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terça-feira, 14 de maio de 2019

FELIZMENTE EXISTEM OS LIVROS


Comprar livros pelos seus começos, comprar livros pelos seus finais, comprar livros por uma frase, uma página, comprar livros pelas capas, comprar livros, signo diário de quem privilegiado se constitui por ter nascido e vivido numa casa em que havia uma pequena  estante com livros.

Aqui pelo Cais estivemos para apresentar começos e finais de livros, mas depois optámos por Olhar as Capas porque englobava tudo.

Maria Gabriela Llansol, e o começo do seu livro no seu livro Na Casa de  Julho e Agosto:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Ocorrem-me, entre tantos e tantos, dois excelentes começos de livros de autores portugueses

O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado».

 Os Cus de Judas de António Lobo Antunes:

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

E obviamente não posso deixar de lembrar o magistral começo de O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca:

«Antigamente, o Largo era o centro do mundo.»

Todo este escrevinhar porque hoje, por mor de algo que precisava consultar, peguei em OsNus e os Mortos, grande livro de Norman Mailer que tem um começo muito bem conseguido:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

São assim os livros, nossos companheiros de todas as horas.

Ou como escreve José Saramago em A Caverna:

«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los  numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»

Foi o que aconteceu com o livro do Norman Mailer.

E, de repente, saltou o começo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto.

Maria Gabriela Llansol

segunda-feira, 7 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Sorte ou não, todos os livros que comprei por causa das capas se revelaram boas escolhas.

É provável que existam duas ou três excepções, mas não as recordo.


Jorge Silva melo, por exemplo, gosta tanto das capas de Trabalho Poético que não se vê a ler a poesia de Carlos de Oliveira sem ser nessa edição da Sá da Costa.

Cada maluco sua mania, dirão.

É bem verdade!

Mas quem gosta de livros, quem não entende os dias sem os ter por perto, não olha a meios, tudo lhe serve.

Pelo autor, pelos títulos, pelas capas, pelos começos, pelos conteúdos, pelos finais, tudo vale para adquirir livros.

O primeiro critério é o autor, mas gosto imenso de grandes começos de livros:

Maria Gabruiela Llansol começa assim o seu Na Casa de Julho e Agosto:

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.”

E há capas fabulosas.

Esta colecção do Público permite ter uma ideia sobre essa arte de fazer e Olhar as Capas.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita

Gabriela Llansol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


«Mil anos que escrevas», disse, «não saberás a quem»

Maria Gabriela Llansol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Recebi as tuas notícias que me diziam textualmente: «Ficam a meu lado, quando me deito, as narrativas da infância, como fica a biblioteca dos místicos. No Natal há para mim uma significação – junção de princípio e de inverno com caminhos intermédios de vida que me visitam em sonho e vigília. Seres reflectidos nas suas imagens eternas – animais, homens, e o que está para além deles.»

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Agosto

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DO ALTO DE UMA DAS COLINAS


Margarida, estou em casa de um hortelão, às portas de Lisboa, cidade que nunca tinha visto e devo ver, segundo me dizem, do alto de uma das colinas para poder observar o Tejo-rio, e a boca do mar. Alisubbo ali me leva amanhã e, de desejo, quase não posso dormir nem escrever-te.

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Gosto

terça-feira, 30 de setembro de 2014

AS PLANTAS TÊM O SEU DESTINO


Alisubbo é errante como alma. Não para desde o nascer ao pôr-do-sol e, mal se senta, um novo trabalho desponta, por vezes um nada que ele efectua minuciosamente afirmando que as plantas têm o seu destino. Profere também frases enigmáticas e eu creio que foi por causa desse aldo envolvente que Luís M. e a Grande Dama me enviaram para aqui. Mal acaba de regar a horta sobe à cidade na madrugada limpa de sangue sem que eu saiba que sítio de Lisboa é esse domínio; quando regressa, cultiva-se com a terra; quando planta as batatas fá-lo com rigor e, ao mesmo tempo, eleva-as no ar e diz-lhes uma palavras antes de as cobrir, Faz a sesta de maneira irrequieta levantando-se mil vezes para cuidar um tronco, desviar ou matar insectos, erguer um feijão verde, ou trepadeira, dar água a um pé de milho que seca na sede; nem à noite se acomoda definitivamente para dormir.

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Gosto

Legenda: imagem de Judi Harris 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

QUOTIDIANOS


Consternadores os resultados do vento.
Quem envolveu o girassol que havia encostado ao muro e ao soprara sem descanso, derrubou o tutor a que ele se arrimava, e o quebrou na queda?
Ao dar das cinco horas, Alice chega; desta vez, mais do que em mim repara na grande flor por terra, e sofremos a morte de um se humano.
Segredo-lhe inundada num sol imaginário:
- Dá-te aquele que já tem o teu nome.

Maria Gabriela Llansol em Na Casa de Julho e Agosto.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 31 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS



Na Casa de Julho e Agosto

Maria Gabriela Llansol
Posfácio: João Barrento
Capa: Fernando Mateus
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Setembro de 2003

Manuscrito após manuscrito, dia após dia, separações consecutivas do que amamos,
aproxima-se o inverno; não há nenhuma nostalgia com seu gelado paraíso, que não sobrevenha; Alisubbo, que já trocou o convento das madres pela sua horta, adoeceu no meio de seus frutos outonais. Eu sinto-me para além do frio mas percorrida por ele; devo deixar Antuérpia na próxima embarcação que sair do porto destinada à Mesopotâmia. O que vos contei sobre o Tigre e o Eufrates era sonho, que no sonho preparamos a vida, mas agora terei de sobreviver ao sonho e fazer surgir o rio real.

sábado, 4 de agosto de 2012

POSTAIS SEM SELO


«Mil anos que escrevas», disse, «não saberás a quem»

Maria Gabriela Llansol

segunda-feira, 9 de julho de 2012

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Que medidas para difundir a obra de Maria Gabriela Llansol?

Respondeu:

Nenhuma. Quem sentir falta que a leia.


Hélia Correia, numa entrevista na RTP2

sábado, 31 de março de 2012

ENCONTREI DE NOITE


Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar com frio, respirar tubo de ...escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.


Maria Gabriela Llansol, O Começo De Um Livro É Precioso, Assírio & Alvim, Lisboa Outubro 2003.

sábado, 3 de março de 2012

É FREQUENTE SENTAR LIVROS NA CADEIRA


É frequente sentar livros na cadeira, e eles
Se isolarem das outras espécies que povoam
O quarto. Começa aí a simbiose entre livros
E autores. Intuindo que a paisagem é o vigia
Que a cria, faz-lhes perguntas a que os
Livros dão resposta­­ ____ “Qual foi a tua problemática?”
Se sai com alguns, vai à procura da sua
Imagem-fonte, sem esquecer que todos eles
Se sentaram em bancos de jardim. Com os
Livros já fechados, começa a ler ____ deixa
Que os autores se evadam por vontade própria,
Suas missivas distribuídas pelo quarto. Quando
Eu partir, como livro arrumado amorosamente
No seio do legente, espero que este por generosidade
Me deixe ir.


Maria Gabriela Llansol em O Começo De Um Livro É Precioso, Assírio & Alvim, Lisboa, Outubro 2003.


Legenda: imagem de Lorenzo Mattotti tirada de O Silêncio dos Livros.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Começo de Um Livro é Precioso.
Maria Gabriela Llansol
Desenhos: Ilda David
Assírio & Alvim, Lisboa Outubro 2003

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas brece é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguia se inicia.
Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.
Vou dar-lhe fio____ linha, confiança, crédito, tecido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

OUTRAS CASAS OS HERDARAM


Sim, as coisas são o veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, ou descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonando (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdaram, chamarão alguém a seu destino.

Maria Gabriela Llansol, em Finita - Diário 2, Edições Rolim, Lisboa 1987

Legenda: pintura de Edward Hopper