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domingo, 27 de maio de 2018

PROCISSÃO


Lagarta subindo devagar a encosta,
aqui da planície oiço o teu canto,
pressinto a fadiga da tua gente
- velho sustento de um corpo mole –
E o cheiro a sebo que te ilumina.

Enquanto espero sair desta prisão
mando o meu grito frouxo de crisálida
contra a tradição, a fome e a sede
comandando a esperança que não tens.

Desce lagarta!
E após o descanso de amanhã
subirás
voando as cores das tuas asas.

Marta Cristina de Araújo em Poesia Portuguesa do Pós Guerra

terça-feira, 6 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Tear da Casa

Marta Cristina de Araújo
Com um desenho de Ângelo de Sousa
Colecção Alegria Breve nº 5
O Oiro do Dia, Porto, Novembro de 1981

A morte construi-se rápida reluzente por detrás dos taipais. Nunca
me disseram      podia ter sabido      a casa dantes habitada fora destruída
e dela só haviam aproveitado os materiais ainda resistentes.       O granito
Certas madeiras as mais caras.      Outra dos caixilhos queimaram-na os
operários no aquecer das suas comidas.     Devem ter passado dois
invernos depois do vazio e certamente se juntavam muitas vezes durante
os intervalos ou pequenas fugas.       Falariam de quê?      De como decorria
a construção da morte     dos pormenores tanto-fecho-nas-portas         do
pequeno salário      quem sabe se ainda recordavam alguns dos antigos
habitantes e diziam obrigaram-no-a-mudar-foi-para-longe-as rendas-têm-
-subido-no-centro-da-cidade.

domingo, 29 de janeiro de 2017

TRONO SOBRE TRONO


O perigo é companhia para o soberano
que instalou seu trono sobre a dinastia
seu projecto (recto) vem do longe donde
se ameaçam o riso o corpo o movimento
o segredo (segrego) a fala o linguajar
do dia anterior continuadamente.
Nem todos são os súbditos, quem o conduziu
ao trabalho do quotidiano (ano) inquieto
entre o sono iniciado tarde nas manhãs?

Breve é o receio de (o meio) deslocar-se
da paisagem mar apreendida extensa
entre o fio a fio assíduo da janela.
O momento é pouco para olhar as tintas e a criança
acode à chamada urgente (gente) dos vizinhos.
Surpreende (prende) o plano do levantamento
apropriado à sede (sede da melancolia)
no curso das leis seu código fechado
em área de confusos (usos) dos lugares.

Não é de desistência ainda o tempo
de há muito em sua mão a rédea de colares:
eu estou aqui segura e cúmplice
nada pretendo (entendo) além do encadeado
de anéis colhidos (escolhidos) devagar.
Talvez seja amor o medo da assistência
talvez seja amor a culpa de não ter
o objecto (o ente) predilecto que refaz
solene esta alegoria do frágil (ágil) vidro
e nos separa (pára) à margem do poder.

Marta Cristina de Araújo em Hexagramas, Depois de Finisterra

Legenda: desenho de José Rodrigues incluído em Hexagramas, Depois de Finisterra

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Os Meios de Transporte

Marta Cristina de Araújo
Desenho de Escher
Capa: Armando Alves
Colecção Pequeno Formato nº 40
Asa Editores, Porto, Março de 2004

À tua frente
silenciosamente
chegou o dia.

Já não vemos a cidade
o rio que passa perto
os amigos vozes barcos
confundidos na distância

Basta uma porta de exílio
todo o mundo lá ficou.
Onde longe sem fronteira
morta a memória da estrada?

Agora  nada nos prende
Ninguém nos espera mais:
No abandono dos outros
Deixámos o nosso amor

- resto de pão dividido
cada metade é a fome.
Conheço velha a que trouxe
levo comigo a que dou.

Ao teu lado
silenciosamente

chegou o dia.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Hexagramas, Depois de Finisterra
Marta Cristina de  Araújo
Capa de Armando Alves
Colecção O Oiro do Dia nº 57
Editorial Inova, Porto, Janeiro 1980

O perigo é companhia para o soberano
que instalou seu trono sobre a dinastia
seu projecto (recto) vem do longe donde
se ameaçam o riso o corpo o movimento
o segredo (segrego) a fala o linguajar
do dia anterior continuadamente.
Nem todos são os súbditos, quem o conduziu
ao trabalho do quotidiano (ano) inquieto
entre o sono iniciado tarde nas manhãs?

Breve é o receio de (o meio) deslocar-se
da paisagem mar apreendida extensa
entre o fio a fio assíduo da janela.
O momento é pouco para olhar as tintas e a criança
acode à chamada urgente (gente) dos vizinhos
Surpreende (prende) o plano do levantamento
apropriado à sede (sede da melancolia)
no curso das leis seu código fechado
em área de confusos (usos) dos lugares.

Não é de desistência ainda o tempo
de há muito em sua mão a rédea de colares:
eu estou aqui segura e cúmplice
nada pretendo (entendo) além do encadeado
de anéis colhidos (escolhidos) devagar.
Talvez seja amor o medo da assistência
talvez seja amor a culpa de não ter
o objecto (o ente) predilecto que refaz
solene esta alegoria do frágil (ágil) vidro
e nos separa (pára) à margem do poder.

sábado, 9 de outubro de 2010

HOMENAGEM A CHE GUEVARA


As palavras eram força justa
seu vestido as árvores sua casa
constante sonda da miséria funda
por não saber contar sua mudez.

Soletrou a tiros de espingarda
vozes de milhões de voz logo amputada
no berço alheio que os fez submissos
ao nulo programa dos anos de não ter

senão os corpos morenos calibrados
na medida inversa da esperança.
Corpos de cumprir a morte arando pastos
às feras iguais fardadas de comando.

Nada se perdeu no rosto que nos mostram
derrubado  ao peso de oito balas.
- Por cada voz de nítido protesto
Cada testemunho cada alarme

um  grito medo ou fome de criança
as palavras actos permanecem
renovadas sempre necessárias:

QUEM PÁRA MORRE. EU RETOMO A ESTRADA.

Marta Cristina Araújo em “Poemas a Guevara”, “Editora Limiar, Janeiro 1975