Mostrar mensagens com a etiqueta Luiz Pacheco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luiz Pacheco. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta Viagem

Luiz Pacheco em Textos Sadinos

terça-feira, 2 de julho de 2019

OLHARES


A Confeitaria Vitória, sita na Rua Dona Estefânia, frente ao busto de Neptuno que para ali foi depois de ter estado na Praça do Chile, Luiz Pacheco dixit, é uma das mais antigas de Lisboa.
Nos anos 60/70 faziam das melhores Broas Castelar que alguma vez comi, hoje não é tanto assim.
Do lado esquerdo de quem entra, tem colocada esta placa que informa os clientes que servem Cerveja Sagres abaixo de 0ºC.
Gosto de Cerveja Sagres.
Um gosto que já vem de muito longe no tempo, cimentado quando José Carlos Ary dos Santos esgalhou aquele lindíssimo e inebriante slogan publicitário - «Cerveja Sagres: a sede que se deseja.»
E muitos anos antes de saber que a Sagres seria o «sponsor» do Glorioso.
Tudo razões fortes para só beber Sagres.
Mas, no fundo no fundo, é mesmo por uma questão de gosto.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Como é que foi o seu 25 de Abril? Ó pá, os colhões do Padre Inácio... já ninguém liga ao 25 de Abril...


domingo, 25 de novembro de 2018

sábado, 10 de novembro de 2018

ARROZ DE PICA NO CHÃO


Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Estou a gostar de chegar amanhã e estar vivo ainda.

Luiz Pacheco

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O 25 DO PACHECO


Estou na cama de manhã e aproveito para apontar na Agenda o tempo que passa. Tinha ficado na véspera em casa a rever provas. O puto fora para o liceu. Resolvo ir à rua beber uma cerveja e continuar a revisão. Ao pé do chafariz, o barbeiro atira com esta: «então, o Marcello e o Thomaz lá foram ao ar...» Não percebo logo. Nem acredito como. Mas ele confirma: a Emissora Nacional não funciona, só o Rádio Clube Português é que dá música e de vez em quando comunicados breves. Já mais convencido, convido-o logo a festejar na tasca da Laurentina que era para onde eu ia. E depois, ainda duvidoso, vou com ele à barbearia a ver se oiço algum comunicado. Música ligeira, sem nada de marcial. Canções populares portuguesas, pouco mais. (Até a Amália, parece-me!). Mas passados minutos um comunicado do Comando das Forças Armadas. Aí, adquiro a certeza que é, deverá ser a repetição do golpe das Caldas, mas com outra amplitude. Refere que o público tem ocorrido às lojas, em tentativas de açambarcamento, e manda fechar o comércio. Aconselha a população a manter-se nas suas casas e as forças militares e militarizadas a recolherem aos quartéis e não oferecerem resistência à tropa. A coisa é grave. Parece que não há comboios e para lá de Sete Rios não se passa. Tenho algum dinheiro e resolvo logo ir ver (foi o melhor que fiz: ver para crer). Desço acelerado e vou a casa do Fernando Paços, perguntar se ele sabe alguma coisa. Se sabe não diz. Mas confirma. Acompanho-o à farmácia de Queluz Ocidental e depois (ele aconselha-me que não vá a Lisboa, pois não conseguirei passar – mas eu conheço outro sítio para entrar, ou sair, da minha terra e caminho acelerado. Muitos carros, em fuga discreta?) para cá. Em Queluz, já vejo lojas fechadas, outras a fechar à pressa e uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães. Rica açorda (ou negócio) deve ter feito com eles. Cafés fechados. Há comboios. Meto-me num para a Amadora, depois sigo a pé. No Bairro do Bosque (sempre o intenso movimento de carros a saírem), ainda consigo meter um copo. Não há jornais. Rostos, com as janelas fechadas, assomem entre cortinas. Tudo me dá a ideia de receio (mas em Queluz vi alguns magalas a planar, o que me deixou intrigado). Venho a pé até às portas de Benfica e o ambiente é o mesmo: fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão. Meto-me num autocarro da Carris, de Benfica para o Chile e fico-me um tanto a rir do Paços, que em Lisboa e a andar para o centro já eu vou. No Chile, só uma taberna aberta: bebo mais um copo, estou nas lonas. Animação. Um tipo ao meu lado compra oito maços de Português Suave, também está a açambarcar ou a fumar aquilo diariamente habilita-se a um cancro nos pulmões em beleza e rápido. Aparece gente com jornais (A Capital) e sei que estão a vender para os lados do Império. Vou logo lá, sento-me num degrau e sei as primeiras notícias. Tá bem! Resolvo ir a casa do Henrique, ver se ele estará. Na Carlos Mardel, uma senhora num 1º andar pergunta-me onde vendem jornais. Digo e ofereço-lhe o meu. O marido, que vinha à rua, fica com ele e eu fico reduzido a 30$00. Começo com sede e angústias. Estou em jejum e já andei um bom bocado. Penso ainda ir ao Manaças (António) mas desde a última vez, desde a nossa última conversa, ele não me está a apetecer. E depois, o importante deve estar a acontecer na Baixa. Enfio ao Montecarlo (fechadíssimo) mas consigo topar um tipo a bater à porta da Mourisca (também fechada) e entrar. É que há gente. Vou, bato, o Costa Loiro está a forrar vidros por dentro com papel, talvez com receio dalgum obus. Peço-lhe vintes e ele despacha-me. Meto à Rua Viriato e vou até ao quartel de Santa Marta (todas as tascas fechadas até ali). Dá-me vontade de rir ver os cabeças de nabo reunidos lá dentro, a falarem uns com os outros (é que obedeceram às ordens?). Mas logo ao lado há uma tasca restaurante, porta meio aberta, com gente e muito movimento (guardas a beber, outro a telefonar para casa e sossegar a mulher (?), diz que não há azar). Bebo uma Sagres e como uma sandes. E avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem. Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar. Até que encontro, já não sei onde, o Almeida Santos e um tipo que é revisor no Diário de Lisboa ou Popular, já não sei. Metemo-nos num táxi que sobe pela Calçada do Carmo. Mas logo populares avisam (ah, entretanto, perto do Tivoli, já tinha comprado um Diário de Notícias, com mais informes) que a rua está bloqueada. O carro faz marcha-atrás e mete (por onde?) para o Bairro Alto. Bebemos não sei o quê numa tasca, o revisor vai à vida, o Almeida Santos pira-se e eu avanço para os lados do Carmo. Na Rua da Misericórdia, muita gente, tropa e um tanque de respeito. Da janela da Redacção da República, o Vítor Direito e o Afonso Praça (aquele grita-me: «estás muito bonito hoje!», eu levava o sujíssimo albornoz que me deu o Artur), noutra varanda o Álvaro Belo Marques, a quem pergunto: «como é que se entra para aí?», porque a porta da escada da República está fechada. «Vai pelas traseiras!». Vou mas também está fechada e logo à esquina aparece um vendedor com a última da República. É um verdadeiro assalto. Aí fico a saber dos chefes (Costa Gomes e Spínola) e o alvoroço é enorme. Já não sei bem: se vim ao Rossio, se de repente notei uma grande correria para o Terreiro do Paço. Sem perceber nada do que se passa, sigo a onda. No Terreiro do Paço, começa a chover. Há correrias e encontro uma rapariga que me conhece muito bem mas não topo logo. É a Maria João, a engenheira química, amiga do Henrique, com outro rapaz. Ficámos abrigados da chuva debaixo das arcadas, depois convenço-os a irem beber um copo ao Terreiro do Trigo (Campo das Cebolas?), não sei já se estava aberto se não. Ela tem o carro no Camões e para aí vamos. Mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a Pide. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega. Agarro um táxi e arranco para casa da Ção. Pela TV vi depois o resto. Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho.

Luiz Pacheco em Diário Remendado

Legenda: pormenor da capa de Diário Remendado

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

RELACIONADOS


Última página de O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor, com a assinatura, a tinta verde, de Luiz Pacheco.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DESCONFIO QUE ESTOU DOIDO

Num qualquer dia de Novembro do ano de 1961, o Mário-Henrique Leiria escrevia a Isabel e contava-lhe que chovia imenso.

Sim, naqueles tempos chovia muito e fazia frio. 

Lembro as inundações de Novembro de 1967, vai fazer 50 anos que aconteceram.

Agora, cada vez chove menos, não chove mesmo nada.

Ontem, o Cardeal-Patriarca de Lisboa pediu aos sacerdotes para que rezassem na esperança que a chuva chegue.

«Deus do universo, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos com mais confiança aos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo». 


«Restará espaço para dizer uma coisa bonita? E sincera, e com todo o respeito: nada têm de ridículo estas cartas de amor. As cartas de Amor NUNCA são ridículas. Poderemos sorrir. Isso sim. Aquela Isabelinha bonita, aconchegada com marido e filhos nas brumas de Londres, e Beluska e distante Maruska, doce como o olhar das gazelas do Volga… sai destas cartas como figura inesquecível. Mais muito mais que aquele cavalheiro francês, torpe e antipático, que podemos imaginar nas cartas da Alcoforado. Fazem o favor de conferir, que não exagero nada, lendo-as.»

sábado, 28 de outubro de 2017

O PESO DA VELHA CASA DESERTA


Olhou para onde há pouco havia sol e já não o viu. E um silêncio definido (definitivo) veio cair sobre ele, o peso da velha casa deserta, e obrigou-o a ficar ali, quieto e calado, com medo de olhar para trás, quieto e calado, como coisa morta.

Luiz Pacheco em Exercícios de Estilo

segunda-feira, 31 de julho de 2017

SÓ TENHO COISAS QUE ME RALEM


No domingo 23 de Julho, acabámos a nossa viagem pela Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

A juntar às viagens com livros que , por aqui, decorrem, acresce este extraordinário livro de Mário Henrique-Leiria: Depoimentos Escritos em que aparecem contos, poemas e cartas de amor.

A incidência recairá sobre as cartas de amor.

Luiz Pacheco, no seu Prazo de Validade, mostra-se agradavelmente surpreendido com este livro:

«Ora aqui está um romance! Não diz que é, mas é. È um belo romance, uma história de amor como nos tempos antigos: trágica. Sublime.»
  
 Luiz Pacheco declara que o Mário-Henrique Leiria, «além de ser uma personalidade, era também uma personagem.

Da ex-esposa alemã sabia muito vagamente, mas da paixão por Isabel nada sabia.

Como nasceram estas cartas?

Em 1955, Mário-Henrique Leiria ia para a Dinamarca mas, por engano, ficou na Alemanha e conheceu uma alemã, de seu nome  Dietlinde, por quem se apaixona perdidamente.

Casam. Mário-Henrique sonha com uma família, mas a «estimada esposa» tinha um programa quinquenal antes dos filhos. Primeiro frigorífico, máquinas de lavar e encerar, carros, seguros de vida, etc. Só depois viria a descendência. Ao fim de dois anos, a esposa alemã regressa à Alemanha, zarpa com novo amor para o Brasil, pede o divórcio.

Mas, por mor de um qualquer passe de mágica, Mário-Henrique apaixona-se, perdidamente, pela da advogada da mulher, ou ex-mulher como quiserem.

Isabel, a advogada, Mário nas cartas também a trata por Beluska e Maruska, não aguenta a barra Mário-Henrique Leiria, escolhe uma outra vida, acaba por casar com um irlandês, tem filhos e o homem do gin, sente-se um farrapo a olhar a solidão que, uma vez mais, se avoluma em seu redor, mas continuam amigos e a trocar cartas.

«Demiti-me de tudo. Estou só. Aliás. Sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.»

Ainda Luiz Pacheco:

«Restará espaço para dizer uma coisa bonita? E sincera, e com todo o respeito: nada têm de ridículo estas cartas de amor. As cartas de Amor NUNCA são ridículas. Poderemos sorrir. Isso sim. Aquela Isabelinha bonita, aconchegada com marido e filhos nas brumas de Londres, e Beluska e distante Maruska, doce como o olhar das gazelas do Volga… sai destas cartas como figura inesquecível. Mais muito mais que aquele cavalheiro francês, torpe e antipático, que podemos imaginar nas cartas da Alcoforado. Fazem o favor de conferir, que não exagero nada, lendo-as.»

domingo, 23 de julho de 2017

SARAMAGUEANDO




Se no dia em que sair daqui sair não tiver ainda (já) outro emptrego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Miguéis por baixo deste parágrafo escreveu a seguinte nota:

Bravo! eu Saramago.

Não espantam estas palavras de José Saramago.

Uma integridade, outras coisas mais, agarrada, toda uma vida, à teima dos ossos.

«Que nos importa morrer se não morrermos de rastros?»

Versos de Cantiga de Ódio de Carlos de Oliveira.

«Posso morrer de fome mas não peço esmola.»

 «Só sei que “para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Palavras de Mário Henrique Leiria em Depoimentos Escritos.

Foi a coragem, outras coisas mais que, em 1975, face ao despedimento do Diário de Notícias, à recusa dos seus pares e camaradas de Partido em que integrasse a equipa de O Diário, que o levou a viver de traduções, de colaborações várias, de arrancar para o Alentejo e do chão levantar um livro que o levaria, anos passados, ao Prémio Nobel da Literatura.

Apenas se conhece a versão de José Saramago sobre a sua substituição, por Natália Correia, à frente da direcção literária da editora Estúdios Cor.

Natália Correia, o que lhe sobrava em talento poético, escasseava-lhe em outros predicados que definem as pessoas.

Uma lindíssima mulher, segundo opinião corrente e variada, mas de uma vaidade cega que a conduzia a becos sem saída.

Luiz Pacheco numa das suas muitas entrevistas-descasca-pessegueiro, chama-lhe
 «degenerasda», e conta a história de que, numa das suas estadias na prisão do Limoeiro, Natália Correia teve lá em casa a mulher de Pacheco mais um filho pequeno, mas tentou assediar a rapariga, Pacheco  avança uns pormenores escabrosos e remata que, quando saiu da prisão, «esclareceu o assunto com a Natália».

Natália Correia não teve qualquer pejo em substituir José Saramago.

O contrário, certamente, não aconteceria.

Não são conhecidas as razões por que o fez mas, provavelmente, não andarão longe de motivos fúteis a roçar lampejos de inveja, porque de dinheiro não precisava Natália para viver dado que, ainda segundo Pacheco, «só «arranjava amantes velhos com massa.»


Legenda: contracapa da Correspondência entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COMPREENDE, NÃO É?


Mário-Henrique Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.

Há quem diga que morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu: Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. 

Jorge Listopad:

Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.
Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente muito «chateado» com a desordem da ordem.
Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista, marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos,  Carcavelos-hospital.
Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos, de contos, cujo livro Contos do Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela qualidade e livre respiração.
Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:
- Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.
- Coisas compridas, como?
- Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.
.-Não, isso não sou capaz.
- Então você não é um escritor.
- Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa?
- Desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?
- Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo.

Luiz Pacheco

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

AS ENTREVISTAS DO PACHECO


Há quem seja de opinião que o sucesso com as entrevistas do Luiz Pacheco começou com uma entrevista, conduzida por Rui Zink e Carlos Quevedo, publicada na revista Kapa, em Julho de 1992.

João Pedro George, no prefácio a O Crocodilo que Voa, escreve que esta entrevista «deu um novo fôlego à imagem pública de Pacheco. A comoção que essa entrevista foi tanta ou tão pouca, que o jornal Se7e estimou-a, na área da cultura, como ‘um dos acontecimentos do ano de 1992.»

Pacheco tem opinião contrária.

Na entrevista que lhe fez, João Pedro George diz-lhe que ele «continua muito requisitado para entrevistas.»

Pacheco respondeu-lhe:

«Ó pá, isso começou com a entrevista do Expresso, feita por aquela maluca, a Clara Ferreira Aves, e pelo outro mangas, o Torcato Sepúlveda, que assinou com outro nome… porque esses gajos é assim; quando um gajo lhe dá uma entrevista cai-nos tudo em cima. Eles não vão pedir entrevistas ao Cesariny porque sabem que ele não liga… Agora, eu já tenho um balanço, um pé muito bem calçado de entrevistas e as perguntas são sempre as mesmas… eles têm lá no ficheiro… antes de virem falar comigo eles não vão ler as minhas obras completas… nem as encontravam… De entrevista em entrevista é a mesma chapa, vêm com perguntas de chapa. É como o outro: «o que você pensa da juventude de hoje?» Eu não penso nada, eu nem conheço os meus filhos…» 

O facto é que não houve jornalista careta, de jornais, revistas, televisões, que não fosse entrevistar Pacheco, o maldito, depois de toda uma vida o terem ignorado.

De repente descobriram o filão.

E o Pacheco não se fez rogado e distribuiu bordoada, alguma de criar bicho.

Felizmente que, para memória futura, a maio parte das entrevistas que o Pacheco deu, se encontram reunidas em livros.

A saber:

Em Novembro de 1992, Luiz Pacheco, publica na Contraponto, O Uivo do Coiote, a entrevista que concedera a Baptista-Bastos, Novembro de 1995, e publicada no JL nº 174.

Em Fevereiro de 1997, novamente, na Contraponto, novamente O Uivo do Coiote, e com um interessantíssimo prefácio do jornalista Acácio Barradas.
Aqui publica a entrevista, que deu a Clara Ferreira Alves e João Macedo publicada no Expresso, Junho de 1988, a que deu a  António Tavares-Teles, publicada em  A Capital, Outubro de 1988, a que deu a Carlos Quevedo e Rui Zink, publicada na Kapa, Julho 1992 e repete a que dera a Baptista-Bastos e publicada no JL.

João Pedro George em O Crocodilo que Voa antologia outras entrevistas e repete a que foi dada à Kapa.

Legenda: anúncio de página inteira do semanário Sol, após a morte de Luiz Pacheco, e publicado no Público de 11 de Janeiro de 2008, após a morte de Luiz Pacheco.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

Luiz Pacheco

Legenda: fotografia do Shorpy Archive.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O DINHEIRO E OS ESCRITORES


São conhecidas as dificuldades económicas com que alguns escritores portugueses viveram nos idos do século passado.

Pela correspondência trocada entre si, são inúmeros os lamentos de Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, ambos no exílio, e António Ramos Rosa que nunca saíu de Portugal,

Exemplos:


«Quanto aos pagamentos, voltaremos ao acordo de prestações mensais? Não consegui resolver o problema que aí me levou, e estou cada vez mais pobre…»


«Confiando na sua generosidade, venho pedir-lhe que me empreste, durante o prazo que quiser determinar e que eu cumprirei à risca, alguns números de critique que infelizmente não estou em condições de poder assinar apesar do seu preço módico.»


«Não, Rosa, eu não assino nada (nem pude ainda renovar a assinatura da Critique),, e mal compro um livro – se o dinheiro nem me chega e a família passarmos ao mês seguinte!»

Num interessante trabalho da jornalista Catarina Carvalho, publicado na revista Ler nº 37 Primavera/Verão de 1997, sobre o dinheiro e os escritores, Luiz Pacheco, no seu modo único de saber experiência feito, disse:

«Só faz bem passar fome.»

Escreve a jornalista:

«Pacheco não está rico porque se recusou fazer concessões. Nunca ganhou com os livros dinheiro suficiente para viver, mas também nunca aceitou que nada lhe roubasse o tempo da escrita, «Só faz bem passar fome.» Chama-lhe «acreditar no que se faz»: «Se não temos consideração pelo nosso trabalho não temos consideração por ninguém.»

Referindo António Ramos Rosa, a jornalista lembra que, apesar de ter publicado setenta e oito títulos (números de 1997), o autor nunca ganhou propriamente dinheiro com os livros. Recebia cento e trinta contos de subsídio de mérito cultural, fazia traduções, dava explicações.

O artigo termina assim:

«O luxo dos livros. Ramos Rosa tinha fiado na Bucholz e nas várias livrarias do Campo grande por onde passava todos os dias, «para ver as novidades». No entanto, a maior quantia que terá gasto alguma vez foi na Livraria Barata onde entrou depois de receber o Prémio pessoa em 1988. Com livros empilhados chegou à caixa e pagou por eles cerca de cem contos. Sorria. Usou o dinheiro como sempre achou que o dinheiro havia de ser gasto: esbanjado em prazer.»

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

RECADOS


Na revista Ler nº 38 Primavera/Verão 1997 abordava meio século do movimento do surrealismo em Portugal, mais concretamente em Lisboa.

«Foi uma explosão de Liberdade. Isso não é coisa que se esqueça, irmãos! E eles, digo: o Cesariny, o Lisboa, o Seixas, o António Domingues, noutra banda o António Pedro, o França, o O’Neill, Moniz Pereira, tinham que lutar em duas frentes: a do regime e seus acólitos (pide, fachos) e a dos neo-relaistões e seus próceres, já lançados na correria para o sucesso e as coroas, as massinhas.»

Mas, neste artigo, Luiz Pacheco fala particularmente do Mário-Henrique Leiria:

«Não referi atrás um nome principal: Mário-Henrique Leiria. Propositadamente, deixei-o esquecido. Mas a fingir. O Mário morreu em 1980. Não sei quem, nem como, nem para quê, teceram-lhe uma legenda de morte na miséria, no abandono. Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. E com obra feita e com obra por publicar. O Mário-Henrique Leiria, em matéria escrita, é o único surreal que resistiu e ganhou público. As várias, sucessivas edições dos seus livros na editorial estampa, os Contos do Gin-Tonic e os Novos Contos do Gin, será a melhor prova de que ele atingiu uma massa de leitores muito mais novos, aos quais o Surreal e surrealismo lisboeta ou estranja, é mera etiqueta a desprezar. Mas não já o feroz humor, o total non-sense das historinhas que o Mário foi colhendo numa vivência de trota-mundos e Aventura sem igual nos companheiros de 1947. E uma turbulência revolucionária – quem, agora, o poderá capazmente recordar? Viajou, lutou, terá andado metido em múltiplas causas perdidas, pois tal era o seu feitio e o seu destino. Há dois livros dele que prefiro e, até, pensei em reeditar. São obras únicas: Conto de Natal e Lisboa ao Voo do PássaroOra, por mão do Artur Manuel do Cruzeiro Seixas recebi há pouco uma edição espanhola, bilingue, e lindíssima, do poema Claridade Dada pelo Tempo. A ser editada como convinha, era mister, o Leiria e nós merecíamos, custava uma fortuna. Mesmo assim, é livro a ler, a ter no recanto dos reservados preciosos. O Mário-Henrique, com uma personalidade vincada e nada disposto a grupelhos e mentores, em 1947 e nos anos seguintes, ficou Bastante isolado. Que se fale nele, portanto. E noutro morto, também votado ao silêncio: o suicida João Rodrigues que tem, segundo suponho, por aí família e ninguém lhe liga nenhuma.»