 e no dia 24 Marcelo Caetano dirigira-se à Nação.

São estas as palavras finais da comunicação:


Ficam os títulos dos jornais no dia seguinte às eleições:

Diário de Notícias:

«O Primeiro Grande Resultado da Eleição de Ontem: Vitória do Civismo.

Afluência record e ordem completa.

A Oposição Não Conseguiu Vencer em Nenhum dos Círculos em que se Apresentou e a Assembleia Nacional Será Constituída pelos Deputados que Eram da União Nacional.»

O Século:

»A Expressiva Vontade da Nação: «Sim» ao Prof. Marcelo Caetano.»

Diário da Manhã:

Esmagadora Vitória da Nação Sobre as oposições Ditas Democráticas.

Em números toscos refere-se que, da população maior, em cada 1000, 700 não estavam recenseados; dos 300 recenseados, 115 abstiveram-se, 162 votaram pela União Nacional e 22 pela Oposição Democrática.

Recorde-se, que Mário Soares realizou o seu primeiro acto público de divisionismo constituindo a CEUD contra a CDE.

A ditadura apreciou o sinal. 

Não que os votos da CEUD, juntamente com os da CDE, servissem para eleger um deputado, os dados estavam antecipadamente viciados, mas, como diria o outro, «não havia necessidade!»

Outras histórias!

sábado, 2 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Outro Tempo Outra Cidade

Mário Ventura
Capa: Manuel Dias sobre «A Parábola dos Cegos» pintura de Brueghel
Livraria Bertrand, Lisboa. Novembro de 1979

Um dia há-de dizer-se que nunca existiu em Portugal um verdadeiro fascismo. E isso só servirá para encobrir uma amarga verdade: a de que todos, mas todos estivemos envolvidos e comprometidos nesta farsa trágica que se abateu sobre nós. Quando não se pode transformar a sociedade em que vivemos, porque nos falta a força para isso ou por não o desejarmos com muita intensidade, acabamos por aceitar, involuntária mas resignadamente, que ela nos transforme e corrompa. Porquê e como, é uma coisa que não se sabe nem se pode sentir. Vê tu como este palhaço do Marcelo Caetano, que chegou a iludir e a manter em expectativa tanta e tão boa gente, crente de que o fascismo se deixaria liberalizar, acabou decorrido um a afalar das colónias e da guerra:
«O bom combate é o de poupar a nossa África às calamidades das independências fictícias, proclamadas por meio de autodeterminações ilusórias que, em homenagem a mitos reinantes, sacrificam os verdadeiros interesses dos povos e comprometem a paz no mundo.»

sábado, 7 de outubro de 2017

UM DITADOR TELEVISIVO


29 de Setembro de 1969

O último discurso de Marcello 8com dois ll) desceu aos abismos mais baixos dos sequazes salazarentos (palavra criada por Aquilino), ou aos marcelentos (palavra criada pelo Carlos de Oliveira).
Como é que um homem inteligente (quem não e inteligente?) pode descer a voragens tão analfabetas? Ouvi dizer a um professor de Direito que os actuais meios de informação e de contacto com o público podem substituir o Parlamento – magoa.
Na verdade hoje os governantes penetram sem cerimónia em todas as casas para convencer ou dar ordens aos cidadãos – espectadores passivos.
Mas o contrário?
Como é que os cidadãos respondem ou entram pela casa dentro dos governantes?
O Maecello é o tipo acabado do Ditador televisivo. Não precisa de partido basta-lhe ser imagem – para governar espectros.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: pormenor da capa do livro O Lugar do Televisor de Mário Castrim

terça-feira, 26 de setembro de 2017

MAS QUEM O ACEITA?


28 de Setembro de 1969

Fez ontem um ano que o Marcello ocupou o poder – data festejada com sessões de homenagem e todos os foguetes habituais nestes regimes de culto da personalidade a compilação em livro dos discursos pronunciados pelo chefe, o documentário das viagens e as inaugurações de vários fontanários pelo Salazar II, etc.
Outro número da comemoração: a recusa da candidatura a deputados de cinco personalidades apresentadas pela Oposição – com o pretexto de que não aceitavam o actual regime.
Mas quem o aceita?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

VELHOS RECORTES


Recorte do semanário ultra-salazaeista «Agora».
Não tenho a data da edição mas o ano será o de 1966.
Como é que com este paleio, alguns de nós, lograram prever uma «primavera marcelista»?

terça-feira, 18 de julho de 2017

O SALAZAR QUE RI


24 de Agosto de 1969

Um camponês alentejano, depois de ver o Marcello na inauguração duma barragem, sempre com os óculos a sorrirem:
- Este Salazar é mais simpático do que o outro. É o Salazar que ri.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

DA PRIMAVERA MARCELISTA


Carta de José Saramago, datada de 16 de Dezembro de 1968, para José Rodrigues Miguéis:

Notícias daqui, não há muitas para dar. No fim de contas, os jornais dizem tudo… Após a ilusão de alguns, veio a desilusão de todos. Por mim, que tenho diploma de céptico, isto não tira nem põe. (…)
De mim, propriamente dito, também não há muito que dizer: é o jornal, é a editora, e entre estes dois pólos vai vivendo o meu descontentamento. Bem gostaria de tirar o corpo da engrenagm, mas já não é possível: vou defendendo a alma conforme posso, mas essa mesma já se vai descobrindo comprometida. A chamada vida prática tem muitas exigências.
Espero as suas notícias. E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Anos e anos de catequese, nos domingos da TVI, fizeram de Marcelo Rebelo de Sousa um personagem que todo o país conhece e, grande parte, parece disposto a dar-lhe o seu voto nas eleições presidenciais.

Impossível que não tivesse criado simpatias.

As sondagens indicam que vencerá logo na primeira volta.

Marcelo Rebelo de Sousa não é o presidente que os portugueses precisam.

Pedro Passos Coelho, não o dizendo claramente, chamou-lhe catavento.

O candidato comunista Edgar Silva, muito claramente e com apurado sentido de humor, disse que o país não precisa de um Cavaco Silva a cores.

Alguém classificou-o como um Cavaco que ri.

Marcelo gosta de estar bem com Deus e com o Diabo.

Capaz de dizer uma coisa agora e o seu contrário tempos depois.

Marcelo Rebelo de Sousa não gosta de contraditório e espalha-se cada vez que o interpelam sobre determinados assuntos.

Como ficou provado nos debates televisivos com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.

Que não é bem a mesma coisa de, dominicalmente, estar à conversa com uma Judite de Sousa sorridente, veneranda e obrigada.

Ontem, em Coimbra, no comício de campanha de Marisa Matias, João Semedo, ex-dirigente do Bloco de Esquerda, asseverou:

Ninguém escolhe o pai ou a mãe. Marcelo não tem culpa de ter tido o pai apoiante do fascista Salazar mas também é verdade que a culpa de Marcelo ter sido apoiante do fascista Marcelo Caetano não é do pai de Marcelo.

PROCURA-SE!


Num tempo, em que a censura da ditadura marcelista perseguia Mário Castrim, chegou mesmo a suspender, durante semanas,  o seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa, A Mosca, suplemento dos sábados do Diário de Lisboa, fez publicar este aviso.
Aliás, a qualidade jornalística e satírica de A Mosca, mereceria um estudo e que, ao mesmo tempo, se fizesse uma recolha de alguns dos textos que poderiam ser publicados em livro.
Os textos, por norma, não eram assinados, mas conhece-se colaboração, entre outros, de Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, João Paulo Guerra, Mário Zambujal, Luís de Sttau Monteiro com as célebres redações da Guidinha.

Hoje, tenho uma imensa pena de não ter coleccionado esse suplemento, como fiz em relação a outros, como seja o Jornal de Crítica que, mais tarde, também aos sábados, se publicava no República.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Portugal Depois de Abril

Avelino Torres/Cesário Borga/Mário Cardoso
Capa: António Martins
Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976

O golpe contra-revolucionário de 11 de Março é a tentativa desesperada de ressuscitar o projecto socialista, que, pela sua aliança às forças capitalistas externas e pelo seu anticomunismo larvar, concitava à volta da personalidade de Spínola os interesses do capital nacional, da casta militarista e também dos sectores fascistas colaborantes com Marcelo (civis e militares), todos alarmados com o avanço do movimento e a paralela pulverização dos suportes fundamentais do seu projecto político.
Tentativa de colocar uma vez mais à frente do País, o ex-general Spínola, mas agora sem o «colete de forças» representado pelo MFA e podendo assumir também o papel de novo «salvador da Pátria», o 11 de Março não começou na véspera nem sequer quando o plano começou a ser arquitectado nos começos de 1975. Nasceu precisamente no momento em que Marcelo caetano conseguiu colocar o poder, em 25 de Abril, nas mãos do antigo comandante-chefe da Guiné e seu homem de confiança.
A contra-revolução iniciara a marcha pela mão do cavaleiro do monóculo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

ASSIM VAMOS TRABALHANDO...




No dia 17 de Junho de 1969, Marcelo Caetano, através da Rádio e da Televisão, proferia a sua 4ª Conversa em Família.
O regime colocou-lhe um título: Assim Vamos Trabalhando...
Marcelo Caetano começa por lamentar ter estado tanto tempo ausente dos lares dos portugueses (não aparecia para conversar desde Abril) mas apresentou justificação: andara por terras da Guiné, de Angola, de Moçambique e verificou, in loco, o profundo desejo das populações em se manterem portuguesas.
Os tópicos aqui reproduzidos,  referem o início da conversa, uma referência aos  servidores do Estado e anúncio que, em breve, visitará o Brasil, o grande país irmão.

terça-feira, 27 de maio de 2014

OS IDOS DE MAIO DE 1974


20 a 26 de Maio

POR DECISÃO da Junta de Salvação Nacional o almirante Américo Tomás e o prof. Marcelo Caetano, deixaram o Funchal com destino ao Brasil. A presidência do Brasil recebeu-os como exilados políticos na condição de se absterem de qualquer actividade política no país
O Diário de Lisboa, de 22 de Maio de 1974, escrevia no seu editorial:
A partida para o Brasil de Américo Tomás e de Marcelo Caetano indigna todos os antifascistas, todo o povo português. Esperava-se o seu julgamento e o julgamento dos outros responsáveis pela política antinacional. Não por desejo de vingança, mas por imperativo de justiça.

A INTERSINDICAL aconselha um ambiente de calma em relação ao actual clima de agitação no trabalho. Desaconselha o recurso á greve, bem como certas reivindicações salariais que podem provocar o caos económico.

ACABARAM as aulas ao sábado.

O SALÁRIO mínimo para os trabalhadores foi fixado em 3.300$00, exceptuando trabalhadores rurais e empregados domésticos. Congelados salários acima de 7.500$00.

PROSSEGUE a greve dos 1600 trabalhadores da Messa, em Mem Martins.

OS TRABALHADORES da Firestone retomaram o trabalho para não lesar os interesses da economia nacional.

OS TRABALHADORES da empresa Claras decidiram deixar de cobrar bilhetes.

NO SENTIDO da revisão da Concordata vai realizar-se uma reunião da Comissão Organizadora do Movimento Ptó-Divórcio.

DA LISTA divulgada pelas autoridades sabe-se estarem em liberdade doze elementos da extinta PIDE/DGS. Neste número estão Agostinho Barbieri Cardososo e António Rosa Casaco.

PALAVRAS do bispo do Porto D. António Ferreira Gomes: «Melhor seria que os cristãos se autocriticassem e que todos chegassem à conclusão de que de uma maneira ou de outra pelo menos por indiferença somos culpados da situação anterior a 25 de Abril.»

NO DIA 25 iniciaram-se em Londres, negociações com o PAIGC. Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros, chefia a comitiva portuguesa.

CRIADA a Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

ANÚNCIO de Francisco Relógio: «Combata a inflação investindo em obras de arte.»

NATÁLIA Nunes, na Livraria Opinião distribui 50 exemplares da sua peça Cabeça de Abóbora que Luzia Maria Martins tinha tentado levar à cena, mas que não tinha conseguido devido aos cortes da censura.

FUNDAÇÃO do PPM.

APRESENTAÇÃO do Partido da Democracia Cristã.

A CÂMARA Municipal de Lisboa anuncia que deixará de ser efectuada, aos domingos, a remoção de lixos.

HOMENAGEM a Fernando Lopes Graça no Coliseu dos Recreios com o Coro da Academia dos Amadores de Música – Depois do medo e do silêncio.

O Movimento Socialista Popular, dirigido por Manuel Serra, decidiu integrar-se como movimento autónomo no Partido Socialista Português.

O MINISTRO da Coordenação Económica declarou a uma televisão espanhola que Portugal não pedirá imediatamente a sua adesão ao Mercado Comum devido ao seu atraso económico.

DE UMA FUNDA de Artur Portela Filho:
A liberdade não censura a ineficácia. Expõe-na. O que, sendo alguma coisa, não chega para neutralizar a ineficácia. A ineficácia é livre. Ser ineficaz é um direito.
Só que a revolução exige eficácia.
Aí está porque é que na actualidade portuguesa, a acultura tem de ser mobilizada, mas nem toda a cultura deve ser mobilizada. Aí está porque é que, na actualidade portuguesa, os meios de informação têm de servir, mas nem toda a informação serve. Nem todas as boas vontades são vontades boas. Nem todas as adesões aderem. Nem toda a cola cola.
A eficácia é, hoje em dia, em Portugal, um caso de vida ou de morte.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Maio de 74 Dia a Dia, Edição de Teorema e Abril em Maio, Lisboa, Maio de 2001, Portugal Hoje edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

Legenda: pormenor da reportagem sobre o concerto de Fernando Lopes Graça publicada no Diário Popular de 26 de maio de 1974.

sábado, 10 de maio de 2014

OBVIAMENTE, DEMITO-O!



Primeira página do Diário de Lisboa de 10 de Maio de 1958.

Entrega no Supremo Tribunal do processo de candidatura do Almirante Américo Tomás proposta por 258 eleitores, em que se destacavam Oliveira Salazar, Marcelo Caetano e os habituais e eternos apoiantes do regime.

O candidato interrompia as suas funções de ministro e Oliveira Salazar sobraçava interinamente a pasta da Marinha.

Destaque para a Conferência de Imprensa que o general Humberto Delgado realizou no salão de chá do Chave de Ouro em Lisboa.

Pormenor do texto da Wikipédia:

Os cinco anos que viveu nos Estados Unidos modificam a sua forma de encarar a política portuguesa. Convidado por opositores ao regime de Salazar para se candidatar à Presidência da República, em 1958, contra o candidato do regime, Américo Tomás, aceita, reunindo em torno de si toda a oposição ao Estado Novo.
Numa conferência de imprensa da campanha eleitoral, realizada em 10 de Maio de 1958 no café Chave de Ouro, em Lisboa, quando lhe foi perguntado por um jornalista que postura tomaria em relação ao Presidente do Conselho Oliveira Salazar, respondeu com a frase "Obviamente, demito-o!".
Esta frase incendiou os espíritos das pessoas oprimidas pelo regime salazarista que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha com particular destaque para a entusiástica recepção popular na Praça Carlos Alberto no Porto a 14 de Maio de 1958.
Devido à coragem que manifestou ao longo da campanha perante a repressão policial foi cognominado «General sem Medo».
O resultado eleitoral não lhe foi favorável graças à fraude eleitoral montada pelo regime.


 Diversas correntes da Oposição Democrática marcaram presença na conferência de imprensa, personalidades como o Almirante Mendes Cabeçadas, Ramon de la Feria, Dias Amado, Abranches Ferrão, Teófilo carvalho santos, António Ramos de Almeida, Adão e Silva, José de Magalhães Godinho, Gustavo Soromenho, Manuel Mendes, Castro Soromenho, Cassiano Branco.

A mesa presidida por Humberto Delgado registava a presença de Vieira de Almeida, que fez a apresentação do candidato, Mário de Azevedo Gomes, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Rolão Preto, António de Macedo, Costa e Melo, Vasco da Gama Fernandes, Olivio França e Alcinda de Sousa.

Depois da declaração de Humberto Delgado seguiu-se um período de perguntas e respostas e a primeira pergunta, e respectiva resposta, ficaram para a História:


Outro pormenor do período de perguntas e respostas:


Transcreve-se a Nota do Dia da autoria de Norberto Lopes, director do Diário de Lisboa: 



Por fim, destaque para o título da entrevista do prof. Vieira de Almeida ao Diário de Lisboa:



Uma escrita longa a desse livro.

Qualquer coisa como´16 anos, e foram muitos e muitos os que escreveram páginas desse livro e não chegaram a ver a cor da Liberdade.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

POSSIBILIDADE DE TROVOADA E AGUACEIROS


24 de Abril de 1974

Destaques da primeira página do ultra matutino Época, incondicional apoiante do regime:
Comunicado sobre a reunião do Conselho de Ministros realizado na véspera: Começaram a ser estudadas providências sobre a situação do funcionalismo. Renovados os propósitos de combatera especulação e de moderar a alta de preços.
Representaria uma vitória para os inimigos do ocidente uma brecha que surgisse na comunidade luso-brasileira – salientou o deputado Henrique Tenreiro na Assembleia Nacional.
Em campos da Sibéria continuam sete mil prisioneiros da II Guerra Mundial.
Sistema automático de reservas e «controle» de partidas entra amanhã em funcionamento ao serviço da TAP.
Morreu Franz Jonas presidente da Áustria.

Manhã cedo, na estação dos CTT, frente à Academia Militar, Otelo manda para Melo Antunes, nos Açores, o telegrama codificado do arranque das operações:
Tia Aurora parte Estados Unidos 25 0300. Primo António.

O chefe de estado, almirante Américo Tomás, acompanhado pela esposa e pela filha, deslocou-se à Feira Internacional de Lisboa para visitar uma Exposição de Antiguidades.

O Diário de Notícias dava conta que um Coliseu, repleto de público, assistiu à representação de La Trraviata de Verdi com Alfred Krauss e Joan Sutherland.
A récita terminou em delírio colectivo, com ovações intermináveis e inúmeros cravos atirados das frisas.

O Sporting em jogo da segunda mão das meias-finais, sem Yazalde e Dinis, é eliminado da Taça das Taças. Depois de um empate a uma bola, em Lisboa, o Sporting perdeu com o F.C. Magdeburgo por 2 a 1. O golo do Sporting foi obtido por Marinho.
A equipa da Alemanha de Leste acabará por vencer por 2-0 a final com o Milão. por 2-0.
No regresso a Lisboa, o avião que transporta a equipa, devido aos acontecimentos desta madrugada em Lisboa, fica retido em Madrid.

O República publica na 1ª página que o Sindicato dos Caixeiros iniciou a luta pelas 44 horas semanais.

Em conversa telefónica com um dos seus ministros, que lhe dá conta dá conta de diversas movimentações militares, Marcelo Caetano terá dito  Isso é mais um boato desgastante.

No seu Depoimento, Marcelo Caetano refere que o 25 de Abril o apanhou de surpresa:
… A revolução que veio efectivamente de surpresa, e conduzida dessa vez com toda a eficiência.

Para o dia 25, os serviços de Meteorologia previam: Céu pouco nublado, por vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e aguaceiros.

Passavam dois minutos da meia-noite quando a censura emitiu o seu último despacho, assinado pelo Coronel Roma Torres:

quarta-feira, 16 de abril de 2014

DÁ A IDEIA DE BARULHO...



16 de Abril de 1974

Mais um pormenor do livro, Os Segredos da Censura, deo jornalista César Principe. O O deespacho é hilariante pois revela que um coronel pode ficar pesaroso com o aumento dos correios e telefones, o público é que não.

O Ministério do Ultramar, em nota enviada para os jornais, torna público, (acontecimentos ocorridos a 10 de Abril) que o regresso à metrópole do Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, e a saída de 11 missionários combonianos do estado de Moçambique têm originado diversas versões noticiosas, que exigem o esclarecimento dos factos.

Em 10 pontos o comunicado tenta explicar o inexplicável e lembra que tanto o Bispo de Nampula como os missionários, não foram expulsos de Moçambique, antes saíram   para salvaguarda da sua segurança.

Os acontecimentos desencadearam-se em meados de Fevereiro, com a divulgação de um documento elaborado pelos referidos missionários combonianos, «em união com o seu Bispo», altamente ofensivo da nação portuguesa e também da hierarquia da Igreja, pondo mesmo em causa as relações entre Portugal e a Santa Sé.

Uma nota da PIDE/DGS informa que, com base nas averiguações feitas foram detidos 15 indivíduos em Lisboa e Porto, implicados em acções revolucionárias com vista ao 1º de Maio.
Largos milhares de panfletos revolucionários foram apreendidos nas oficinas do semanário Notícias da Amadora.

Final de tarde, regresso a casa após uma daquelas conversas de café  sem fim entre malta nova, malta velha, malta assim-assim,cada um com a sua ideia do modo como derrubar o regime, e  um dos velhos a lembrar que estão os bárbaros à porta da cidade   e nós para aqui a discutir o sexo dos anjos...

Quase a chegar a casa, saído de um portão, um cão salta-me ao caminho a ladrar.

Instintivamente estaco, mas um logo aparece, tranquilizador, o dono.

- Não faz mal nenhum... é como o Marcelo Caetano: só quer umas festas….Anda cá «Refúgio»! 

sábado, 12 de abril de 2014

O BUÇACO COMO REFÚGIO


12 de Abril de 1974

Sexta-Feira Santa.
Lisboa é invadida por espanhóis.
Marcelo Caetano, desde o dia 10,que se passeia, em viagem particular por alguns pontos do país, com o Prof. Lopez Rodó, antigo ministro das Relações Exteriores de Espanha.
Marcelo Caetano e o Prof. Lopez Rodó ficaram instalados no Hotel do Buçaco, local da especial preferência de Marcelo.
Foi aí que, durante os dias de Carnaval se recolheu para  meditar sobre a situação do país.

À falta de notícias, os jornais do regime enalteciam os progressos do país.
Em vários aspectos o sector industrial português tem vindo a anunciar extraordinária importância, tanto no contexto nacional como no internacional.
Entre alguns frisantes exemplos, destacam-se os empreendimentos de Sines, o da Setenave, etc. Este último (estaleiros para construção e reparação naval) arrancou com o empreendimento em Setúbal, em 6 de Abril de 1972. Estará concluído em 1975 e no primeiro trimestre de 1975 começará a construção o sector da construção naval.
São investidos cerca de três milhões de contos.
O valor da produção anual da Setenave está estimado em cinco milhões de contos.
Será um dos maiores estaleiros da Europa.
A construção de um grande estaleiro naval em Setúbal vai proporcionar enorme desenvolvimento, não só à indústria nacional, como à própria região .
Assim, 6300 empregados em variadas actividades surgirão naquela cidade até 1976. Este número tem um aspecto muito importante salientando-se a natural evolução tecnológica que daí advirá.
A cidade tem presentemente cerca de 72 000 habitantes.

A União dos Sindicatos Ferroviários deslocou-se ao gabinete do ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa, para lhe manifestar o seu reconhecimento pelos benefícios resultantes de alterações ao acordo Colectivo de trabalho introduzidas pelo ministro quando era titular das Corporações e Segurança Social.
Os dirigentes aproveitaram para dizer ao ministro que o governo pode contar sempre com os dirigentes corporativos dos verdadeiros ferroviários na sua política ultramarina.

Segundo a agenda do Cinéfilo, o cinema Londres exibia na sessão da meia-noite Eu Sou Bob Dylan (Don’t Look Back) do realizador D. A Pennbaker.
O grupo de teatro Comuna continuava a representar, nuns armazéns da Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis, cortesia do empresário Manuel Vinhas, a peça A Ceia com João Mota, Manuela de Feitas, Melim Teixeira, Luís Lucas, Carlos Paulo, Madalena Pestana, Francisco Pestana com sessões diárias às 21,45 horas e bilhetes ao preço de 20$00.
A celebração do acto teatral no mais depurado espectáculo que a Comuna nos apresentou até agora.

sábado, 5 de abril de 2014

ANTES E DEPOIS DE VILLAS BOAS


5 de Abril de 1974

A imagem mostra Marcelo Caetano na missa celebrada na Catedral de Notre-Dame, por alma do Presidente Pompidou.
Era este o motivo pelo qual a Censura, ontem, solicitava aos jornais, televisão e rádios, que não revelassem de imediato a constituição da delegação portuguesa às solenes exéquias do Presidente Pompidou.
Patético é o mínimo comentário que ocorre.
Sonhavam com fantasmas o tempo inteiro e desconheciam (?) que o 25 de Abril estava, quase, a bater à porta!...

Ana Paula Machado Pinto de Freitas, com 16 anos, estudante, residente no Porto, foi a vencedora do 2º Concurso da «Rapariga Ideal», organizado pela Mocidade Portuguesa Feminina.
O Secretário de Estado da Juventude e Desportos, presidiu à sessão de encerramento e, segundo a imprensa do regime, o concurso foi intensamente formativo, proporcionando simultaneamente a revelação de dons e a aquisição de novos valores, o estudo e a reflexão pessoais, aliados a uma experiência enriquecedora de vida em grupo, a análise objectiva dos problemas e o empenhamento na sua solução. Tudo isto sem perder de vista a missão específica que incumbe a cada rapariga. Já hoje como jovem e, mais tarde, como mulher, na comunidade em que se insere.
Talvez lembrar que, em 1936, Oliveira Salazar preconizava que o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

 Segundo a agenda do Cinéfilo, às seis e meia na tarde, no Cinema Monumental, numa iniciativa de Luís Villas Boas (quando se fala de jazz em Portugal há que considerar, sempre: antes e depois de Villas Boas), actuava Art Blakey, um nome incontornável do jazz dos anos 50, e não só!

Ainda, segundo o Cinéfilo, também  no Monumental, classificado para maiores de 10anos, estava em exibição Luzes da Ribalta de Charles Chaplin:
Chaplin está em Lisboa.
A cidade iluminou-se.
As «Luzes da Ribalta» acenderam-se.
É ver, meus senhores, é ver «o mais belos dos filmes», uma obra-prima no dizer de André Bazin.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

NÃO ME OBRIGUEM A VOLTAR CÁ!


3 de Abril de 1974

Três tópicos da agitada e importante agenda política, nos primeiros dias de Abril, do Chefe de Estado Américo Tomás

Em entrevista ao semanário francês Le Point, Marcelo Caetano disse que jamais concordará com o abandono das províncias ultramarinas.
Portugal está a lutar em África em defesa de uma sociedade multirracial contra movimentos racistas que procuram expulsar os brancos de África

Num qualquer dia de Março, ou Abril de 1974, andei à procura do recorte mas deve estar, algures, a servir de marcador na página de um livro, é atribuída a Marcelo Caetano a seguinte frase:

Cuidado com os capitães. O perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.

Viviam-se dias resultantes do choque petrolífero, mas o governo, via Ministro da Indústria e Energia, fez anunciar a suspensão, nos próximos dias 13 3 14, respectivamente Sábado e Domingo de Páscoa, do racionamento de gasolina durante os feriados e fins-de-semana.

Um excerto da Carta-Testamento de Mário Sacramento:

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!
Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!
Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!