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sexta-feira, 19 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Reunida

Maria do Rosário Pedreira
Prefácio: Pedro Mexia
Capa: Rui Rofrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2013

Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer - que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem


que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem


que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí - ainda mais perdida do que
antes - a olhar sem ver. Ainda bem


que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer - mas é - um poema de amor.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Canto do Vento nos Ciprestes

Maria do Rosário Pedreira
Capa: Rogério Petinga
Gótica, Lisboa, Maio de 2007

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


A Casa e o Cheiro dos Livros

Maria do Rosário Pedreira
Capa: Rogério Petinga
Gótica, Lisboa, Maio de 2007

                                                             para João Guimarães

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam
trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.