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terça-feira, 28 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Os meus pais sempre foram da opinião de que o calor fomenta a dissolução dos costumes entre os jovens – disse Emily – Menos roupa, mais lugares para encontros. Fora de portas, fora de controlo. A vossa avó não ficava nada descansada no Verão. Inventava mil razões para me obrigar a mim e às minhas irmãs a ficarmos em casa.

Ian McEwan em Expiação

Legenda: pintura de Édouard Manet

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Gosto de capas de livros. Por elas já os tenho comprado, como também por títulos, por princípios, por finais.

Com o devido respeito por Ian MacEwan, nunca compraria, por causa da capa, este livro. 

Mas foi-me oferecido e há que seguir em frente.

O capista mostrou-se preguiçoso, ou desastroso.

Pespegar com as fotografias dos actores da adaptação do filme de Joe Wright é de mau gosto.

Velho leitor de livralhada, fujo sempre de filmes adaptados de livros que não tenha lido.

Incomoda-me ler na primeira página do livro: «Também em filme» ou na contra capa «Leia o livro, veja o filme».

OLHAR AS CAPAS


Expiação

Ian McEwan

Tradução: Maria do Carmo Figueira

Capa: Armando Lopes

Gradiva, Lisboa, Agosto de 2021

Tenho estado à janela, a sentir ondas de cansaço a varrerem a força que resta no meu corpo. O chão parece oscilar por baixo dos meus pés. Tenho estado a ver a primeira luz do dia revelar o parque e as pontes sobre o lago desaparecido. E estreita rampa pela qual levaram Robbie para o vazio. Agrada-me pensar que não é um acto de fraqueza, nem uma fuga, mas uma última prova de bondade, uma afirmação contra o esquecimento e o desespero, deixar que os meus amantes vivam e uni-los no fim. Dei-lhes a felicidade. Mas não fui prestável ao ponto de permitir que me perdoassem. Se conseguisse pô-los na minha festa de anos… Robbie e Cecília, ainda vivos, ainda apaixonados, lado a lado na biblioteca, a sorrirem com As Provações de Arabella. Não é possível.

Mas agora tenho de dormir.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

OLHAR AS CAPAS


Na Praia de Chesil

Ian McEwan
Tradução: Ana Falcão Bastos
Capa: Armando Lopes
Gradiva, Lisboa, Novembro de 2007

Quando pensava nela, ficava pasmado por ter deixado partir aquela rapariga com o seu violino. Agora, claro, percebia que a proposta abnegada que ela lhe fizera era irrelevante. Tudo de que ela precisava era da certeza do seu amor e de que lhe garantisse que não havia pressa, quando tinham a vida inteira pela frente. Amor e paciência – se ao menos tivesse possuído os dois ao mesmo tempo – por certo tê-los-iam ajudado aos dois, E então que crianças por nascer teriam tido as suas oportunidades, que menina com uma fita no cabelo se teria tornado a sua filha adorada? É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado. Na praia de Chesil ele poderia ter chamado Florence, poderia ter ido no seu encalço. Não sabia, ou não quis saber que, quando ela fugiu dele, segura na sua angústia de que estava prestes a perdê-lo, ela nunca o amara mais, ou mais desesperadamente, que o som da sua voz teria ido uma libertação, e que ela teria retrocedido. Em vez disso, permaneceu no frio e no silêncio virtuoso do fim daquele dia de Verão, vendo-a caminhar apressada pela praia, com o som do seu avanço penoso abafado pelas pequenas vagas, até se tornar uma mancha indistinta, um ponto a desaparecer contra a imensa estrada de seixos a brilhar na luz pálida do lusco-fusco.