«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.
Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco
trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do
que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem
considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.
A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio
desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos
um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde
perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as
brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza,
o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.
E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais
cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é
triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da
perda.
"E assim nos promete o poeta:
amanhã vou encontrar-te entre as raízes
e o que sobrar da respiração da noite
junto às nascentes
onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais
descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas
que se move sobre as pedras
e só agora começo a entender
nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”
E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que
nos faz continuar a poder acreditar na vida.
Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta
leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que
filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o
génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as
cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta
alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que
alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel
Gusmão:
“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”
É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina
o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o
abismo precisa de ter asas.”
E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe.
Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir
uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de
surpresa para não mais nos largar.
Nesta dolorosa
despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico,
poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»
Luís Filipe Castro
Mendes no Diário de Notícias

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