Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para
lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
ÉRAMOS TANTOS À MESA
Primeiros anos da década de 60.
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para
lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
ÉRAMOS TANTOS À MESA
Primeiros anos da década de 60.
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
DE SOLIDÕES
Aos poucos, vamo-nos despedindo do Natal, e relembrando uma das mais interessantes e pungentes canções de Natal , Fairytale Of New York dos Pogues com a Kirsty MacCall, sabemos que os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque cantavam Galway Bay, enquanto os sinos tocavam por toda a cidade, ao mesmo tempo que José Tolentino Mendonça, numa das suas excelentes crónicas no Expresso, abordando a solidão do Natal, revelava que lera uma carta que o escritor Jack London escreveu na manhã de Natal, de 1898, quando tinha 20 anos. e momentaneamente abandonara as errantes vagabundagens no seu barco, pelas celebrações caseiras do Natal:
«Mas no fundo dos rituais familiares a que ele assiste (a abertura dos presentes diante da lareira acesa, o risos das crianças felizes, os ornamentos aconchegantes, os reflexos de uma existência segura…) descobre-se sempre mais como um estranho, e tudo aquilo que o deveria apaziguar fá-lo afinal descobrir vencido, como se o seu “bilhete de lotaria da vida tivesse o número errado”. Ele que passou a adolescência a saltitar entre centros de reeducação, que teve de lutar para aguentar-se nos estudos, que, para sobreviver, foi ardina, pescador furtivo, agente de seguros, caçador de focas, pugilista e garimpeiro, ele homem de têmpera rija sente-se naquela manhã vacilar, perdido dentro do grande puzzle que o Natal faz parte. A carta que Jack London escreve é uma espécie de relatório do seu desconforto. Mas creio que não é só isso. É também um documento sobre a grande solidão que o Natal escancara».
Linhas à frente, José Tolentino pergunta:
“Porque é que o Natal faz sofrer?”
Guardei sempre um velho recorte do velho «Diário de Lisboa» de 27 de Dezembro de 1976:
“António Manuel, de 14 anos, no dia de Natal,
lançou-se de uma janela do Coliseu do Porto, tendo sido conduzido ao Hospital
de Santo António sem fala e com várias fracturas.
O jovem, que é natural do lugar de Idanha, encontra-se numa fase de
recuperação, tendo começado já a articular algumas palavras”
O jornalista fechava assim a notícia:
“De acordo com estatísticas mundiais, a quadra do Natal regista sempre uma
subida de tentativas de suicídio, que alguns psicólogos identificam com uma
maior acuidade em relação à solidão em dias que a maioria das pessoas se reúne
para confraternizar.”
Lembro, com muita tristeza lembro, aquela noite, as festas felizes a findarem, quando o poeta Eduardo Guerra Carneiro, feito rapaz do trapézio voador,se mandou, no meio do silêncio, para um qualquer céu estrelado.
E sempre aquela canção de Brel, deixa-me ser a sombra da
tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão, mas não me deixes.
Ainda José Tolentino Mendonça:
«O Natal é atravessado por um dramatismo que nos abala, pois nos retira do feérico entretenimento das perguntas penúltimas e nos coloca perante as perguntas últimas.»
Legenda: pintura de Van Gogh
Texto publicado em 30 de Dezembro de 2019.
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alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
SARAMAGUEANDO
Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?
Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que
nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são
irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de
os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos
impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida...
Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que
recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos
porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se
reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um
desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se
não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o
cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta
rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e
subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição
plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta:
«Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de
lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os
alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes
casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino
Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na
segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e
apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que
todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as
crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor
nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho
mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração.
Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde.
Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os
cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito
séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi
nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito
de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?
José Saramago, excerto da crónica A Neve Preta em Deste
Mundo e do Outro
Texto publicado em 14 de Dezembro de 2017
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A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM
O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no
dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, rua que hoje tem o seu nome,
junto ao Largo do Calvário.
O assassinato está assinalado na canção de José Afonso A Morte Saiu à Rua do álbum Eu Vou Ser Como a Toupeira, gravado
em 1972.
Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos e autocarros de Santo Amaro.
No livro Viagens, o poema Viagem
Através de Uma Fatia de Bolo-Rei, Mário Castrim regista esses
últimos momentos de vida de José Dias Coelho:
Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.
Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.
- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)
- Comes outra fatia, camarada?
- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...
Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.
Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.
Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.
Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.
No nº 9, referente a Março de 1962, de Notícias do Bloqueio, Pedro Alvim, no poema intitulado Lisboa, assinala o assassínio de Dias Coelho:
4 – Alcântara
Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.
No dia 24 de Novembro de 1976, começava, no 1º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, o julgamento do ex-agente da PIDE António Domingues, acusado de ter assassinado José Dias Coelho, julgamento que só terminaria no ano seguinte:
Na 1ª página do “Diário de Notícias”, de 6 de Janeiro de 1977, lia-se:
«O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues,
responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem,
condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado
em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu
cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou
não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de
que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois
tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a
sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.»
No editorial do Diário de Lisboa, também de 6 de Janeiro, lia-se:
«Na verdade, reconhece-se a legitimidade da
“profissão” de assassino de adversários políticos de um regime. É um insulto à
memória de José Dias Coelho.
Um insulto aos mortos e aos vivos da resistência
antifascista.
Um insulto ao 25 de Abril.»
Legenda: A imagem de topo é uma gravura de
José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na
frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada
no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua
última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes
deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais
copiosas searas”
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
NÃO É POSSÍVEL O
NATAL ASSIM…
Trago aqui palavras que encontrei na secção Cartas
à Directora do Público de 29 de Novembro.
Chamou-me à atenção o título.
Palavras simples e sinceras que qualquer um de nós
entende como uma das muitas tristezas que vão invadir este tempo que se queria
maravilhoso.
Não resisto a partilhar as palavras que a leitora
do Público, que vive no Porto e se chama Lídia Menezes,
escreveu:
Como se poderá ter Natal se há tantos, tantos e tantos que não o vão ter... As
crianças a quem roubam os sonhos, lhes tiram a infância...
Uma profunda tristeza com a desumanidade e violência nos cortes e mais cortes, nos subsídios, numa lista infindável e sempre inventada nos bolsos dos mais fracos. Uma profunda impotência...
Rostos fechados, desespero nos olhos e a esperança que fugiu das mão que agora se estendem a pedir esmola.
Não, não é possível um Natal assim! Nem para os autênticos Cristãos!
Como é possível destruir o que de mais sagrado existe em cada ser humano que é a dignidade e o direito ao Pão?
Tudo está bem e para nós, tudo cada vez pior!
Em que país vivem?
Quem são as pessoas?
O que significa respeito e dignidade?
O que enxergam nos seus horizontes? O coração fugiu? Se calhar sim, com medo dos cortes também!
Não vai restar pedra sobre pedra nem nenhum sorriso se atreverá a aparecer nos rostos dos que ainda sentem, porque alguns até deixaram de sentir - foram apanhados por tudo o que lhes dão a ver e a ouvir e acreditam, o que é mais grave.
Não, não vai haver Natal assim...
Haverá encenações para nos convencerem que sim. O pior é este cansaço de pensar ou já não querer pensar no amanhã.
Tudo se vai tornando em apatia e as vozes que tanto gritaram e cantaram a "Grândola Vila Morena" estão roucas, os pés que foram ás manifestações perguntam-se para quê. Será que o cansaço os venceu?
O Tribunal Constitucional que ainda vai travando esta loucura perdeu o respeito que lhe é devido e pretendem calá-lo, abafá-lo, destruí-lo para livremente escravizarem quem ainda tem o descaramento de lhes dizer não.
Não, não vai haver Natal assim...
Não é possível dar num dia e no ano inteiro, recusar e tirar. A hipócrisia tem limites!
A palavra solidariedade está banalizada, esvaziada, perdeu a sua profundidade e força e não lhe cabe a ela resolver o problema das carências quando se demitem os verdadeiros responsáveis pelos direitos humanos.
Escrevo para quê? Escrevo apenas porque sim, porque dói, porque dói muito e cada vez mais...
Já não consigo ouvi-los nem vê-los, apenas sonho viver sem eles.
Se Natal é dar, com quem aprenderam eles a tirar?
Texto publicado em 10 de Dezembro de 2013
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
UM CANTINHO BOM DO
ANO
O Natal será sempre o encanto e a ternura da
impossibilidade.
Karl Valentim preferia que cortássemos do calendário o Dia De Natal, se com
isso conseguíssemos que os restantes 364 dias do ano fossem todos de Natal.
Gostaria que o Natal não tivesse o carácter de que se tem revestido nos últimos
anos: um consumismo desenfreado que dele fazem o dia mundial da hipocrisia.
As noites de Natal, aquelas que não mais posso repetir, passava-as em casa do
meu pai, a família mais chegada, a comer bacalhau cosido com couves, a beber
vinho tinto alentejano, a conversar pela noite fora, rematando-se a festa com
carne de porco frita envolta em ovos mexidos, a que se seguiam os doces, umas
fatias douradas, filhós e uns cálices de licor de ginja que, por Junho, se
tinha colocado a marinar numa grande garrafa de vidro, juntamente com açúcar,
aguardente branca, um pau de canela.
Tentamos fazer o mesmo com os filhos, alcançar a reinvenção dessas noites
felizes, mas é mais que certo: nunca se volta aos sítios onde fomos felizes.
Há coisa melhor que o Natal?
Há: os amigos!
E que mais podemos querer do que um amigo para nos acender o dia, e que esse dia seja Natal?
O Natal é um cantinho bom do ano, um aconchego.
Texto publicado
em 19 de Dezembro de 2018
Tempo para invocar Tchaikovsky.
Quando o tempo era muito mais lento, a oferta musical de discos de música clássica, em vinil, era limitada e a Amazon ainda era um vago sonho na cabeça de alguém.
O advento dos Cds trouxe o que dantes se procurava e não encontrávamos.
Recordo-me de uma ou duas conversas sobre Shostakovich, do desejo que exprimia em ter a sua 7ª Sinfonia, Leningrad.
Não sei se alguma vez a ouviu quando, madrugada dentro, passava horas à procura de estações de rádio europeias.
Por mim falando, só há coisa de dois anos, graças a uma natalícia oferta do Mário, a conheci.
Coloco de lado a carga política da sinfonia, dedicada por Shostakovich às vítimas de Estalinegrado durante o cerco da Alemanha Nazi, em 1942, para dizer - dizer o quê? - que fiquei surpreendido, agradado, que senti uma alegria que começa e acaba no inexplicável.
E lamentar que, por desconfianças muito minhas, não a tenha ouvido mais cedo.
É bem provável que o meu pai, marxista-leninista que era, soubesse que Álvaro Cunhal reconhecia uma força artística, única a esta sinfonia, que era uma das suas peças sinfónicas preferida.
Naquele tempo não foi possível encontrá-la.
Mas estamos agora a ouvi-la.
Privilégios de quem gosta de sonhar que as coisas sejam assim…
Ou como diz o cego do costume: é preciso ousar
ser ingénuo.
Texto publicado
em 21 de Maio de 2013
Dizem-me que estas revistas vendem-se como pãezinhos
quentes, são largamente devoradas, até por gente que quase não tem dinheiro
para comer mas que não dispensa a compra deste lixo.
Talvez por isso muitos deles, muitos mesmo, não tomam a devida atenção ao que o governo anda a fazer.
Quando derem por isso é tarde. Mesmo muito tarde.
O Governo agradece.
Publicado em 31 de Agosto de 2012
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana
estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
A
BOLA
Em 29 de Janeiro de 1945, Cândido de
Oliveira fundou o jornal A Bola.
Já lhe chamaram, Bíblia, também
o Avante da Travessa da
Queimada.
O jornalismo de sarjeta que por aí se
faz, também atacou o jornal.
Desaparecidos os jornalistas, notáveis cronistas, diga-se, que lhe deram glamour, hoje
não passa de um produto amorfo, sem qualquer ponta de brilho, que aposta no
sensacionalismo para vender papel.
A
Bola tem a minha idade e poderei dizer
que foi no jornal do Cândido, como o meu avô lhe chamava, que soletrei as
primeiras letras e, sem exagero, gosto de dizer que aprendi a ler com A
Bola.
Quando o jornal fez 43 anos,
convidou algumas personalidades para se pronunciarem sobre a efeméride. O
cineasta João César Monteiro foi uma dessas personalidades:
«Se não estou em erro, sou ledor
de “A Bola” há mais de trinta anos. Do tempo em que era quase afrontoso ser
visto com “ela” debaixo do braço e nem sempre se ousava confessar o pecadilho
que era gostar de a ler. Para restituir a boa consciência a esse perverso
apetite, criou-se um álibi curioso. “A Bola” passou a ser, antes do mais, um
modelo de virtudes prosódicas, uma escola de bem escrever jornalístico. Com
alguma razão, diga-se, se fecharmos piedosamente os olhos a certas piroseiras
metafóricas que, de onde em onde, ensombram com a má literatura o bom
jornalismo.
Para ser franco e sem cair no pretensiosismo de ter mais em que pensar, nunca
pensei muito n’”A Bola”. Passo os olhos por ela, deixo-a deliberadamente na
mesa do café, encontro-lhe utilidades culinárias para embrulhar tachos com
arroz ou para absorver o óleo dos carapaus fritos. Numa ou noutra aflição, já
me tem valido, com todos os inconvenientes de estampagem de aí decorrente. Nada
de grave: conheço letrados bem piores.»
A Bola que hoje corre
por aí, com o mesmo nome, não tem nada a ver com o jornal do Cândido.
Foi, até certa altura, um jornal bem feito, interessante mas não ao ponto de,
com uma grande dose de exagero e injustiça, Carlos Pinhão ter afirmado, em
pleno salazarismo/marcelismo, que «o jornalismo desportivo era o melhor
jornalismo português». Carlos Pinhão esquecia-se (?) que A Bola não
ia à Comissão de Censura. Os outros, seus camaradas de profissão tinham de
escrever nas entrelinhas para tentarem fazer um jornalismo minimamente honesto.
À velha A Bola devo o
facto de Ruy Belo ser um poeta do meu panteão.
O meu conhecimento com Ruy Belo não
começou nem pelos livros, nem pelos poemas, mas por uns artigos sobre futebol
que, nos idos de 1972, publicou em A Bola.
Gostei tanto desses artigos que me interessei logo na procura de coisas acerca
de Ruy Belo.
Acabei a comprar-lhe os livros. O primeiro foi Homem de Palavra(s), uma
capa azul, um belo livro.
Lembrar Herberto Helder: «mais do que dizer que gostei dos livros de Ruy
Belo, gostaria de escrever que os acho fundamentais».
Texto publicado em 29 de Outubro de 2011
RIBADOURO
Para mim, a Ribadouro, esquina
do fundo da Rua do Salitre com a Avª da Liberdade, está sempre agarrada
ao Belarmino, filme
do Fernando Lopes, ali pensado, escrito, encenado, discutido.
Também conhecida pela Universidade
do Tremoço.
O José Cardoso Pires em A Balada da
Praia dos Cães:
O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de
cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o
fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua
bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para
Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um
galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dono Lurdes abortadeira.
Mestres-de-obras a arrrotar! Oh, senhores.
Quantos finos, quantos bifes com ovo a
cavalo, quantas conversas pela noite dentro, a esperança vã de mandar Salazar
borda fora.
O que ainda tivemos de esperar!...
Hoje, a Ribadouro está
mais voltada para os turistas, para uma classe específica, gente que
encheu os bolsos de dinheiro para, nos tempos que correm, nos acusarem de que
andámos a viver acima das nossas possibilidades.
Já não anda por lá a malta do Parque
Mayer, gente do jazz, das escritas, dos jornais e onde pontificava o clã
da Ribadouro.
Assim de memória, alguma da rapaziada
desse clã: Fernando Lopes, Canto e Castro, Manuel de Azevedo, Baptista-Bastos,
Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Alexandre Vieira, Carlos de Oliveira,
rapazes, outros já entradotes, que, no fundo, só queriam assaltar a
felicidade, felicidade que, como dizia o Saint-Just, era possível.
Esperanças, sonhos, amores, desamores,
frustrações, andaram por aquelas mesas, juntamente com cervejas,
tremoços, cafés, o que calhava.
Não consigo passar junto à Ribadouro, sem
que os passos se encaminhem para o balcão, beber um copo de cerveja
clara, Sagres, naturalmente, olhar as mesas, agora atoalhadas para
turistas e gente fina, e sentir o rumor das conversas, não deixando de seguir
os ditames do José Gomes Ferreira:
Saudades de não poder inventar o futuro.
Às mais variadas horas, desde as sete da manhã até ao fim da tarde.
Texto
publicado em 23 de Setembro de 2013
FELIZMENTE
EXISTEM LIVROS
Comprar livros pelos seus começos,
comprar livros pelos seus finais, comprar livros por uma frase, uma página,
comprar livros pelas capas, comprar livros, signo diário de quem privilegiado
se constitui por ter nascido e vivido numa casa em que havia uma pequena estante
com livros.
Aqui pelo Cais estivemos para apresentar
começos e finais de livros, mas depois optámos por Olhar as Capas porque
englobava tudo.
Maria Gabriela Llansol, e o começo do
seu livro no seu livro Na Casa de Julho e Agosto:
«O
começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o
começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um
livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se
pronuncie.»
Ocorrem-me, entre tantos e tantos, dois
excelentes começos de livros de autores portugueses
O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:
«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas
do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o
fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O
vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre
Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para
cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de
Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar
na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como
agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande
embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras
vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os
aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de
incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos
arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch,
seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos
de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por
exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é
impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos,
porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos
vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa
sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um
zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de
castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça
cortina das águas que descem do céu fechado».
Os
Cus de Judas de António Lobo Antunes:
«Do que eu gostava mais no Jardim
Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito
direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um
músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se
falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos
anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos
à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»
E obviamente, não posso deixar de
lembrar o magistral começo de O Fogo e
as Cinzas de Manuel da Fonseca:
«Antigamente, o Largo era o centro do
mundo.»
Todo este escrevinhar porque hoje, por
mor de algo que precisava consultar, peguei em Os Nus e
os Mortos, grande livro de Norman Mailer que tem um começo muito
bem conseguido:
«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a
manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas
cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em
cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles
estariam mortos.»
São assim os livros, nossos companheiros
de todas as horas.
Ou como escreve José Saramago em A Caverna:
«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa
prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na
escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes
durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados
sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»
Foi o que aconteceu com o livro do
Norman Mailer.
E, de repente, saltou o começo.
Texto publicado em 14 de Março de 2019
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana
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NOS
MARES DO FIM DO MUNDO
Guardo da infância-quase-adolescência a
imagem do estuário do Tejo, frente à Praça do Império, pejado de
lugres bacalhoeiros, embandeirados em arco, aguardando a partida para a Terra
Nova e Gronelândia.
Porque foi de Belém que partiram as
armadas em demanda de novas terras e o regime pretendia que a faina bacalhoeira
fosse a epopeia desses dias.
Acontecia por princípios de Abril e
coincidia quase sempre com o tempo de Páscoa.
As muralhas pejavam-se de gente, na sua
maioria famílias dos pescadores.
Os pescadores nos seus dóris vinham
dos barcos até à margem para assistirem, aos actos religiosos que se realizavam
no Mosteiro dos Jerónimos.
Após a cerimónia, dois pescadores
deslocavam-se a casa do Senhor Presidente do Conselho, em nome de todos os
outros trabalhadores do mar, apresentar cumprimentos de despedida.
Os jornais testemunhavam, então, que
Salazar recebia-os com muita simpatia, demorava-se alguns minutos a conversar
com os pescadores e desejava-lhes boa viagem e boa pesca.
Brindava-se com Vinho do Porto,
comiam-se amêndoas.
Em 12 de Abrl de 1952 o Notícias
de Portugal referia as palavras do Senhor Arcebispo de Mitilene.:
«Amigos, boa viagem e até à volta! Que o
Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!»
O regresso acontecia por alturas de
Setembro-Outubro, a tempo dos portugueses terem o bacalhau à mesa da consoada.
Em 1955, foi construído, nos Estaleiros
Navais de Viana do Castelo, a mando do Grémio de Armadores de Navios de Pesca
do Bacalhau, comandado pelo tenebroso e corrupto Almirante Henrique Tenreiro,
O Gil Eanes, navio-hospital que esteve ao serviço da frota bacalhoeira
até 1973.
Nesse ano de 1955, Portugal tinha uma
frota pesqueira de 70 barcos e cerca de cinco mil homens.
Em Dezembro de 2002 a frota rondava os
15 barcos e apenas dois/três por cento do bacalhau que consumíamos, era pescado
por portugueses.
Foi com os pescadores portugueses que os
noruegueses aprenderam a preparar o bacalhau, e em 2007, Portugal absorvia 40%
das exportações de bacalhau da Noruega.
Tem largos e largos anos o contacto dos
portugueses com o bacalhau.
Em Lisboa, na Praça da Figueira, a Antiga
Casa do Bacalhau vende bacalhau há cerca de 150 anos.
O escritor Bernardo Santareno, médico de
profissão, na campanha de 1957 prestou assistência a bordo do arrastão David
Melgueiro, e na campanha de 1958, a bordo do Senhora do Mar e
do navio-hospital Gil Eanes.
Dessa experiência de Santareno,
resultou a peça de teatro O Lugre, publicada em 1959.
«Fala do Capitão: Tenho muita pena do António
Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador. Tenho muita pena…
Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais
de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por
isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda,
coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os
filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa
nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim…
Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em
terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena…
Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem
giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não
conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o
cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é
assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno.
Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais
acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este
oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma
alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a
perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá
o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a
mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar.
Que descanse em paz.»
Ainda sobre as vidas e trabalhos dos
pescadores de bacalhau, Bernardo Santareno publicou, em 1959, o livro de
narrativas Nos Mares do Fim do Mundo, de onde ressalta as
condições em que um único homem, num dóri, pescava à linha, até encher o
pequeno barco, regressar ao navio-mãe e começar a descabeçar os peixes, escalar
e colocá-los para salga no porão.
Entre as frotas bacalhoeiras de outros
países, eram os portugueses os que trabalhavam nas piores condições.
Uma vida miserável, que o regime queria
que fosse epopeia.
Este é o começo de Nos Mares do
Fim do Mundo:
«Enquanto o “David Melgueiro” se
afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos abertas
ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso
estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de
cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede
uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de
quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa,
nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento..».
Texto publicado em 8 de Abril de 2012.
Para assinalar os 10
anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana
estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
HÁ
20 ANOS
Miguel Torga, como escritor, nunca me entusiasmou.
Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.»
Apostei na vida e perdi. Acreditei nela piamente,
tentei ser-lhe fiel de todas as maneiras, e chego ao fim na triste convicção de
que, afinal, foi tudo inútil, e que apenas cheguei ao desespero de nada poder
distrair-me da evidência da minha morte.
Não. Nunca hei-de escrever a última página. Ficará
sempre uma inédita na minha aflição.
29 de Julho de 1984
O meu drama foi viver a vida a dar passadas firmes e
irreversíveis a duvidar sempre de mim.
Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem
de o negar, mas nunca a força de o esquecer.
Beber estoicamente até à última gota o cálice de
amargura da vida. É o meu ponto de honra.
Despeço-me da casa paterna, do jardim, do negrilho e
das fragas. Das únicas riquezas que gostei verdadeiramente de possuir no mundo,
e de que sou avaro. Que não tive de ganhar, mas de merecer.
É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos
gestos, ás lágrimas, ao silêncio Deixa a vida sem expressão.
Vivi duas vidas. Uma, desalentado, a ver-me morrer,
outra a lutar inconformado contra todas as mortes.
O mais trágico na velhice doente é vermo-nos morrer
antecipadamente no cansaço e no enfado de quem nos rodeia.
Durei o suficiente para tirar todas as provas reais à
minha natureza. A mais difícil e concludente é esta em curso. O meu pendor
religioso nem perante o sofrimento atroz em que agonizo cede à tentação dum
qualquer alívio beato. Continuo fiel à realidade de ser uma pobre criatura
transitória de barro, sem apetência instintiva da bênção redentora de qualquer
graça providencial solicitada. Morro roído de dores, na perplexidade de sempre,
a consciencializar maceradamente a extensão dos meus erros e falências, sem me
perdoar de ter sido excessivo em tudo, e deixar o mundo triste e desiludido de
mim, a olhar complacentemente os felizes que compram com a renúncia à lucidez,
a ilusão da sobrevivência eterna num outro mundo anestesiado.
28 de Novembro de 1991
Às duas por três, sinto a tentação de registar
miudamente estas horas de agonia. Mas tenho de me render à evidência. A caneta
cai-me da mão aos primeiros rabiscos. E ainda bem. Nasci para cantar a glória
da vida e não para cronista da humilhação da morte.
Envelhecer não é para covardes. E, morrer muito menos.
Corajosamente, envelheci, e corajosamente morro, ou vivi sempre em pânico, com
medo de o não ser?
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.
Legenda: Esta fotografia de Miguel Torga, em
Trás-os-Montes, foi tirada do livro
Miguel Torga de José de Melo, Editora
Arcádia, Lisboa, Junho de 1960.
Texto publicado em 17 de Janeiro de 2015