domingo, 31 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Reza um velho fado coimbrão: Morrer é estar o dia todo inteiro sem te ver. Em parte.
Definir a morte é um erro sociológico: o sujeito só conhece o objecto quando já não pode ser sujeito. Assim, levar a coisa para o infinito (não há dias inteiros porque há poentes) é um movimento de cabra-de-leque, uma ilusão de óptica (para quem conheça a cabra-de-leque).
Quando os outros nos morrem é que os vemos muito bem. É o único sentido que permanece independente da psicose.

Filipe Nunes Vicente

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OS IDOS DE MAIO DE 1975


31 de Maio de 1975

O SEGUNDO NÚMERO do Jornal do Caso República saiu ontem.
Os jornalistas reafirmam que a imprensa escrita, falada, a própria televisão, têm dado uma imagem distorcida do que tem sido os incidentes ocorridos no jornal.
Um despacho ministerial manda que a empresa do República pague integralmente aos seus trabalhadores durante todo o tempo em que o jornal estiver encerrado. As instalações foram encerradas e seladas mediante pedido dos seus administradores e do director do jornal.

APÓS CONVERSAÇÕES com o Conselho de Revolução, os ministros do PS voltam às reuniões do Conselho de Ministros.

VASCO GONÇALVES, presente na cimeira da NATO, em Bruxelas, tranquilizou o Presidente dos Estados Unidos, Gerald Ford sobre a situação em Portugal.
Não somos um cavalo de Troia dentro da NATO, declarou o primeiro-ministro.

COMEÇARAM A SAIR os militantes do MRPP detidos pelo COPCON. Entre eles contava-se Arnaldo Matos, secretário-geral, bem como Fernando Rosas e os jornalistas José Freire Antunes do Diário de Lisboa e Almeida Perucho do Expresso.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

PORQUE HOJE É DOMINGO




Maio está achegar ao fim.
O tempo agora é uma correria,
Desde ontem que começaram as Festas da Cidade, santos populares, mais uns dias entramos pelo Verão dentro e quase sem se dar por isso chegamos a Setembro. Aí pensamos que o Natal está ao alcance de um passo de anão.
Fui buscar uma das canções de que gosto muito. Mesmo muito.
Bom domingo!

sábado, 30 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.

Bertold Brecht

OLHAR AS CAPAS


Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

Mário de Carvalho
Capa: Carlos Marques
Editorial Caminho, Setembro de 1995

Cidade Branca.
Um autor fatigado resolve dar um título assim a uma fita. Há mais gente a reparar no título que na fita, e a olhar em volta, ninguém.

Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a Alameda D. Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes-esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.

AS JANELAS


Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas ─ Uma janela
quando abrir será uma consolação.
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.


Konstantínos Kaváfis

OLHARES


Feira do Livro, Lisboa, Junho 2014.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO




Auto-retrato e texto de Júlio Pomar em Helena Vaz da Silva Com Júlio Pomar.

QUOTIDIANOS


Tinha 14 anos.
Saiu para ir à Feira de Salvaterra de Magos e acabou por ser espancado até à morte.
O jovem que o matou, invejava-lhe as roupas e os ténis de marca.
As gentes da rua onde vivia, disseram que era um rapaz do melhor.

OS IDOS DE MAIO DE 1975


29 de Maio de 1975

A EXEMPLO do que aconteceu em Coimbra, forças do COPCON realizaram uma vasta operação na região de Lisboa, ocupando sedes do M.R.P.P. Idênticas operações tiveram lugar em outros pontos do país.
Foi apreendido diverso material, armas e os detidos, cerca de 400, foram conduzidos para o Forte de Caxias e para Pinheiro da Cruz.
A operação segue-se a manifestações do MRPP para exigir o saneamento e a prisão de Jaime Neves e Salgueiro Maia por terem a informação que estes oficiais estavam implicados num golpe de direita.
O COPCON, também, teria sido informado que o MRPP preparava assaltos a arrecadações militares para obter armas e outros materiais.


OS REDACTORES do República fazem sair o 1º número do Jornal do Caso República. Não se conhece a periodicidade da publicação que é propriedade de Gustavo Soromenho e tem como director Raúl Rego.

MILHARES de pessoas saíram á rua ontem, em todo o país, para apoiarem o Conselho da Revolução. As manifestações foram convocadas pelo PCP e a elas aderiram o MDP/CDE e a FSP e não contou com o apoio e do PS.
O processo revolucionário em curso não é propriedade de nenhum partido político, nem sequer do MFA. O processo revolucionário terá de ser principalmente obra das massas populares e não se poderá compadecer com políticas partidárias que não sobreponham o interesse nacional ao interesse dos partidos, disse Vasco Lourenço aos manifestantes, ladeado por Costa Gomes, Otelo e Carlos Fabião.

SAÍU para as bancas o semanário Tempo tendo Nuno Rocha como director.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

OLHAR AS CAPAS


Helena Vaz da Silva Com Júlio Pomar

Helena Vaz da Silva/Júlio Pomar
Capa: Auto-retrato (design gráfico José Cândido
Edições António Ramos, Lisboa, Novembro de 1980

Quando se formou o Mud Juvenil, eu fiz parte da primeira comissão central, onde estavam entre outros, Mário Soares e Octávio Pato, que assinava na circunstância Octávio Rodrigues…
Em 1946-47 pintei um fresco com mais de 100 metros quadrados no Cinema Batalho, do Porto, encomenda particular que haviam tido a audácia de me confiar e eu a audácia assim destemperada em propor-me e aceitar. Tinha vinte anos. Casara-me. E no intervalo dos andaimes, num quarto minúsculo onde dormia, pintei o «Almoço do Trolha» que anda para a frente e para trás quando se trata de evocar o neo-realismo. A Pide prendeu-me antes do mural estar pronto. Como utilizava a técnica tradicional do fresco, em que cada fragmento tem de ser pintado de uma só vez antes da secagem da parede, o canto inferior direito (cerca de 4 metros quadrados) ficara nu. Assim abriu o cinema e o público acorreu e indagou e soube o porquê. Quando saí da prisão acabei o fresco rapidamente, nas horas em que o cinema não funcionava. Depois a Pide mandou que ele desaparecesse e ele foi tapado. O «Almoço do Trolha» não teve destas desgraçadas honras. Mas quando o expus, o quadro que lhe estava ao lado e se chamava «Resistência» foi apreendido no assalto da Pide à Sociedade de Belas Artes durante a segunda Exposição Geral de Artes, estava eu preso. 

AS CABEÇAS CORTADAS: A RECUSA DE SER CONTIDO


A notícia:

O quadro "O Almoço do Trolha", obra icónica do movimento neorrealista português, foi vendido em leilão, em Lisboa, por 350 mil euros.

Vitor Dias escreveu no seu O Tempo das Cerejas: 

Eu e o pessoal de esquerda da minha geração levámos talvez metade das nossas vidas (ou mais) a ler e ouvir babosices, preconceitos, caricaturas e sobrancerias sobre o neorealismo. Agora uma das mais emblemáticas obras do neorealismo na pintura é vendida por 350 mil euros. Estamos vingados.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Sonho por vezes que, quando o Dia do Juízo chegar e os grandes conquistadores, advogados e estadistas vierem receber as suas recompensas - coroas, louros, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível - o Todo-o-Poderoso se voltará para São Pedro e dirá, não sem uma certa inveja, quando nos vir chegar com os nossos livros debaixo do braço: 'Olhai, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar. Eles amaram a leitura.

Virgínia Woolf

Legenda : fotografia de Luis Sanchez Blasco

OLHAR AS CAPAS


As Palavras dos Outros

Baptista-Bastos
Colecção Prisma nº 12
Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1969

A Feira dos tempos em que éramos rapazes, nunca mais. Mas há outras Feiras e outros rapazes, rapazes que, como muitos de nós, aprenderam na Feira a amar os livros, de quem a Feira fez leitores em potência, a decorar nomes e títulos e faces e palavras e sonhos. E sonhos sonhados por outros homens escritos por outros homens em frases que se encontram agora expostas na rua.

LIVROS NO PARQUE


A Feira do Livro abriu, há pouco, os taipais dos quiosques.
A festa prolonga-se até ao dia 14 de Junho.
Vá ver os livros, os jacarandás, ouvir a passarada a soltar trinados, tome uma bebida fresca, sente-se num banco a ver as gentes e a passar os olhos pelos catálogos e talvez se surpreenda ao encontrar o  livro que há muito procura, por num ápice ter saído dos escaparate das livrarias.

Boa Feira, bons encontros.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Chegado hoje de Dublin e enviado pela Angelika e o Hans-Martin.

QUOTIDIANOS


Um jovem de 20 anos, vivia com a namorada numa casa arrendada no Porto Brandão. Era o senhorio que recebia a correspondência do jovem pescador e ficou-lhe com o envelope que continha o cheque do Rendimento Social de Inserção, no valor de quase 180 euros.
O rapaz foi ter com o homem e pediu-lhe o envelope mas este recusou e entrou na habitação. Voltou segundos depois com uma caçadeira e, sem dizer uma palavra, disparou a poucos centímetros do rapaz, causando-lhe a morte.
Uma vizinha disse aos jornalistas que o homicida é um homem perturbado, vivia completamente transtornado depois das finanças, por causa de dívidas, lhe levarem quase tudo.

OS TESOUROS DE SINATRA






Durante a campanha presidencial de John Kennedy (1961), Frank Sintra, nos bastidores, foi um trabalhador incansável. Quando ganhou as eleições John Kennedyfoi ter com o seu cunhado Peter Lawford e com Frank Sinatra para produzirem a Gala da sua tomada de posse.
Estas são páginas do programa retiradas, como habitualmente do livro de Charles Pignone,

Curiosamente a primeira parte da gala termina com a orquestra de Nelson Riddle a tocar Lisboa Antiga.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

OS IDOS DE MAIO DE 1975


27 de Maio de 1975


TÍTULO E RECORTE do Diário de Lisboa de 27 de Maio de 1975.

OS TRABALHADORES da Rádio Renascença ocupam os emissores de Lisboa. A Rádio Renascença deixa de se apresentar como emissora católica portuguesa e o novo slogan é Rádio Renascença ao serviço dos trabalhadores.

ENTROU em vigor a Lei do Divórcio. É publicado o decreto-lei que revoga o artigo 372º do Código Penal, o qual, segundo o preâmbulo do diploma conferia ao marido ofendido um autêntico direito de matar a mulher achada em adultério.
A lei previa uma pena de desterro para fora da comarca, por seis meses, ao homem casado que, achando a sua mulher em adultério, a matasse a ela ou ao adúltero, ou a ambos, ou lhes fizesse qualquer ofensa grave.

FOI DESTRUÍDA a sede do MDP/CDE em Bragança. Nas paredes interiores liam-se inscrições com ameaças de morte e promessas do regresso do ELP.

A ASSEMBLEIA DO MFA reunida ontem durante dezasseis horas, aprovou uma fórmula para reforçar a aliança POVO/MFA, reafirmou o seu apoio ao primeiro-ministro Vasco Gonçalves e criticou os dirigentes do PS
Texto de opinião, assinado por Mário Ventura, no Diário de Notícias de 27 de Maio de 1975:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

OLHAR AS CAPAS


Pequenos Burgueses

Carlos de Oliveira
Capa: Lima de Freitas
Fotografias: Augusto cabrita
Publicações Dom quixote, Lisboa, Abril de 1970

Nos começos do estio, uma dessas veredas da gândara é um enovelado fiar e desfiar de pegadas. Não faltam sinais de pés descalços, tamancos, cascos, ferraduras, na poeira grossa e ainda húmida das últimas chuvas da primavera. O calor, contudo, aperta dia a dia, o chão começa a esboroar-se e há-de criar o pó amarelado e solto de agosto. Então, adeus pegadas. Não é preciso vento, basta o sopro dum pássaro para as levar. Por agora, a humidade molda-as e conserva-as Nada que se compare a um atalho quase barrento de abril ou maio, longe disso, mas também não se pode existir tanto em julho, que demais a mais principiou bastante quente.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Maio de 1965.

Salazar mandou encerrar e destruir a Sociedade Portuguesa de Autores.

O pretexto foi a atribuição do Grande Prémio da Novela a Luandino Vieira pelo seu livro Luuanda.

Por aqui, acedendo à etiqueta Sociedade Portuguesa de Escritores, encontrarão mais pormenores sobre o miserável atentado.

Numa entrada, datada de 20 de Julho de 1968, José Gomes Ferreira, no 5º volume dos seus DiasComuns, regista o seguinte episódio:

O Nikias trouxe-me a notícia de que a Censura requisitou para ler (sabemos o que isso significa) a Apresentação do Rosto de Herberto Helder – exactamente o que o Carlos e eu tanto temíamos desde a saída do livro. E vai, por certo, mandar apreendê-lo.
É pena! ( Embora considere a Apresentação do Rosto inferior ao Retrato em Movimento. Pelo menos mais apressado.) É pena porque me custa não ver devidamente recompensados os actos de coragem. E nesta terra, destruir certos tabus sexuais literários ainda sabe a desafio de barricadas.
E aqui temos o Herberto Helder enrodilhado num sarilho contra si mesmo. O pobre Herberto Helder que, quando o Abelaira, o Manuel da Fonseca, o Pinheiro Torres, o Gaspar Simões e a Fernanda Botelho estiveram presos, se negou a assinar o débil protesto contra a dissolução da Sociedade Portuguesa de Escritores. Para não perder o emprego na Emissora – diz-se para aí nos Cafés deste país estranho de homens estranhos!
Também corre que a atitude de Herberto Helder, durante o julgamento por abuso de liberdade de imprensa do editor de um livro de Sade, não foi irrepreensível.
Bem. Já sabemos! Como cidadão o Helder pouco vale, nem quer valer, talvez. Sorri do alto do desdém de quem toca todos os dias no frio dos esqueletos.
Mas não escrevi eu já uma vez que o poeta tem deveres mais profundos e terríveis como poeta do que como cidadão?


Legenda: recorte do matutino, monárquico, católico e salazarista, A Voz de 22 de Março de 1965.

NOTÍCIAS DO CIRCO



terça-feira, 26 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Em qualquer aventura, o que importa é o partir, não o chegar.

Miguel Torga

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no Diário Popular de 13 de Maio de 1967.
Baile do Twist e o inevitável «Damas ao Bufete».
Saudades.

OS IDOS DE MAIO DE 1975


26 de Maio de 1975

O PRESIDENTE Costa Gomes preside à Assembleia Extraordinária do M.F.A que, desde as 09,30 horas, se encontra reunida no Instituto de Altos Estudos Militares.

À entrada, Otelo Saraiva de Carvalho disse aos jornalistas:


NUMA REUNIÃO entre o ministro Mário Murteira e José Manuel de Mello, foram definidos os termos em que o Estado vai intervir na CUF.

SÁ CARNEIRO, por motivos de saúde, deixou de ser o secretário-geral do PPD e regressou a Londres para tratamentos. Foi substituído por Emídio Guerreiro de 75 anos, lutador anti-salazarista pelo que passou 40 anos no exílio.

 Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

DITOS & REDITOS


Há luxos que doem muito.

O possível é sempre o ideal.

É preciso ver para lá da babugem das marés.

Amor à vida é saber ver.

Só duvida quem sabe.

Pura sobrevivência.

Mais importante ser leal do que fiel.

Cá se fazem, cá se pagam.

NOTÍCIAS DO CIRCO



.
É bom que não se esqueçam para depois não terem de andar, pelos cantos, a soltar desesperados lamentos.

Legenda: fotografia de Luísa da Costa

segunda-feira, 25 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Só existe uma coisa melhor do que fazer novos amigos: conservar os velhos.

Elmer G. Letterman

Legenda: fotografia de Vivian Maier

À LUZ DE CANDEEIROS


Rua das Escolas, Lisboa.

DEIXO ISSO PARA AS MARVELETTES


O Robert e eu encontrámo-nos diante de um dos murais com extraterrestres que decoravam o corredor do Electric Lady. Ele parecia mais do que satisfeito, mas não pôde resistir a mostrar-se um bocadinho amuado. «Patti», disse-me ele, «tu não fizeste nada que pudéssemos dançar.»
Eu disse-lhe que deixava isso para as Marvelettes.
O Lenny e eu desenhámos o disco, e chamámos à nossa etiqueta Mer. Mandámos prensar 1500 exemplares numa pequena fábrica da Avenida Ridge, em Filadélfia, e distribuímo-los por livrarias e lojas de discos, onde se vendiam a dois dólares cada. Também se podia ver a Jane Friedman à entrada dos nossos concertos vendendo aqueles que trouxera dentro de um saco das compras. Entre todos os sítios onde o tocaram, o nosso maior orgulho foi ouvi-lo na vitrola do Max’s. Ficámos surpresos ao descobrirmos que o nosso aldo B, «Piss Factory», era mais popular do que o «Hey Joe», o que nos motivou a concentrarmo-nos mais nos nossos próprios temas.
A poesia continuaria a ser o meu princípio orientador, mas andava a pensar vir um dia a oferecer ao Robert o que ele queria.

Patti Smith em ApenasMiúdos.

OLHAR AS CAPAS


Pela Estrada Fora

Jack Kerouac
Tradução: H. Santos Carvalho
Capa de Luiz Duran
Editora Ulisseia, Lisboa, Dezembro de 1978

Não tinha dinheiro. Mandei à minha tia uma carta por avião a pedir-lhe cinquenta dólares e a dizer-lhe que era o último dinheiro que lhe pedia; depois disso seria ela a receber o dinheiro que lhe mandaria logo que arranjasse o tal barco.
Depois fui ter com Rita Bettencourt e levei-a para o apartamento. Metia-a no meu quarto após uma longa conversa na escuridão da sala. Ela era uma bela rapariga, simples e verdadeira, com um medo tremendo do sexo. Eu disse-lhe que era uma coisa bela. Queria provar-lho. Ela deixou provar, mas eu fui impaciente em demasia e não provei coisa nenhuma. Ela suspirou no escuro.
- Que pretendes da vida? - perguntei. Era o que eu costumava perguntar então sempre às raparigas.
- Não sei – disse ela – Servir às mesas e tentar ir andando.
Bocejou. Pus-lhe a mão na boca e disse-lhe que não bocejasse. Tentei explicar-lhe como eu estava excitado com a vida e as coisas que podíamos fazer juntos; a dizer isto, e a planear sair de Denver daí a dois dias. Ela, tristemente, virou-me as costas. Ficámos estendidos a olhar para o tecto e a pensar por que razão teria Deus feito a vida tão triste. Fizemos vagos planos para nos encontramos em Frisco.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Quarenta milhões de euros depois, foi, finalmente, aberto ao público o novo  Museu dos Coches.

Nenhum político conseguiu explicar o porquê da sua construção quando o anterior, tinha o glamour do antigo Picadeiro Real do Palácio de Belém, mostrava-se funcional, sendo um dos mais visitados.

Começou a ser construído em Janeiro de 2009, ficou praticamente concluído em 2012 e previa-se a sua abertura para a segunda metade de 2014.
Olhos, arquitecticamente, cegos como os meus, vêem o museu como um enorme paredão branco.

Há quem lhe chame um outro mamarracho.

As despesas de manutenção estão estimadas em 2,7 milhões de euros anuais.

Com entrada gratuita durante o fim-de-semana, o museu registou a visita de milhares de pessoas.

Uma idosa disse à reportagem do Diário de Notícias que foi porque é de graça, se fosse a pagar não vinha, enquanto uma outra se espantava com o dinheiro que tudo aquilo custou, e deixou cair um com tanta gente a passar fome.

domingo, 24 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.

É BOM NÃO ESQUECER


O auto proclamado Estado Islâmico, um misto de loucos e mercenários e sabe-se lá mais o quê, tomou a cidade de Palmyra, cujas ruínas arqueológicas são património da Humanidade. 

Receia-se o pior.

O caos há muito que está lançado no Oriente.

Umas semanas atrás, Barack Obama enquadrou pela primeira vez o aparecimento e posterior expansão do grupo terrorista Estado Islâmico no contexto das decisões de política externa americana:

O Estado Islâmico é uma consequência direta da Al-Qaeda no Iraque, que cresceu da nossa invasão. É um exemplo de uma “consequência não-intencional”, razão pela qual devemos geralmente apontar antes de disparar.

Saddam Husseuin, Khadafy eram o que eram mas mantinham um controlo sobres aqueles territórios.

Todos os que sonhavam com primaveras árabes, com a queda daqueles ditadores, podem agora olhar no que tudo isso deu.

Já antes Noam Chomsky tinha dito:

 Toda a gente está preocupada em acabar com o terrorismo. Bem, há uma maneira muito fácil: parem de participar nele.

NOTÍCIAS DO CIRCO


PORQUE HOJE É DOMINGO


Hoje não podia deixar de ser assim.
Bom domingo!

sábado, 23 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Viajar é olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Legenda: fotografia de Luís Calisto

OLHARES




A Festa do 34 na Catedral.

NEUROPEU DE FUTEBOL


É grave? Não é grave? Sei lá. Verifico, apenas, que é assim por toda a parte. E isso massacra, desgosta, faz perder a razoabilidade, a isenção, o bom senso, a simples tineta.»
O que perde o futebol não é o jogo propriamente dito, mas todo o barulho que se faz à volta dele. É impossível a gente alhear-se do futebol, falado, comentado, transmitido, relatado, visto, ouvido, apostado, gritado, uivado, ladrado, festejado, bebido. O futebol passa deste modo a ser uma chateação permanente. É que não há tasca, pastelaria, sala de jogos, barbearia, recanto de jardim público, quiosque, bomba de gasolina, restaurante, Assembleia da República, supermercado, hipermercado, livraria, loja, montra, escritório, colégio, oficina, fábrica, habitação, diria até, onde, de algum modo, não se ouça falar do jogo que decorre, decorreu ou decorrerá. Quando há transmissão via TV ou Rádio, então a infernização é total. Passam sujeitos na rua de transístor aberto para ouvir o relato, para sofrer e fazer sofrer quem gosta (ou não) de futebol, ouvem-se súbitos gritos guturais, alarido dos diabos. Em casas de comida (pasto), pastelarias, etc., só se vê gente de pescoço esticado para o pequeno ecrã, alguns acompanhando simultaneamente com o rádio de bolso o jogo que está a ver. Isto sem contar com o que vem das residências particulares, quando o calor aperta e as janelas estão abertas. Depois, aparecem os jornais desportivos e os jornais não desportivos, os críticos, os especialistas, os entrevistadores, os grandes títulos tantas vezes perfeitamente idiotas, como o da presente crónica, para não me furtar ao exemplo. Enfim, o País fica futebol.
É grave? Não é grave? Sei lá. Verifico, apenas, que é assim por toda a parte. E isso massacra, desgosta, faz perder a razoabilidade, a isenção, o bom senso, a simples tineta. Que futebol pode ser um jogo lindo, emocionante, que dúvida! Ainda há momentos (estou a escrever no domingo) acabei de telever o Portugal-Espanha chutado e dei comigo aos pulos, abraçado a um filho de oito anos de idade - ainda relativamente ileso -, quando os nossos patrícios meteram o seu golo. Eu estava apanhado apenas por razões patrioteiras, que o jogo foi fraco, embora o golo tenha sido lindo.
Mas que vem a ser isto? Então eu que, ao contrário do que é costume, até gosto dos espanhóis, vou deixar-me caçar assim? Que tenho eu a ver, no fundo, com a equipa-de-todos-nós, agora exaltada num hino que dá vontade de rir?
Nestas coisas tem de se cortar cerce: nunca mais vou chupar desse tabaco que se chama futebol. Em todo o caso, sempre quero dizer que eu, se fosse o Cabrita, tinha metido o Gomes, pelo menos na segunda parte, ou estarão a poupar-lhe as pernas para o Inter de Milão?


Alexandre O’ Neill, crónica publicada no JL de 19 de Junho de 1984 e antologiada em  Já Cá Não Está Quem Falou.

DIA DE SÃO BENFICA


Hoje mais do que nos restantes dias.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


- Enfim – suspira a senhora Bosse, voltando à sua tarefa -, não se pode fazer a felicidade das pessoas contra a sua vontade… Não é verdade, Emile?

Roger Martin du Gard em Velha França

Legenda: fotografia de Vivian Maier