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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

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O que se lê na contracapa do livro é a sua sinopse:

«Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação, nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura.
A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.»

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias, aborda, deste modo, o livro:

«Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance).»

Não desgostei da leitura da Autobiografia, é uma muito interessante proposta, mas perdi-me por ali. E detesto perder-me na leitura dos livros.

Acontece, meus caros.

Mas Miguel Real, na crítica que publicou no JL, qualifica Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao Verão de 2019 e deixara aviso:

«A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.»

Falhei.

Onde e como?

É por isso que, lá mais para a frente, terei que regressar à sua leitura, pois então!

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


E mesmo os mais velhos já desistiram de pedir que lhes mandemos um postal quando vamos de férias. É que o mais provável é chegarmos a casa muito antes dele.

Maria do Rosário Pedreira no Horas Extraordinárias

quarta-feira, 8 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


À medida que vamos envelhecendo, o tempo parece andar mais e mais depressa.

terça-feira, 23 de abril de 2019

VIVAM OS LIVROS!


Não me dou nada bem com os-dias-seja-do-que-for…
Ao abrir o computador, fui dando conta de que hoje é o Dia Mundial do Livro.
Que seja!
Não há dia algum que, por isto ou por aquilo, não pegue num livro.
Na visita diária aos blogues que a casa frequenta,  encontrei, no Horas Extraordinárias, este pedacinho:

« Durante o dia de hoje, em toda a Holanda, os transportes públicos são gratuitos para os passageiros que mostrarem um livrinho ou vierem a ler. Os caminhos-de-ferro holandeses fazem isto desde 1932, encorajando a leitura nos comboios e estendendo a gratuitidade do bilhete a um fim-de-semana inteirinho. Mais: o governo encomenda um livro a um autor holandês conhecido e oferece-o a todos os que, nesta data, vão às livrarias e compram livros; e depois, na bilheteira das estações de comboio, basta a um passageiro apresentar esse livro oferecido para ter um bilhete de borla.»

Legenda imagem tirada de My Dreams

domingo, 24 de março de 2019

OLHARES


Na sua crónica no Diário de Notícias, Maria do Rosário Pedreira lembra o Catecismo Nacional, na capa uma imagem de Jesus falando às crianças, e nele se podia ler o aviso de que Deus estava em toda a parte e tudo via.

Lembro-me dessa lenga-lenga ditada pela malta da rua que ia à catequese do Senhor Magalhães ma Igreja da Penha de França.

Eu jogava a bola da rua, fiquei longe dos ensinamentos.

Muito mais tarde, quando as grandes desgraças aconteciam aos homens.
sempre me perguntei onde estava Deus.

É nisso que penso quando olho as imagens trágicas das cheias em Moçambique.

Uma vez mais.

E Deus?

 Onde está?

Tentam dizer-me:

Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.

Mas continuo a olhar as imagens das cheias de Moçambique.

As de hoje.

Poderiam ser as de Fevereiro do ano 2000 e lembrar as palavras de Mia Couto:

Nestes 19 anos, o que fizeram os homens por todos os Moçambiques-em-tempo-de tragédia espalhados pelo Mundo?

Que caminhos tomaram as solidariedades de então?
E as solidariedades de agora, que caminhos vão percorrer?

E Deus, está mesmo em toda a parte e tudo vê?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

EM QUEDA


Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem). Depois de, na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma agente literária alemã me ter dito que a Alemanha (a Alemanha?) perdeu seis milhões de leitores em quatro anos, ouço agora um testemunho do professor responsável pelo mestrado em Edição na Sorbonne num podcast do site da revista profissional Livres Hebdo e fico de boca aberta: a França teve a sua maior queda de vendas de livros dos últimos dez anos – 45 milhões de exemplares em 2018 contra 54 milhões em 2017. A França, que foi sempre o símbolo do país livre e educado a que aspirávamos (sobretudo, antes do 25 de Abril) está em declínio há já muitos anos (por isso já tão pouca gente aprende francês), mas os resultados da Frente Nacional de Marine Le Pen de há uns tempos para cá e as mais recentes manifestações dos coletes amarelos mostram bem que as coisas vão pior do que gostaríamos. E, sem leitura, a tendência é mesmo para bater no fundo…

Maria do Rosário Pedreira em Horas Extraordinárias.

Legenda: fotograma de Fahrenheit 451, de François Truffaut.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ADEUS, FUTURO


Em Outubro de 1965, com a cumplicidade do Carvalho, trabalhador da então Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, no edifício onde era o Cinema Eden, adquiri a «Antologia de Poesia Portuguesa do Pás Guerra», organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva Tavares.

Um ou dois dias depois, a PIDE realizou um raid pelas livrarias e colocou a Antologia «fora do mercado».

O passar dos olhos pelos poemas da Antologia deu para verificar que o meu conhecimento da moderna poesia portuguesa era um verdadeiro escândalo.

Pedi ajuda para colmatar as lacunas e aconselharam-me, para começo, comprar ou ler, todos os volumes da «Colecção Poetas de Hoje», então editados pela Portugália Editora.

Assim fiz e aos poucos fui conhecendo José Gomes Ferreira, António Reis, Reinaldo Ferreira, Eugénio de Andrade, José Saramago, Egito Gonçalves, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, outros tantos e até dois poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Foi deste modo que fui desaguando no fértil mar da Poesia Portuguesa.

As escolas por onde andei, nada me tinham dito e não lembro que algum professor de Português tivesse referido, tirando os que poetas que estavam nas selectas impostas pela ditadura, um destes nomes atrás citados.

Hoje, fiquei a saber que Maria do Rosário Pedreira se tornou cronista dominical do Diário de Notícias e que passa a colocar no seu blogue Horas Extraordinárias essa dita crónica.

A crónica intitulou-a Poesia & Cifrões e retive a parte final:

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.

Natália Correia, citada por Maria Rosário Pedreira no blogue Horas Extraordinárias.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros.» A frase, absolutamente maravilhosa, é de José Saramago e pertence ao romance A Caverna, o primeiro que o escritor publicou depois de vencer o Nobel da Literatura, há vinte anos; foi recentemente partilhada por um jovem escritor no Facebook que me deu a ideia de a partilhar também. Além de tudo, fez-me lembrar os anos em que eu fazia a Feira do Livro de Lisboa dentro do stand, atrás do balcão, e numa bela tarde uma senhora, que quase de certeza nunca entrava em livrarias por se sentir intimidada, chegou ali ao parque, viu aquelas casinhas, tomou coragem, aproximou-se e disse, a olhar para mim: «Ó menina, tem algum livro que ensine como se deitam os canários?» Eram outros tempos. Boas recordações.

Maria do Rosário Pedreira em Horas Extraordinárias

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

UMA TRISTEZA TÃO FRIA!...


Uma cidade pode medir-se, cheirar-se pelas suas livrarias.

Podemos lembrar Nova Iorque, Paris, Londres.

Mas também sabemos que nestas, tantas outras, cada vez há menos livrarias.

Lisboa tem agora uma quantidade incalculável de hotéis e hostels, o raio que os parta, e estão muitos mais a serem construídos.

Mas cada vez tem menos livrarias.

Há um mundo da minha cidade que estou, em cada dia, a perder.

Já não percorro a cidade como em outros tempos o fazia. Vão-me escapando coisas, causas várias, e isso entristece-me, mas é assim…

Sou capaz de tomar conhecimento, através dos jornais on-line, das coisas mais inúteis e disparatadas, acontecimentos de gentes que desconheço completamente e não me interessam para nada.

No entanto, apenas soube, através do blogue de Maria do Rosário Pedreira, de que a Livraria Aillaud e Lellos, na Rua do Carmo, fechou portas no passado mês de Dezembro.

A Amazon isto, aquilo e aqueloutro.

Mas eu gosto de olhar os livros, folhear os livros, cheirar os livros numa livraria.

A Aillaud terá sido a livraria que menos frequentei mas sinto um inexplicável sobressalto agora que sei que não volto a lá entrar.

A ganância do senhorio entendeu que livros não são negócio rentável e terá exigido uma renda incomportável aos donos da livraria.

Irá agora nascer mais uma daquelas lojas disparatas que em breve tempo fecham portas.

Por quantos diferentes negócios já passou o que foi a Livraria Portugal?

Legenda: esta fotografia da Aillaud e Lellos foi tirada em Janeiro de 2012, no mesmo dia em que tirei a da então Livraria Portugal. Tirei-a na convicção que também não iria durar muito.
Assim foi...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 6 de janeiro de 2018

ETECETERA


Cumprida está a primeira semana do Novo Ano.

A palavra-chave da mensagem de Ano Novo do Presidente da República foi «reinventar».

Mas reinventar o quê?

Quem?

Ficou a dúvida.

Pode ser que, durante as suas múltiplas declarações aos jornais e televisões, Marcelo vá clarificando.

Talvez…

CATALUNHA

A justiça espanhola mostra-se incapaz de lidar com o buraco que Rajoy construiu na Catalunha.

Como se fossem vulgares criminosos, mantém na prisão líderes independentistas.

 A Catalunha ão é um caso jurídico. É um caso político.

Sombras e fantasmas franquistas que não desapareceram.

Sabemos como é.

A procissão ainda não saiu do adro.

CHILE

O candidato da coligação de direita Chile Vamos, Sebastián Piñera, obteve 54,57% dos votos na segunda volta das eleições para a presidência do Chile.

Trata-se da maior derrota da área de centro-esquerda desde o fim da ditadura de Pinochet, em 1990.

ÁUSTRIA

Os neo-nazis regressaram ao Governo da Áustria.

Sebastian Kurz, 31 anos, Chanceler eleito e líder do Partido Popular, coligou-se com Heinz-Christian Strache, 48 anos, líder do Partido da Liberdade, o FPÖ, fundado em 1956 por proeminentes nazis.

Não é a primeira vez que o FPÖ chega ao poder, mas, em 2000, a controvérsia junto da opinião pública austríaca e internacional, de Israel e da UE foi tanta, que Jörg Haider não chegou a entrar no Governo. Agora, Heinz-Christian Strache é vice-chanceler, e o FPÖ nomeou 6 dos 13 ministros, entre eles os do Interior, Defesa e Negócios Estrangeiros.

A Comissão Europeia assobia para o lado.

LIVROS?

Copiado do blogue «Horas Extraordinárias» de Maria do Rosário Pedreira:

«A escritora Luísa Costa Gomes partilhou na sua página do Facebook um anúncio que estava na OLX no dia 22 de Dezembro último e que deve fazer-nos reflectir sobre os tempos que atravessamos. Começava assim: “Vendo livro novo para quem gosta de ler tipo romances.” (A redacção é, já de si, bastante má e oral...) E, depois da fotografia do dito romance (na verdade, imagens da capa e contracapa de uma obra intitulada Shangai Baby, de Wei Hui, em inglês), a conversa era esta (cito): “vendo um bom livro de romance supostamente está novo nunca foi lido. troco por tsirts tm de marca em bom estado.” Enfim, nem sei para que continuo eu a fazer livros…»

JORNAIS E REVISTAS

Está consumada a venda de alguns jornais e revistas da Impresa.

O comprador, não se conhecem valores, foi o jornalista Luís Delgado, presidente da Trust In News.

Diz-se pelas esquinas que é um mero testa-de-ferro.

Delgado nega por completo e declara-se detentor a 100% da sociedade.
Os jornais, revistas e outras publicações periódicas perderam 28% de circulação total em 2016 face ao ano anterior, registando-se também uma quebra de 17,6% nos exemplares vendidos, revelou o Instituto Nacional de Estatística.
De acordo com as estatísticas em 2016 existiam 1.271 publicações periódicas, que corresponderam a 23.035 edições anuais, 420,5 milhões de exemplares de tiragem total e 322,2 milhões de exemplares de circulação total, dos quais foram vendidos 192,9 milhões de exemplares.

Em relação a 2015, verificaram-se, contudo, diminuições no número de publicações (2,7%), de edições (3,4%), na tiragem (22,3%), na circulação total (28,0%), nos exemplares vendidos (17,6%) e nos oferecidos (27,5%).

CTT

Os CTT preparam-se para fechar 22 lojas dos Correios em todo o país, a maioria das quais na Grande Lisboa e Grande Porto.

Este encerramento, bem como o despedimento de mil trabalhadores até 2020, estava previsto no plano de reestruturação dos CTT, negociado com o governo de Pedro Passos Coelho.

Diga-se, ainda, que desde que foram privatizados, os CTT têm desenvolvido um trabalho digno de um qualquer país do Terceiro Mundo: atrasos na correspondência, cartas que não chegam aos destinatários, perdidas não se sabe onde.

A FECHAR

«Diz-se que não se devem ter economias baseadas em mão-de-obra barata. Não sei por que não. Porque se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém.»


Belmiro de Azevedo

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RECADOS


Na caixa de comentários de Horas Extraordinárias, o blogue de Maria do Rosário Pedreira, encontrei esta referência a um extraordinário livro de Leon Tolstoi:

«Uma pequena novela mas um dos livros da minha vida: A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. Pode tornar-se longo porque apetece lê-lo muitas vezes.»

Sim, um livro que apetece ler muitas vezes.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

TRUMPALHADAS


Os americano começam a perceber que o seu presidente, em lugar de se dedicar aos problemas da nação, passa as noites a ver televisão e a escrever textos no twitter.


Maria do Rosário Pedreira deixou este texto no seu Horas Extraordinárias:

Contaram-me que muitos americanos nunca viram um peixe senão em filetes, no prato, e que ficam estarrecidos quando lhes servimos aqui em Portugal um corpo escamoso, com uma espinha a meio, além de rabo e cabeça, ficando sem saber o que fazer com ele (mas depois gostam, claro). Também me disseram que, nos EUA, quando pedem a algumas crianças para desenharem uma galinha, elas a desenham depenada e embalada, tal como a encontram no supermercado. O Washington Post noticiou, porém, recentemente algo de bradar aos céus que até parece brincadeira... ou mentira. Publicando os resultados de um estudo realizado por um Centro de Inovação Americano, declara que 16 milhões de adultos norte-americanos (cerca de 7% da população) acham que o leite achocolatado que se vende nos supermercados provém de vacas castanhas, desconhecendo, aliás, que o chocolate é feito de cacau, leite, açúcar... Enfim, torna-se para mim cada vez mais claro como é que Trump chegou a presidente... Bom fim-de-semana!

sábado, 3 de junho de 2017

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A Feira do Livro abriu no dia 1 e encerrará no dia 18 de Junho.
Como escreveu a Maria do Rosário Pedreira:

«  O tempo foge e os livros estão à espera.»

quarta-feira, 5 de abril de 2017

VOU-TE CONTAR UMA HISTÓRIA


Maria do Rosário Pedreira revelou, há dias, no seu blogue, «Horas Extraordinárias» que, andando à procura do poema «Ceguinha» de João de Deus foi ter a um blogue com uma extensa lista de obras literárias relacionados com o problema da cegueira.

Inevitavelmente, está nessa lista o Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago - «se podes olhar, vê. Se podes ver, repara» – e também A Nau de Quixibá de Alexandre Pinheiro Torres, um livro imperdível.

Curiosamente, o texto seleccionado do livro de Pinheiro Torres, é um dos muitos pedaços que do livro sublinhei.

 Um tanto longo e que aguardava disponibilidade para ser transcrito.

São páginas muito bonitas.

Aproveito a boleia do blogue «Sobre a Deficiência Visual» e transcrevo-as.

Deixo ainda uma citação de Jorge Luís Borges que um viajante do «Horas Extraordinárias» deixou na caixa de comentários:

«Para a tarefa de um artista, a cegueira não é necessariamente uma limitação. Ela pode ser um instrumento».

A blogosfera, tirando alguma – muita! – javardice que por lá campeia, oferece-nos pérolas que nos fazem sentir gente.

Esticou o braço para o seu lado esquerdo donde o pobre do sol, moribundo, ainda fulgurava nas suas barbatanas rápidas,
«Vou-te contar uma história. Havia aqui um homem quase cego desde nascença. Tanto lhe minguava a luz que, para ele, quem lhe falasse surgia-lhe como uma mancha equilibrada no alto de um varapau de palavras. Antes de o conhecer não acreditava que um cego pudesse ter confiança fosse no que fosse. Sempre dissera a mim próprio: "os cegos são as pessoas mais inseguras do mundo". com os anos descobri que me enganava. O cego de que te falo nunca tivera qualquer receio em atravessar as ruas de S. Tomé. Caramba!, sempre há algum tráfego! Mas se fosse forçado a cruzar uma das ruas da Baixa de Lisboa, caso estivesse a elas afeito, não seria por se lhe deparar mais movimento que se mostraria mais aflito. Possuía, desde o mais fundo de si, uma confiança absoluta no poder da bengala às listas brancas e negras. Um dia perguntei-lhe: "Você não tem medo dos perigos?" Voltou para mim os olhos parados (eu seria apenas mais uma mancha, apenas com voz diferente), e contestou-me: "Que perigos?" O homenzinho mostrava-se surpreendidíssimo. "Ser cego", disse-me, "também tem as suas vantagens. Não posso ter medo daquilo que não vejo." Era tão óbvia a minha incompreensão do mundo do cego que insisti: "Você não tem, por exemplo, medo das alturas?" Ele riu-se: "Oh!, meu bom senhor!, então vossemecê julga que eu vejo as alturas?" Olha, meu filho, fiquei com cara de parvo, mas, como ele não podia ver-me a cara de parvo, aguentei firme.»
Aqui foi acometido por um prolongado ataque de tosse: "mas que grande chatice!". Entrelaçou os dedos das mãos (notei que a aliança lhe estava larguíssima), e deteve-se à tona de um sorriso que realmente era só água:
«E depois?», perguntei-lhe.
Queria animá-lo a mudar de assunto: ressuscitar o sol.
«Bom. Um dia soube-se que vinha de Luanda um oftalmologista de fama passar aqui umas férias a casa de um irmão, aliás primo do Governador. Houve gente aí que aproveitou logo para consultá-lo, até eu, mas alguém falou-lhe do cego, porque o oftalmologista examinou-o e desde logo afirmou que aquele era um dos casos de fácil cura. O espanto é que o cego andava como doido. Perguntava a toda a gente: «Que vai ser de mim quando deixar de ser cego?» Um dia, encontrava-me eu na cidade, vejo-o parado à beira de um passeio. Não vinha qualquer automóvel, mas havia uma curva perto. Eu atravessei e ele ficou parado a olhar para todos os lados. Houve um momento em que pôs o pé direito na rua mas retirou-o logo: «Então você agora é que tem medo de atravessar?» Ele olhou-me e disse-me: «Reconheço-o pela voz. Já sabia que o senhor era pequeno, mas não julguei que o fosse tanto!» O cego, aliás o ex-cego, estava de boca aberta, e, nisto, diz-me uma coisa espantosa: «Oh!, meu senhor, afinal os cegos têm medo de ver. Pode surgir um carro dali da curva e eu não ter tempo de ir para o outro lado.»
«Um cego ter medo de ver», pus-me a rir. «Essa realmente é muito boa.»
O meu Pai é que não ria.
«A história que te contei é uma anedota?», perguntou-me.
«Que é então?»
Olhava-o em desafio. «Então na história que te contei, aliás verdadeira, não há nada de terrível?»
«Terrível?»
Nem tentei procurar uma justificação para o adjectivo. Terrível, porquê? Mais valia considerá-la uma história de fadas. Imagine-se!, um cego com tanta sorte que lhe aparece um oftalmologista, como que caído do céu, e que torna a ver, quando há muito já perdeu as esperanças. Então enchia-se de medo de ver. «Medo de ver?» Era de escachar a rir.
«E que tal um paralítico com medo de andar?", ripostei, folgazão. "E um surdo com medo de ouvir? E um mudo com medo de falar? E um morto com medo de viver?»
Ria, claro, para me vingar. Também precisava de o ferir. Ele não achava piada nenhuma. Só murmurou, quase inaudível: «E um cérebro com medo de pensar?» Voltou-se para mim:
«Então tu não percebes que ninguém tinha ensinado o cego a ver? Puseram-lhe uma bengala nas mãos. A bengala tornou-se-lhe artigo de fé. Mas quem cuidou de ensinar-lhe como atravessar uma rua por si só, de olhos abertos, ele que sempre atravessara todas as estradas, pontes, picadas e vaus da ilha de olhos fechados, defendido pela bengala? Ele viera de um universo que conhecia. Do seu planeta de cego. Esse era o mundo que tinha aprendido, que lhe tinham ensinado, o mundo em que acreditava, em que depositava confiança, a que sabia responder.»
Suspendeu-se. Eu também parei de rir com a certeza agora confirmada de que a história prolongava a conversa acintosa de há momentos. Meu Pai realmente era habilidoso. Não dispunha de uma mentalidade apenas meramente óbvia. Diagnóstico que se me impôs no mesmo segundo que ouvi, do cofre das lembranças, esta frase de minha Mãe: «Teu Pai foi sempre uma luz debaixo de um alqueire. Quando nós namorávamos escrevia-me as cartas mais bonitas que até hoje se escreveram. Ainda hoje sei algumas de cor.» Logo se fechara arrependida do desabafo.
Ora eis o que me desagradava no meu Pai: a urgência de contestar, de convencer, de refutar, e, por certo, a de justificar-se como falhado. Isto num tom a roçar o ostentoso, ou o teatral. Como para demonstrar a exactidão do meu diagnóstico, fez outro longo gesto para o alto. Para o sol que morria? Alçando a cabeça e olhando-me como se fosse agora dois ou três palmos mais alto do que eu, intimou-me com a espingarda apontada do dedo:
«Então vem-nos, de súbito, uma luz de uma fonte inesperada, vemos o que nunca vimos antes, ficamos a saber que há todo um mundo para aprender e obstinámo-nos com a bengala? Então descobrimos que a luz de que antes dispúnhamos até nos encerrava no conforto da cegueira, e não nos assustamos? O problema do ex-cego é que ele tinha, além do mais, todo o seu mundo-de-cego para desaprender.»
No seu inesperado entusiasmo quase se ergueu do cadeirão, de tal forma que me roubava por completo o resto do sol. E eu a gozar aquele tão minguadíssimo calor com a avareza de Diógenes. Disse-lhe:
«Oh!, meu Pai, estás-me a tirar o sol!» Reclinando-se novamente na cátedra de palha, respondeu-me com estranhíssima calma:
«Não gostaria que me tivesses vindo ver, e de tão longe, para eu, como prémio, nem sequer te proporcionar um pouco de luz.»
Houve, de novo, um longo silêncio. A ala esquerda das nuvens forçava as barbacãs do cume do Calvário. A luta parecia desigual. A bruma venceria a pedra. Mais próximo do mar, mas muito mais enterrado no algodão negro do firmamento, o pico de S. Tomé já desaparecera do campo da batalha.
Que significaria a história do cego? Que meu Pai não se encontrava de acordo com a maneira como a juventude do país era conduzida? Ora a novidade! Se não errava na moral da parábola, esta constituía mesmo um insulto disfarçado ao Portugal contemporâneo. Que poderia querer significar senão que eu, como os meus iguais, vogávamos encantados num mundo que era imperativo desaprender? Teria meu Pai acabado de se me propor como o oftalmologista de que eu, na aparência, tanto carecia?
«O cego só começou a ter dúvidas depois de lhe restituírem a vista...»


Legenda: imagem de Michael Ancher tirada de «Sobre a Deficiência Visual».

terça-feira, 28 de março de 2017

TRUMPALHADAS


A América culta ficou em choque quando Donald Trump propôs, recentemente, acabar com as agências de apoio às Artes e Humanidades e não as contemplar, pura e simplesmente, no orçamento. É o primeiro presidente a fazê-lo desde que estes apoios foram legislados por Lyndon Johnson, em 1965, que declarou que qualquer civilização desenvolvida deveria valorizar as artes e a cultura em geral. Era com uma «pequena» fatia (300 milhões de dólares) do orçamento que, há décadas, os museus compravam obras de arte e muitas instituições concediam bolsas a músicos, escritores, pintores e estudiosos. Mas, embora o Congresso tenha ainda uma palavra a dizer e nada esteja decidido, há gente boquiaberta em todos os quadrantes, até porque a filha de Trump é mecenas de artistas há muito tempo e a mulher do vice-presidente uma pintora. Os grupos que serão lesados fazem agora lobby junto dos Republicanos para que estes não votem na supressão destes agentes culturais; além do mais, alguns alegam que está em causa a preservação da própria história americana (há muitos museus que precisam de verbas para digitalizar cartas, fotografar uniformes, registar textos escritos relativos às guerras, etc.). Enfim, só o PEN Club já conseguiu 200 000 assinaturas numa petição para a conservação das agências, com a assinatura de muitos escritores de todo o mundo. Mas será que vai ajudar?

Maria do Rosário Pedreira no blogue Horas Extraordinárias

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


 A notícia poderia ser o Jorge Silva Melo quando chama mentiroso ao Presidente da República ao dizer que estivera no primeiro espectáculo da Cornucópia, O Misantropo, de Moliére, em 1973, «é que eu é que tratava dos bilhetes, tenho memória infalível, era a nossa estreia e sei lindamente quem foi (muitos já morreram) e quem não foi.»

Mas volto-me para o texto que a Maria do Rosário Pedreira publicou ontem no seu blogue Horas Extraordinárias:

Desde que comecei a trabalhar na edição que vejo muitos jornalistas de qualidade desaparecerem de cena em levas sucessivas de despedimentos colectivos. E reparo que, frequentemente, os que saem são justamente aqueles que eu achava desempenharem melhor a sua função, substituídos por moleques e miúdas que têm quantas vezes ordenados de miséria mas dizem a tudo que sim. Desta feita, a injustiça tocou a alguém que está perto de mim – uma autora que, além de galardoada desde muito cedo como jornalista com quase todos os prémios de jeito que havia para ganhar, ainda arrecadou com o seu romance de estreia o prémio mais cobiçado atribuído anualmente a uma obra de ficção. Falo, evidentemente, de Ana Margarida de Carvalho (e de Que Importa a Fúria do Mar), que acaba de ser dispensada da revista Visão, para a qual trabalhava havia muitos anos, e que tinha seguramente mais bagagem, experiência e talento do que muitos dos seus confrades que lemos ou ouvimos actualmente nos meios de comunicação portugueses. Segundo um post que ela própria publicou no seu mural do Facebook, a terrível notícia foi-lhe dada por um membro dos Recursos Humanos da empresa, nem sequer por aqueles que chefiam a redacção ou dirigem a revista, como se as pessoas já nem fossem pessoas, mas meros números, e não merecessem respeito nem gratidão pelo trabalho que fizeram durante anos. Fico muito triste – não só por ela, mas pelo estado a que as coisas chegaram num país que teve de lutar pela liberdade de expressão durante tanto tempo e que, afinal, mais de 40 anos decorridos do estabelecimento da democracia, volta a comportar-se como se estivesse numa ditadura (a ditadura do dinheiro e das vendas): Pensas, logo não podes existir.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

RECADOS


O Recado hoje, aponta para o livro de George Simenon, O Homem Que Via Passar os Comboios.

Se o encontrarem por aí, não fiquem a ver passar os comboios.

Quem o diz é Maria do Rosário Pedreira no Horas Extraordinárias.