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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Ilha do Desterro

Alexandre Pinheiro Torres

Capa: João da Câmara Leme

Colecção Poetas de Hoje nº 29

Portugália Editora. Lisboa, Outubro de 1968


Fala com o Mar pelo nascer do dia


Venho olhar a tua quinta-feira

que é esta longa seara

de pedra. E vejo ainda

desarmada a mão avara

 

que vai disparar a bala

rente ao úvido da Manhã.

A luz da aurora é a fala

duma língua temporã

 

que primeiro nada lavra

e é uma charrua de tábua,

mas quando se faz palavra

é um pomar a tua água.

 

Chego-me para olhar a quinta

como se olhá-la adubasse

essa terra tão faminta

da clareza da sintaxe.

 

Vê agora a tua mesa

se é que a luz ainda por vir

te deixa ver a portuguesa

maneira de a servir.

 

O que nela se nos dá

sobre a ausência da toalha

é a pedra que aqui há

como única vitualha.

 

E a mão deflagra o gatilho

secreto do amanhecer.

As palavras são o rastilho

do lume que vai nascer

 

troando ao ouvido que ensurdece

o urgentíssimo arcabuz

que da noite lenta tece

uma bengala de luz.

 

Alexandre Pinheiro Torres em Ilha do Desterro

sábado, 27 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


O Neo-Realismo Literário Português

Alexandre Pinheiro Torres

Capa: Luiuz Duran

Colecção: Temas e Problemas nº 4

Moraes Editores, Lisboa, Fevereiro de 1977

Todos os componentes da Geração de 70 se opuseram, assim, à acção revolucionária. Todos foram convictos antimarxistas e anticomunistas. O prof. Joaquim de Carvalho observou haver em todos uma aberta hostilidade contra a ideia da ditadura do proletariado, constante, sublinha, que «tem presidido ao socialismo português».

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


Poesia: Programa Para o Concreto

Alexandre Pinheiro Torres

Capa: Espiga Pinto

Colecção Poesia e Ensaio nº 10

Editora Ulisseia, Lisboa, Fevereiro de 1966

O desencanto de Cochofel te, todavia, os seus limites. Nos seus versos perpassa, apesar de tudo, uma vontade de continuar a resistir:

aqui definha

quem ama e crê

……………………….

soldado preso,

esta é a arma que tens.

Mas o seu optimismo surge raramente. Dir-se-ia não haver lugar para ele. E quando surge parece ser um optimismo por volição. Cochofel quer ser optimista. A poesia final é uma afirmação de crença, embora Cochofel nos demonstre que não é tão ingénuo em coisas de arte que acredite que a poesia. Mesmo a neo-realista, tenha de ser fatalmente um programa de optimismo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Romance: O Mundo Em Equação

Alexandre Pinheiro Torres

Colecção Problemas nº 19

Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1968

Eis a profunda lição que nos deixa o exaltante humanismo de Albert Camus. Que ela seja, pois, capaz de guiar todos aqueles que se empenham na luta contra qualquer forma de peste, contra qualquer dos seus rostos particulares, porque o seu bacilo – como rezam os últimos períodos da maravilhosa parábola que nos legou - «não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, esperando pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada». E saibamos, como Rieux, que, mesmo de pois de vencida, há sempre o perigo de voltar o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste faça acordar os seus ratos e os mande tornar a morrer numa cidade feliz.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Vida e Obra de José Gomes Ferreira

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1975

Encontrava-se este livro terminado há meses quando se deu o golpe militar de 25 de Abril, que pôs termo a quase meio século de Ditadura fascista e de acéfalo salazarismo. Pareceu-me então que a obra concluída necessitaria de ser totalmente refeita, já que a Censura acabava por fim de ser «arrolhada», e eu podia agora «desarrolhar» o manuscrito. A Mesa Censória era obviamente a mesma com que tinha velhas contas a ajustar, a mafia que tantas vezes pessoalmente enfrentara em largas discussões com os reformados coronelíferos capangas dela, em especial na militantíssima primeira metade da década de 60 (começara a Guerra em África), em que eu via os meus artigos para a Seara Nova, ou Diário de Lisboa, ou Jornal de Letras e Artes ou Jornal de Notícias (que não havia mais jornais que me aceitassem a prosa) reduzidos a nada, ou a uma fracção, quando, mercê dos cortes estratégicos dos ressuscitados inquisidores do Santo Ofício, a coisa não era ainda pior, pois que amputações bem calculadas transformavam o que já não seria brilhante em charadas onde fosse visível a inarticulação lógica quando não a burrice do escriba.
Os diálogos (?) com os Mercenários da Rolha não tive, porém, que continuá-los depois de 1965, ano da atribuição do Grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores a Luandino Vieira, facto que me levaria a mim, o Augusto Abelaira e o Manuel da Fonseca a um estágio forçado no Forte de Caxias, ao encerramento da Sociedade por decreto do Estado Novo, e ao desventurado autor de Luunda a nunca mais ver a cor aos 50 contos do prémio, quando já não bastasse a repressão mais sinistra de lhe ser prolongada a pena que então cumpria na paradisíaca estncia do Tarrafal, de himmleriana menória.

(Da Introdução de Alexandre Pinheiro Torres)

sexta-feira, 26 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Os Romances de Alves Redol

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Vitorino Martins
Colecção Margens do Texto nº 7
Moraes Editores, Lisboa Novembro de 1979

Redol faleceu a 29 de Novembro de 1969, há quase dez anos. Impõe-se que as novas gerações não ignorem o maior romancista das massas trabalhadoras que até hoje houve em Portugal. Oxalá o presente volume possa ser considerado o primeiro modesto contributo para uma tarefa urgente: o início dos estudos redolianos. Que este apelo não caia em cesto roto, são os nossos votos.

sábado, 10 de março de 2018

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O Ressentimento dum Ocidental

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Helder Macedo
Capa: J. Matos
Colecção Círculo de Poesia nº  101
Moraes Editores, Lisboa, Janeiro de 1981

O Poeta Não sabe

Talvez as palavras nada mais digam do que
as letras que as compõem     Uma jornada
através de um discurso familiar? Um poema
para ser cantado ou lido de pé? Como?

Noites e noites aguento o vosso olhar parado
Lâmpadas das ruas    braille no escuro
Como lê-lo? No poema todas as portas
estão abertas e fechadas    Sento-me com ele

longamente    Melhor: sentemo-nos    Há um
tempo imenso agoniava-me essa montanha
Alimentar todas as bocas do mundo? Agora
ouço apenas uma palavra de lâmpadas

que me acena da rua    Dependuro-me das
árvores como um pássaro    É densa a
floresta de luz    Uma criança dorme ignorante
da noite    Sou eu…. Apenas eu    E não sei braille

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS

O Meu Anjo Catarina

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Júlia Pintão
Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1998


Tito daria a vida para não confessar que ele e o pai se haviam perdido. Já não era a primeira vez. Audaciano, o rei dos heróis, andava sempre bêbado. Tão bêbado que se gabava saber de tudo e de todas as coisas e a ter sempre razão. E, sabendo de tudo, com rara e onerosa demasia, não se preocupava com nada. Estaria agora espapaçado no divã, farto de beber, a roncar como um porco no chiqueiro. Um marinheiro sem bússola! Declarara, Vendi-a, Perdi-a, ou roubaram-ma, não preciso doutra para nada, não sabe mais do que eu, basta-me cheirara donde sopra o vento. A velha Alberta tinha razão. Ele e o pai eram apenas dois pedaços de esterco a flutuar nas águas, tão mortos como aquele homem de braço decepado que haviam visto no dia anterior.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Espingardas e Música Clássica

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Luís de Sousa Rebelo
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, setembro de 1987

Perde, de repente, a sua capacidade de êxtase perante o divino da Natureza. A alma, para a amar, não precisará de razão? Para quê olhar o Tâmega? Todos os rios de Portugal, se não são ainda o Tâmega, não acabarão por ser o Tâmega? O rio da minha aldeia de Alberto Caeiro, no poema que Teresa tanto gostava de recitar, não seria o Tâmega? Pascoaes detestava o rio Tamisa porque Tamisa era uma tradução, em bárbaro, da palavra Tâmega. Do Tâmega, como muitas vezes previa a D. Maria da Graça no seu ataque às hidroeléctricas que planeavam não uma, como se dizia, mas nove barragens no rio, sairiam as caravelas do futuro.
As margens encher-se-iam de marinheiros ávidos de encontrar uma ilha que se tivesse salvo da catástrofe. Talvez a ilha dos Frades, se a água a não subvertesse. Se resistisse chamar-lhe-ia, para sempre, a Ilha dos Amores.
Odete, com a inconsciência da juventude, entra na sala a cantarolar alegre:
«Deseja alguma coisa senhor presidente da Câmara?»
«Não me chames presidente da câmara enquanto eu não tomar posse.»
Bebe rapidamente outro conhaque enquanto fita os olhos da rapariga.
«Chega-te aqui», ordena.
Odete aproxima-se curiosa. Que lhe quererá o senhor doutor juiz? Mas Tadeu de Albuquerque não tem que lhe responder. Agarra-a e beija-a avidamente na boca. Ali estava a sua ninfa. Não era precisos esperar pelo futuro.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



A Flor Evaporada

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Eunice Cabral
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Cadernos de Poesia nº  27
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1984

Criança: A Sua Morte

A criança está deitada: assuntos de morte
depois de perseguir em vão seu viver de borboleta.
Cada um de nós é a sua pequenina mãe:
velhices de teia agora soflagrantes: vida sem após.

Sentamo-nos à volta do caixão: a nossa própria
morte retardada no corpo. Já contemplamos a
vida sem paciência nela. E repetimos se mal nos perguntamos:
a morte não é importante: um propor de aurora.

Se o morto fosse adulto a morte teria andado ido.
Veríamos onde o conduziria o conhecimento da vida.
Mas a morte esbarrou cedo e manso: água de rio
Ou assuntos de água que não voou do chão.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS



A Terra de Meu Pai

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Jorge de Sena
Capa: Raul da Vaza
Colecção Sagitário nº 1
Plátano Editora, Lisboa, 1972

Casa-Carta-Casa

Ó Terra de meu Pai   tão casa de ler
por dentro   mas de mim só por fora o
avesso dela   a trapezista letra   uma
parede soletrada   hierogramas na porta

Etrusco   cascas de silêncio   Teu filho
a leiga epigrafia na unha preparada
Reticente mão   Endereço de luto   linha
a pedra   Oculta áfona letra cursivada

Pior do que lhe morreres de uma morte
tão assim caligrafada   fecho é não seres a
abrir que ele te saiba tábua a sílaba
sílaba a tábua decorada   Mas não leres

tu também esse Filho da letra sempre
mal lida ou interpretada é ele morrer-te
da morte do post-scriptum que chega
à carta à noite e a porta fechada

terça-feira, 18 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Amor, Só Amor, Tudo Amor

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Março de 1999

O vento, gélido e duro como a beira de um sino, torturava as janelas. Lá dentro. No quarto as vidraças escorriam. Aposento pequeno, onde só poderia haver como fonte de aquecimento o bafo de quem lá respirasse.
Na fachada da pensão, a dona anunciava ar condicionado na esperança de atrair turistas na época baixa. Sempre se estava ali quase em cima do mar. As vistas bastariam como compensação: o caldeirão das ondas de um Atlântico desgrenhado por aquele vento, sem pente que lhe alisasse o cabelo. Quase fim de Abril. A época não era baixa, mas baixíssima. Turistas, o que a D. Joana Bilhau sabia. Um desastre. Dias e dias sem uma cama ocupada. Era pôr lâmpadas de pequena voltagem, quase lamparinas, não ligar o ar condicionado, tudo era lucro. Cada um que se aquecesse.
E a eterna desculpa dela, os electricistas não vêm, passo a vida a telefonar para Óbidos, no Baleal não há ninguém que conserte nada, e eu que sofra com a desdita dos meus queridos hóspedes.
Sim, ela sofria! E de que maneira! Metia-se no seu pequeno quarto, ao rés-do-chão, punha o aquecedor eléctrico no máximo, a olhar as paradas militares na televisão, os heróis a partir para África, os jogos do Benfica, teatradas, escritores de cachimbo. O Eusébio deixara de jogar. Ali, viúva, a arredondar a reforma do marido, mecânico de submarinos, a morrer, o bandido, de uma facada num bar de Tânger, cheio de putas. Mas, morrer num bar de putas sempre tinha o seu chique. E tanto insistiu no chique que passou a ser conhecida pela mulher submarina.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


A Quarta Invasão Francesa

Alexandre Pinheiro Torres
Editorial Caminho, Lisboa, Outubro de 1995

«Deve ser essa a filosofia de de Mabilde.»
«Talvez.»
«Mas a Mabilde acredita em alguma coisa que não seja o dinheiro?»
«Acredita em coisas que tu nunca sonhaste. Acredita que o Alentejo será um dia dos alentejanos, cada pedaço de pedra, ou árvore ou rio. E acredita mais, o que é talvez de rir, que a única maneira de tê-lo é expulsar os ricos não pela força, mas pelo dinheiro. Vamos comprá-lo. Comprá-lo, percebes? Comprá-lo aos ricos, palmo a palmo.»
«És uma grande crente. Também partilhas desse sonho?»
«Eu já pertenço aos privilegiados. Herdámos este monte. O monte dos Patanitas. Uma Grande horta. Talvez à custa dos roubos do meu avô guarda-fiscal e de meu pai, depois dele.»
«Então o teu pai é guarda-fiscal e não me dizias nada? Vou-me embora então.»
«Vai com o teu Deus, disse Elvira. «Lembra-te, porém, que as noites de Verão são mais frescas que as tardes. No Inverno são até mais frias. Noites em que não há nada que nos aqueça. Espero ver-te em breve. O mais depressa possível. Um conselho: nunca largues a tua Paravellum, mas não digas a ninguém que a tens contigo.»

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Vai Alta a Noite

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: reprodução de um óleo de Ney da Gama Simões Dias
Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1977

«Vamos ali para o velho terraço das buganvílias. Já lhes senti o cheiro. Qualquer bebida serve, O que eu quero é ver o mar. Este é o meu sobrinho Sebastião, estudante de Engenharia Civil, um verdadeiro atraso de vida, como agora se diz, adoro esta linguagem porque este país não precisa de engenheiros para nada. Engenheirar o quê? Nem se sabe compor um esgoto. Uma vergonha,»

quinta-feira, 28 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tubarões e Peixe Miúdo

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa Agosto de 1986

E havia dias em que a solidão era não um vinho embriagador, mas um veneno que o levava a bater, em pensamento só, com a cabeça nas paredes.
Quanto à Mitchell mesmo quando acompanhada procedia como se estivese só, Há pessoas que estão sempre sós. Uma multidão nunca foi uma companhia.
«Só encontramos na solidão aquilo que para lá levar-mos connosco, concluía Sacatrapo.

sábado, 12 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Contos

Vários Autores
Capa: José Araújo
Seis reproduções de quadros a óleo de João Abel Manta
Colecção O Campo da Palavra
Editorial Caminho, Abril de 1985

O Dr. António de Lima Soares, o cristalógrafo, levantou-se nessa manhã de Dezembro cansado do mundo. Não é a própria vida todo um longo processo que conduz à exaustão? Só que ele ia já nos sessenta e cinco anos e ansiava mais pela morte do que pela justiça. Um velho, aliás, já se sente extenuado ao começar qualquer tarefa: ir à retrete, apanhar um autocarro, comer a sopa, olhar as montras, decorar a árvore de Natal.

Alexandre Pinheiro Torres do conto O Heterónimo do Diabo

domingo, 7 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


O Adeus às Virgens

Alexandre Pinheiro Torres
Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1992

Será desta estirpe que se fazem os seres solitários? Sou muito novo, dezasseis anos, que é isso?, mas é às vezes como se tivesse mil. Penso que nasci velho e que sou mesmo mais velho que o Hermínio. Já vi que a aterra é uma espécie de colmeia. Todos entramos nela pela mesma porta mas vamos viver em favos diferentes. Se assim é, por que motivo se olha com suspeita alguém que prefira muitas vezes ficar só? Que espécie de civilização é a nossa? Aquela que vê na solidão uma actividade ilícita? 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1994

«Vocês, tu e a Lartinha, são as culpadas. O liceu Francês é o Moulin Rouge de Lisboa, e, além disso tu, Catarina, és uma das dirigentes do Movimento nacional Feminino. E que é esse MNF senão um covil de putas em que uma das presidentes é amante do filho do lavrador do Vimieiro que atirou o nosso país para a derrota inevitável em África, ao menos D. Sebastião tinha por si a distinção de maneiras, e elegância, era um autêntico cavaleiro, enquanto um botas é um Botas, vocês no MNF também organizam concursos ié-iés, ou não é verdade?»
»É verdade. Organizamos, sim senhora, e o que dizes contra Salazar, é porque o teu pai nunca chegou a almirante. O D. Antão toda a vida tropeçado no vice. Vamos ganhar a guerra de África nem que tenham de lá ficar todos os portugueses. Tu não sabes nada, Nhôra, não andas a par dos tempos. Salazar anda muito mais, é a luz que vai à frente da Europa. E se ainda não anda, por que permitiria ele que houvesse guitarras eléctricas aos montes no Colégio Militar? Pensas que isto foi só decisão do coronel Santos Costa? Sabias disso ou não? E não foste tu que compraste à Jiju um blusão negro com o nome dessa vacona da Isabel Moura nas costas? Diz-me lá se não haverá rock mesmo nos liceus de Luanda, é ou não é verdade? Isto enquanto os portugueses são assassinados às dúzias nos matos pelos terroristas. Pois é, nós as do MNF achamos que era melhor táctica chamar para cá a pretalhada aos concursos ié-iés por nós organizados. É impossível deter uma onda mundial. Sim senhora, embarcamos na onda, toca de controlá-la, canaliza-la, desencorajar que os nossos jovens se tornem numa coisa pior, cobaias de alucinogéneos. Graças ao Altíssimo a nossa Jesusita não anda em droga, não anda em trips do LSD, pelos infernos da perdição. Não há mal que não tenho o seu avesso. E há guerra em Angola, em Moçambique, em todo o sítio onde estão portugueses.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Nau de Quixibá

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Luiz  Duran
Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977

«Podemos defender o Império sem sermos estúpidos».
Meu pai tornou a pegar no folheto que começara a manusear quando se sentou:
«Parece que é um pouco difícil, a avaliar pelo que se escreve em toda esta papelada… Suponhamos, porém, que Paulino é um estúpido. Está como quer: já pertence aos eleitos. Ou não diz a sabedoria das nações que quanto mais burro é o súbdito melhor compreende quem o governa?»

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS

Novo Cancioneiro

Prefácio, Organização e Notas: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
Editorial Caminho, Lisboa, Dezembro de 1989

Perguntamos agora: teria havido factores externos que levaram o neo-realismo a uma tomada de consciência que fosse nova ou diferente da que caracterizava a geração anterior? Ouçamos o diagnóstico de um dos escritores históricos do movimento: José Marmelo e Silva:
«Que era o mundo para um jovem nos anos 35-39? Que era a Europa? Que era o país? Que era cada um de nós?
Em 35 surge o primeiro grande sinal da loucura de Hitler, pondo dentes de aço nas insaciadas bocas alemãs (E queda-se o pacato mundo a ver)… A nós portugueses, a guerra civil aqui ao lado bem nos mostrara, atroz, o odor acre da carnificina (…)
Olhando, enfim, as nossas culpas ao espelho, - o que era Portugal? Portugal era mais uma vez o país das grandes crises absolutistas, do Santo Ofício, dos Mártires da Pátria, do Pina Manique, do António Oliveira Salazar (Salazar, Salazar) E custa a crer (…) Onde os direitos humanos no Portugal de 36-39? Onde o trabalho e a justa remuneração? Quantos desempregados (em estatísticas que se não faziam)? Tudo pesado, sombrio, asfixiante. A literatura política, que por eufemia se houve de chamar Neo-Realismo, germinou sob a temperatura fria de estufas policiais. Poderá dizer-se que a invocação a Marx, ignorado pelo realismo queirosiano, rompeu do anonimato e das grades (ou subterrâneos) das prisões.»