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terça-feira, 29 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Educação Sentimental

Maria Teresa Horta
Editorial «A Comuna», Lisboa, Fevereiro de 1976

As mãos

Porque das mãos
toda a importância está
no que seguram

Digo-vos:

naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite

nem ternura…

Porque das mãos
toda a razão está
no que descuram

Digo-vos:

naquilo que desfrutam
e manipulam por vezes
sem vontade

nem brandura…

sexta-feira, 8 de junho de 2018

QUEM?


                                                    A todas as mulheres anónimas destruídas-
                                                    -assassinadas. Diariamente aniquiladas:

Quem te disse
e propagou
           perdida?

Quem usou
abusou
           da tua voz?

Quem se cansou
te abandonou
           na vida?

Quem se esqueceu
te perdeu
           e em seguida
te acusou do crime mais atroz?

Quem te tirou
dos braços
           tua filha?

Quem mandou pôr
teu nome
         no jornal?

Quem destruiu
o riso
         que ainda tinhas?

Quem te matou
te assassinou
         te envenenou de mal?

Quem recusou de
             ti
tudo o que vinha?

Quem te meteu
no corpo
         este punhal?

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril

Legenda: desenho de José Dias Coelho

domingo, 18 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Mulheres de Abril

Maria Teresa Horta
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1977

Diz

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

Organização de José Mário Silva
Capa: Gito Lima
Companhia das Letras, Lisboa, Novembro de 2017

Auto Retrato

Eu sou outra em mim mesmo
e sou aquela.

Sou esta
dançando entre as lágrimas

Sou o gozo
no gosto de ser espelho
e me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

Sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

Eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

E se na história desta me confirmo
na vida de outra não me traio

Feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em Maio

Maria Teresa Horta

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SEGREDO


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar 

Maria Teresa Horta

(Poema colocado por Nicolau Santos, na página Cem por Cento, Expresso, 23 de Maio de 2015, com esta nota:
Maria Teresa Horta, “Segredo”, editado em Abril de 1971 pela Dom Quixote e apreendido pela pide/dgs EM 3 DE Junhgo desse ano. A proprietária da editora, Snu Abecassis, foi advertida de que a editora seria encerrada se voltasse a publicar obra da poetisa.)

Legenda: pintura de Henri Matisse

sexta-feira, 17 de abril de 2015

SÃO SÍTIOS DE LUTA


Os lugares regulares
que os homens usam

os países

os quartos

e as ruas

são sítios de luta
que precisos
se utilizam na paz
e na procura


Maria Teresa Horta, publicado na Seara Nova nº 1418, Dezembro de 1963

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Um júri composto por Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral, atribuiu, por unanimidade, o Prémio Literário D. Dinis a Maria Teresa Horta, pelo romance As Luzes de Leonor, baseado na vida da Marquesa de Alorna.

O livro, editado pela Dom Quixote no ano passado, segundo a autora, demorou 13 anos a ser escrito e implicou muita pesquisa e muita paixão.

Espalhem a notícia, leiam e releiam Maria Teresa Horta e fiquem com a simplicidade deste Roteiro de Lisboa, poema escrito em 1973:

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

Legenda: a fotografia de Maria Teresa Horta é tirada da contra capa do seu livro Educação Sentimental