quarta-feira, 1 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.

Duas vezes por mês o meu pai reservava as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.

Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.

Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".

Compram livros por um preço pífio e depois colocam, alguns, a preços bastamente acessíveis.

Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais livros.

Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam  35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e 75 cêntimos.

O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante, a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo pode ler-se:

Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis, Lda.

Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:

«Ebba Merete Seidenfaden, mais conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»

Mais:

« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses, Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.

Em 1961, casou-se com o português Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom Quixote, em Lisboa.

Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»

Foi realmente uma excelente editora que, mercê de certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura,  conseguindo coisas de esquerda que eram rigorosamente proibidas a outros editores.

Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações Europa-América também praticavam. 


OLHAR AS CAPAS


O Cinema Entre Nós

Lauro António

Colecção Cadernos de Cinema nº 8

Capa: Fernando Felgueiras

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970

Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras importantes na história da cinematografia mundial.

TODOS OS MEUS AMIGOS VIAJAM SEMPRE EM 1.ª CLASSE...

Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…

Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.

 

Do Universo, vêm ter comigo

E me dizem:

“O senhor não pode ir aqui,

“O seu lugar não é aqui,

“O senhor tem que ir para a 3.ª classe do seu corpo

“ o senhor tem que viajar onde os seus olhos dizem

Sim, porque esta é que é a verdade;

Os meus olhos dizem sempre:

3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…

 

Um dia tive uma rapariga

Pareceu-me que ela era como eu,

Que viajava em 3.ª classe.

Gostava dela porque era macia

E boa para tudo quanto vivia.

Gostava dela porque acendeu duas luzes

Na minha 3.ª classe sempre tão escura,

Sempre tão 3.ª classe.

E ela viajou comigo muitas horas

Brilhantes de 1.ª classe.

Mas não.

Não… de facto ela viajava comigo

Porque não tinha mais ninguém.

 

Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia