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quinta-feira, 5 de julho de 2018

PRETEXTO


Por que não cai a noite, de uma vez?
— Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
— Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 14 de março de 2018

EXAUSTA


Exausta à beira do remorso   à beira
do rio do remorso   do silêncio
do roxo da montanha do remorso
da folha de combate mesmo à sombra
da planta do remorso   venenível
da água enfeitiçada onde mais dura
e escura há uma areia do remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
talvez porque de leve as vozes voltam
ao quarto do remorso e sem remorso
escutam a cor tranquila do quadrado
removido de noite para a chuva
e aberto nos meus olhos sem remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
remo   remo no dorso do remorso
A distância é um grito do avesso
decomponho o minuto em trinta passos
e de novo   de súbito o primeiro
segundo movimento despenhando
o sangue do remorso   já na curva
veia obscura obcecada do remorso
e a certeza inútil: hino útil
de agora ter o alimento humano
o braço o breve  a sede o leite nervo
do remorso excessivo de mais nada
de ser até demais dizer de nada
– o nada certo e lento no entanto
dor ou solstício e no entanto a dor
do sol   do estio   do vestígio
magoadamente às vezes não sei quando

Maria Alberta Menéres em Poesia 70