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segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

domingo, 28 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Sobre as Feiticeiras

Jules Michelet
Tradução: Manuel João Gomes
Prefácio: Roland Barthes
Comentários: Afonso Cautela, Manuel João Gomes, Maria Alzira Seixo,
                         Maria Teresa Horta
Edições Afrodite, Lisboa, Novembro de 1974

O tenebroso tema de que tratei é semelhante ao mar. Quem nele mergulhar muitas vezes acaba por aprender a ver. A necessidade cria sentidos. Assim o testemunha aquele singular peixe de que fala Forbes (Pertica astrolabus), o qual, vivendo no fundo do mar, criou um olho especial capaz de captar e concentrar as luzes que descem até às profundidades. À primeira vista, a feitiçaria tinha, para mim, a unidade da noite. Pouco a pouco verifiquei que era múltipla e muito diversificada.

domingo, 9 de julho de 2017

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Cada vez me espanto mais com os recortes que guardei ao longo dos anos sobre as coisas mais variadas e muitas – hoje – inexplicáveis.

Não é o caso do Suplemento Literário de A Capital dos dias 20 e 27 de Agosto de 1969.

Bons tempos em que havia suplementos literários, havia divulgação cultural, havia, boa ou má, crítica literária.

Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para o suplemento de 20 de Agosto:


Poemas e poetas antologiados:

Identidade – Miguel Torga
A Bicicleta pela Lua Dentro – Herberto Helder
XXVII – José Gomes Ferreira
Renúncia – Florbela Espanca
Fado para a Lua de Lisboa – David Mourão-Ferreira
Noite de Verão – Manuel da Fonseca
Noite Fechada – Cesário Verde
17 – João Apolinário
Apolo – Sebastião da Gama
Quando a Lua Vier Tocar-me o Rosto – Ana Hatherly
Lua – Sophia de Mello Breyner Andersen

Do poema de Manuel da Fonseca os Trovante fizeram uma canção que consta do álbum «Terra Firme» de 1987:



 Esta é a apresentação que Maria Teresa Horta escreveu para os depoimentos que solicitou:


Responderam ao inquérito:

José Gomes Ferreira, João Rui de Sousa, E,M, de Melo e Castro, David Morão-Ferreira, Maria Alberta Meneres, Manuel da Fonseca, Ana Hatherly.

Do depoimento de Maria Alberta Meneres:

«Nunca me preocupei com o lugar que a Lua tem ou não ocupado na minha poesia. Mas hoje, 14 de Agosto de 1969, lembrei-me de me preocupar. E descobri esta coisa espantosa, de perfeitamente inesperada: em vez de me ter sentido atraída, parece que devo ter tido sempre um certo medo da Lua!
Para mim agora a Lua é essencialmente um lugar. Não sei se os poetas continuarão a falar nos seus poemas da Lua de que falavam, ou de outra Lua de nunca falaram, nem sei mesmo se seria da Lua que eles falavam quando falavam da Lua. Eles o saberão ou não.
Eu apenas sei de mim: porque hei-de deixar de falar da Lua nos meus poemas, quando me apetecer, se a Lua sendo um lugar, pode ser meu caminho de passagem para outros lugares?»

Este é o depoimento escrito que José Gomes Ferreira enviou para Maria Teresa Horta:

POR MEDO DE ESTRAGAR O LUAR


 17 de Agosto de 1969

Para uma antologia sobre a Lua que a Maria Teresa Horta vai publicar n’ A Capital escrevi meia dúzia de palavras a respeito da viagem dos três astronautas. Confessei honestamente que não assisti à descida na Lua «por espírito de contradição» e por medo de estragar o luar.
Sempre são homens.
Nunca fiando…

                                                               *

- Afinal – dizia a Maria Teresa Horta pelo telefone, espantada – essa história de os Poetas portugueses fazerem versos à Lua é uma lenda. São pouquíssimos os que a cantam directamente.

                                                               *

Para mim, a Lua é, sobretudo, uma palavra – concluí eu a minha conversa telefónica com a Maria Teresa Horta, feliz de descobrir naquele momento (mas descobrir mesmo) uma banalidade tão velha.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

À CONVERSA


Perguntaram-lhe:

Gostas de futebol?

Respondeu:

Gosto imenso de futebol. Mas ainda gosto mais do Benfica. Sou assim desde que nasci, acho que já nasci do Benfica. Eu sou sócia do Benfica, os meus netos são sócios do Benfica, o meu filho é sócio do Benfica. É tudo. Na minha família, de um lado ou de outro, por acaso era tudo do Benfica. Apaixonadamente. Sou uma apaixonada muito grande.

Maria Teresa Horta, entrevistada por Ana Sousa Dias e publicada no Diário de Notícias

sábado, 3 de setembro de 2016

MARIA ISABEL BARRENO (1939-2016)


Morreu esta tarde Maria Isabel Barreno, investigadora, escritora, e juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma das escritoras julgadas no processo conhecido por «Caso das Três Marias».

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

segunda-feira, 4 de abril de 2016

JOSÉ GOMES FERREIRA, POR ELE PRÓPRIO


No dia 14 de Março de 1969, José Gomes colocou nos seus Dias Comuns:

Telefonaram-me agora da Philips a convidar-me a gravar um disco para vender em Portugal e no Brasil. Aceitei em princípio.

A 18 de Março, volta ao assunto:

A voz dos poetas a dizerem versos nos discos…
Porque não o ranger das penas no papel?...
É talvez a verdadeira voz dos poetas.


Na véspera, não se sabe se a propósito do disco, escreveu uma só frase…

A vaidade entristece o mundo…

Entrada de 19 de Março:

Passei a noite a ler em versos em voz alta… Mas aconteceu uma tragédia. Como tenho dentadura nova, senti na boca uma mistura desagradável de palavras com favas sibilantes. E pedras. Vou fazer uma linfa figura de poeta tatibitates para a eternidade dos meses curtos!
E, sobretudo, não gosto dos meus versos. São do outro.


No dia 2 de Abril volta a falar do disco:

Ontem à noite comecei a gravar o meu disco. Voltei para casa fatigadíssimo e passei toda a noite excitado, sem dormir - com uma insónia de deus tenso.
Odeio a minha voz – solene, cantada, boa para sermões redondos. Lutei toda a noite com ela. Em vão! Não consegui torna-la num chicote rude.

No dia 18 de Abril:

Hoje almoço da gente da Philips com a da Portugália a propósito do meu Disco.
Almoço neo-capitalista no último andar do Hotel Eduardo VII com o panorama de Lisboa a comer connosco à mesa.
Almoço de comida complicada que me suscitou uma enorme sonolência…
- É o neo-capitalismo que conseguiu entrar em mim, para me atacar de dentro para fora… Para me adormecer… - expliquei ao Nikias esta tarde no Palladium.

O disco, com a referência 841 402 PY, teve produção de João Martins, reproduz uma fotografia de Nuno Calvet e inclui um encarte com a transcrição dos poemas ditos por José Gomes Ferreira, bem como palavras de Maria Teresa Horta, Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


12 Poemas Para Vasco Gonçalves

António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, Eduardo Olímpio, Egito Gonçalves, Eugénio de Andrade, Gastão Cruz, J.J. Letria, José Barreiros, José Ferreira Monte, Maria da Graça Varela Cid, Maria Teresa Horta
Com um cartaz de Armando Alves e um desenho de José Rofrigues
Colecção O Oiro do Dia nº 9
Editorial Inova, Abril de 1976

A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando da Silva Carvalho

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER (1930-2015)


Corria o Natal de 1970 e eu encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos em Volta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Herberto Helder morreu ontem.

Tinha 84 anos.

Fugia de holofotes, multidões, mediatismos.

Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pela sua obra que, segundo o júri, iluminava a língua portuguesa.

Uma pipa de massa para quem tinha uma reforma curta.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o Alçada Baptista:

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito.
Eu só lhe disse:

- Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais.

Em Julho do ano passado publicou o seu último livro.

O título diz tudo: Morte Sem Mestre.

Um escritor como Herberto não necessita de palavreado encomiástico.

Porque sempre o considerou inútil e perene de hipocrisia.

Não gostava de dar entrevistas, nem de se deixar fotografar.

Foi um Natal feliz aquele de 1970.

Gosto de poetas misteriosos.

Gosto de autores que não consigo entender.

Sempre passos em volta.

Em volta sabe-se lá de quê.

Maria Teresa Horta:

Quantas vezes me prendi eu nas malhas envolventes da poesia de Herberto Helder e senti medo de não ser capaz dos seus poemas.

Luna Levi sobre Photomaton e Vox:

Devorei-o de um fôlego, num acesso de bebedeira deslumbrada.

É suficiente.

O resto é pegar nos seus livros.

Alguns de há muito esgotados.

Mas, certamente, irão ser reeditados.

Não os percam!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de maio de 2014

TRÊS MARIAS DE CRAVO AO PEITO


Há 40 anos, no Tribunal da Boa-Hora, o juiz Acácio Lopes Cardoso, mandava em paz Três-Marias de cravo ao peito.

Interrompido pelo 25 de Abril, o processo tinha em vista a condenação de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, o editor da Estúdios Cor, Romeu de Melo, por terem escrito e publicado um livro pornográfico, imoral e obsceno, atentório da moral pública para além de muito mal escrito.

Apreendido pela Pide em 1972, cinco dias depois de ter saído para as livrarias, Novas Cartas Portuguesas é uma escrita a seis mãos, sem qualquer regra pré determinada, mas em que nenhuma das autoras interferiria nos textos de cada uma.

Um livro de coragem dentro do cinzentismo do Estado Novo.

As autoras nunca revelaram quem escreveu o quê.

Maria Teresa Horta já declarou que, muitas vezes, tem dúvidas e pede ajuda às outras duas autoras.

Não será bem assim, mas que fique a lenda.

Elas baralharam e voltaram a dar.

Não deixa se ser um inteligente e divertido passatempo para as noites de Inverno, tentar
descobrir o que escreveu Velho da Costa, Teresa Horta, Isabel Barreno.

Ana Luísa Amaral que, em 1990 preparou para as Publicações Dom Quixote, uma reedição das Novas Cartas Portuguesas, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.







Legenda: recorte do Diário de Lisboa de 8 de Maio de 1974.


A Terceira Carta IV é retirada da edição da Editorial Futura, publicada em Maio de 1974.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

EXPRESSÕES ATENTÓRIAS DA MORAL PÚBLICA



18 de Abril de 1974

No Tribunal Plenário de Lisboa continua o julgamento de cidadãos acusados de pertencerem à Acção Revolucionária Armada (ARA) A censura (recorte retirado de Os Segredos da Censura de César Príncipe) determina que as notícias do julgamento devem ser reduzidas à expressão mais simples.
Proibidas também todas as notícias da homenagem ao professor Óscar Lopes, assim como as notícias sobre um jantar de confraternização de antigos alunos do Colégio Militar.


Qualquer notícia sobre as sessões do julgamento das Três Marias, serão todas CORTADAS.



Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta eram acusadas de a partir da data de 1 de Março de 1971 terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.
Para os coronéis-censores pornografia e expressões atentórias da moral pública seria, possivelmente algo como as últimas palavras da última carta do livro:
Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dedos.
Desço:
Macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessariamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa da morte do meu corpo.

Esta é a primeira carta do livro:  


terça-feira, 30 de julho de 2013

O ÚLTIMO NÚMERO DE "A CAPITAL"


Primeira página do último número de A Capital, 30 de Julho de 2005, um sábado, tendo como director interino Paulo Narigão Reis.

Em 21 de Fevereiro de 1968 os ardinas passavam a ter mais um título de vespertino para apregoar. E com alguns, saía assim: Lisboa, Capital, República, Popular.

O jornal nasce de uma cisão no Dário de Lisboa. Norberto Lopes, director, Mário Neves, sub-director, juntamente com outros jornalistas, saem do Lisboa e formam a Sociedade Gráfica de A Capital.

Não alinhava com o regime mas não representou uma situação de oposição aberta.

Maria Teresa Horta coordenava o suplemento literário, Isabel da Nóbrega coordenava uma página feminina com ares novos, António Torrado dirigia o suplemento infantil, José Saramago coordenava o suplemento A Semana e esvrevia crónicas que, mais tarde, vieram a constituir o livro Deste Mundo e do Outro.

Na sucessão de directores que o jornal teve ao longo tempo, aparecem os nomes de David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares.

Alguns dos jornalistas de A Capital, de antes do 25 de Abril: Rudolfo Iriarte, Manuel Beça Múrias, Daniel Ricardo, Adelino Tavares da Silva, Manuel Batoréo, José João Louro, Pedro Alvim, Alice Nicolau e o meu amigo Hélder Pinho.

O perfeito louco, o inventor de histórias e reportagens.

José João Louro, seu camarada de redacção:

Hélder Pinho, para mim, o verdadeiro repórter. O mais autêntico até ao «naifismo». O inventor do Leão de Rio Maior. Dezasseis primeiras páginas – o surrealismo na imprensa portuguesa. Foi leão, canguru, até acabar como cão-d’água. Um leão que assustou e entreteve o País. O fascismo decadente e podre pôs-se à caça do leão pelas serras, aventureiro em busca de uma ilusão.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

À LUPA


Maria Teresa Horta recusa receber o prémio literário, outorgado pela Fundação Casa de Mateus, pelo seu livro As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis, das mãos de Pedro Passos Coelho, cerimónia marcada para o próximo dia 28 de Setembro.

Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país.
Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência. Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores.

segunda-feira, 26 de março de 2012

JANELA DO DIA


1.

A sétima edição do encontro internacional Literatura em Viagem, que deveria realizar-se entre os dias 21 e 24 de Abril, em Matosinhos, está suspensa e poderá mesmo vir a ser cancelada se até ao final do mês o Governo não regulamentar a Lei 8/2012 (a chamada “lei do compromisso”), que impede as autarquias de assumirem qualquer nova despesa que exceda os fundos disponíveis no curto prazo.

A organização do encontro já tinha assegurado a participação de cerca de meia centenas de escritores de dez países diferentes, entre os quais se contam os franceses Olivier Rolin e Laurent Gaudé, o belga Bernard Quiriny, o norte-americano Philip Graham, a italiana Romana Petri, o sueco Henrik Nilsson, a chinesa Xinran ou os portugueses Paulo Castilho e Maria Teresa Horta. As viagens estavam pré-reservadas, bem como a estada dos autores em Matosinhos, o que não deixará de representar também algum prejuízo para as empresas que iam prestar estes serviços.

2.

O governo decidiu não publicar ou comentar a quantidade de pessoas presentes nas greves e manifestações.

Um lacaio do patronato não concordou e hoje bolsou umas atoardas que os jornalismos ouviram e reproduziram.

Há gente que, quando nasce desprezível, cedo nunca perde o tique:

Numa conferência de imprensa em Lisboa, o secretário geral da UGT garantiu que nenhum dos seus sindicatos aderiu à greve geral da passada quinta-feira e convocada pela CGTP.
Apesar das críticas à outra confederação de sindicatos, Proença disse ter esperanças de que as duas centrais procurem uma unidade de ação futura para prosseguir objetivos comuns.

3.

Cavaco Silva lamentou hoje, profundamente, que dois fotojornalistas, na quinta-feira, no Chiado, tenham sido barbaramente agredidos pela polícia.

Penso que é importante que todos saibamos, que o povo português saiba bem tudo aquilo que aconteceu nos distúrbios que ocorreram no Chiado.

O povo português ficou a saber do que realmente se passou, na Ponte 25 de Abril, era Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro e Dias Loureiro seu ministro da Administração Interna?


Legenda: capa de António Domingues para Borobudur, Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas de Roger Vailland, Prelo Editora, Lisboa 1961

terça-feira, 23 de março de 2010

MONOS E LIVROS


No dia em que contribuímos para que as médias-pequenas livrarias morressem, ficámos dependentes de colossos, como a FNAC, cujo único objectivo é o lucro a qualquer preço.

Jorge Silva Melo, numa crónica a que chamou “Já Fechou a Livraria”, incluída no seu “Século Passado”, conta que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique mas não chegou a estar aberta um ano.“Por que não fui interlocutor solidário daquela senhora que efectivamente ousou e foi vencida? Por que hei-de perdoar-me a mim? Não foi isso mesmo o que eu disse àquele pequena livraria? Que não a queria? Que não me servia para nada? Que lhe prefiro a Internet e as fnacs? Se a pequena livraria fechou, fui também eu que a fechei".

O Orson Welles dizia que, no tempo das grandes superfícies, chegará o dia em que iremos ter saudades do merceeiro da nossa rua.

Há dias soube-se que a “Leya” guilhotinou milhares de livros. Na discussão e indignação que se gerou, Maria Teresa Horta lamentou a destruição pela Bertrand Editora, do seu livro “A Paixão Segundo Constança H” que ela julgava esgotado.

Neste país que não lê, publicam-se demasiados livros, quarenta por dia, ao que dizem e a maior parte é lixo.

Há livros que chegam a estar apenas duas a três semanas nas livrarias, mas como não têm procura são devolvidos.

As livrarias, principalmente as grandes superfícies, tornaram-se meros entrepostos de novidades e apenas estão interessados naqueles que se vendam bem . Estão neste caso os livros "escritos" por um qualquer futebolista, um qualquer treinador de futebol, um qualquer pivot de televisão, um qualquer político,um qualquer vendedor de banha-de-cobra, não importa o que dizem, se têm ou não qualidade.
Estes são os livros que não regressam aos armazéns da editora. Ficam semanas e semanas nos tops.

Leio em “A Bola”, que acaba de sair “Os Mandamentos de Jesus” escrito por Rui Pedro Brás.

Ao que diz a notícia, o livro conta as origens humildes do treinador Jorge Jesus, as suas histórias e fala também de tácticas.

Não terei qualquer dúvida que se amanhã entrar numa livraria encontrarei montanhas de “Os Mandamentos de Jesus”, que dado todo o vento que sopra em redor do clube e do treinador, se vão vender desalmadamente.

Nessa mesma livraria se perguntar por um livro, por exemplo, de Carlos de Oliveira, ou José Gomes Ferreira, a resposta é um “não temos” e como não querem chatices, adiantam logo que está esgotado.

Não está esgotado, encontra-se, apenas, a apodrecer num qualquer armazém dos subúrbios. Passados os prazos legais serão guilhotinados.

É este o triste destino a que os amantes dos livros estão condenados quando, numa livraria, procuram um livro que não esteja anunciado na TV, que não tenha sido bolsado por uma qualquer arvela do “jet-set”.