quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

CONVERSANDO


Migalhas para um novo ano:

O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.

1.

«Tentei ligar um percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir dispersos e quando abri  os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria. Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo, mas é um brinde a coisa nenhuma.

Imaginei o meu casaco preto a vir bater-me no ombro.

- Desculpa, velho amigo – disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’

Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»

Patti Smith em M Train.

2.

Primeiros anos da década de 60.

 Os tempos não eram fáceis.

No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

 Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

 Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

 Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

 Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

 O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

 O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

Éramos tantos à mesa, tanta gente morta, agora...

3.

Carruagem do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?

- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

4.

Este ano, vindas não sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.

De uma tisana de Ana Hatherly:

«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

5.

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

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