Havia
outros planos para a Música Pela Manhã de hoje, mas o o Público publica, hoje,
uma excelente entrevista, conduzida por Pedro Boléo, a Maria João Pires e o plano
passou a ser outro: ouvir as palavras, a música de Maria João Pires que
Aos 81 anos retira-se de uma vida de
intérprete ao piano, que lhe trouxe reconhecimento mundial.
Não contente por não gostar de se ver, também diz que
não gosta de se ouvir.
Transporta consigo uma solidão de que gosta - «no
fundo, quando vivo sozinha é quando estou melhor; porque posso viver plenamente
a minha solidão e dar larga aos meus sentimentos de medo», entrevista ao Expresso
s/d – ao mesmo uma dor por em 1986 ter criado o Centro Belgais para estudo das
artes. Mas em 2006 confessou o seu desânimo em relação ao desenvolvimento da
sua obra e lamentou a falta de apoios oficiais e outros. Hoje a ”granja” de
Belgais está à venda, à espera de outra vida.
«É
bom pensar que o futuro é incerto, desconhecido, talvez surpreendente…»
«Estamos a assistir a genocídios de novo. À tomada de posse de territórios e de riquezas de outros países.
Estamos a assistir à subida absurda das extremas-direitas. Tudo com a
aprovação das pessoas. Será que adormeceram?»
«Eu fui um bom exemplo, até ao final da minha carreira como pianista, de como
não se toca piano com as mãos. E talvez por isso tenha coisas a explicar e a
transmitir às novas gerações. O piano não se toca com as mãos, mas com o corpo
todo. E o corpo todo tem uma influência brutal na forma como fazemos vibrar a
corda. É preciso saber como funciona o corpo. Como um desportista. Como um
bailarino. Não são funções primárias do corpo, mas funções muito elaboradas. A
função elaborada do corpo é genial! Pessoas que perderam um braço ou uma perna
que conseguem fazer coisas incríveis.»
«Há repertórios que lamenta não ter tocado por causa das suas mãos pequenas,
que não são “mãos de pianista”, como costuma dizer.»
«Assumi-me como
pianista, mas sempre ansiei ser amadora, porque o amador é aquele que faz por
amor.»
A
pianista Maria João Pires disse que terminou a carreira como intérprete, depois
de em Junho ter sofrido um problema de saúde que a afastou dos palcos, e está
agora num "processo de mudança radical".
No discurso de agradecimento pelo Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, entregue
este sábado numa cerimónia na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, afirmou
que adoeceu porque tentou "ultrapassar-se e ir até limites
proibidos".
Disse
ainda:
«Assistimos ao mesmo
tempo a massacres hediondos, à destruição de povos, de culturas e, sem piedade,
ao massacre do planeta. Parece que de repente temos de nos interrogar, afinal o
ser humano será não inteligente ou simplesmente incapaz de evoluir com a
experiência adquirida? É de certo modo explorar, tirar, não se importar, ficar
indiferente ao Outro, recusar a realidade do grupo e a pertença comum. E perder
é ficar de fora.»
José
Saramago:
Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João,
obrigado.»
1.
A Galp registou
um lucro de 973 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, com um
recorde de 407 milhões de euros no terceiro trimestre (+53%).
2. A Siemens anunciou que vai despedir cerca de uma centena de trabalhadores
da sua fábrica de produção e manutenção de pás eólicas em Oliveira de Frades. E
tudo indica que irá fechar portas em breve. A notícia surge nove meses depois
da multinacional alemã ter avançado com um despedimento coletivo de 222
operários na sua unidade em Vagos.
3.
Preços das casas
ultrapassam dois mil euros por metro quadrado pela primeira vez.
Num trimestre em que foram vendidas mais de 41 mil casas em Portugal, o preço
mediano aumentou em quase 19% e fixou-se em 2065 euros por metro quadrado, o
valor mais alto já registado pelo INE.
4.
Dois em cada cinco residentes em Lisboa são estrangeiros. No final de 2024
residiam em Portugal milhão e meio de estrangeiros, 85% dos quais em idade
activa. Os imigrantes são 17% da força de trabalho.
5.
Um estudo da
Universidade da Beira Interior indica que mais de metade do país corre o risco
de ficar sem cobertura jornalística e indica que cresce o número de concelhos
sem órgãos de comunicação social.
5.
Nuno Júdice tem
uma interessante reflexão sobre o assunto, em entrevista dada a Ricardo Marques,
em que diz nomeadamente “Quando se escreve nós vemos as palavras, é um pouco
como a pintura, onde temos a tela, esse sujar as mãos na tinta. Escrever para
mim também é sujar as mãos nas palavras e é esse trabalho que eu também quero
que esteja visível no poema”.
A pianista
Maria João Pires anuncia afastamento prolongado por problema de saúde. Além dos
concertos de Junho em Portugal, ficam também cancelados os concertos no Japão:
«Estimados amigos, lamento informar-vos que terei de me afastar dos palcos por
algum tempo. Surgiu-me um problema de saúde cerebrovascular, que encaro como um
sinal, talvez um aviso.»
Lembramos
palavras que José Saramago escreveu, Novembro de 2009, sobre Maria João
Pires, e que se encontram publicadas no 2º volume de O Caderno:
«Maria João Pires não teve muita sorte
com o país em que nasceu. Sessenta anos de carreira (e que extraordinária
carreira a sua) justificariam uma homenagem de âmbito nacional capaz de
expressar a nossa gratidão por pisarmos o mesmo chão e respirarmos o mesmo ar.
Não será assim, pelos vistos, ainda que não lhe venham a faltar na terra
portuguesa outras manifestações de admiração e respeito. Foi em casa de uns
amigos que a ouvi pela primeira vez, quando ela não passava de uma adolescente
que, com o seu frágil corpo, mal parecia haver saído da infância, e que me fez
temer se os braços e as mãos lhe chegariam para enfrentar-se ao gigantesco
teclado. O piano familiar, vertical, talvez não estivesse em perfeito estado de
afinação, mas as primeiras notas saltaram límpidas, cristalinas, dando-me a
sensação, não de serem a mera consequência do choque dos martelos com as
cordas, mas de haverem brotado directamente dos dedos da própria pianista. Foi
o meu baptismo na arte de Maria João Pires. Depois, ao longo dos anos, sempre
que ela, já viajante emérita, aparecia por Lisboa a dar os seus recitais, eu lá
estava, rogando às potestades celestes que a protegessem do mau-olhado, de um
simples sopro de ar que a perturbasse. Talvez por efeito das minhas petições e
do crédito que tenho no céu, todos os concertos e recitais de Maria João Pires
a que assisti chegaram felizmente ao seu termo. Desta vez, por razões de
distância e também de saúde, não poderei estar presente, dar palmas e beijar as
suas mãos tão cheias de música, de humanidade, de beleza. Por tudo o que me fez
ouvir e sentir, Maria João, obrigado.»
O
falar-se, hoje, de Maria João Pires, permite-nos entrar pelo 2º volume de O Caderno e relembrar o que José Saramago escreveu, página 242, em
Novembro de 2009, sobre Maria João Pires:
«Maria
João Pires não teve muita sorte com o país em que nasceu. Sessenta anos de
carreira (e que extraordinária carreira a sua) justificariam uma homenagem de
âmbito nacional capaz de expressar a nossa gratidão por pisarmos o mesmo chão e
respirarmos o mesmo ar. Não será assim, pelos vistos, ainda que não lhe venham
a faltar na terra portuguesa outras manifestações de admiração e respeito. Foi
em casa de uns amigos que a ouvi pela primeira vez, quando ela não passava de
uma adolescente que, com o seu frágil corpo, mal parecia haver saído da
infância, e que me fez temer se os braços e as mãos lhe chegariam para
enfrentar-se ao gigantesco teclado. O piano familiar, vertical, talvez não
estivesse em perfeito estado de afinação, mas as primeiras notas saltaram
límpidas, cristalinas, dando-me a sensação, não de serem a mera consequência do
choque dos martelos com as cordas, mas de haverem brotado directamente dos
dedos da própria pianista. Foi o meu baptismo na arte de Maria João Pires.
Depois, ao longo dos anos, sempre que ela, já viajante emérita, aparecia por
Lisboa a dar os seus recitais, eu lá estava, rogando às potestades celestes que
a protegessem do mau-olhado, de um simples sopro de ar que a perturbasse.
Talvez por efeito das minhas petições e do crédito que tenho no céu, todos os
concertos e recitais de Maria João Pires a que assisti chegaram felizmente ao
seu termo. Desta vez, por razões de distância e também de saúde, não poderei
estar presente, dar palmas e beijar as suas mãos tão cheias de música, de
humanidade, de beleza. Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João,
obrigado.»
A pianista Maria João Pires cancelou a
sua digressão sul-americana por motivos de saúde e uma recomendação médica de
não fazer longas viagens, adiantou o Teatro Colón de Buenos Aires, onde a
artista portuguesa tinha previsto realizar dois concertos no início de Outubro.
O bocadinho que aqui vos coloquei, tirado do livro Ao Sabor da Música de António Cartaxo, dá-nos uma bonita história à volta de uma Sonata de Franz Schubert.
Quais os dons de pessoas, como António Cartaxo, de chegarem à boca do palco e falarem de música como eles falam.
Emoções, seduções, sensibilidades, ternuras.
Será preciso estudar?
Como é que se estuda?
Ainda procuro o lugar onde guardei o livro de capa verde que o avô me deu.
Isto
é o Inverno que nos trouxe um frio de rachar, como o lisboeta que sou, há muito
não lembrava.
Folheando
José Rodrigues Miguéis:
«Esta
manhã assim que abri os olhos, ouvi um piano que enchia a casa de sonoridade:
Chopin, uma mazurca, e tocada por mão de mestre. Foi uma coisa que sempre me
dispôs bem para todo o dia, acordar a ouvir música.»
Leio
este pedacinho do mestre e pergunto-lhe se em vez de uma mazurca de Chopin, não
poderá ser um Nocturno, o no. 1 op. 9, tocado, com mestria, pela Maria João Pires?
1.
Percorreu os natais suficientes para saber de ciência certa, que nunca lhe
aparece no sapatinho o que queria. Sonhou discos e livros, filmes também, uma
caixa de esplêndidos robustos Cohiba, algumas garrafas de gin, mas que ninguém
se atreve a oferecer, escudados naquele princípio de, dizem, o mais certo é
teres tudo, ou então são coisas que fazem mal à saúde…
Por isso, todos os anos, toma as suas precauções e oferece-se a si mesmo as
costumeiras prendas, as que nunca lhe provocam o que quer que seja: nem surpresa,
nem desilusão…
No
Natal de 97, comprou o duplo CD que Maria João Pires gravou para a Deutsche
Grammophon com os Nocturnos de Chpin.
Aquele jantar de Natal
que reúne a Gente de Dublin com que John Huston se despediu do número dos
vivos. Foi numa cadeira de rodas, com uma garrafa de oxigénio ao lado, que o
filme foi rodado. Morreu entretanto e seria um dos seus filhos a terminar o
filme.
Não haverá outro jantar como aquele na história do cinema. Só mestres são
capazes destas coisas. Festa de Babette
à parte porque isso é uma outra história. Talvez o jantar na colónia francesa
no Apocalypse Now, versão remix, se assemelhe um pouco, o jantar em que Coppola exigiu que os vinhos estivessem
à temperatura em que devem ser bebidos.
Revendo o filme de John Huston, i maginei a lareira que não tenho, mas gostava de ter. Sentado a
olhar o lumi, como dizem os alentejanos, um charuto, um gin. Folhear um livro
ao acaso, talvez Memorial do Convento,
largamente sublinhado, reler algumas passagens, talvez esta:
«… só uma mulher que está deitada num
restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passear no céu,
mas julga serem visões próprias de quem está a gostar tanto.»
Se bem se lembram, Blimunda e Baltasar, estavam a ser sobrevoados pela Passarola de Bartolomeu
de Gusmão.
Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo «para esse universo
onde a vida é trocada por palavras».
Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.
Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.
Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.
E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.
Aqui por casa, continuamos o
recolhimento obrigatório...
Ao longo dos dias,
idas à janela que dá para a rua: uma nesga de rua triste, com carros
estacionados, quase nada de gentes, lojas fechadas.
Idas à janela das
traseiras, vista mais desafogada, uma abrangente vista sobre Lisboa, olhar as
peças de roupa nos estendais das vizinhas e lembrar o louco João César Monteiro
em Uma Semana Noutra Cidade:
«Segunda-feira, 8 de Julho
As cuecas da filha da Dona Assunção desapareceram da corda da roupa.
Domingo, 14 de Julho
As cuecas da filha da Dona Assunção apareceram num montouro de entulho.
Está salva a honra do convento».
Por música ficamos,
hoje, com Chopin, os Nocturnos tocados
pela Maria João Pires, reunidos num duplo CD da Deutsche Gramophone, lembrados
aqui num excerto de Os Clássicos do Meu
Pai:
«O meu pai gostava muito da
Maria João Pires. Se a morte não o tivesse levado teria ficado muito feliz
quando a caixa dos “Nocrurnos” de
Chopin, tocados pela Maria João Pires, chegou ao top dos discos mais vendidos,
no Natal de 1996, em Portugal. A morte roubou-lhe essa alegria, mas também o
poupou de assistir ao desgosto de Maria João Pires com a falência do seu
projecto-sonho para Belgais.
Um sonho que virou
pesadelo, que a levou, inclusive, a deixar Portugal e a refugiar-se no Brasil,
um sonho demasiado bonito para ter acabado da maneira como acabou. Culpas
várias mas em que as de Maria João Pires serão mínimas.»
1.
Governo deu parecer favorável à renovação do período do
estado de emergência por mais 15 dias. Ainda não se conhecem pormenores do
decreto do governo.
O prazo de prorrogação do estado de emergência inicia-se
as 00h00 de 3 de Abril e termina às 23h59 de 17 de Abril.
2.
Com caracter
temporário, o Governo britânico vai libertar mulheres grávidas actualmente
detidas, assim como reclusas que estejam em unidades onde residem com os
filhos, de forma a protegê-las do contágio de Covid-19 nas prisões
3.
Maria do Rosário
Pedreira esgalhou estes versos, deu-lhes o nome de Fado da Lisboa Doente e, não
tarda aí uma loja de barbeiro, que não apareça música para a voz de Aldina
Duarte:
Quem a viu e quem a vê,
Esta Lisboa onde moro.
Mas não perguntem porquê.
Pois, se explicar, ainda choro.
Na padaria da esquina
Já só se entra às pinguinhas
E até se tornou rotina
Estar a um metro das vizinhas.
Há fila para a farmácia,
Fila pró supermercado;
E nem é precisa audácia
Para se andar mascarado.
Nas traseiras do meu prédio
Uma jovem namorada
Tenta combater o tédio
Com uma videochamada.
A uns metros de distância
Parte um atleta em corrida;
Para manter a elegância
Há que fazer pela vida.
De resto, com a emergência,
Ficam as ruas desertas.
Podemos conferir a ausência
Pelas janelas abertas.
Está tudo em teletrabalho,
A olhar p’ró monitor.
Mas não encontro o atalho
Para vos falar de amor.
Dar beijos é só por escrito,
Que o vírus mata a valer.
E está tudo tão aflito
Que nem apetece ler.
Ai Lisboa, que saudade
Da tua irrequietude.
Mesmo que, em boa verdade,
Mais importante é a saúde.
Que tudo passe ligeiro,
E não afecte o meu ninho.
Da Praça do Areeiro
Envio um tele-beijinho!
4.
Os negros números:
Itália
13.155 mortes
Espanha
9.053 mortes
França
4.032 mortes
Estados Unidos
3.603 mortes
Depois de terem sido
apresentadas projeções que apontam para um cenário de 200 mil mortos nos
Estados Unidos, Deborah Birx, a responsável por coordenar a resposta da Casa
Branca ao surto de Covid-19, diz que esse é o número num quadro "quase
perfeito". No pior dos cenários, a projeção do número de mortos dispara
para dois milhões.
No passado domingo, o
conselheiro de saúde da Casa Branca, Anthony Fauci, fez uma previsão na CNN de
que mais de 100 mil americanos podiam morrer da doença Covid-19. As piores
previsões de Fauci apontam para 200 mil mortes.
China
3.603 mortes
Irão
3.036 mortes
Grã-Bretanha
2.352 mortes
Holanda
1.173 mortes
Portugal
187 mortes
No Mundo
45.497 mortes
5.
Em cada segundo
do novo dia, olhamos a sombra, o silêncio da escuridão, a possibilidade de o
Corvid-19 nos entrar por uma nesga da porta que temos cerrada a sete chaves.
É impossível
pensarmos em algo diverso desta terrível realidade diária.
O medo que nos
enlaça, pensarmos o que seremos muito em breve.
Revoltados
teremos que ficar quando topamos a UEFA preocupada com o facto de as diversas federações
europeias , com caracter de urgência, terem de indicar os clubes que irão
disputar as taças que o organismo do pontapé bola, organiza e que lhe enchem os cofres de euros.
Dois recortes da crónica de Frei Bento Domingues no Público.
1.
Título do Público
de 24 de Março:
«A estrada
Beira-Maputo reabre este domingo e a ajuda vai começar a chegar mais depressa.»
Do Diário de
Notícias, on-line de hoje:
«As autoridades moçambicanas
admitiram que os bens enviados para ajudar as vítimas do ciclone IDAI estão a
ser desviados e prometeram fiscalização apertada e punição exemplar.
Há vários
relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos.»
2.
No dia da
Mulher, a cidadã Maria João Valente Rosa disse ao Público:
«Entraremos numa sociedade profundamente igualitária
quando tivermos mulheres altamente incompetentes como CEO das empresas».
3.
Cerca de 4000 pessoas desaparecem por ano em Portugal.
Metade chega ao
Ministério Público - por suspeita de crime - mas muitos não querem ser
encontrados.
Pormenor da capa do JL referindo o regresso de Maria João Pires a Belgais. Pretexto para, em findar de post, recordar Maria João a tocar Bach, BWV 1056.
Creio já ter escrito, por aqui, que Beethoven e Bach eram os compositores, amados e venerados, pelo meu pai. Gostava de Mozart mas não o suficiente para entar no patamat dos imprescindiveis.
Escolhi este concerto de Mozart porque no piano deslizam as mãos de Maria João Pires.
O meu pai gostava muito da Maria João Pires. Se a morte não o tivesse levado teria ficado muito feliz quando a caixa dos “Nocrurnos” de Chopin, tocados pela Maria João Pires, chegou ao top dos discos mais vendidos, no Natal de 1996, em Portugal. A morte roubou-lhe essa alegria, mas também o poupou de assistir ao desgosto de Maria João Pires com a falência do seu projecto-sonho para Belgais.
Um sonho que virou pesadelo, que a levou, inclusive, a deixar Portugal e a refugiar-se no Brasil, um sonho demasiado bonito para ter acabado da maneira como acabou. Culpas várias mas em que as de Maria João Pires serão mínimas.
O meu pai teria ficado muito triste.
Sobre Maria João Pires, e como texto final do último volume de “O Caderno”, escreveu José Saramago:
“Maria João Pires não teve muita sorte com o país em que nasceu. Sessenta anos de carreira (e que extraordinária carreira a sua) justificariam uma homenagem de âmbito nacional capaz de expressar a nossa gratidão por pisarmos o mesmo chão e respirarmos o mesmo ar. Não será assim, pelos vistos, ainda que não lhe venham a faltar na terra portuguesa outras manifestações de admiração e respeito. Foi em casa de uns amigos que a ouvi pela primeira vez, quando ela não passava de uma
adolescente que, com o seu frágil corpo, mal parecia haver saído da infância, e que me fez temer se os braços e as mãos lhe chegariam para enfrentar-se ao gigantesco teclado. O piano familiar, vertical, talvez não estivesse em perfeito estado de afinação, mas as primeiras notas saltaram límpidas, cristalinas, dando-me a sensação, não de serem a mera consequência do choque dos martelos com as cordas, mas de haverem brotado directamente dos dedos da própria pianista. Foi o meu baptismo na arte de Maria João Pires. Depois, ao longo dos anos, sempre que ela, já viajante emérita, aparecia por Lisboa a dar os seus recitais, eu lá estava, rogando às potestades celestes que a protegessem do mau-olhado, de um simples sopro de ar que a perturbasse. Talvez por efeito das minhas petições e do crédito que tenho no céu, todos os concertos e recitais de Maria João Pires a que assisti chegaram felizmente ao seu termo. Desta vez, por razões de distância e também de saúde, não poderei estar presente, dar palmas e beijar as suas mãos tão cheias de música, de humanidade, de beleza. Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João, obrigado.”