sábado, 13 de junho de 2026

A PROVA DE QUE O RIDÍCULO NÃO MATA


«Esta imagem é uma imitação das que Trump publica todos os dias e em que se apresenta com diferentes trajes e posturas, desde Jesus Cristo ao Capitão América. Se vivêssemos num mundo normal, o narcisismo patológico de Trump já o teria levado a ser internado numa instituição para doentes mentais. O homem mais poderoso do mundo está louco, certificado por muitos médicos e psiquiatras, e a sua loucura tem aberto um caminho perigoso para tornar os EUA uma ditadura, e dado origem a muitas mortes, destruição de vidas e famílias, invasões, vinganças, ameaças e uma perturbação mundial dos equilíbrios geoestratégicos sem qualquer ideia de fundo, mas apenas caos e errância. O pior retrato dos anos que vivemos é esse homem poder continuar a estragar as poucas coisas que as democracias e o primado da lei e do direito tinham adquirido, poucas coisas, mas raras e boas, no meio de um mundo que já era, em si mesmo, muito mau. Trump valorizou todas as coisas más e está a destruir as boas.

André Ventura é o nosso discípulo de Trump. Tem muito de comum com Trump, a violência, a crueldade, o conteúdo vingativo contra os mais fracos, o combate à empatia, nos dias de hoje, um programa anticristão, criticado com severidade pelos bispos portugueses e pelos Papas. O “Deus” da legenda no cavalo é mais o do Jeová do Antigo Testamento e menos o de Cristo no Novo, ou melhor ainda não é Deus nenhum, porque o “Deus” é o que está a montar o cavalo.

O título que dei a este artigo, a prova de que o ridículo não mata, aplica-se à letra. Para além da enorme prosápia, tudo está errado nesta imagem. O grande anacronismo é obviamente a bandeira jacobina, que, mesmo sendo a nossa bandeira nacional, tem uma história e um conteúdo totalmente incongruentes com o cavaleiro e cavalo, as duas imagens mais fortes. Convém lembrar que, quando a República escolheu a actual bandeira, muitos republicanos e monárquicos ficaram furiosos pelo abandono do branco e azul. Não tenho nenhuma dúvida de que, se esse debate fosse hoje, Ventura estaria com os monárquicos contra a bandeira “ideológica” da República.
 
Compreende-se, a actual bandeira nacional recupera a bandeira revolucionária do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro, com origem na Carbonária, escolhendo o verde, a “cor que, segundo Augusto Comte, mais convém aos homens do porvir”, como se diz no relatório oficial da bandeira. Comte e o positivismo, Carbonária, República revolucionária, pouco têm que ver com o “Deus, Pátria e Família" e com o programa político do cavaleiro medieval que a segura. Na verdade, valia mais usar a bandeira da Mocidade Portuguesa.

Como a imagem foi feita com inteligência artificial e ninguém tinha a cultura mínima para a rever, os erros abundam. O castelo de fundo nada tem que ver com os castelos medievais, mas sim com os pastiches românticos que vão desde Sintra à Penitenciária de Lisboa. Mas, na verdade, a ideia dos pastiches, se calhar, tem todo o sentido. A procissão que aparece ao lado tem também anacronismos semelhantes. Liderada pela bandeira jacobina, atrás vão as cruzes. Pode ser liberdade poético-política, mas estas falsificações têm um significado.

O “Deus, Pátria e Família” também tem uma história maldita e de novo convém lembrar que os mais recentes Papas criticaram essa trilogia, a começar por Bento XVI, falando da “Família” como sendo a “família universal”, ou seja, ciganos, monhés, banglas, etc., acima do nacionalismo.

Mas é Salazar a sua inspiração, como se vê nesta imagem, toda ela um programa: homem a regressar do trabalho no campo, a mulher a cozinhar, o filho vestido da Mocidade Portuguesa e a cómoda com um pequeno altar. Este é o mundo imaginário do Chega e de Ventura, e mais valia admiti-lo na sua inspiração salazarista sem rodeios.

Quanto ao significado do conjunto da imagem de Ventura, tenho mais sugestões para novas imagens: D. Miguel, um Inquisidor, Salazar, Silva Pais, e muitos outros, dos protagonistas da ditadura aos Integralistas Lusitanos, os cavaleiros da Monarquia do Norte, etc., etc. Hesitei em sugerir Miguel de Vasconcelos, em parte uma provocação que não vale a pena, mas por outro lado mais certeira, porque Miguel de Vasconcelos era um patriota dos espanhóis, e Ventura e o Chega são patriotas dos americanos de Trump e fecharam os olhos à nossa soberania teórica da base das Lajes.

O que isto tudo revela é que esta política do cavaleiro branco vai ao mais fundo da nossa ignorância e que, se Ventura quer fazer de cavaleiro medieval, talvez se arranje uma máquina de viajar no tempo para o enviar para o século XIV, uma época, apesar de tudo, complicada pelas jacqueries que não gostavam deste tipo de cenas. Essa máquina chama-se crítica política, voto e primado da lei, democracia.»

José Pacheco Pereira no Público de hoje.

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