quinta-feira, 26 de março de 2026

O POETA DEDICADO

O poeta delicado de ascendência humilde

foi sempre um cão batido e se não o fosse

viveria mais infeliz ainda por não ser

o cão batido. É bom no fundo, amigo, leal, o dedicado.

Mas, nas entrelinhas dos sorrisos dele,

há sempre um rosnar doce de contida inveja:

é que outros a quem batem são leões ou alifantes,

porém não cães batidos. E não nasceram

nas palhas da província, embora se não escolha

onde se nasce para cão batido.

 

Jorge de Sena em Dedicácias

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