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domingo, 27 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

ÉRAMOS TANTOS À MESA


Primeiros anos da década de 60.

 Os tempos não eram fáceis.

 No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

 Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

 Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

 Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

 Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

 Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

 O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

 O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

 Com tudo isto gastava-se dinheiro que ultrapassava o mais que parco orçamento caseiro.

 Dinheiro que iria fazer falta nos restantes dias, mas, festa é festa, e o Natal e o Ano Novo eram sagrados.

 Para os males monetários, é que existiam as Casas de Penhores.

 Nunca comi perú assado, como aquele que, depois de maneira única temperado pela minha avó, era assado, muito lentamente, no forno.

 Arroz de miúdos, batatas fritas às rodelas, salada de alface.

 Tangerinas, mas tangerinas mesmo.

 O arroz doce apresentava-se em pires, com a primeira letra do nome dos convivas, desenhada com canela.

 Legenda: imagem do Arquivo Shorpy

 Texto publicado no dia 1 de Janeiro de 2017.

sábado, 26 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

DE SOLIDÕES

Aos poucos, vamo-nos despedindo do Natal, e relembrando uma das mais interessantes e pungentes canções de Natal , Fairytale Of New York dos Pogues com a Kirsty MacCall, sabemos que os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque cantavam Galway Bay, enquanto os sinos tocavam por toda a cidade, ao mesmo tempo que José Tolentino Mendonça, numa das suas excelentes crónicas no Expresso, abordando a solidão do Natal, revelava que lera uma carta que o escritor Jack London escreveu na manhã de Natal, de 1898, quando tinha 20 anos. e momentaneamente abandonara as errantes vagabundagens no seu barco, pelas celebrações caseiras do Natal:

«Mas no fundo dos rituais familiares a que ele assiste (a abertura dos presentes diante da lareira acesa, o risos das crianças felizes, os ornamentos aconchegantes, os reflexos de uma existência segura…) descobre-se sempre mais como um estranho, e tudo aquilo que o deveria apaziguar fá-lo afinal descobrir vencido, como se o seu “bilhete de lotaria da vida tivesse o número errado”. Ele que passou a adolescência a saltitar entre centros de reeducação, que teve de lutar para aguentar-se nos estudos, que, para sobreviver, foi ardina, pescador furtivo, agente de seguros, caçador de focas, pugilista e garimpeiro, ele homem de têmpera rija sente-se naquela manhã vacilar, perdido dentro do grande puzzle que o Natal faz parte. A carta que Jack London escreve é uma espécie de relatório do seu desconforto. Mas creio que não é só isso. É também um documento sobre a grande solidão que o Natal escancara».

Linhas à frente, José Tolentino pergunta:

“Porque é que o Natal faz sofrer?”

Guardei sempre um velho recorte do velho «Diário de Lisboa» de 27 de Dezembro de 1976:

“António Manuel, de 14 anos, no dia de Natal, lançou-se de uma janela do Coliseu do Porto, tendo sido conduzido ao Hospital de Santo António sem fala e com várias fracturas.
O jovem, que é natural do lugar de Idanha, encontra-se numa fase de recuperação, tendo começado já a articular algumas palavras”
O jornalista fechava assim a notícia:
“De acordo com estatísticas mundiais, a quadra do Natal regista sempre uma subida de tentativas de suicídio, que alguns psicólogos identificam com uma maior acuidade em relação à solidão em dias que a maioria das pessoas se reúne para confraternizar.”

Lembro, com muita tristeza lembro, aquela noite, as festas felizes a findarem, quando o poeta Eduardo Guerra Carneiro, feito rapaz do trapézio voador,se mandou, no meio do silêncio, para um qualquer céu estrelado.

E sempre aquela canção de Brel, deixa-me ser a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão, mas não me deixes.

Ainda José Tolentino Mendonça:

«O Natal é atravessado por um dramatismo que nos abala, pois nos retira do feérico entretenimento das perguntas penúltimas e nos coloca perante as perguntas últimas.» 

Legenda: pintura de Van Gogh

Texto publicado em 30 de Dezembro de 2019.

domingo, 20 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SARAMAGUEANDO

 Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?

José Saramago, excerto da crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro 

Texto publicado em 14 de Dezembro de 2017

sábado, 19 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


A MORTE SAIU À RUA NUM DIA ASSIM


O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, rua que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário.

O assassinato está assinalado na canção de José Afonso A Morte Saiu à Rua do álbum Eu Vou Ser Como a Toupeira, gravado em 1972.

Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos e autocarros de Santo Amaro. 

No livro Viagens,  o poema Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei, Mário Castrim regista  esses últimos momentos de vida de José Dias Coelho:


Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã

e eu perguntei-lhe

se queria comer alguma coisa.

Disse que sim. Mas que

estava com muita pressa.

 

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe

uma sanduíche de fiambre

um copo de vinho

uma fatia de bolo-rei.

Estava de pé

comia como se fosse a primeira vez

desde a infância.

 

- Há quantos anos

deixa cá ver

há quantos anos é que eu não comia

bolo-rei?

Este é bom, sabe a erva-doce

e a ovos.

(Caíam-lhe migalhas

aparava-as com a outra mão

em concha)

 

- Comes outra fatia, camarada?

 

- Isso não.

Estou atrasado já.

Mas se ma embrulhasses...

 

Através da janela

do quarto às escuras

fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche

seguir pela Rua dos Lusíadas.

 

Nenhum de nós sabia

que estava já erguida a pirâmide do silêncio

à espera dele

num breve prazo.

 

Quando talvez o gosto do bolo-rei

mais forte do que nunca

tivesse ainda na boca.

Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro quando já se encontrava por terra.

No  nº 9, referente a Março de 1962, de Notícias do Bloqueio, Pedro Alvim, no poema intitulado Lisboa, assinala o assassínio de Dias Coelho:

4 – Alcântara

Há quem tombe por um rio

Impetuoso e comum:

Alcântara dos tiros cegos

Alcântara sessenta e um.


No dia 24 de Novembro de 1976, começava, no 1º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, o julgamento do ex-agente da PIDE António Domingues, acusado de ter assassinado José Dias Coelho, julgamento que só terminaria no ano seguinte:

Na 1ª página do “Diário de Notícias”, de 6 de Janeiro de 1977, lia-se:

«O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues, responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem, condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.»


No editorial do Diário de Lisboa, também de 6 de Janeiro, lia-se:

«Na verdade, reconhece-se a legitimidade da “profissão” de assassino de adversários políticos de um regime. É um insulto à memória de José Dias Coelho.

Um insulto aos mortos e aos vivos da resistência antifascista.

Um insulto ao 25 de Abril.»

Legenda:  A imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas”

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Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2017

domingo, 13 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


NÃO É POSSÍVEL O NATAL ASSIM…

 

Trago aqui palavras que encontrei na secção Cartas à Directora do Público de 29 de Novembro.

Chamou-me à atenção o título.

Palavras simples e sinceras que qualquer um de nós entende como uma das muitas tristezas que vão invadir este tempo que se queria maravilhoso.

Não resisto a partilhar as palavras que a leitora do Público, que vive no Porto e se chama Lídia Menezes, escreveu:


Como se poderá ter Natal se há tantos, tantos e tantos que não o vão ter... As crianças a quem roubam os sonhos, lhes tiram a infância...

Uma profunda tristeza com a desumanidade e violência nos cortes e mais cortes, nos subsídios, numa lista infindável e sempre inventada nos bolsos dos mais fracos. Uma profunda impotência...

Rostos fechados, desespero nos olhos e a esperança que fugiu das mão que agora se estendem a pedir esmola.

Não, não é possível um Natal assim! Nem para os autênticos Cristãos!

Como é possível destruir o que de mais sagrado existe em cada ser humano que é a dignidade e o direito ao Pão?

Tudo está bem e para nós, tudo cada vez pior!

Em que país vivem?

Quem são as pessoas?

O que significa respeito e dignidade?

O que enxergam nos seus horizontes? O coração fugiu? Se calhar sim, com medo dos cortes também!

Não vai restar pedra sobre pedra nem nenhum sorriso se atreverá a aparecer nos rostos dos que ainda sentem, porque alguns até deixaram de sentir - foram apanhados por tudo o que lhes dão a ver e a ouvir e acreditam, o que é mais grave.

Não, não vai haver Natal assim...

Haverá encenações para nos convencerem que sim. O pior é este cansaço de pensar ou já não querer pensar no amanhã.

Tudo se vai tornando em apatia e as vozes que tanto gritaram e cantaram a "Grândola Vila Morena" estão roucas, os pés que foram ás manifestações perguntam-se para quê.  Será que o cansaço os venceu?

O Tribunal Constitucional que ainda vai travando esta loucura perdeu o respeito que lhe é devido e pretendem calá-lo, abafá-lo, destruí-lo para livremente escravizarem quem ainda tem o descaramento de lhes dizer não.

Não, não vai haver Natal assim...

Não é possível dar num dia e no ano inteiro, recusar e tirar. A hipócrisia tem limites!

A palavra solidariedade está banalizada, esvaziada, perdeu a sua profundidade e força e não lhe cabe a ela resolver o problema das carências quando se demitem os verdadeiros responsáveis pelos direitos humanos.

Escrevo para quê? Escrevo apenas porque sim, porque dói, porque dói muito e cada vez mais...

Já não consigo ouvi-los nem vê-los, apenas sonho viver sem eles.

Se Natal é dar, com quem aprenderam eles a tirar?

Texto publicado em 10 de Dezembro de 2013

sábado, 12 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


UM CANTINHO BOM DO ANO

 

O Natal será sempre o encanto e a ternura da impossibilidade.

 O sem sentido de alguns presentes, como naquele conto de O’ Henry: ela vendeu o lindo e comprido cabelo para lhe comprar uma corrente para o relógio, de que ele tanto gostava; ele empenhara o relógio para lhe comprar as travessas, de que ela tanto gostava, para colocar no cabelo.

Karl Valentim preferia que cortássemos do calendário o Dia De Natal, se com isso conseguíssemos que os restantes 364 dias do ano fossem todos de Natal.

Gostaria que o Natal não tivesse o carácter de que se tem revestido nos últimos anos: um consumismo desenfreado que dele fazem o dia mundial da hipocrisia.

As noites de Natal, aquelas que não mais posso repetir, passava-as em casa do meu pai, a família mais chegada, a comer bacalhau cosido com couves, a beber vinho tinto alentejano, a conversar pela noite fora, rematando-se a festa com carne de porco frita envolta em ovos mexidos, a que se seguiam os doces, umas fatias douradas, filhós e uns cálices de licor de ginja que, por Junho, se tinha colocado a marinar numa grande garrafa de vidro, juntamente com açúcar, aguardente branca, um pau de canela.

 A manhã começava a nascer, saía para regressar onde vivia e gostava do cheiro de Natal que sentia pelas ruas.

Tentamos fazer o mesmo com os filhos, alcançar a reinvenção dessas noites felizes, mas é mais que certo: nunca se volta aos sítios onde fomos felizes.

 Falta, essencialmente, esse passe de mágica, que eram as conversas do meu pai, um brilhante contador de histórias.

Há coisa melhor que o Natal?

Há: os amigos!

E que mais podemos querer do que um amigo para nos acender o dia, e que esse dia seja Natal?

O Natal é um cantinho bom do ano, um aconchego.

Texto publicado em 19 de Dezembro de 2018

domingo, 6 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

 OS CLÁSSICOS DO MEU PAI

 

 O meu pai não era um melómano.

 Muito menos o sou e, na família, apenas o Mário chega a atingir o patamar da melomania.

 A mãe, em devido tempo, colocou-o nas mãos da Dona Irene para lições de piano, mais tarde, muito mais tarde, andou pela guitarra clássica, para voltar, há meia dúzia de anos, ao piano.

 Há bichinhos que ficam a morder por dentro e há que lhes abrir porta de saída.

 O meu pai limitava-se a adquirir as peças por puro gosto musical mas, em alguns casos, a política também o levava a adquirir os discos.

Tempo para invocar Tchaikovsky.

Quando o tempo era muito mais lento, a oferta musical de discos de música clássica, em vinil, era limitada e a Amazon ainda era um vago sonho na cabeça de alguém.

O advento dos Cds trouxe o que dantes se procurava e não encontrávamos.

Recordo-me de uma ou duas conversas sobre Shostakovich, do desejo que exprimia em ter a sua 7ª Sinfonia, Leningrad.

Não sei se alguma vez a ouviu quando, madrugada dentro, passava horas à procura de estações de rádio europeias.

Por mim falando, só há coisa de dois anos, graças a uma natalícia oferta do Mário, a conheci.

Coloco de lado a carga política da sinfonia, dedicada por Shostakovich às vítimas de Estalinegrado durante o cerco da Alemanha Nazi, em 1942, para dizer -  dizer o quê? -  que fiquei surpreendido, agradado, que senti uma alegria que começa e acaba no  inexplicável.

E lamentar que, por desconfianças muito minhas, não a tenha ouvido mais cedo.

É bem provável que o meu pai, marxista-leninista que era, soubesse que Álvaro Cunhal reconhecia uma força artística, única a esta sinfonia, que era uma das suas peças sinfónicas preferida.

Naquele tempo não foi possível encontrá-la.

Mas estamos agora a ouvi-la.

Privilégios de quem gosta de sonhar que as coisas sejam assim…

Ou como diz o cego do costume: é preciso ousar ser ingénuo.

 

Texto publicado em 21 de Maio de 2013

sábado, 5 de dezembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

 PODIA DAR-LHE PARA PIOR

 

 Quando estou na fila das caixas do Minipreço, olho as capas das revistas que estão nos escaparates, passo os olhos pelas enormes fotografias, pelos títulos e há muito concluí que há um país de faz-de-conta, um mundo de gente que desconheço por completo: não sei o que fazem, mas certamente serão a nata deste país-da-tanga., um mundo que será aquele mundo colorido de que, amiúde, nos fala Passos e Portas, Gaspar e Borges.

 A passar uns dias na casa de praia de uns amigos, dando uma passeata, o médico diz que tenho de emagrecer dez quilos, deparei com uma série de revistas, espalhadas junto a um contentor do lixo.

 Por mera brincadeira não resisti a levar aquela tralha para casa, perder um tempinho a olhar o tal outro mundo.

 Pensava que me iria divertir.

 Errado!

 Fiquei no limiar do vómito.

 As revistas dão pelos nomes de Caras, Lux, Vip, Tv7Dias.

 Todas dão conta das imensas e variadas festas das noites algarvias.

 Por favor tomem boa nota de que as apertadíssimas regras desta gente a armar aos cucos, determina que a saison é apenas entre 25 de Julho e 14 de Agosto, e quem fôr apanhado fora destes dias , não é jet-set, é aquilo a que eles chamam populaça, aquela gentinha que tenta sobreviver no outro mundo , o mundo que não é o deles.

 Todas as páginas das revistas estão repletas de fotografais com gente sorridente, bem vestida, bem calçada, jóias por tudo o que é sítio, flûte na mão ao ponto que, numa das festas, a Cuca Roseta se juntou em palco ao The Stones, o grupo tributo da banda, e fluiu tudo muito bem, disse Cuca Roseta ao repórter e há fotografias da Elsa Gervásio, Maria Herédia, José Luís Arnaut, Raquel Strada, Rita Andrade, Isabel Figueira, Vera Roquete e José Manuel Trigo, Javi Gabriel, Raquel Rocheta, Claúdia Jacques, Rosa Maria, Eugénio Campos, Fernando Gouveia, Bibi Pita, Mila Aires, Elsa Matias, Fernando Hipólito, Sissi Prata, Nuno Duarte, Isabel Maya, Patricia e Maria Helena da Silva, Cristina e José Lisboa, Katerina Romanow, José Álvaro Caneças, Ana Calheiros, Bebé e José Mesquita. Marta Leite Castro, Pina Braga, Francisco Deslandes, Isabel Girão, Frederico e Ana Rita Mendes de Almeida, Margarida Ibérico Nogueira, Rita e Filipa de Botton, Maria de Jesus e Carlos Beato, a Sandra Cachide, o Quintino Mardu Madjaica, Mituxa Jardim, Cristina Toscano Rico, a Pureza Magalhães, a Sandra Baía e que Merche Romero, já não sei se na festa da Caras, ou se na festa da Remember Casa do Castelo, ou na festa do Summer Guilty Beach Club, ou  se no Gigi, encontrou  a mãe e as irmãs do CR7, vulgo Cristiano Ronaldo, e ficaram todas muitos felizes e até o banqueiro Ricardo Espírito Santo apareceu na Festa da Música da Herdade da Comporta e teve o cuidado de dizer à reportagem que mesmo em férias é completamente impossível desligar-me do que se passa no país. Temos muitos amigos em Portugal que estão a passar por dificuldades e temos de estar disponíveis.

 Bom, mas se pensam que nesta pasquinada revisteira só aparecem as festarolas do jet-set fiquem a saber que também há outras notícias desse mesmo jet-set, notícias que nos dizem que o José Carlos Pereira e a Liliana Aguiar andam juntos em festas, os amigos confirmam que existe namoro mas o casal  nega, que Filipa de Castro diverte-se no Algarve na companhia do “ex”, que depois da separação de Sofia Ribeiro, Nuno Janeiro volta a encontrar o amor ao lado de Inês Trindade, também um ultimato de Fernando Póvoas que exige que a ex-mulher de Vitor Baía abandone a sua casa até ao fim do mês, que Claúdia Jacques está  apaixonada pelo bailarino Maxoliveira 14 anos mais novo, que  a auto denominada escritora Margarida Rebelo Pinto, acompanhada por Miguel Pais do Amaral diz que gosta mais de festas de sunset do que sair à noite, que aos 33 anos Cláudia Vieira tem um corpo invejável e tonificado, fruto de muitas horas passadas no ginásio, que Andrea Vale nega reconciliação com Nuno Santos mas passa fim de semana com o ex-marido, que Isabel Angelino e Angelo Rebelo namoram no Algarve antes de partirem de férias para o Vietnam, que José Maria Tallon acaba namoro mas Raquel diz que ainda o ama, que Passos Coelho passa férias na Manta Rota mas o número de seguranças aumentaram em relação ao ano passado, que Raquel Strada reencontrou o amor ao lado de Miguel Costa, jogador da selecção nacional de Corfebol,  que Ana Carreteiro e Tiago Vieira vão ser pais de uma menina que se vai chamar Maria do Mar, que Luciana e Yannick Djaló estão em guerra aberta, queixa contra ela por assalto a casa,com a família dela: a dizer que  ele encomenda meninas, gasta 5 mil euros na noite e tem dividas ao filho, mas Ana Sofia a “ex” do jogador diz que é tudo mentira e que as celebridades não abdicam dos animais de estimação nas separações e divórcios, os filhos talvez sim, mas os animaizinhos… é que não, e ainda a VIP a revelar que Cinha Jardim fez noda intervenção estética: sugestiva.

 A socialite, de 55 anos, entregou-se aos cuidados do cirurgião plástico Francisco Ibérico Nogueira há cerca de um mês com o objetivo de rejuvenescer o rosto. O resultado foi visível na festa de inauguração do Meo Spot, em Portimão, dia 27, na qual Cinha Jardim esteve acompanhada pelas filhas, Pimpinha e Isaurinha, e onde se mostrou "satisfeita" com a nova imagem.

 Confusos?

 Agoniados?

 É bem provável,  mas eu vi tudo com estes que o fogo há-de devorar.

Dizem-me que estas revistas vendem-se como pãezinhos quentes, são largamente devoradas, até por gente que quase não tem dinheiro para comer mas que não dispensa a compra deste lixo.

Talvez por isso muitos deles, muitos mesmo, não tomam a devida atenção ao que o governo anda a fazer.

Quando derem por isso é tarde. Mesmo muito tarde.

O Governo agradece.

 

Publicado em 31 de Agosto de 2012

domingo, 29 de novembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

A BOLA

 

Em 29 de Janeiro de 1945, Cândido de Oliveira fundou o jornal A Bola.

Já lhe chamaram, Bíblia, também o Avante da Travessa da Queimada.

O jornalismo de sarjeta que por aí se faz, também atacou o jornal. 

Desaparecidos os jornalistas, notáveis cronistas, diga-se, que lhe deram glamour, hoje não passa de um produto amorfo, sem qualquer ponta de brilho, que aposta no sensacionalismo para vender papel.

 A Bola tem a minha idade e poderei dizer que foi no jornal do Cândido, como o meu avô lhe chamava, que soletrei as primeiras letras e, sem exagero, gosto de dizer que aprendi a ler com A Bola.

Quando o jornal fez 43 anos, convidou algumas personalidades para se pronunciarem sobre a efeméride. O cineasta João César Monteiro foi uma dessas personalidades:

 «Se não estou em erro, sou ledor de “A Bola” há mais de trinta anos. Do tempo em que era quase afrontoso ser visto com “ela” debaixo do braço e nem sempre se ousava confessar o pecadilho que era gostar de a ler. Para restituir a boa consciência a esse perverso apetite, criou-se um álibi curioso. “A Bola” passou a ser, antes do mais, um modelo de virtudes prosódicas, uma escola de bem escrever jornalístico. Com alguma razão, diga-se, se fecharmos piedosamente os olhos a certas piroseiras metafóricas que, de onde em onde, ensombram com a má literatura o bom jornalismo.
Para ser franco e sem cair no pretensiosismo de ter mais em que pensar, nunca pensei muito n’”A Bola”. Passo os olhos por ela, deixo-a deliberadamente na mesa do café, encontro-lhe utilidades culinárias para embrulhar tachos com arroz ou para absorver o óleo dos carapaus fritos. Numa ou noutra aflição, já me tem valido, com todos os inconvenientes de estampagem de aí decorrente. Nada de grave: conheço letrados bem piores.»


A Bola
 que hoje corre por aí, com o mesmo nome, não tem nada a ver com o jornal do Cândido.

Foi, até certa altura, um jornal bem feito, interessante mas não ao ponto de, com uma grande dose de exagero e injustiça, Carlos Pinhão ter afirmado, em pleno salazarismo/marcelismo, que «o jornalismo desportivo era o melhor jornalismo português». Carlos Pinhão esquecia-se (?) que A Bola não ia à Comissão de Censura. Os outros, seus camaradas de profissão tinham de escrever nas entrelinhas para tentarem fazer um jornalismo minimamente honesto.

À velha A Bola devo o facto de Ruy Belo ser um poeta do meu panteão.

O meu conhecimento com Ruy Belo não começou nem pelos livros, nem pelos poemas, mas por uns artigos sobre futebol que, nos idos de 1972, publicou em A Bola. 

Gostei tanto desses artigos que me interessei logo na procura de coisas acerca de Ruy Belo. 

Acabei a comprar-lhe os livros. O primeiro foi Homem de Palavra(s), uma capa azul, um belo livro. 

Lembrar Herberto Helder: «mais do que dizer que gostei dos livros de Ruy Belo, gostaria de escrever que os acho fundamentais».

 

Texto publicado em 29 de Outubro de 2011

sábado, 28 de novembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

RIBADOURO


Para mim, a Ribadouro, esquina do fundo da Rua do Salitre com a Avª da Liberdade, está sempre agarrada ao Belarmino, filme do Fernando Lopes, ali pensado, escrito, encenado, discutido.

Também conhecida pela Universidade do Tremoço.

O José Cardoso Pires em A Balada da Praia dos Cães:

O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dono Lurdes abortadeira. Mestres-de-obras a arrrotar! Oh, senhores.

Quantos finos, quantos bifes com ovo a cavalo, quantas conversas pela noite dentro, a esperança vã de mandar Salazar borda fora.

O que ainda tivemos de esperar!...

Hoje, a Ribadouro está mais voltada para os turistas, para uma classe específica,  gente que encheu os bolsos de dinheiro para, nos tempos que correm, nos acusarem de que andámos a viver acima das nossas possibilidades.

Já não anda por lá a malta do Parque Mayer, gente do jazz, das escritas, dos jornais e onde pontificava o clã da Ribadouro.

Assim de memória, alguma da rapaziada desse clã: Fernando Lopes, Canto e Castro, Manuel de Azevedo, Baptista-Bastos, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Alexandre Vieira, Carlos de Oliveira, rapazes, outros já entradotes, que, no fundo, só queriam assaltar a felicidade, felicidade que, como dizia o Saint-Just, era possível.

Esperanças, sonhos, amores, desamores, frustrações, andaram por aquelas  mesas, juntamente com cervejas, tremoços, cafés, o que calhava.

Não consigo passar junto à Ribadouro, sem que os passos se encaminhem para o balcão, beber um copo de cerveja clara, Sagres, naturalmente, olhar as mesas, agora atoalhadas para turistas e gente fina, e sentir o rumor das conversas, não deixando de seguir os ditames do José Gomes Ferreira:

Saudades de não poder inventar o futuro. Às mais variadas horas, desde as sete da manhã até ao fim da tarde.


Texto publicado em 23 de Setembro de 2013

domingo, 22 de novembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


 Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

FELIZMENTE EXISTEM LIVROS


Comprar livros pelos seus começos, comprar livros pelos seus finais, comprar livros por uma frase, uma página, comprar livros pelas capas, comprar livros, signo diário de quem privilegiado se constitui por ter nascido e vivido numa casa em que havia uma pequena  estante com livros.

Aqui pelo Cais estivemos para apresentar começos e finais de livros, mas depois optámos por Olhar as Capas porque englobava tudo.

Maria Gabriela Llansol, e o começo do seu livro no seu livro Na Casa de  Julho e Agosto:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Ocorrem-me, entre tantos e tantos, dois excelentes começos de livros de autores portugueses

O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado».

 Os Cus de Judas de António Lobo Antunes:

«Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do ringue de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.»

E obviamente, não posso deixar de lembrar o magistral começo de O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca:

«Antigamente, o Largo era o centro do mundo.»

Todo este escrevinhar porque hoje, por mor de algo que precisava consultar, peguei em Os Nus e os Mortos, grande livro de Norman Mailer que tem um começo muito bem conseguido:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

São assim os livros, nossos companheiros de todas as horas.

Ou como escreve José Saramago em A Caverna:

«Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los  numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhe pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca.»

Foi o que aconteceu com o livro do Norman Mailer.

E, de repente, saltou o começo.

 

Texto publicado em 14 de Março de 2019

sábado, 21 de novembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

NOS MARES DO FIM DO MUNDO

 

Guardo da infância-quase-adolescência a imagem do estuário do Tejo, frente  à Praça do Império, pejado de lugres bacalhoeiros, embandeirados em arco, aguardando a partida para a Terra Nova e Gronelândia.

Porque foi de Belém que partiram as armadas em demanda de novas terras e o regime pretendia que a faina bacalhoeira fosse a epopeia desses dias.

Acontecia por princípios de Abril e coincidia quase sempre com o tempo de Páscoa.

As muralhas pejavam-se de gente, na sua maioria famílias dos pescadores.

Os pescadores nos seus dóris vinham dos barcos até à margem para assistirem, aos actos religiosos que se realizavam no Mosteiro dos Jerónimos.

Após a cerimónia, dois pescadores deslocavam-se a casa do Senhor Presidente do Conselho, em nome de todos os outros trabalhadores do mar, apresentar cumprimentos de despedida.

Os jornais testemunhavam, então, que Salazar recebia-os com muita simpatia, demorava-se alguns minutos a conversar com os pescadores e desejava-lhes boa viagem e boa pesca.

Brindava-se com Vinho do Porto, comiam-se amêndoas.

Em 12 de Abrl de 1952 o Notícias de Portugal referia as palavras do Senhor Arcebispo de Mitilene.:

«Amigos, boa viagem e até à volta! Que o Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!»

O regresso acontecia por alturas de Setembro-Outubro, a tempo dos portugueses terem o bacalhau à mesa da consoada.

Em 1955, foi construído, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a mando do Grémio de Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, comandado pelo tenebroso e corrupto Almirante Henrique Tenreiro, O Gil Eanes, navio-hospital que esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973.

Nesse ano de 1955, Portugal tinha uma frota pesqueira de 70 barcos e cerca de cinco mil homens.

Em Dezembro de 2002 a frota rondava os 15 barcos e apenas dois/três por cento do bacalhau que consumíamos, era pescado por portugueses.

Foi com os pescadores portugueses que os noruegueses aprenderam a preparar o bacalhau, e em 2007, Portugal absorvia 40% das exportações de bacalhau da Noruega.

Tem largos e largos anos o contacto dos portugueses com o bacalhau.

Em Lisboa, na Praça da Figueira, a Antiga Casa do Bacalhau vende bacalhau há cerca de 150 anos.

O escritor Bernardo Santareno, médico de profissão, na campanha de 1957 prestou assistência a bordo do arrastão David Melgueiro, e na campanha de 1958, a bordo do Senhora do Mar e do navio-hospital Gil Eanes.

Dessa experiência de Santareno, resultou a peça de teatro O Lugre, publicada em 1959.

«Fala do Capitão: Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz.»

Ainda sobre as vidas e trabalhos dos pescadores de bacalhau, Bernardo Santareno publicou, em 1959, o livro de narrativas Nos Mares do Fim do Mundo, de onde ressalta as condições em que um único homem, num dóri, pescava à linha, até encher o pequeno barco, regressar ao navio-mãe e começar a descabeçar os peixes, escalar e colocá-los para salga no porão.

Entre as frotas bacalhoeiras de outros países, eram os portugueses os que trabalhavam nas piores condições.

Uma vida miserável, que o regime queria que fosse epopeia.

Este é o começo de Nos Mares do Fim do Mundo:

«Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento..».

 Texto publicado em 8 de Abril de 2012.

domingo, 15 de novembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

 

HÁ 20 ANOS


Miguel Torga
, como escritor, nunca me entusiasmou.

 Não o li exaustivamente, mas o que li nunca trouxe aquele passe de mágica que me leva a dar um passo em frente para colocar alguém no panteão privado da casa.

 Gosto mais dos contos do que da restante obra.

 José-Augusto França desenhava-o como um transmontano coimbrão, de muito mais  mau génio que génio.

 Sophia de Mello Breyner Andresen reconhecia que Torga fala do Portugal das aldeias, da gente que cava a terra e faz o pão, de um Portugal de que quase ninguém fala.

 José Saramago lamentou não o ter conhecido:

 «Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele. Algumas vezes, nestes últimos tempos, os nossos nomes apareceram juntos, e sempre que tal sucedia não podia evitar o pensamento de que o meu lugar não era ali. Por uma espécie de superstição induzida pela pessoa que foi e pela obra que criou? Não creio. O motivo é certamente muito mais subtil do que aquele que se poderia deduzir de um mero balanço de qualidades suas e defeitos meus. Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.»

 A morte, no seu Diário, é uma constante dos últimos anos de escrita:

 15 de Fevereiro de 1979

Apostei na vida e perdi. Acreditei nela piamente, tentei ser-lhe fiel de todas as maneiras, e chego ao fim na triste convicção de que, afinal, foi tudo inútil, e que apenas cheguei ao desespero de nada poder distrair-me da evidência da minha morte.

 25 de Outubro de 1979

Não. Nunca hei-de escrever a última página. Ficará sempre uma inédita na minha aflição.

29 de Julho de 1984

O meu drama foi viver a vida a dar passadas firmes e irreversíveis a duvidar sempre de mim.

 25 de Dezembro de 1984

Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.

 4 de Fevereiro de 1986

Beber estoicamente até à última gota o cálice de amargura da vida. É o meu ponto de honra.

 3 de Abril de 1988

Despeço-me da casa paterna, do jardim, do negrilho e das fragas. Das únicas riquezas que gostei verdadeiramente de possuir no mundo, e de que sou avaro. Que não tive de ganhar, mas de merecer.

 14 de Junho de 1988

É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos gestos, ás lágrimas, ao silêncio Deixa a vida sem expressão.

 22 de Fevereiro de 1989

Vivi duas vidas. Uma, desalentado, a ver-me morrer, outra a lutar inconformado contra todas as mortes.

 15 de Abril de 1991

O mais trágico na velhice doente é vermo-nos morrer antecipadamente no cansaço e no enfado de quem nos rodeia.

 29 de Abril de 1991

Durei o suficiente para tirar todas as provas reais à minha natureza. A mais difícil e concludente é esta em curso. O meu pendor religioso nem perante o sofrimento atroz em que agonizo cede à tentação dum qualquer alívio beato. Continuo fiel à realidade de ser uma pobre criatura transitória de barro, sem apetência instintiva da bênção redentora de qualquer graça providencial solicitada. Morro roído de dores, na perplexidade de sempre, a consciencializar maceradamente a extensão dos meus erros e falências, sem me perdoar de ter sido excessivo em tudo, e deixar o mundo triste e desiludido de mim, a olhar complacentemente os felizes que compram com a renúncia à lucidez, a ilusão da sobrevivência eterna num outro mundo anestesiado.

28 de Novembro de 1991

Às duas por três, sinto a tentação de registar miudamente estas horas de agonia. Mas tenho de me render à evidência. A caneta cai-me da mão aos primeiros rabiscos. E ainda bem. Nasci para cantar a glória da vida e não para cronista da humilhação da morte.

 27 de Agosto de 1993

Envelhecer não é para covardes. E, morrer muito menos. Corajosamente, envelheci, e corajosamente morro, ou vivi sempre em pânico, com medo de o não ser?

 10 de Dezembro de 1993

 Requiem por mim

 Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio. 

 Miguel Torga, após longa e dolorosa doença, morreu, em Coimbra, no dia 17 de Janeiro de 1995, tendo sido sepultado, em campa rasa, em São Martinho de Anta, e, em sua homenagem, ao lado, plantaram uma torga, planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo e que originou o seu pseudónimo.

 

Legenda: Esta fotografia de Miguel Torga, em Trás-os-Montes, foi tirada do livro

Miguel Torga de José de Melo, Editora Arcádia, Lisboa, Junho de 1960.


Texto publicado em 17 de Janeiro de 2015