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domingo, 13 de agosto de 2017

A MINHA AMIGA RADIO


Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde. Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tarde de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

terça-feira, 11 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O meu avô afiava os lápis com um canivete, muito devagarinho. 

domingo, 9 de julho de 2017

PORTO DE ABRIGO


As idas ao Baú fornecem uma série de surpresas, cada uma de sua variedade.
Hoje, encontrei esta nota de despesa de um almoço no «Porto de Abrigo» na Costa da Caparica. O empregado não colocou a data mas eu, que costumava colocá-la nas costas da factura, daquela vez não o fiz.
Mas foi nos inícios dos anos 70.
A factura é explícita de que o Restaurante estava situado na praia e fornecia «esmerado serviço de cozinha caseira.»
Sim, porque na Caparica, ainda era uma mera aldeia de pescadores, hoje é vila e tornou-se um albergue espanhol, comia-se bem.
O almoço custou duzentos e catorze escudos, o que ao câmbio dos dias de hoje daria um euro e sete cêntimos.
Em alguns locais, que não frequento, é o preço de um café.
E lá estão os 10% que serviam para pagar, ou ajudar a pagar, o salário dos trabalhadores.
No capítulo de «Brandy», posso dizer que não era brandy o que se bebeu, mas sim aguardente «Antiqua», verdadeiro luxo asiático, ou dia em que o rei fazia anos, tal como se ouve numa canção do José Cid.
Foi no outro século, mas apetece mesmo dizer: «parece que foi ontem.»

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A TERRA É O PROVÁVEL PARAÍSO PERDIDO


Na hora da sua morte, encontrar um texto do Bastos para aqui colocar, teria que ser da Cidade Diária e, mais concretamente, este Então que é isso, ó Vitinha?!

O Helder Pinho andava sempre com o livro debaixo do braço, um livro todo riscado, com as margens cheia de ideias e comentários e chegou a ter de cor este Vitinha e uma outra crónica Sobre Domingo,ele que vivia perto do rio, na Rua da Manutenção, junto a Xabregas e sabia da ronca dos barcos no Tejo em noites de nevoeiro, e sempre que a malta se juntava, recitava:

Ao domingo entendemos que somos feitos de muitas almas, que dissemos «sim» à inutilidade aparente das coisas e às coisas definitivamente inúteis, que não escolhemos o nosso modo de existir, ele aconteceu e assim terá de ser até à soma final dos dias, que vivemos punidos, unidos, solitários, mas sempre e sobretudo com os outros – o que será a avulsa dor da nossa glória.

Os mestres encontravam-se pela noite, num qualquer bar entre Bairro Alto e o Largo da Trindade. O Eduardo Valente da Fonseca, que, a qualquer hora do dia, da noite, vagabundeava entre a redação do República e os tascos e bares em redor, acabava sempre por dizer onde estava o Bastos. Normalmente o poiso certo poiso era o Expresso Bar. Ali no Largo da Trindade.

Bebíamos e falávamos na noite, tal como escreveu o BB numa outra volta que até mete o Manuel da Fonseca.

Ou como escreveu o Ângelo Granja, numa saudação, publicada no Diário Popular, a Capitão de Médio Curso, livro do Bastos de 1978:

Precisamos falar, capitão. se trouxeres contigo o Baptista-Bastos, ficaremos, como dirá o teu armador, à bebida e à conversa, falando, se calhar. De jornais e jornalistas, de mulheres e amor, de vinho e bebedeiras, e, isso sem falta, de livros e escritores. Precisamos falar, capitão, porque homem calado não faz viagem, é como os barcos de qualquer curso, logo sem curso, emergindo destroços num mar de palha, por aí qualquer.

Tudo isto, ainda a faltar algum tempo para o Bastos desatar a perguntar: onde é que estavas no 25 de Abril?

O Bastos dizia: Sou louco. Toda a gente diz que sou louco. É a minha felicidade. Muitas vezes que as pessoas consideram loucura é uma busca desesperada de sinceridade.

Pelo Outono de 1995, numa entrevista à revista Ler, mostrou-se cansado das mesmas conversas de bares. Ele envelhecera. Os outros também.

Sempre fui um homem de bares, de tertúlias, de grupos de amigos. Sempre fui um homem de beber, fiz estas coisas de uma forma excessiva: beber excessivamente, amar excessivamente, ainda hoje faço isso. Na bebida tive de cortar um bocado…

Gosto muito desta crónica do Baptista-Bastos, mesmo muito.

Numa das últimas vezes que estive com o Helder Pinho, sempre a mudar de amores, de casas, desprendido de tudo e mais alguma coisa, ainda lhe perguntei se não me queria vender o seu exemplar anotado da Cidade Diária. Respondeu-me que já não sabia por onde o livro ficara. E se ainda o tivesse, não mo vendia, dava-mo.

O Helder era como o Bastos: fazia tudo excessivamente e por um Agosto quente do ano de 2003, o coração disse-lhe que já não aguentava mais.

As cinzas foram lançadas ao Tejo para que ele pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos do Tejo, em noites de nevoeiro, tal como contava o Bastos, coisas que sugerem a vontade do sossego e da paz.

Legenda: o título é de um poema do Lorca que o BB, amiúde, citava, e o recorte é uma notícia do Expresso de 23 de Março de 1988.

terça-feira, 2 de maio de 2017

OLHARES


Da minha infância guardo os fins-de-semana, alguns dias das férias do Carnaval, da Páscoa, do Natal que passava em casa da minha avó paterna, umas águas- furtadas no nº 16 da Rua Senhora do Monte, o casario da Graça, uma vista esplendorosa para o Tejo, cheio de fragatas, de navios a descarregarem cereais a granel, a outra margem com as altas chaminés do Barreiro, desprendendo fumos.

A minha avó, nos dias de sol, punha um pano branco para fazer sombra, uma mesinha na varanda das águas-furtadas, frente a um rio que é um mar.

Ficava ali horas.

Ali, sentia que o mundo era maravilhoso e assim seria para todo o sempre.

Ali, era o meu lugar de eleição, uma magia única, um paraíso que não mais voltei a encontrar, qualquer coisa que toca, enfeitiça.

Algures, Walter Benjamim diz que para conhecer toda a melancolia de uma cidade, é preciso ter sido lá criança.

Como António Gedeão, sempre quis voltar a subir aquelas escadas, bater à porta, dizer a quem a abrisse, que um miúdo de 8 anos em tempos distantes olhava o Tejo daquela varanda e se poderia rever essa sensação.

Quando subo aquela rua, paro à porta, olho o marco do correio que ainda se encontra junto à porta e, ao contrário de Gedeão, nem as escadas subo.

Dados os tempos de insegurança, de gatunagem diversa que se vivem, talvez a ideia não fosse assim tão fácil de concretizar.

sábado, 1 de abril de 2017

ADEUS POR UM CASACO


Um casaco também pode vir à tona de água depois da tempestade.
Do seu velho casaco, fala Patti Smith no último dos textos de M Train que tenho vindo a reproduzir desde 16 de Junho do ano passado, data do Olhar as Capas.
Despedimo-nos de Patti Smith, voltaremos com outro livro, outro autor.
Será Sebastião da Gama e páginas do seu Diário.
Mas o texto de Patti Smith fez-me voltar à despedida do meu casaco de lá, texto aqui publicado em 21 de Junho de 2015, quando ainda não tinha lido M Train.

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A minha neta Maria, já no passado ano, dissera que o avô anda tão mal vestido.
Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!
O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»

sábado, 25 de março de 2017

COMEÇOS DE LIVROS


Há livros, lidos há muito tempo, caídos no esquecimento e que voltamos a pegar, por vezes olhar, só quando, por uma qualquer assombração, uma campainha toca, e dizemos:

- Eh pá! Eu já li isto!

A campainha que tocou, encontrei-a no livro do Mário de Carvalho Quem Disser o Contrário éPorque Tem Razão.

Escreve Mário de Carvalho:

Muito curiosas as primeiras linhas de Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, com a obsessão enumerativa que prepondera em todo o romance: «Faz hoje trezentos e quarenta e oito anos seis meses e dezanove dias que os parisienses despertaram com a barulheira de todos os sinos a badalar…


O livro, dois volumes, o primeiro com 294 páginas, o segundo com 352 páginas, cheias de uma letra minúscula e que pertencem à Colecção Lusitânia da Livraria Lello & Irmão, sem data de edição, sem indicação do tradutor, apenas a nota «Tradução Cuidado», foi-me oferecido, em 1958, por ocasião dos meus 13 anos, pelo António Colaço, um amigo do meu pai.

Que leva alguém a oferecer, a um puto, um livro destes?

Que o leia, naturalmente.

Senão aos 13, aos 50, aos 75 anos, mas que o leia.

Ficou de lado à espera de uma qualquer vontade.

Lembro-me de o ler, não recordo com que idade, mas de certeza antes dos 22 anos.

Naquele tempo era a leitura o que restava, mas poucos eram os privilegiados.

Não havia televisão, apenas cinema ao sábado à noite ou domingo à tarde, futebol de 15 em 15 dias e como não era possível andar sempre a jogar à bola nas ruas, lia-se tudo, passavam-se livros de mão em mão, assim um pouco, como, maravilhosamente, contou Dinis Machado no capítulo Os rapazes dos livros, das fitas e da bola, de Reduto Quase Final

Recordo a leitura encantantória de Nossa Senhor de Paris, principalmente a partir do livro Sétimo, quando o autor decreta dos perigos de confiar um segredo a uma cabra.

Quasímodo, o Corcunda enclausurado de Notre Dame, Esmeralda, a bela cigana, a história do louco amor dele por ela, e apenas a  amizade dela por ele. Também o arcediago de Notre Dame, D. Claudio Frollo , também ele , esquecendo Deus, perdido de amores pela bela cigana.

O entusiasmo pelo livro teve um acalentamento suplementar, transformado em grata memória, quando, no Cine-Oriente, princípios dos anos sessenta (1962?) vi o filme que Jean Delannoy adaptou ao cinema, com a participação de Jacques Prévert, espaço assombroso para uma deslumbrante Gina Lolobrigida e um excelente Anthony Queen.



Com os dois volumes nas mãos, uma leve tentação para voltar a ler, mas aquela letra miudinha fez desfalecer o pitosga que já sou.
Assim, en passant, como dizem os franceses, perdi umas horas a (re)ler algumas páginas, e deu-me para respigar da pág. 175 do 2º volume:

No dia seguinte pela manhã descobriu, ao despertar, que tinha dormido. Já havia tanto tempo que se desabituara de dormir! Um alegre raio de sol nascente entrava pelo postigo e vinha beijar-lhe o rosto. Ao mesmo tempo que o Sol, viu nesse postigo um objecto que a encheu de medo; era o desventurado rosto de Quasímodo. Involuntàriamente fechou os olhos, mas debalde; parecia estar sempre a ver através das suas pálpebras cor-de-rosa aquela máscara de gnomo, cego dum olho, com os dentes de fora. Então, conservando sempre os olhos fechados, ouviu uma voz rude que dizia com muita meiguice:
- Não tenhais medo. Sou vosso amigo. Que eu venha ver-vos dormir não vos faz mal, não é verdade? Que vos faz que eu esteja aqui quando tendes os olhos fechados? Agora vou-me embora. Vede, pus-me por detrás do muro. Podeis abrir os olhos.

Mais um pormenor sobre a Nossa Senhora de Paris.

Durante anos, o Paulo Rodrigues, que foi actor saído da Guilherme Cossoul, foi meu colega de trabalho e, volta e meia, entre as diversas secretárias, percorria o espaço da grande sala, fazendo de corcunda e coxo e a dizer:

«Mon seigneur.»
   
Um pormenor que não diz nada a ninguém, mas que, agora que o lembro, me faz sorrir de ternura.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

POBRETES MAS ALEGRETES


De visita a um sobrinho, fui dar com esta Casa-Mealheiro que me remeteu para os tempos da infância.

Diga-se que estes eram mealheiros de gente acima de remediada.

Os pobres não tinham mealheiros e os abaixo de remediados, se porventura tinham mealheiros, eram em barro ou eram latas.

Ao longo da infância, e mais qualquer coisinha, tive alguns mealheiros de barro, mas não me lembro de alguma vez os encher.

Ainda nem sequer chegara a meio e já estava de martelo na mão, por vezes nem martelo era necessário.

Quando não havia largueza de tostões, nem o pai nem o avô me valiam.

Para comprar o bilhete para as matinés de domingo do Cine-Oriente, havia que recorrer ao mealheiro.

E era o bilhete, mais os paladares, mais os tremoços.

O meu avô é o responsável de muitas coisas memoráveis da minha vida.

Dezenas e dezenas e dezenas de vezes, me foi dizendo que quando tivesse um ordenado, não deveria gastar mais, um tostão que fosse, do que aquilo que recebesse.


Anos mais tarde, li uma frase do escritor inglês Samuel Johnson que apontava, quase para o mesmo princípio: Tenhas o que tiveres, gasta menos.

Todo o consulado do botas-ditador-de-santa-comba é uma apologia à pobreza.

Devo à Providência a graça de ser pobre. Hei-de virar e sacudir as algibeiras antes de deixar o poder. Dos meus anos passados, nem sequer levarei a poeira.

De tristeza e solidão convenceu todo um povo que esse era o destino natural: ser pobre.

No poupar é que está o ganho.

Por pobres, uma passagem pela crónica Os Pobrezinhos, que faz parte do 1º volume das Crónicas do António Lobo Antunes:

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
(…)
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não


serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

domingo, 1 de janeiro de 2017

ÉRAMOS TANTOS À MESA


Anos 60.

Os tempos não eram fáceis.

No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

Com tudo isto gastava-se dinheiro que ultrapassava o mais que parco orçamento caseiro.

Dinheiro que iria fazer falta nos restantes dias, mas, festa é festa, e o Natal e o Ano Novo eram sagrados.

Para os males monetários, é que havia Casas de Penhores.

Nunca comi perú assado, como aquele que, depois de maneira única temperado pela minha avó, era assado, muito lentamente, no forno.

Arroz de miúdos, batatas fritas às rodelas, salada de alface.

Tangerinas, mas tangerinas mesmo.

O arroz doce apresentava-se em pires, com a primeira letra do nome dos convivas, desenhada com canela.


Legenda: imagem do Arquivo Shorpy

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O segundo número do, excelente, Cinéfilo, saíra no dia 11 de Outubro de 1973.

Caramba!... já lá vão 43 anos!

Não hei-de estar velho!...

Na secção Sete Dias da Semana, depois de para quinta-feira dia 11 aconselharem o Anjo Exterminado, LP de Maria Bethânia, rematavam, para sexta-feira, com o CéuAberto, filme de Howard Hawks, não esquecendo o pormenor:

…é neste filme que Hawks consegue filmar com Kirk Douglas a cena do dedo cortado que Wayne se recusara a filmar em Rio Vermelho.


Mas fica aqui a reprodução da escolha cinéfila:

Acontece que, por aqueles dias de trevas, ir às sessões da meia-noite era uma festa.

Não só pelos filmes, mas por aquilo que entendíamos como aperitivo para os ditos.

E havia sempre petisco antes do raio das meias-noites.

Pare este céu aberto, o destino foi um tasco que havia frente ao Cinema Londres.

O espaço ainda lá está, mas apenas o espaço.

O resto foi a outras vidas.

Ao tempo, parece que se chamava Sobreiro, passou depois a Nova Capri, talvez tenha tido outros nomes mais, e agora é algo que dá pelo nome de Italian Burger House, que deve ser uma daquelas coisas que para aí existem, destinadas a gente que não gosta de comidinha a saber comida.

Uma equipa constituída por quem assina a prosa, mais a Aida, o Miguel, a Josefina, o Benardino e a Lena,, entrou portas dentro para umas cadelinhas, uns preguinhos com muito alho e algumas garrafas – uma por cabeça…sim, mas a Lena e a Josefina ficaram-se por duas tacinhas, o resto ficou para a outra rapaziada -  de Ponte de Lima branco, estupidamente gelado.

E foi assim, com o olho brilhante pelo Ponte de Lima, que ainda mais ressaltou toda a carga erótica de o Céu Aberto.

Ah! e aquelas cadeiras do Londres, senhores.

Saudades, só do Futuro, reclama o José Gomes Ferreira.

Uma ova, Zé Gomes, uma ova.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Certo que os Bolos de Arroz ainda se encontram à venda um pouco por todo o lado.

Mas já não tem o sabor dos Bolos de Arroz da minha infância.

Ainda há dias o crítico gastronómico Fortunato da Câmara, revelava no Expresso que encontrara, no restaurante Rice Me, os velhos Bolos de Arroz:

… o clássico «Bolo  de Arroz», (1,20 euros), sedoso e compacto, feito, pasme-se, com farinha de arroz, trazendo de volta um sabor que há muito se havia desvanecido devido à nossa falta de exigência que agora nos coloca na posição de arguido. A indústria de panificação conseguiu a triste proeza de fazer e vender bolos de arroz que não levam farinha de arroz. Afinal, é possível fazer omeletes sem ovos…

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

OLHARES


Aqui era o Quebra-Bilhas.

José Quitério, num artigo no Expresso, escrevia:

O Quebra Bilhas mantém muito do seu encanto de outras idades. O largo portão verde, fronteiro ao plácido plátano, abre para o primeiro compartimento, onde, a par da cozinha, se conserva felizmente um daqueles belos balcões das tabernas antigas, todo corrido e de mármore, e duas largas mesas . Outra sala, mais convencionalmente a refeiçoar, oferece uma simplicidade airosa revestida de artefactos de sabor caseiro. Grande, grande é o quintal-esplanada, de chão empedrado, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores de forte porte, local único e riqueza inestimável para o tempo ameno, daqueles recantos que parecem terem sido feitos, e são eleitos, para os prazeres da mesa, da bebida e do convívio.

Foi em Abril de 2006 que o Quebra-Bilhas, sito na Rua do Campo Grande nº 312, e um dos mais antigos restaurantes de Lisboa, data de 1793, fechou portas.

O proprietário é o Centro Cultural do Campo Grande, sediado no palacete contíguo ao restaurante do número 321, uma instituição da Opus Dei, que, até hoje, não soube, ou não quis, dar-lhe um destino. 


A festa de despedida de solteiro do Cândido.

Lembro-me que estava uma noite maravilhosa de Junho de há muitos anos, talvez 30, o petisco foi no quintal paradisíaco do Quebra-Bilhas, e a noite acabou na Feira Popular, que já não existe, a jogar matraquilhos, para além de outras aventuras.

Lá muito mais para trás, quando miúdo, depois dos jogos do Benfica no Campo Grande, a velha estância de madeira, ia com o meu avô ao Quebra Bilhas comer sandes de presunto. O meu avô bebia um copinho de vinho branco e para mim era uma gasosa, mas mesmo gasosa, da Pizões Moura, com o castelinho em rótulo azul. 

O rótulo vermelho era para a água mineral que ainda hoje existe.

Diga-se, no entanto, que a ida ao Quebra Bilhas depois da jogatana, só acontecia se o Benfica ganhava.

Nem o empate dava para a sandes e a gasosa.

terça-feira, 12 de abril de 2016

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


A capa da Fanga de Alves Redol, que se apresentou em Olhar as Capas não é, obviamente, a da edição original da autoria de Fred Kradolfer, mas é a capa que existe na Biblioteca da Casa.

Trata-se de uma encadernação feita pelo meu avô paterno, com pano de retalhos de tecidos da Empresa Fabril do Norte, na Senhora da Hora.

Tentarei explicar:

O meu avô paterno, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se dizia republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida caixeiro-de-praça do J. Português das Silva, na Rua da Betesga, vendendo pelas lojas de Lisboa, linhas e panos da Fábrica da Senhora da Hora.

Ganhava uma miséria e todos os dias de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as amostras.

Era um leitor compulsivo.

Um dia, sem qualquer tipo de aprendizagem, nenhum aviso à navegação, mostrou um livro encadernado por ele: a Fanga da Alves Redol.



O meu pai, quando deu conta que a capa de Fred Kradolfer já não existia, disse-lhe que não se podia fazer uma coisa daquelas.

Lembro-me então de o ouvir dizer que a capa de um livro é uma coisa sagrada e essa ideia registei-a para sempre.

O meu avô ficou sem palavras, pegou no livro e retirou-se, calmamente, com uma tristeza sem fim.

Entendeu o comentário, mas não mais encadernou livros.

O meu pai ainda lhe disse que poderia encadernar livros não ocultando as capas, mas nada o fez mudar de ideias.

Curiosamente, e não lembro qualquer razão em especial – a capa colorida? Talvez!  – foi este o primeiro livro que li de Alves Redol.

Alves Redol fez questão de o dedicar aos fangueiros:

Para vocês, fangueiros dos campos da Golegã, escrevi êste livro. Que algum dia o possam ler e rectificar – porque o romance da vossa vida só vocês o saberão escrever.

sábado, 26 de março de 2016

QUOTIDIANOS


Semana Santa.
Lembro-me dos cartazes de A Túnica nas paredes laterais do Cinema Lys.
Lembro-me que a Rádio deixava de se ouvir e só interrompia o silêncio para a transmissão do relato dos jogos da Selecçaõ Nacional no Torneio de Montreux de Hóquei em Patins.
Lembro-me de o Carlos Alberto aparecer-nos na rua de calças à golf e uma gravata preta. Perguntado do porquê, respondeu: «Cristo morreu!»
Lembro-me de que continuámos a jogar à bola: «muda aos 5 acaba aos 10».
Tanto tempo!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes
 ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio
 de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma
 feição pesada e caseira de restaurante de vila sem
 comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo
 pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se
 tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de
 apartes na vida 

                 Fernando Pessoa em Livro do Desassossego                                                

Ao fim de 61 anos o Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, fechou portas na antevéspera de Natal.

Não mais as abrirá.

A câmara vendeu o prédio em hasta pública e os novos donos deverão ter em perspectiva a construção de um hotel.

É o que está a dar na baixa lisboeta.

O Palmeira era um dos últimos tascos de Lisboa onde se podia usufruir daquilo que se chama comida caseira.

Um balcão, como deve ser um balcão dum tasco, comprido, à direita de quem entra.

Comida a saber a comida.


Uns fabulosos pastéis de bacalhau, dobrada, cozido à portuguesa, feijoada à transmontava, mão de vaca com grão, favas à portuguesa, ervilhas com ovos e, todos os dias, um prato diferente de bacalhau.

Sabe-se que há, pelo menos, cem maneiras de cozinhar bacalhau.

No Verão, os caracóis.

E sempre o grito do Helder, citando Luiz Pacheco: caracóis, dizem, faz tesão.

A minha memória do Palmeira é mais de antes do 25 de Abril.

Ali aportava, mais o Helder Pinho, o Armindo, o Zé Ferraz, mais uns quantos, para o petisco e para elaborar planos para o derrube da ditadura.

Planos sem-fim.


Apenas romantismo e cavaqueira.

Para derrubar a ditadura, outros tiveram que meter mãos à obra.

Mas, naquelas mesas, ficaram muitas memórias, camaradagem, sonhos.

Jorge Sampaio, enquanto presidente da Camara, amiúde almoçava no Palmeira e a clientela metia estudantes das Belas Artes, magistrados do Tribunal da Boa Hora, trabalhadores de diversas profissões, ricos e pobres, mas tudo gente de bom gosto, que sabem o que é comer e beber de uma maneira que cada vez acontece menos em Lisboa.

E não só!


Passei por lá no findar do dia de encerramento.

Cheio que nem um ovo, à porta, em trabalhos de preparo, uma camara de reportagem de uma qualquer televisão.

Entrei só para fazer os bonecos que ilustram o texto.

Não me apeteceu comer, nem beber.

Odeio despedidas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

UMA CERTA LISBOA


Mais um olhar sobre uma certa Lisboa.

O Tejo era um mundo de trabalho: cacilheiros, navios a descarregar ao largo, um mar de fragatas num vai-vem-rio-acima-rio-abaixo.
Olhava-as da mansarda da minha avó paterna, na Rua Senhora do Monte, mesmo na esquina com o Bairro Estrela D'Ouro.
Via-se o Barreiro, a névoa fabril a sair das chaminés, quando ainda as diversas fábricas da CUF não tinham sido construídas no Lavradio.

Fotografia do Ecomuseu Municipal do Seixal.


Padeiros de Lisboa.

Fotografia publicada por  
Lisboa no Guiness


Petrolino à porta.
A vizinha do rés do chão, no prédio onde nasci e cresci, vendia petróleo.
Todos os dias, excepto aos domingos, a carroça ficava armazenada, na Vila do Amaral, ao cimo da rua.
O macho era levado para os lados da Quinta da Eira.

Fotografia publicada por 
Digital Blue.



Natal do Sinaleiro.

Fotografia publicada por Siccapianos.


Um dos barcos a carvão que faziam a ligação Lisboa/Barreiro.
Quando assentei praça, em Tavira, ainda fiz a travessia num destes barcos. Chegou ao Barreiro à meia-noite para apanhar o comboio.correio. paragem em todas estações e apeadeiros.
Chegámos a Tavira às sete e meia da manhã.


Fotografia publicada por Alernavios


O China-das-gravatas.
Mas não eram apenas chineses que, deste modo, vendiam gravatas em Lisboa.

Fotografia de Garcia Nunes
 


Um miúdo-ardina de Lisboa.
Exploração de trabalho infantil ou, como se dizia naqueles tempos, o trabalho do menino é pouco mas quem o perde é louco.
Muitos dos ardinas de Lisboa, um número bem largo, eram corredores de Atletismo.
Vestiam as camisolas do Benfica e do Sporting.
Calcorrear, em alta velocidade, ruas de Lisboa era o tempo de treinar.
A maneira como embrulhavam o jornal e o lançavam para janelas e varandas.
Um assombro de pontaria, certa e colocada.

Fotografia de 
João Martins.


Fotógrafo à la minuta: «olha o passarinho!« Andavam pelos jardins de Lisboa, nas praias, nas feiras de Lisboa e arredores.
O meu avô materno foi fotógrafo à la minuta nos domingos em que não havia Concerto da Banda da Câmara.

Fotografia publicada por 
O Sabor do Olhar


Um aguadeiro na Lisboa antiga.
Como se lê em Memória de Elefante de António Lobo Antunes:
Os portugueses são estúpidos, informava o aguadeiro galego da história da mãe, vimos para aqui vender-lhes a água deles.

Fotografia de José Artur Leitão.




Pelo Natal, venda de perus nas ruas de Lisboa.
Não consegui encontrar nenhuma fotografia que mostrasse a venda no Martim Moniz.

Fotografia publicada por 
Restos de Colecção.


Moços de fretes ou de esquina.
A sós, ou em grupo, não havia nada que não transportassem,
O mandado mais simples era o da entrega de cartas. Mesmo as de amor.
O Armando, vivia na Vila Gadanho, junto à casa da minha avó materna.
Um pouco anormal mas um verdadeiro animal de força.
Um dia, transportou, às costas, uma secretária, desde o sexto andar da Rua da Senhora do Monte, à Graça, até à Mestre António Martins, na Penha de França.
Quis vinte e cinco tostões tostões e um copo, grande, de vinho.
E saiu com mil agradecimentos.
Os vinte e cinco tostões acabavam em mais vinho no Manel da Adega, na Rua Castelo Branco Saraiva.

Fotografia publicada por
 Adriano Pacheco.


Varina de Lisboa numa belíssima fotografia de Joshua Benoliel.
E aquele bonito poema de David Mourão-Ferreira, para música de Alain Oulman e eternizada na voz única de Amália.

 É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
Baila no baile co’ o mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
E nas veias o latido
Do motor duma traineira

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa
Seu nome próprio - Maria

Seu apelido – Lisboa.

domingo, 22 de novembro de 2015

PORQUE HOJE É DOMINGO


Que Sera, Sera.
Era uma das canções favoritas do Freitas, meu sogro.
Lembrei-me da canção, lembrei.me dele.
Lembro-me muito.
A gravação da casa era a versão da Doris Day, que a popularizou.
Eu gosto desta versão de Pink Martini.
Bom domingo!

domingo, 1 de novembro de 2015

SE...


Domingo de chuva.
Não terá sido o primeiro poema que li, mas é aquele que ainda perdura.
No meu tempo, de outros tempos, muitos o conheciam e o Carlos Alberto sabia-o de cor.
Raro era o dia em que a malta da rua não lhe pedia para que o recitasse.
Ficávamos, assim como, extasiados.
Coisas de miúdos.
E o tempo que isso durou.
O poema é da autoria de Rudyard Kipling.
Utiliza-se a tradução de Vítor Vaz da Silva, disponível na net:

Se consegues manter a calma
quando à tua volta todos a perdem
e te culpam por isso.

Se consegues ter confiança em ti
quando todos duvidam de ti
e aceitas as suas dúvidas

Se consegues esperar sem te cansares por esperar
ou caluniado não responderes com calúnias
ou odiado não dares espaço ao ódio
sem porém te fazeres demasiado bom
ou falares cheio de conhecimentos

Se consegues sonhar
sem fazeres dos sonhos teus mestres

Se consegues pensar
sem fazeres dos pensamentos teus objectivos

Se consegues encontrar-te com o Triunfo e a Derrota
e tratares esses dois impostores do mesmo modo

Se consegues suportar
a escuta das verdades que dizes
distorcidas pelos que te querem ver
cair em armadilhas
ou encarar tudo aquilo pelo qual lutaste na vida
ficar destruído
e reconstruíres tudo de novo
com instrumentos gastos pelo tempo

Se consegues num único passo
arriscar tudo o que conquistaste
num lançamento de cara ou coroa,
perderes e recomeçares de novo
sem nunca suspirares palavras da tua perda.

Se consegues constringir o teu coração,
nervos e força
para te servirem na tua vez
já depois de não existirem,
e aguentares
quando já nada tens em ti
a não ser a vontade que te diz:
"Aguenta-te!"

Se consegues falar para multidões
e permaneceres com as tuas virtudes
ou andares entre reis e pobres
e agires naturalmente

Se nem inimigos
ou amigos queridos
te conseguirem ofender

Se todas as pessoas contam contigo
mas nenhuma demasiado

Se consegues preencher cada minuto
dando valor
a todos os segundos que passam

Tua é a Terra
e tudo o que nela existe
e mais ainda,
tu serás um Homem, meu filho!


Legenda: pintura de Nikolay Bogdanov-Belsky

terça-feira, 30 de junho de 2015

JUNHO QUE FINDA


Junho que chega ao fim, o mês dos perfumes mágicos, intensos: sardinhas assadas, manjericos, sardinheiras em flor.
Guardo da infância as quentes noites de Verão, lembro a miudagem a correr nas raus, o trânsito automóvel, as gentes vinham para a porta da rua conversar, outras ficavam à janela, as pessoas conheciam-se, falavam, por vezes zangavam-se era quase nulo. Noites havia em que subíamos até ao jardim da Praceta António Sardinha, na Penha de França, e havia outras gentes espalhadas pelos bancos, sentados na relva, bebendo cervejas e capilés nas leitarias do bairro.
A televisão viria a destruir o feliz convívio das gentes simples do meu bairro.
Agora, ao passar os olhos por algumas das páginas de Viver com os Outros, reparo que Isabel da Nóbrega também reteve essa imagem das gentes sentadas à porta de casa, nas quentes noites de Junho, que foi o mês em que nasceu, e talvez por isso tenha escolhido um jantar,numa noite de Junho, para enredo de Viver Com Os Outros. 

Descobríamos que aquelas pessoas sentadas nos degraus de pedra, à porta de casa, os garotos na borda do passeio, os homens em mangas de camisa ou casacos de pijama, junto ao muro, quase não falando, recebendo a noite morna e o luar tal como os cedros e as olaias e as tílias do parque, estavam a ser felizes e não o sabiam.

Os cheiros que andam misturados numa noite de Junho, mesmo na cidade, basta que se encontre um parque próximo. E também o cheiro do manjerico, ali no nicho, por entre as outras plantas, sobre o qual pousei instintivamente a palma da mão quando a Ana me arrastou para aqui.


Legenda: pintura de Pierre-August Renoir

domingo, 21 de junho de 2015

ADEUS POR UM CASACO



É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A minha neta Maria, já no passado ano, dissera que o avô anda tão mal vestido.
Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!
O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.