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quarta-feira, 3 de abril de 2019

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES


Para aqueles que insistem em diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

Margarida Vale de Gato de Mulher ao Mar em Os Melhores Poemas Portugueses dosÚltimos Cem Anos

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 20 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Um Dia

Carlos Alberto Machado, Hélia Correia, Jaime Rocha, José Mário Silva Margarida Vale de Gato, Miguel-Manso
Capa: Orlando José Martins Ruivo
Colecção Azulcobalto, Setembro 2014

O senhor por exemplo o que é que o leva a participar
numa manifestação numa tarde tão quente?
Era ontem um peixe sufocado o meu país,
hoje súbito tanta gente buscando brilho de água
que se move
Não sei onde fica, não é um lugar no mapa
É um espaço na boca com sede da gente
numa tarde a mover-se com muito calor, o meu país
Um peixe, um sítio pouco evidente,
ou corpo
exangue, coalho, desabituado de saber
como se juntam os membros, respira-se aqui
com dificuldade, desenvolve-se vocação de submerso
Precisamos de ar
que é uma pergunta a que não se teria de responder logo
porque de princípio devia haver em toda a parte
como O que faremos nós?
O que havemos de fazer
com este peixe? Peixe era cristo e repartiu-se
para se tornar maior – disseram-me que isso era amor
mas eu não sei se creio
De manhã lembrei-me de um país para todos
onde no interior voltassem a crescer crianças
a arregaçar as fraldas das velhotas, esta tarde na TV parece
que meu país é mais que peixe, mas não vou chamar-lhe frota nem mar
pois basta hoje a poesia dos fenómenos pouco óbvios
de quando se juntam pessoas e há sempre alguma coisa,
acontece

(Margarida Vale de Gato a partir de Ruy Belo in Palavras de Lugar)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

OLHAR AS CAPAS


Belos Vencidos

Leonard Cohen
Tradução: Margarida Vale do Gato
Capa: Fernando Mateus sobre pintura de Shiele
Relógio D’Água Editores, Lisboa Novembro de 1997

Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a saber que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo da batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

OLHAR AS CAPAS


Os Cães Ladram

Truman Capote

Tradução: Margarida Vale de gato
Capa: Fernando Mateus
Relógio d’Água, Lisboa Julho de 2002

Certa manhã — julgo que era Dezembro, um domingo frio com um sol cinzento e triste — subi o bairro até ao velho mercado onde, nessa altura do ano, se encontram delicados frutos de Inverno, tangerinas doces, a vinte cêntimos a dúzia, e flores de inverno, poinsetias e camélias brancas. As ruas de Nova Orleães têm perspectivas compridas e solitárias; nas horas mortas o seu ambiente faz lembrar Chirico, e as coisas inocentes (um rosto por trás da luz entrecortada de uns estores, freiras caminhando ao longe, um braço gordo e escuro balouçando languidamente de uma janela, um rapaz negro agachado sozinho num beco, soprando bolas de sabão e observando tristemente a sua ascenção e explosão) adquirem geralmente contornos de violência. Nessa manhã, dizia, detive-me no meio de um quarteirão, porque me apercebera pelo canto do olho, de um túnel, de um jardim deixado ao abandono. Um cão de caça branco com um aspecto alucinado permanecia hirto na luz verde da relva que brilhava no fim do túnel e, compulsivamente, virei nessa direcção. Lá dentro havia uma fonte, a água jorrava delicadamente da boca de bronze da estátua de um macaco e produzia sons de sinos desolados em charcos de seixos. Pendia de um salgueiro: um homem com ar de bandido e cabelo platinado, artificial; pendia tão frouxamente como o próprio salgueiro. Havia terror naquele jardim sufocado e silencioso. As janelas fechadas espreitavam às cegas; as babas dos caracóis cintilavam, prateadas, sobre inhames, nada se mexia a não ser a sua sombra. Balouçava levemente, para trás e para a frente, e todavia não havia vento. Tinha um anel com um diamante de imitação que luzia ao sol, e no seu braço a tatuagem de um nome, «Francy». O cão baixou a cabeça para beber da fonte, e eu larguei a correr. Francy — teria sido por ela que se matara? Não sei. N. O. (noca Orleães) é um lugar secreto.