Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

PAPÉIS DATADOS


adeus longos e tristes embarques de soldados na Rocha de Conde de Óbidos para África ecos de lágrimas uma raiva mastigada passar as fronteiras a monte comboios que partem o som de um acordeão na gare de Austerlitz um povo acossado queríamos um país acontecia-nos uma enorme desesperança uma paz podre de cemitérios como se mantém este deserto? um país medonho monstruoso calado amordaçado sitiado vigiado o medo sobretudo o medo um silêncio de não poder respirar vontade de outros olhares vontade de dizer hoje toda a cidade me fala de ti mas «como hei-de amar serenamente com tanto amigo na prisão» (1) os dias a correr «um verão quando voltava de Londres, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer português. Em Lisboa, pela primeira vez na sua vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado» (2) dias e mais dias «estamos catalogados, estamos empalhados dentro de uma redoma de vidro, mergulhados num frasco com álcool, isolados de tudo e com um rótulo debaixo dos pés. O rótulo puseram-no os outros; nós consentimos acomodámo-nos e vamos vivendo com ele» (3) de quando em vez um grito «instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses. Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado! Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!»(4) tentar acreditar «diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada por feridas de granadas e enquanto a água e os víveres escasseiam aumenta a raiva e a esperança reproduz-se» (5) ler a história e ficar a saber «que um povo não morre porque o oprimem, mas morrerá certamente, se antes da luta, abdica» (6) e por fim sim por fim «digo-vos senhores é findo o vosso tempo o jogo terminou ainda que não o pareça» (7).

Citações:

(1) Versos de Fernando Assis Pacheco para uma canção de Adriano Correia de Oliveira
(2) Roger Vailland em A Lei
(3) Augusto Abelaira em A Cidade das Flores
(4) Mário Sacramento, em Carta-Testamento
(5) Egito Gonçalves, em A Viagem Com o Teu Rosto
(6) Basílio Teles em Textos Políticos
(7) Daniel Filipe em Pátria Lugar de Exílio

23 de Setembro de 1968

sábado, 19 de outubro de 2019

RUI JORDÃO (1952-2019)


Soube da morte de Rui Jordão, quando, pela manhã, visitei o Largo da Memória do Luís Enes.

Logo me ocorreu um muito longínquo Benfica Feyenoord e deixei comentário:

«Dos mais elegantes intérpretes de futebol que vi jogar.
22 de Março de 1972: 2ª mão da Taça dos Campeões Europeus, jogo com o Feyenoord no velho Estádio da Luz. Na primeira mão o Benfica perdera, em Roterdão, por 1-0. Aos 5 minutos de jogo já Nené empatara a eliminatória. Depois foi um festival do mesmo Nené e do companheiro Jordão. Resultado final: 5-1.
Não mais esquecerei esta noite, não mais esquecerei o bailado coreografado que Jordão, depois de  meter o quarto golo, fez, na baliza norte, ao longo da linha final em direcção à bandeirola de canto. Deslumbrante.
Foi uma pena ter ido para o Sporting, dizem que era o seu clube de coração, mas foi um homem que dignificou todas as camisolas que envergou e a todas deu o seu melhor.
Já não há jogadores assim!...
Talvez um rapaz que joga no Liverpool, de seu nome Sadio Mané, aufere por semana cerca de 170 mil euros, se assemelhe.
Esta semana disse não esquecer os tempos de pobreza durante a infância.
«Para que quero dez Ferraris, 20 relógios com diamantes e dois aviões? O que faria isso pelo mundo? Eu passei fome, trabalhei no campo, joguei descalço e não fui à escola. Hoje posso ajudar as pessoas. Prefiro construir escolas e dar comida ou roupa às pessoas pobres.»
Com gente desta, podemos dizer que o futebol  pode ser mesmo o maior espectáculo do mundo.»

Quando pendurou as botas, jogava então no Vitória de Setúbal, não mais quis saber do futebol. Dedicou-se a uma paixão que sempre o acompanho: a pintura.

Rui Jordão era um homem simples.

Na entrevista que o excelente Fernando Assis Pacheco, lhe fez em Janeiro de 1988, e que intitulou «Sem Sombra de vedeta», perguntou-lhe qual era a sua refeição favorita. E este respondeu-lhe que era bife.

Assis que era um eterno gozador e praticante ávido  da boa comida, da boa bebida, comentou:.

Coisa mais monótona!

Jordão acrescentou:

Eu não tenho o prazer da mesa, seria incapaz de sair de casa para ir a tal ou tal sítio comer determinada coisa. De maneira que o que lhe estou a dizer é uma habituação: bife, arroz, às vezes peixe grelhado, pouca batata. No meu caso foram dezasseis anos desta dieta. De vez em quando lá experimentamos uma feijoada, ou um cozido à portuguesa, um bacalhau, mas nada disso entra no dia a dia.

Outra vez o Assis:

A culinária angolana seria impensável para a sua vida de jogador?

Impensável.

Recorda algum prato angolano preferido?

 Muamba. A que se come aqui em Portugal não é genuína, está falsificada.

Na abertura  da entrevista pode ler-se:

«Aí está ele outra vez, o goleador emérito, Tem 35 anos e escolheu Setúbal para voltar aos relvados, depois de um afastamento penosos em que se disse que acabar para o futebol. Rui Jordão, angolano de Benguela, quer manter-se honesto até ao fim da carreira sem cair no vedetismo.»

Assim foi.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

OLHARES


Naquele tempo, as aulas nos liceus começavam no dia 1 de Outubro.

Feita a 4ª classe, feito o exame de admissão ao liceu, apresentei-me, nesse ano de 1956, com os restantes alunos, no ginásio do Liceu Gil Vicente.

As palavras do reitor que acumulava com o posto de comissário da mocidade portuguesa.

Às quartas-feiras e aos sábados havia, obrigatoriamente, Mocidade Portuguesa.

Exigiram que comprasse a farda. da dita mocidade.

O meu pai foi falar com o reitor e disse que, se o liceu não fornecia a farda, por falta de dinheiro, não a poderia comprar.

O problema era realmente o dinheiro mas, essencialmente a costela anti-salazarista da família.

Mesmo sem farda, mandaram-me comparecer à instrução.

Sem farda andei por lá cerca de um mês e acabaram por me dispensar.

Em Novembro de 1956, a União Soviética invadiu a Hungria.


Os professores lançaram o apelo para que fossem levados géneros alimentícios para auxiliar o povo húngaro.

Embrulhados em papel pardo, levei arroz, açúcar, esparguete.

Alguns, e bons, anos depois, perguntei ao meu pai das razões de eu ter levado aqueles géneros alimentícios.

O meu pai explicou que tinha sido para minha protecção. 

A história da farda da mocidade portuguesa não tinha sido esquecida e se não correspondesse ao pedido, aqueles rapazes eram gente capaz de algumas habilidades.

Acabei por chumbar no 1º ano do liceu, 

Não por motivos políticos, mas pela razão simples de que não estudei a ponta de um corno. 

Apenas a Português e Ciências Naturais consegui notas positivas. O resto, foi abaixo de cão.

Nunca hei-de esquecer a gritaria de um dos professores:

«Quem estuda não guarda cabras. Há ruas para calcetar, campos para cultivar!»

Legenda: fachada actual do Liceu Gil Vicente, cartaz do Partido Comunista Português contra o envio de alimentos para a Hungria.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A MINHA AMIGA RÁDIO


Peça museu da casa, este é o Blaupunkt de olho verde em que ouvia o Em Órbita.

Não sei como se poderá dizer aos jovens de hoje, eu não sei, o que foi o Em Órbita e o que representou.

Aqueles rapazes criaram um gosto, uma cultura musical na esmagadora maioria dos que  viviam enrolados na música francesa, italiana, espanhola, portuguesa.

Passei a conhecer Simon and Garfunkel, Mamas and Papas, Bob Dylan, Bee-Gees, Peter Paul and Mary, Moody Blues, tanta, tanta, tanta gente.

Se disser que graças ao Em Órbita sou uma pessoa diferente, talvez não acreditem ou não entendam o que estou a dizer. As melhores histórias são as que vêm do nada e a história do Em Órbita é uma grande história.

Ficam aí com o indicativo musical do programa, o instrumental Revenge dos Kinks e uma canção divulgada, uma das muitas, no programa: O Crispian St. Peters  a cantar «The Pied Piper» e eu ainda estou a ouvir o Cândido Mota, a melhor voz, o mais competente dos que apresentaram o Em Órbita, «um programa feito por todos e dito por mim», as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: «sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica».

Em memória de Jorge Gil, relembro este texto de San Shepard de que gosto muito:

 «Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida».



sexta-feira, 31 de maio de 2019

SARAMAGUEANDO


«Eu nunca tive uma formação jornalística, nem uma vocação jornalística, digamos; foi alguma coisa que tive de fazer contra vontade. E aí a regra mandava que se tinha de escrever à máquina. Devo algumas coisas ao jornalismo. Com certeza, do ponto de vista tecnológico devo isso. Como estava obrigado a escrever, enfim, com a velha caneta de tinta permanente, e tampouco com a esferográfica, porque me dá a ideia de que escreve mais depressa – ou que tudo escreve mais devagar do que aquilo que eu necessito. A minha máquina era uma máquina velhíssima, que tinha pelo menos 30 anos, uma Hermes Media, toda ela metálica.»

Parágrafo sublinhado da página 204 de Rota da Vida, José Saramago conversando  com jornalistas da Folha de S. Paulo, Maio de 1989.
Porque tive uma caneta de tinta permanente Parker.
Desapareceu.
Perdida? Roubada?
A pena que eu tenho daquela caneta…
Não mais tive outra igual.
Não mais terei.
Porque tive uma máquina de escrever, uma Erika, também toda ela metálica.
Escrevi pouco com ela.
Os tempos eram muito difíceis, e uma vez, o meu pai não tinha dinheiro para a renda de casa, e a máquina foi parar à Casa de Penhores.
Só passados muitos anos, juros pagos mensalmente, a recuperei.
Um destes dias, fotografo e coloco-a aqui.
The Story of My Life, como canta o Neil Diamond.

Legenda: máquina de escrever de Carlos de Oliveira, também uma Hermes, exposição mo Museu do Neo-Realismo, Outubro 2017

quinta-feira, 9 de maio de 2019

OLHARES


Havia domingos em que eu e o meu avô, apanhávamos aqueles autocarros da Carris, verdes de dois andares, e íamos até ao aeroporto ver chegar e descolar aviões.
O movimento aéreo de então era muito espaçado, o avô comprava pacotinhos de pevides e tremoços e por ali ficávamos na serenidade da tarde.
Mais tarde, talvez por estes domingos na Portela, gostava muito de uma canção do Gilbert Bécaud: Dimanche à Orly.
Ainda gosto.

Legenda: fotografia de António Passaporte

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


O meu avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.
Sempre que necessário, apresentava-se assim:
«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»
Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva a República».
Morreu em 1968, com 93 anos.
Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.
Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.
O meu dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.
«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»
Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.
O meu pai morreu em Junho de 1990.
Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantando Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.
Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…
Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem ,admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

Legenda: imagens da prisão de Humberto Delgado no 5 de Outubro de 1958

quarta-feira, 17 de abril de 2019

VILA BERTA


Da minha infância guardo alguns fins-de-semana, alguns dias das férias do Carnaval, da Páscoa, do Natal que passava em casa da minha avó paterna, umas águas-furtadas no nº 16 da Rua Senhora do Monte, o casario da Graça, uma vista esplendorosa para o Tejo, cheio de fragatas, num vai-vem-rio-acima-rio-abaixo. de navios a descarregarem cereais a granel, a outra margem com as altas chaminés do Barreiro, desprendendo fumos.

Durante o dia, percorria as ruas da Graça, desde o jardim junto à Igreja, jardim que hoje se chama de Sophia Mello Breyner Andresen, até Sapadores, nunca  perdido nos caminhos das ruas da velha Graça.


O regresso a casa da minha avó, mas antes ficar um bom pedaço de tempo no miradouro da Senhora do Monte, deslumbrante vista sobre Lisboa.

Walter Benjamim diz que para conhecer toda a melancolia de uma cidade, é preciso ter sido lá criança.

E havia a Vila Sousa, também a Vila Berta.


Mas, falando-se da Vila Berta, nada como ceder o espaço a mestre José Cardoso Pires no seu Livrode Bordo:

«Vila Berta.
Surge como uma rua fechada por um prédio com pinturas de azulejo sobre um túnel de passagem para a cidade envolvente. Dum lado e doutro casas bordadas de flores - e silêncio. Uma paz súbita, quase secreta. Uma intimidade que se sente já antiga.


No gosto e na construção Vila Berta não revela qualquer romantismo de burguesia provinciana. Também não usa de maneirismos e menos ainda de simetrias imediatas para resultar no bem composto. Pelo contrário, a fazer face às casas singelas dum dos lados da rua, projectam-se, do outro, arrojadas varandas de ferro, lançadas como pontões, e o admirável é que duma confrontação como esta resulta uma harmonia de encantar. Fidelidade à época e a um gosto pressentido, será isso? As colunas e os remates de remate lembram a escola de Eiffel e os desenhos de azulejo têm o colorido do despontar do século. E as flores?


Flores, na primavera e no verão a Vila Berta cobre-se delas. Rosas de grade e janela, rosas loucas, trepadeiras. Rosas e plantas de improviso em manchas de imaginação. Ver como eu lá vi, exposto num pontão deserto, um lavatório de bacia de porcelana a transbordar de chorões em chaga viva, é deparar com uma escultura de vanguarda num cenário fora do tempo. Cenário? Cenário, digo bem. Esta Vila, este pátio, tem qualquer coisa de palco aberto, basta olhar. Dum lado, varandas voltadas para a cena, em fundo a fachada dum prédio com os seus ornatos coloridos e o túnel de acesso à cidade.
Será por essa entrada que, numa noite de verão, alguém verá aparecer o Cavaleiro da Rosa inundado de luar. Dirá que o viu quedar-se a meio do pátio, empunhando bem alto a flor que o anunciava e rodeado de silêncio.»

sexta-feira, 22 de março de 2019

VILA AMARAL


Nasci em casa, na Rua Mestre António Martins, ali à Penha de França.
Decorria o parto e a minha avó tinha uma galinha a coser. Acreditem ou não, fiquei com o cheiro da hortelã que salpicava a canja.

Nas traseiras havia quintais, hortas, urtigas e azedas, batatas e couves diversas, lagartixas espreguiçavam-se, corriam pelas pedras dos muros.

E havia a Vila Amaral, terra aberta às brincadeiras, às púrrias.

Foi nessas hortas muradas que olhei os primeiros girassóis de que guardei o gosto, que, muitos anos depois, Van Gogh haveria de prolongar e consolidar.

As quintas, os quintais, as hortas já não existem, deram lugar a prédios mas a Vila Amaral sim, e ainda lá estão as casas-barracas, constituindo um estreito e comprido corredor.


Havia os rapazes da rua Mestre António Martins e a malta ranhosa da Vila Amaral.

A minha infância dividiu-se entre os rapazes da rua e a malta que vivia na vila.

Dos pais da malta miúda que vivia na Mestre António Martins, apenas o meu não proibiu o convívio com a malta da vila. Essa malta era a que eu preferia para passar os dias. Muitos anos depois, a minha avó materna diria que não cheguei a doutor nem a engenheiro porque preferi esse convívio onde nada se aprendia.

Sim, não cheguei e doutor nem engenheiro, mas aprendi vivências e solidariedades, outras maneiras não de viver, mas sobreviver.

A pátria da minha infância.

A infância não envelhece, escreveu algures o Dinis Machado.

sábado, 2 de março de 2019

AOS DOMINGOS, O GOLO NO ESTÁDIO



Era no tempo em que só havia domingos.
Tenho saudades dos jogos aos domingos às 3 da tarde, à torreira do sol, o meu avô com um chapéu feito com páginas de jornal, ao intervalo mudar de lugar para o lado em que o Benfica atacava.
Depois o eléctrico de Carnide até aos Restauradores.
Sandes de presunto, uma gasosa na Tendinha do Rossio,
Mas apenas quando o Benfica ganhava. O empate não dava direito a nada,
Não havia transístores e ficar a aguardar que na parede da Livraria de O Século ao lado Café Nicola, colocassem os resultados dos outros jogos.
Regressar a casa.
Se o Benfica ganhava, ouvir o rescaldo da jornada, mas apenas quando o Benfica ganhava…
Não havia televisão.
No tempo em que só havia domingos.

Legenda: inauguração do Estádio na Luz no dia 1 de Dezembro de 1954.

Nota do Editor: o título é o verso de um poema de António Reis.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

RELACIONADOS


Naquela tarde de 14 Agosto de 1945, em Times Square, quando George Mendonza beijou Greta Zimmer,eu tinha nascido há 146 dias.
Naquela noite de 8 de Março de 1990, no Estádio da Luz, quando Vata meteu o golo com a mão ao Marselha, e levou o Glorioso à final da Taça do Campeões Europeus, eu tinha 45 anos.
A bola entrou na baliza norte onde eu, entalado na multidão, apenas vi a bola no fundo da rede. Valdo marcou o pontapé de canto e Vata foi lá com a mão. Numa entrevista à Antena 1, Março de 2010, insistiu que não foi com a mão mas com o ombro, mão de Deus, tal  como dissera Maradona naquele golo à Inglaterra no Mundial do México.
Bernard Tapie, presidente do Marselha, pessoa nada recomendável, disse antes do jogo da Luz, que se o Marselha não passasse à final, mudaria o nome para Bernardette.
Trafulha que é, não cumpriu a promessa.

terça-feira, 17 de abril de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


De poucos filmes sei, que recriem a magia das matinés da infância e da adolescência como Cinema Paraíso do italiano Giuseppe Tornatre.

Aquele tempo único em que a plateia do Cine-Oriente fazia uma imensa chinfrineira face às imagens que corriam na tela, uma inocente euforia que não mais encontrei, um público que mal sabia ler e uma boa parte nem isso. Fui um dos muitos miúdos desse cinema barato, onde tantos descobriram a magia do cinema, o seu mundo de fantasia.

São esses espectadores, outros que se foram surgindo por todos os tempos, que têm por Cinema Paraíso um sentimento de puro afecto.

No filme está lá tudo: a magia do cinema, o amor ao cinema, a nostalgia.

Aquando da sua estreia, um pouco por cada canto do mundo, os críticos torceram o nariz e foram os espectadores que lhe deram a alma, ao ponto de ser distinguido com o Grande Prémio do Júri, no Festival de Cannes de 1989, e o Óscar de melhor filme estrangeiro.

A sequência dos beijos cortados pelo padre-censor, é antológica.

Há quem considere Cinema Paraíso um filme sentimentalista, pretendendo esquecer que, acima de tudo, se trata de uma homenagem ao cinema, seja lá o que isso for.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

O filme, em Portugal, estreou nos primeiros meses desse ano.

Por Abril, desafiei o meu pai para irmos ver o filme e, como era tradição, depois de cada sessão, beber uma garrafinha a acompanhar um qualquer petisco.

Ainda disse que à garrafinha talvez, mas ao filme não iria.

No adiantou razões, falou-me vagamente numa crónica do Carlos Pinhão sobre o filme, mas não consegui juntar as pontas desse novelo.

Claro que sinais da doença já os sentia e a sua inteligência levou-o a não ser companheiro.

Nem filme, nem garrafinha.

A 17 de Maio entrara no Hospital e cedo ficámos a saber que, mais dia menos dia, chegaria o fim.



Por mim e por ele, quase um Imenso Adues do Chandler, fui ver o filme, sessão das 16,30 horas, do dia 6 de Junho, no Plaza, uma sala que existia no Centro Comercial Alvalade.

Chorei infâncias perdidas, como escreveu Jorge Silva Melo em relação a O Vale Era Verde do John Ford.

Chorei essencialmente a morte do meu pai que pressentia próxima.

Ocorreria dezasseis dias depois dessa sessão do dia 6.

Se a catalogação existe, Cinema Paraíso é um dos filmes da minha vida.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

PEQUENOS CADERNOS


Há palavras, há histórias que nos acompanham pela vida fora.
Passo as páginas dos caderninhos e salta sempre e uma qualquer lágrima.
Referências encontradas.
Uma:

- Ó Pedro, que é do livro de capa verde, que te deu o avô?
- Já o dei ao Jorge a guardar.
- Vai lá pedi-lo.
- Para quê?
- Para a tia Carlota ver a gravura do caçador.

Outra:

O Menino da mata e o seu Cão Piloto

Ah! a infância.. a infância…


Pintura de Wislow Homer

sábado, 25 de novembro de 2017

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

OLHARES


Tenho coma Feira da Luz uma memória antiga.
Nos meus tempos de miúdo, o futebol começava a meio de Setembro e havia sempre um domingo em que, mais o meu avô, íamos ver o Benfica e depois direcionávamos os passos para o Largo da Luz.
O meu avô tinha como objectico comer polvo seco grelhado na brasa.
Numa das muitas barracas de petiscos, sentados a uma mesa grande de madeira, onde cabia toda a gente que ia aparecendo, deliciava-se com o polvo, meio jarrinho de tinto enquanto me cabia um pirolito e um bolo que dava pelo nome de «rocha» que nunca mais vi.
Sempre que íamos à bola, havia petisco no fim mas só se o Benfica ganhasse. O empate já não dava para nada, era como s fosse uma derrota.
Mas no domingo da Feira da Luz, mesmo que o Benfica tivesse perdido, íamos à feira. Era talvez a única altura em que o meu avô encontrava o polvo seco grelhado, e a bola que se lixasse.
Assim como um gosto valer mais do que 4 vinténs.
A Feira da Luz que continua a organizar-se, não tem nada a ver com a daqueles tempos.
A única coisa que resiste é a habitual procissão da Nossa Senhora da Luz.
Aberta desde 26 de Agosto, a Feira da Luz fechou portas ontem.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

OLHARES


Gosto do nome: «La Gondola».

O meu pai apreciava lá ir jantar nas noites de calor.

Ficávamos sentados nas mesas por debaixo das buganvílias, logo no lado esquerdo quando se entra a porta do chalé.

O edifício do restaurante situa-se numa das últimas vivendas que, noutros tempos, enchiam a Avenida de Berna, a Avenida da República.

O restaurante estava de portas abertas desde 1943.

Fecharam no dia 6 de Agosto por mor de uma permuta de terrenos entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio Geral que ali vai construir a sua nova sede.

«La Gondola» não conseguiu entrar no capítulo do Programa Lojas com História da edilidade lisboeta.

Por aqueles lados, a Câmara quer que haja um enorme centro de escritórios e, para disfarçar o cimento, projectam um pedaço de jardim.

Dão-lhe o pomposo nome de renovação da Praça de Espanha.


Será mais um prego, grande, mesmo grande, espetado na identidade da cidade.


Recordo o último jantar que tivemos com o meu pai em «La Gondola».

Era Agosto e à mesa também estavam a Aida e o Miguel.

Abancámos na esplanada e por ali ficámos a derreter garrafas geladas de Ponte de Lima Branco. Lembro que o meu pai comeu pescadinhas fritas com arroz de pimentos.

Quanto aos comes dos restantes, a memória não responde.

Naquele tempo, e este jantar foi há mais de trinta anos, a cozinha de «La Gondola» era caseira, a preços nada exorbitantes.


Ainda os «chefs» não tinham aterrado para destruir a cozinha portuguesa e fazer as delícias (?) de uma série de gente a armar ao chico-rico-esperto, que não sabe o que é comida a saber a comida e faz de um de um almoço, de um jantar uma sequela de exibicionismo e fanfarronice.


Gente que só entendem a comida quando espetam na carta coisas como estas:

-          Cação da costa alentejana com crosta de queijo de Serpa e coentros sobre migas de feijão manteiga
-          - Osso buco de borrego do norte alentejano sobre ragout de batata e ervas finas
-          Tataki de atum marinado sobre tártaro de tomate com escabeche de legumes e seus sucos
-          Entrecosto de porco preto marinado servido com migada de batata e azeitonas de Moura
-          Figos da horta com creme de ovos perfumados com licor de Borba e amendoas torradas
-          Bacalhau confitado em azeite a 70º sobre rissotto de ameijoas com coentros e espargos verdes
-          Salmão fumado com molho de iogurte perfumado com poejos frescos e rosti de batata
-          Polvo assado no forno em vinho tinto alentejano com batatinhas novas e tomate assado
-          Frango do campo recheado com camarão e grelos de couve sobre talahrim com tomate xuxa e oregãos frescos
-          Pato laqueado e fumado e figos assados em Cabernet Sauvignon e crocante
-          Pregado com cerejas caramelizadas e presunto de porco preto
-          Carre de borrego em crosta de gengibre e molho de quatro especiarias

-          Creme de ervilhas com ovos de codorniz escalfados e azeite do chouriço


Naquele tempo, a cozinha do «La Gondola» era obra de gente autodidacta, sem frequência de escolas de hotelaria, mas que guardavam dentro de si os cheiros, os modos de fazer, de avós e mães, mantendo a qualidade, a simplicidade de fazer como padrão indesmentível.

Um restaurante à antiga, como dizia o meu pai.

Já em tempos recentes - mais de cinco anos? Talvez! - passei pela «La Gondola», era um tarde-pós-almoço de Janeiro, fria  e chuvosa, para tirar umas fotografias, antevendo  que «La Gondola» não permaneceria por muito mais tempo.

A ementa já não era bem como quando lá íamos com o meu pai.

Naquele dia, rezava assim:

Caril de gambas 20,50 euros
Bifinhos de vitela 19,50 euros
Linguine Nero Neptuno 18,50 euros
Sopa da Família 3,00 euros
Marquês de Borba Branco 16,50 euros
Quinta do Caleiro Reserva Douro 18,50 euros
Romã em ninho de casquinha de laranja 4,00 euros
Peras bêbadas 4,00 euros.

Nada a ver com «La Gondola» dos outros tempos.


Terá sido esta «La Gondola» dos tempos recentes., que neste Agosto findou.

Ficam as memórias.

Um destes dias, saberemos que o camartelo iniciou a destruição do lindíssimo chalé.

domingo, 13 de agosto de 2017

A MINHA AMIGA RADIO


Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde. Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tarde de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

terça-feira, 11 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O meu avô afiava os lápis com um canivete, muito devagarinho. 

domingo, 9 de julho de 2017

PORTO DE ABRIGO


As idas ao Baú fornecem uma série de surpresas, cada uma de sua variedade.
Hoje, encontrei esta nota de despesa de um almoço no «Porto de Abrigo» na Costa da Caparica. O empregado não colocou a data mas eu, que costumava colocá-la nas costas da factura, daquela vez não o fiz.
Mas foi nos inícios dos anos 70.
A factura é explícita de que o Restaurante estava situado na praia e fornecia «esmerado serviço de cozinha caseira.»
Sim, porque na Caparica, ainda era uma mera aldeia de pescadores, hoje é vila e tornou-se um albergue espanhol, comia-se bem.
O almoço custou duzentos e catorze escudos, o que ao câmbio dos dias de hoje daria um euro e sete cêntimos.
Em alguns locais, que não frequento, é o preço de um café.
E lá estão os 10% que serviam para pagar, ou ajudar a pagar, o salário dos trabalhadores.
No capítulo de «Brandy», posso dizer que não era brandy o que se bebeu, mas sim aguardente «Antiqua», verdadeiro luxo asiático, ou dia em que o rei fazia anos, tal como se ouve numa canção do José Cid.
Foi no outro século, mas apetece mesmo dizer: «parece que foi ontem.»

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A TERRA É O PROVÁVEL PARAÍSO PERDIDO


Na hora da sua morte, encontrar um texto do Bastos para aqui colocar, teria que ser da Cidade Diária e, mais concretamente, este Então que é isso, ó Vitinha?!

O Helder Pinho andava sempre com o livro debaixo do braço, um livro todo riscado, com as margens cheia de ideias e comentários e chegou a ter de cor este Vitinha e uma outra crónica Sobre Domingo,ele que vivia perto do rio, na Rua da Manutenção, junto a Xabregas e sabia da ronca dos barcos no Tejo em noites de nevoeiro, e sempre que a malta se juntava, recitava:

Ao domingo entendemos que somos feitos de muitas almas, que dissemos «sim» à inutilidade aparente das coisas e às coisas definitivamente inúteis, que não escolhemos o nosso modo de existir, ele aconteceu e assim terá de ser até à soma final dos dias, que vivemos punidos, unidos, solitários, mas sempre e sobretudo com os outros – o que será a avulsa dor da nossa glória.

Os mestres encontravam-se pela noite, num qualquer bar entre Bairro Alto e o Largo da Trindade. O Eduardo Valente da Fonseca, que, a qualquer hora do dia, da noite, vagabundeava entre a redação do República e os tascos e bares em redor, acabava sempre por dizer onde estava o Bastos. Normalmente o poiso certo poiso era o Expresso Bar. Ali no Largo da Trindade.

Bebíamos e falávamos na noite, tal como escreveu o BB numa outra volta que até mete o Manuel da Fonseca.

Ou como escreveu o Ângelo Granja, numa saudação, publicada no Diário Popular, a Capitão de Médio Curso, livro do Bastos de 1978:

Precisamos falar, capitão. se trouxeres contigo o Baptista-Bastos, ficaremos, como dirá o teu armador, à bebida e à conversa, falando, se calhar. De jornais e jornalistas, de mulheres e amor, de vinho e bebedeiras, e, isso sem falta, de livros e escritores. Precisamos falar, capitão, porque homem calado não faz viagem, é como os barcos de qualquer curso, logo sem curso, emergindo destroços num mar de palha, por aí qualquer.

Tudo isto, ainda a faltar algum tempo para o Bastos desatar a perguntar: onde é que estavas no 25 de Abril?

O Bastos dizia: Sou louco. Toda a gente diz que sou louco. É a minha felicidade. Muitas vezes que as pessoas consideram loucura é uma busca desesperada de sinceridade.

Pelo Outono de 1995, numa entrevista à revista Ler, mostrou-se cansado das mesmas conversas de bares. Ele envelhecera. Os outros também.

Sempre fui um homem de bares, de tertúlias, de grupos de amigos. Sempre fui um homem de beber, fiz estas coisas de uma forma excessiva: beber excessivamente, amar excessivamente, ainda hoje faço isso. Na bebida tive de cortar um bocado…

Gosto muito desta crónica do Baptista-Bastos, mesmo muito.

Numa das últimas vezes que estive com o Helder Pinho, sempre a mudar de amores, de casas, desprendido de tudo e mais alguma coisa, ainda lhe perguntei se não me queria vender o seu exemplar anotado da Cidade Diária. Respondeu-me que já não sabia por onde o livro ficara. E se ainda o tivesse, não mo vendia, dava-mo.

O Helder era como o Bastos: fazia tudo excessivamente e por um Agosto quente do ano de 2003, o coração disse-lhe que já não aguentava mais.

As cinzas foram lançadas ao Tejo para que ele pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos do Tejo, em noites de nevoeiro, tal como contava o Bastos, coisas que sugerem a vontade do sossego e da paz.

Legenda: o título é de um poema do Lorca que o BB, amiúde, citava, e o recorte é uma notícia do Expresso de 23 de Março de 1988.