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domingo, 30 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS



O Verão 80

Marguerite Duras
Tradução: João Costa
Capa: A. Pedro
Colecção Dois Mundos nº 184
Livros do brasil, Lisboa, 1990

Portanto. Aqui está, escrevo para Libération. Encontro-me sem tema para o artigo. Mas talvez não seja necessário. Creio que vou escrever a propósito da chuva. Chove. Desde quinze de Junho que chove. Deveria escrever-se para um jornal como se caminha na rua. Caminha-se, escreve-se, atravessa-se a cidade, fica atravessada, cessa, a caminhada continua, do mesmo modo atravessa-se o tempo, uma data, um dia, e depois, fica atravessado, cessa. Chove no mar. Nas florestas, na praia vazia. Não há os chapéus de sol mesmo fechados do Verão.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Muito cedo na minha vida foi tarde de mais.

Marguerite Duras em O Amante

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

PERDIDA ENTRE NOITES E NOITES


E outra vez, ainda no decorrer dessa mesma viagem, durante a travessia desse mesmo oceano, a noite já começara também, aconteceu no grande salão do convés principal o estalar duma valsa de Chopin que ela conhecia de modo secreto e íntimo porque tentara aprendê-la durante meses e nunca tinha conseguido tocá-la correctamente, nunca, o que fizera com que depois a mãe consentisse em deixá-la abandonar o piano. Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha passara-a justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante da música lançada através do mar.

Marguerite Duras em O Amante

sábado, 3 de novembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Amante

Marguerite Duras
Tradução: Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira
Capa: Rogério Petinga
Difel. Lisboa, Setembro 2000

Quando se aproximava a hora da partida, o barco lançava três apitos de sirene, muito compridos, de uma força terrível, ouvia-se na cidade toda e para os lados do porto o céu ficava negro. Então os rebocadores aproximavam-se do barco e puxavam-no para o meio do rio. Depois, os rebocadores soltavam as amarras e voltavam para o porto. Então o barco dizia adeus ainda mais uma vez, lançava de novo os seus mugidos terríveis e tão misteriosamente tristes que faziam as pessoas chorar, não só as da viagem, as que se separavam, mas também as que tinham vindo ver, e as que estavam ali sem uma razão precisa, que não tinham ninguém em quem pensar. O barco depois, muito lentamente, com as suas próprias forças, embrenhava-se no rio. Via-se durante muito tempo a sua forma alta avançar para o mar. Muita gente ficava ali a olhá-lo, a acenar cada vez mais lentamente, cada vez mais desencorajadamente, com os seus xailes, os seus lenços. E depois, por fim, a terra levava a forma do barco na sua curvatura. Em tempo claro, víamo-lo afundar-se lentamente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Escrever, é também não falar. É estar caldo. É gritar sem fazer barulho.

Marguerite Duras

Legenda: imagem tirada da capa da revista Ler nº 38.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Escrevemos para saber o que escreveríamos se escrevêssemos.

Marguerite Duras

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS


Receitas Literárias
Vol. I

Diversos autores
(Alexandre Dumas, Boris Vian, Denis Diderot, Eça de Queiroz, Émile Zola, Fernando Pessoa, Garcia de Orta, Honoré de Balzac, Joris-Karl Huysmans, Júlio César Machado, Marguerite Duras, Stéphane Mallarmé, Vinicius de Moraes, Wenceslau de Moraes).
Prefácio: Eduardo Barroso
Capa: Inês Sena
101 Noites, Lisboa, Abril 2000

FEIJOADA À BRASILEIRA

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo.

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...


Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta...— jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 15 de março de 2012

POSTAIS SEM SELO


Escrevemos para saber o que escreveríamos se escrevêssemos.

domingo, 18 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Já não há nada, está lá tudo ainda e já não há nada.


Legenda: fotografia de Andre Kertesz

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Começo da sinopse do livro:

“Estamos no Verão de 1957, em Agosto, na cidade de Hiroshima.
Uma mulher francesa, de cerca de trinta anos, está na cidade. Veio aqui para interpretar um filme sobre a Paz.
A história começa na véspera do regresso a França desta francesa. O filme em que ela toma parte, está, com efeito terminado. Falta apenas filmar uma sequeência.
É na véspera do seu regresso a França que esta francesa, cujo nome nunca será mencionado no filme, que esta mulher anónima, portanto, encontrará um japonês (engenheiro ou arquitecto) e terá com ele uma breve ligação amorosa.
As condições do seu encontro nunca serão esclarecidas no filme. Não é aí que reside o problema. Por todo o mundo sa pessoas se encontram. O que importa é que o que se segue a esses encontros quotidianos.”
Ficha técnica do Filme “Hiroshima, Meu Amor”Realizador: Alain Resnais

Ano: 1959
Cor: Preto e Branco
Elenco: Emmanuelle Riva, Bernard Fresson, Eiji Okada, Stella Dassas, Pierre Barbaud.
Produção: Anatole Bauman, Samy Halfon, Sacha Kamenka, Takeo Shirakawa
França/Japão
Argumento: Marguerite Duras
Fotografia: Michio Takahashi, Sacha Vierny
Banda Sonora: Georges Delerue, Giovanni Fusco
"Ele - Tu não viste nada em Hiroshima. Ela - Vi tudo. Tudo. Ela -... do décimo quinto dia também.
Hiroshima cobriu-se de flores. Havia por toda a parte centáureas e gladíolos e trepadeiras e lírios amarelos que renasciam das cinzas com um com um extraordinário vigor, até então desconhecido nas flores. Nada inventei. Ele - Inventaste tudo. Ela - Nada.
Ela – Como tu, eu sei o que é o esquecimento-
Ele – Não, tu não sabes o que é o esquecimento.
Ela – Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.
Ele – Não, tu não és dotada de memória.
Ela – Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra."

“Hiroshima, Meu Amor”, Marguerite Duras, Tradução de Maria José Palla e M. Villaverde Cabral, "Quetzal Editores", Lisboa 1987