Logo nas primeiras
palavras do longo e excelente prefácio de João Pedro George, lê-se
«Luiz Pacheco sofria
de compulsão epistolar.»
Sou um velho apreciador de correspondência entre
escritores.
Acresce que em tempos
idos, enquanto subia/descia o Chiado, fiz parte daqueles a quem o Pacheco
esticava um livreco e dizia: «Dá cá vintes!»
Mais tarde entrei na
longa lista de assinantes da Contraponto para bebeficiar do envio das edições
de livros que o Pacheco fazia e que não chegavam às livrarias.
Se tiverem paciência para isso, vejam nas etiquetas deste blogue: «Luiz Pacheco» e «Luiz Pacheco Editor», as minhas aventuras com a pachecal figura.
Num velho artigo no
suplemento Ipsilon do Público, Luís Miguel Queirós conta quem é Laureano Barros:
«Grande bibliófilo,
matemático e intelectual anti-fascista Laureano Barros (1921-2008), que
reuniu na sua quinta da Fonte da Cova uma das mais extraordinárias bibliotecas
privadas portuguesas da segunda metade do século XX.
Quem frequentou os velhos alfarrabistas do
Porto, alguns ainda em actividade, sabe que se referiam sempre a Laureano
Barros com um respeito muito próximo da veneração. E não apenas por ser um
proveitoso cliente, mas porque lhe reconheciam um vastíssimo saber na sua
própria área de especialidade, consultando-o a pretexto de dúvidas
bibliográficas, ou pedindo-lhe até que lhes recomendasse o preço adequado a
pagar por qualquer raridade que lhes era proposta. E admiravam-lhe também essa
intransigente rectidão moral que, logo aos 26 anos, em 1947, o lançou no
desemprego. Assistente de Ruy Luís Gomes, na Faculdade de Ciências da Universidade
do Porto, protestou contra a prisão de uma aluna pela PIDE, o que bastou para
ser impedido de leccionar no ensino público. Viveu os 20 anos seguintes a dar
explicações, com alguma contribuição paterna a arredondar os proventos, já
então maioritariamente investidos na aquisição de livros.
A sua biblioteca,
leiloada após a sua morte pela Livraria Manuel Ferreira, era tão extensa e tão
valiosa que foi preciso organizar um leilão em três partes, com meses de
intervalo entre elas. Laureano Barros era um coleccionador exaustivo de
Pessoa ou Sá-Carneiro, mas também, por exemplo, de Eugénio de Andrade,
Luiz Pacheco ou Herberto Helder. E este seu particular interesse pela
literatura portuguesa do século XX convivia com outras predilecções, entre as
quais se contava a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, da qual conseguiu
reunir todas as dez primeiras edições.
É claro que é preciso
algum dinheiro para construir uma biblioteca deste nível, e Laureano Barros
tinha até reputação de manter alguns hábitos não apenas dispendiosos, mas um
pouco excêntricos, como o de levar regularmente os trabalhadores da quinta a
almoçar ao reputado restaurante do Hotel do Elevador, no Bom Jesus de Braga.
Mas o coleccionador também teve períodos difíceis. Num dos mais interessantes
testemunhos recolhidos por Paulo Pinto no seu filme, o histórico livreiro da
Académica, Nuno Canavez, então ainda empregado do fundador da casa, Joaquim
Guedes da Silva, recorda que Laureano Barros recorreu a dada altura ao seu
patrão para vender a biblioteca que por essa altura já reunira. O livreiro
ainda tentou, em vão, emprestar-lhe dinheiro, mas acabou mesmo por lhe comprar
a colecção. Ou seja, a biblioteca que veio a ser leiloada era já a
segunda.»
O matemático
bibliófilo foi também amigo e correspondente de vários escritores, incluindo
Luiz Pacheco ou Eugénio de Andrade, que passava temporadas regulares na quinta
da Fonte da Cova. Em Laureano Barros, Rigoroso Refúgio vê-se o exemplar que o
poeta ofereceu ao amigo do seu raríssimo (e rejeitadíssimo) livro de estreia,
Narciso (1940). No final do volume, Eugénio escreve: “Reli isto, Laureano. Que
horror! Para que diabo quer você esta porcaria?”. Quando a biblioteca foi
leiloada, este mesmo exemplar foi arrematado por quatro mil euros.
Pena que «O Grilo na Varanda» não reúna a parte da
correspondência que Laureano Barros enviava a Luiz Pacheco «escritor até aos ossos» tal como o descreve
João Pedro George:
E, no entanto, apesar
das óbvias diferenças, a correspondência revela a consideração de Pacheco por
Laureano Barros, uma estima que se pressupõe mútua. “Pressupõe”, porque as
cartas aqui apresentadas são apenas as que Pacheco escreveu a Laureano; e nem
mesmo essas são todas as que haverá, como adverte JPG. As cartas que acabam de
ser editadas foram arrematadas no leilão portuense, e foi apenas a essas que
JPG teve acesso.
A aproximação entre
ambos deu-se pela bibliofilia de Laureano, que contactou Pacheco em busca de
espécimes bibliográficos da Contraponto e de Pacheco. Muita da correspondência
que se seguiu, ao longo de 35 anos, versaria, naturalmente, sobre edições
levadas a cabo por Luiz Pacheco. Mecenas tão discreto quanto fiável, Laureano
financia empreitadas editoriais e salva bastas vezes Pacheco dos seus
infindáveis padecimentos de saúde, da falta de fundos e de todo um sortido
crescente de tribulações: com a justiça, com credores, com a vida que lhe ia
acontecendo.»
Legenda: contra capa de O Grilo Falante