POSTAIS SEM SELO
Parecia-me que a beleza
perdoava tudo e a todos conferia majestade.
Hoje penso que não: que adoeci, que fui envelhecendo, que há poucos livros
úteis, que, para sobreviver, temos de trabalhar... e que o trabalho sem amor mata.
Não penso já no amor, penso na morte.
Não na morte que a todos nos espera, a um canto do mundo, a um momento, não na
morte final estou pensando agora.
Agora e a toda a hora penso na diária morte que atravesso e se atravessa em
mim.
Nessa, sim, é que eu penso; irremediavelmente.
Porque a outra morte tem remédio ou, se o não tem, paciência...
Esta, sim, é que custa.
É que custa a carregar todos os dias,
peso morto.
Raul de Carvalho em Tampo Vazio
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