domingo, 30 de novembro de 2014

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1974


O MOVIMENTO DEMOCRÁTICO PORTUGUÊS, por decisão tomada no decorrer do I Encontro Nacional do MDP/CDE, em 3 de Novembro, transformou-se em partido político.
Como partido, participarão nas Eleições para a Assembleia Constituinte.


Ao tempo esta decisão provocou uma discussão apaixonada.
Dessa longa polémica destacamos um artigo de António Reis, Quinze Reflexões sobre o MDP-CDE, publicado na República, e uma resposta de A. Manso Pinheiro, publicada no Notícias da Amadora:




O CONSELHO DE MINISTROS aprovou a Lei dos Partidos.
Os partidos políticos constituem uma forma particularmente importante das associações de natureza política.
Devendo a acção partidária prosseguir-se sem ambiguidades ou equívocos que perturbem o comum dos cidadãos, previram-se diversas obrigações no domínio da publicidade e assim se espera que a vida política ganhe em clareza e os cidadãos em conhecimento dos fins e meios que cada partido se propõe, o que o mesmo é dizer, em liberdade.

O SECRETÁRIO DE ESTADO da Saúde, Dr. Carlos Cruz Oliveira anunciou publicamente a criação do Serviço Nacional de Saúde.
Superadas as condições que relegaram a acção sanitária a um campo secundário, chegou o momento para a trazer à sua verdadeira luz e dimensão, e executar o Programa do Governo Provisório, no que respeita ao objectivo principal que é o lançamento das bases para a criação de um Serviço Nacional de Saúde, ao qual tenham acesso todos os cidadãos.

A AGÊNCIA NOTICIOSA ANI, sociedade por quotas que pertencia aos apoiantes da ditadura Dutra Faria e Barradas de Oliveira, é já, propriedade do Estado.

ELABORADO o projecto da Devolução dos Baldios às populações.
O projecto de diploma começa por referir os baldios como terrenos do uso colectivo de uma comunidade segundo direitos contasuetudinários insusceptíveis de apropriação individual. Qualquer parcela de um terreno baldio só poderá passar a propriedade pública por homologação do Governo, a pedido da autarquia local interessada, com o acordo da maioria.

UM PROJECTO DE LEI sobre associação sindical, elaborado pelo Ministério do Trabalho, foi enviado a todos os sindicatos e demais organismos interessados para que seja objecto da mais alargada discussão.
O documento advoga o sindicalismo vertical, ou por ramos de actividade, em substituição do que obrigava os trabalhadores a filiarem-se segundo a sua profissão.

DELEGAÇÕES do Governo Português e do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP), reunidos em Argel, determinaram que a independência de S. Tomé e Príncipe será proclamada em 12 de Julho de 1975.

NA NOITE DE 9 para 10 de Novembro, um grupo constituído por 50 antigos guerrilheiros aprisionados e integrados no Exército português, apoiados por elementos do movimento separatista FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda), atacou uma pequena guarnição de tropas portuguesas no posto fronteiriço de Massabi ocupando-o e fazendo reféns trinta e nove pessoas entre militares e civis.
A FLEC é uma criação artificial que apenas se justifica pela riqueza petrolífera das águas territoriais do enclave.
Uma vez ocupado o posto, os elementos revoltados anunciaram que não voltavam a reconhecer a autoridade da Junta governativa de Angola enquanto não fosse reconhecido o direito à independência separada de Cabinda e que se fossem atacados matariam os reféns.
Numa operação militar, realizada no dia 15, o exército português repôs a ordem verificando-se a morte de sete elementos da FLEC e a prisão do comandante da revolta, Jean Ray, mercenário francês.

O RECENSEAMENTO dos eleitores portugueses decorrerá entre 9 e 29 de Dezembro. Com vista às eleições para a Assembleia Constituinte, calcula-se que estarão em condições de votar cerca de cinco milhões e meio de portugueses.

SEGUNDO UM comunicado conjunto dos Ministérios das Finanças e dos Assuntos Sociais, é de 35.900$00 o vencimento de um ministro (sendo 26.700$00 de ordenado base e 9,200$00 de despesas de representação.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Portugal Hojeedição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo. 

CHAMINÉS


Topo da Chaminé da Cordoaria Nacional, vista da Avenida da Índia.


O edifício da Cordoaria Nacional, criado pelo Marquês de Pombal, por decreto de 1771,foi construído, provavelmente, com projecto do arq. Reinaldo Manuel dos Santos, na segunda metade do século XVIII. Na Rua da Junqueira, este conjunto de oficinas, distribuído por 3 corpos, estendidos paralelamente ao Rio Tejo, no sítio do antigo forte de S. João, destinava-se à produção de cordas, cabos, velas e outros equipamentos para os navios.
É considerado um dos mais notáveis exemplares de arquitectura industrial setecentista.

OLHAR AS CAPAS


À Beira do Abismo

Raymond Chandler
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 213
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Levantei-me, despi o casaco e tirei um lenço para enxugar o rosto, o pescoço e os pulsos St. Louis, em Agosto, não era pior! Sentei-me e, maquinalmente, procurei os cigarros.
- Pode fumar – informou-me o velho, com um sorriso pálido, ao notar o meu gesto- - Gosto do cheiro do tabaco.
Acendi um cigarro e expeli uma grande baforada, que aspirou como um terrier a farejar um ninho de ratos. O sorriso acentou-se-lhe e arrepanhou-lhe as comissuras dos lábios.
- Mal vão as coisas quando um homem tem de satisfazer os seus vícios por procuração!

PORQUE HOJE É DOMINGO



O piano em que Sam toca As Time Goes By, no filme Casablanca foi arrematado, na passada segunda-feira, por 2,9 milhões de dólares (2,3 milhões de euros) num leilão em Nova Iorque.
Uma das cenas mais famosas da história do cinema.
Bom domingo.

sábado, 29 de novembro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Depois de matar Frank, o homem da harmónica entra em casa e Jill McBaine sorri para ele.

Sergio Leone, implacável de ternura, fixa-lhe a expressão dos olhos, enquanto, em fundo, se ouve a música de Enio Morricone.

- Espero que um dia voltes, diz ela.

- Um dia, diz ele.

Legenda: imagem e diálogo de Aconteceu no Oeste.


MARCADORES DE LIVROS


OLHAR AS CAPAS


Poemas

Eugénio de Andrade
Colecção Poetas de Hoje nº 23
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1966


Urgentemente 

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
                           muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Portugal.

,,, país das mil maravilhas: tem sol, tem mulheres bonitas, tem cavalos e também tem aviões.


Cavaco Silva durante a visita aos Emirados Árabes Unidos.


Um dia,  José Saramago resumiu Cavaco Silva como um génio da banalidade.

Legenda: fotografia tirada daqui.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

NATAL NA CASA BRANCA


A mulher e as filhas do Presidente Obama receberam a Árvore para o Natal deste ano.

DITOS & REDITOS


Deus dementa primeiro aqueles que quer perder.

O riso é um ingrediente essencial à sobrevivência.

Vivam felizes hoje que amanhã será tarde.

Que bem vai a embarcação quando o arrais canta.

Os pobres quando adoecem deitam-se e tomam chá.

O possível é sempre o ideal.

Ter ideias é um perigo e as pessoas têm medo dos perigos.

O verdadeiro humor é sinónimo de inteligência.

OLHAR AS CAPAS



Diário Remendado
(1971-1975)

Luiz Pacheco
Fixação de texto e Posfácio de João Pedro George
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Agosto de 2005

Tarefas Prioritárias para Novembro

 tradução do Rilke;
 caso da luz;
 artigo Diário de Notícias, falar primeiro ao Saramago e ao Facas;
 textos para o Boletim da Gulbenkian (pedir livros ao Forte, Granja, Seara Nova, Montijo);
Textos Malditos: arrumar o caso com o R. de Mello, de vez;
Diário Remendado, avançar;
desintoxicação;
sondar a transferência Tábua (ou Caldas);
comprar caderno decente;
comprar transístor;
 comprar livros indispensáveis (D.R., etc);
 limpar de casa a merda e os acessórios empatas;
 fazer recortes (?) perde-se muito tempo;
arranja da máquina suplente;
NÃO PAGAR DÍVIDAS;
 campanha de abonos, à escala nacional;
 livro do Manaças e do José Alberto Marques;
ver o que quer o Vítor Belém, o Abílio e o Vinicius;
escrever Ibarrola
 chegar a Dezembro. É d’homem! 

NOTÍCIAS DO CIRCO


A prisão do ex-ministro José Sócrates não vai abalar a imagem de Portugal no exterior, nomeadamente nos mercados.

Cavaco Silva em viagem aos Emirados Árabes Unidos

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

ESTE NÃO PESCA NADA DISTO!...


... e não tarda muito vai ao fundo!

Título e fotografia de Luís Miguel Mira.

NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ESSE MOVIMENTO DE ANCAS


Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de ancas em qualquer parte do mundo.

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume I, Edições Asa, Porto, Abril de 1993




UM DOS GRANDES NOMES DA NOSSA HIStÒRIA


Tal como ficou prometido em Ah!...AS ABÓBORAS!...

OLHAR AS CAPAS


Na Senda da Poesia

Ruy Belo
Capa: Manuel Vieira
União Gráfica, Lisboa, 1969

Estamos, portanto, de acordo com Saint-Exupéry quando ele, na sua obra Cidadela, tem uma frase que nós consideramos o centro da sua estética: «Eu não conheço a beleza, mas coisas belas». Diria ele, se ao nosso tema se confinasse: Eu não conheço a poesia mas os poemas. T.S. Eliot também lamenta que a crítica conheça e cite muitos poetas, em vez de ter em conta os poemas. A poesia de um determinado país não se faz com poetas, mas com poemas.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

terça-feira, 25 de novembro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


José Sócrates.

Nunca tive simpatia quer pelo político, quer pela pessoa.

Foi agora constituído arguido e goza da presunção de inocência.

Mas há que ter em conta que não foi julgado nem acusado de qualquer crime.

A justiça correrá os seus trâmites.

Seria bom que fosse célere e não comece, como seu velho hábito, a encanar a perna à rã.

Desconhecedor de todo o processo, não deixo de considerar um exagero a prisão preventiva de José Sócrates.

Por coisas, aparentemente, muito mais graves, Ricardo Salgado, mercê de uma caução, está em liberdade.

Sem dúvida, dois pesos e duas medidas.

Estou completamente acordo com Elina Fraga, Bastonária da Ordem dos Advogados.

Exigindo que a Procuradoria-Geral da República apure de onde vem tanta fuga de informação, não deixa de reconhecer o óbvio:

Se é para não existir segredo de justiça, acabe-se com ele. De resto, eu até sou defensora disso mesmo. Que se tornem públicos os processos, para que se saiba quais são os indícios recolhidos pela investigação criminal, mas também qual é a defesa que os arguidos apresentam. Que uns estejam sujeitos ao segredo de justiça e outros (neste caso a investigação criminal) deixem escapar tudo o que consta no processo é que é impróprio num Estado de direito.
Isso ajuda a que se faça um julgamento popular antes do tempo?
É evidente. Todos nós temos consciência de que o tempo da justiça e o tempo da comunicação social são tempos diferentes. E o que vemos são pessoas a serem julgadas de forma sumária na praça pública. Independentemente de quem seja o cidadão, todos têm a mesma presunção de inocência. A violação do segredo de justiça por parte da investigação criminal dá nisto: hoje todos sabem os indícios que foram sendo recolhidos e ninguém sabe quais foram os esclarecimentos que a defesa prestou. Nós já tivemos no mundo do futebol muitos treinadores de bancadas, espero que não passemos agora todos a ser juízes de bancadas, acusando e condenando pessoas que, algumas delas, até podem ser inocentes. Um cidadão cujo nome é posto na comunicação social com indícios sérios da prática de um crime pode ser absolvido daqui a cinco, seis, sete anos. E entretanto viu a honra, viu a sua consideração, viu a sua imagem pública completamente denegrida e está irremediavelmente impossibilitado de a voltar a recuperar.

SEM SÍTIO PARA ONDE IR


Estava a chegar o Natal e havia uma contagiosa melancolia, como se de repente toda a gente se tivesse lembrado de que não tinha sítio para onde ir.

Patti Smith em Apenas Miúdos.

Legenda: pintura de Anton Pieck

OLHAR AS CAPAS


Profissão de Fé

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores,  Lisboa, 1990


A BARBA

A barba é o meu gato. Afago-a
neste jeito de quem passa os dedos
pelo dorso de um bichano. Eu sei
que estou a tocar num tigre: a barba
encrespa-se, revolve-se mesmo.
Ondas, campos de milho, searas,
também conhecem afago igual.
Mas este gato rebelde, a minha barba
apenas, é agora tudo a que me prendo.
Mestres já me dizem do excesso
de assim me virar para dentro.
Não! É para fora! Mora a barba
noutras eras, noutro espaço. É ela
que me afaga a mim: a última ternura.

TODOS PUROS BURGUESES


- Eu sei, disse o Carrilho. Tu, desde que perdeste contacto com a rapaziada, desde, principalmente, que andas metido com esse teu novo amigo, um tal Gomes Ferreira, doutor e poeta, não és mais o mesmo. Não é com poesia que se defende a República.
- Sim, é um poeta. Mas republicano como nós…
- Mas não um poeta popular…
- A poesia, hoje, mudou muito. Não sei se vocês sabem…
- A poesia pode ter mudado, berrou o mesmo Carrilho, mas o povo só se deixa arrastar por uma poesia falada na sua própria linguagem. Sem literatura!
E O Pedro Lico, atiçado pelo Vasco Bulhões: - E você sabe que esse seu novo amigo faz parte do grupo Seara Nova, de que fazem parte o Raul Proença, o António Sérgio, o Câmara Reis, e outros assim, todos puros burgueses, mais preocupados com cultura e classe literária, do que com os verdadeiros problemas do povo?
E o Paulo Chaves, bem populista: - Sim, pá, nós somos povo, os filhos da miséria e da falta de escolas…
- A verdade é que tu e o Gervásio têm-se afastado de nós. Vocês têm outras ambições, não é?
- Quais?
- Sei lá. Em você talvez o desejo de casar rico. Você não vai quase todos os dias almoçar com a Inês, a filha do nosso antigo chefe? Agora ele está rico. E Lia,  a irmã, riquíssima.
- E foi para dizerem cisas assim que vieram procurar-me aqui, no Tribunal de Contas?
- Talvez. Contas nós temos sempre que ajustar pela vida fora…

Chianca de Garcia em Cartas do Brasil.

Legenda: Equipa do filme Aldeia da Roupa Branca, filme realizado por Chianca de Garcia. José Gomes Ferreira colaborou no argumento.
Fotografia tirada de José Gomes Ferreira-Uma Sessão Por Página, edição da Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Junho 2000.

O NATAL ESTÁ A CHEGAR À CIDADE


POSTAIS SEM SELO


Os pobres dá-lhes a morte, mas os que têm dinheiro, andam a ver se lhe fogem...

Luísa DaCosta em Na Água do Tempo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

QUOTIDIANOS


Até My Way, de Frank Sinatra, foi ultrapassada por esta canção, que é a escolha musical mais frequente para os funerais no Reino Unido.
Um estudo realizado pela The Co-operative Funeralcare, a maior casa funerária do Reino Unido, mostra que as canções tradicionais estão a perder popularidade nos funerais e velórios. Agora, a canção mais escolhida para tocar nos funerais britânicos é Always Look on the Bright Side of Life, do grupo de comédia Monty Python.
A canção, que surge no filme de 1979 The Life of Brian, tem uma letra otimista e satírica sobre como se deve aprender a prestar atenção às coisas boas da vida, e inclui mesmo os assobios felizes de condenados à crucificação.
O representante da The Co-operative Funeralcare, David Collingwood, disse ao Telegraph que os resultados do estudo mostram uma mudança de geração nos funerais. As pessoas que viveram os anos 60 e 70 enquanto jovens trazem uma nova atitude aos seus funerais.
O Top 20 das canções mais escolhidas para estas cerimónias inclui nove canções tradicionais e alguns êxitos de Queen e Robbie Williams, mas também algumas escolhas surpreendentes, como o animado tema da BBC que introduz os jogos de cricket.


Fonte: Diário de Notícias

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há uma semana começaram os trabalhos da Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso BES.

O governador do Banco de Portugal garantiu que tomou a decisão da medida de resolução sem consultar o governo.

 A Ministra das Finanças voltou a dizer que o governo não meteu prego nem estopa na resolução.

Ficou por esclarecer como não sabendo da resolução, tivesse o governo a necessidade de reunir clandestinamente para aprovar legislação que permitisse que o governador do Banco de Portugal apresentasse a solução encontrada para a eventual resolução do problema BES.

Não joga a bota com a perdigota.

Relata o jornal I:

Nota para o pequeno confronto entre a ministra e o deputado comunista Miguel Tiago, ia a audição na segunda das seis horas que durou. Miguel Tiago disse à responsável que "algumas declarações que fez [sobre a estabilidade do BES] vieram a revelar-se não verdadeiras" e a resposta foi exaltada: "Eu não menti em nenhum dos momentos em que falei neste parlamento e agradeço que o senhor deputado não volte a dirigir-se a mim nesses termos."
Apesar de todas as garantias, há uma questão que ainda não ficou esclarecida: como pôde o BdP tomar uma decisão destas sem consultar as Finanças? E outra, mais sensível e importante para os contribuintes: esta opção comporta ou não custos para o contribuinte? Maria Luís garante que não. Os deputados recordam que o Fundo de Resolução é tutelado pelo Ministério das Finanças. E que só a contribuição para este fundo da Caixa Geral de Depósitos, o banco público, chega aos 30%.

Os trabalhos da comissão serão retomados a 3 de Dezembro com a presença da família Espírito Santo.

Legenda: imagem do Público.

PADEIRA QUE ESTAVAS A FAZER PÃO ENQUANTO SE TRAVAVA A BATALHA DE ALJUBARROTA


Está sobre a mesa e repousa
o pão
com uma arma de amor
em repouso

As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam

Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela tem mão que prepara
o amor

Pelos campos todos armas
não repousam
nem aguardam mais os mortos
ter amor

Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso

Ela agora abre o fogo
pão
sem repouso ouve os mortos
lá de fora

Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem

Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas da batalha
arma de mão

Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno

Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
e das mãos.

Fiama Hasse Pais Brandão

Legenda: pintura de Van Gogh

BOM CONSELHO


Título e fotografia de Luís Miguel Mira.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Gosto de filmes a preto e branco.
O mesmo com as fotografias.
Em 1956, durante o Festival de Cinema de Cannes, Brigitte Bardot visitou o estúdio de Pablo Picasso em Vallauris.
A Life estava lá.
Picasso tinha 75 anos, Brigitte estava na plenitude dos seus 22 aninhos.
Diz quem sabe, que ambos, trouxe-mouxe, se divertiram até mais não.

domingo, 23 de novembro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


OLHARES


O Tejo visto das Portas do Sol.

OLHAR AS CAPAS


A Pesca à Linha

António Alçada Baptista
Capa: Fernando Felgueiras
Editorial Presença, Lisboa, Abril de 2000

Quando era Presidente do Instituto do Livro e o António Braz Teixeira veio para Secretário de Estado da Cultura, tratei de fazer um relatório com o plano e o andamento das actividades do Instituto. Ele leu e disse-me: «Tu tens fama de não fazer nada nas afinal tens aqui imenso trabalho.» Eu respondi-lhe: «Esse é um dos equívocos da minha imagem: eu teorizo a preguiça e pratico o trabalho, a maior parte das pessoas teoriza o trabalho e pratica a preguiça.»

PORQUE HOJE É DOMINGO


Comprei ontem o primeiro disco deste Natal.
Caso ainda não tenham dado por isso, faltam 27 dias para que seja Natal.
Bom domingo.



sábado, 22 de novembro de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


Segundo a Procuradoria-Geral da República a detenção do ex-ministro José Sócrates e de mais três pessoas, tem origem em suspeitas relacionadas com “crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais.”.  Ainda de acordo com a Procuradoria-Geral da República, estão sob suspeita “operações bancárias, movimentos e transferências de dinheiro sem justificação conhecida e legalmente admissível”.
A classe política dos novos passos da nossa democracia a chegar ao fim da linha.
Era fácil de concluir que o colapso do caso BES não arrastaria apenas Ricardo Salgado e restante família.
Convém salientar que a procissão ainda vai no adro.
Resta-nos esperar, estando em causa o futuro do País, que a Justiça tenha meios e possibilidade de, no mais curto espaço de tempo, desatar este complexo novelo de pura e dura corrupção.
Porca miséria!

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Fala de Cheyenne para Jill McBain:

- Sabes que mais? Se eu fosse a ti, ia ali dar de beber aos rapazes. Nem podes imaginar como um homem se alegra por ver uma mulher como tu. Só de olhar para ela. E se um deles te der uma palmada no rabo… faz de conta que não foi nada. Ganharam o direito a isso.

Imagem e legenda de Aconteceu no Oeste.


DITOS & REDITOS



Fidelidade é de cão, lealdade é de ser humano.

O azul total de confiar nos outros.

A pena é o mais reles dos sentimentos.

Conservar longamente a memória dos sabores.

A matéria indefinível dos sonhos.

Resiste-se a tudo menos a uma tentação.

Os livros ajudam a entender a vida.

Quem esconde o sal, esconde a alma.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UMA MELANCOLIA IMBECIL MAS GOSTOSA


Cheguei ontem. Uma viagem horrível, de comboio, cheia de pó e calor. Tinha a camionete. Mas gosto de retomar de vez em quando o convívio com o caminho de ferro. Dão-me como que umas saudades ancestrais de tudo aquilo, desde a gare às carruagens e ao revisor. Aqueles ferros negros, igualmente húmidos e gordurosos por todo o mundo, aquelas faúlhas insistentes que penetram nos olhos, nos ouvidos, no sabugo das unhas e nas algibeiras, aqueles homens fardados, calmos e rotineiros, enchem-me de uma melancolia imbecil mas gostosa.

Miguel Torga em Diário I volume Coimbra Editora, Outubro de 1942

Legenda: fotografia de Saul Leiter

POSTAIS SEM SELO


Os comboios foram feitos para os sonhos.

Jorge Silva Melo

Legenda: pintura de Claude Monet

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


A primeira experiência que a criança tem do mundo não é a de que os adultos são mais fortes, mas de que eles nunca poderão ser mágicos.

Walter Benjamin

ESPEREMOS QUE DURE!...


Título e fotografia de Luís Miguel Mira.

OLHAR AS CAPAS


Cartas do Brasil

Chianca de Garcia
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa 2004

O espectáculo tem de estar na imaginação de quem o olha. Ou num outro álbum: de tipos de Lisboa, mulheres de Lisboa, profissões de Lisboa, elegância de Lisboa: os verídicos personagens desta féerie que Lisboa representa quotidianamente

Ó macio Tejo ancestral e mudo
Pequena verdade onde o céu se reflecte.


Sim aqui está o Tejo com as suas fragatas, e as suas miragens de ouro. As docas. Os cais. O desembarque do peixe. A lota. Varinas, pescadores, sardinhas. Criaturas humanas discutindo, gritando, brigando. Enfim, a vida. Lisboa em calão. Preferia dizer Lisboa em gíria. Mas, enfim, deixo passar o calão… Tudo isso conheci de mistura com os inevitáveis versos de Cesário Verde (Os de cima são, como sabem, de Fernando Pessoa.) E perco-me entre a floresta de mastros das fragatas, bamboleando à flor de água, e relembro dias antigos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

FOI ELE PRÓPRIO QUEM MO DISSE


O Joe Walsh ouviu-nos ao vivo quando ainda andava no liceu e disse-me que o impressionámos imenso. Nem ele nem nenhum dos seus amigos tinha ouvido nada parecido, porque não havia. Ele praticamente só ouvia doo-wop; nunca tinha ouvido o Muddy Waters. É incrível que o seu primeiro contacto com os blues tenha sido através de nós – foi ele próprio quem mo disse. Foi também depois de nos ouvir que decidiu abraçar a carreira de trovador. E assim se deu que hoje seja impossível entrar num qualquer restaurante de estrada sem o ouvir dar à guitarra em Hotel California.


Keith Richards em Life.

Legenda: Joe Walsh

ESPÍRITO DE NATAL


Há quem não acredite nestas iniciativas.
Ninguém pode dizer se o dinheiro angariado chega onde devia chegar.
Eu acredito.
Preciso de acreditar.
Esta é a notícia:
Algumas das grandes estrelas da música reuniram-se no sábado em Londres para gravar uma nova versão de Do They Know It’s Christmas, a canção que há 30 anos serviu para angariar dinheiro contra a fome na Etiópia, e que agora regressa com novos intérpretes - o grupo Band Aid 30 - e uma nova missão: auxiliar o combate contra a epidemia de Ébola que está a afectar vários países africanos.
Com algumas alterações na letra para aludir à epidemia provocada pelo vírus Ébola, a canção foi comercializada a partir de segunda-feira.
Comprem o disco.

Mesmo que o dinheiro, provavelmente, não chegue onde devia chegar, o problema é outro, mas antes cada um que faça o que lhe vai no coração.




O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Às vezes lembro-me melhor das salas onde vi os filmes do que dos próprios filmes – memória entranhada aos lugares e desatenta a datas ou números, memória mais geográfica do que histórica. Com Passion, de Jean-Luc Godard, a referência é o Quarteto – ou será que me enganei? E o mais vivo da recordação passa por dois sentimentos misturados: o de uma espécie de fúria, de caos devastador, e depois pelas fretas do filme, a descida de imagens sumptuosas que trazem a paz e a serenidade

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume II, Edições Asa, Porto, Abril de 1994

terça-feira, 18 de novembro de 2014

BOM DIA, MANEL


Se por cá andasse - e que falta que ele nos faz! - o Manuel António Pina faria hoje 69 anos.

Homem de jornais, de cafés, de crónicas, poemas, livros para putos, os seus gatos, muitas cigarradas, o Manel, mais uma vez, vai ser hoje recordado, no Porto, pelos amigos que com ele trocaram passos e voltas.

Nada melhor que deixar um poema seu;


CUIDADOS INTENSIVOS III

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa. 

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

Manuel António Pina em Poesia Reunida

ESTA NOITE FICAREI AQUI CONTIGO


Atira o teu bilhete pela janela
Atira a minha mala, também
Atira os meus problemas porta fora
Já não preciso mais deles
Porque esta noite ficarei aqui contigo

Devia ter deixado esta cidade nesta manhã
Mas era mais do que eu conseguia fazer
Oh, o teu amor aproxima-se tão intenso
E eu esperei o dia todo
Por esta noite em que ficarei aqui contigo

Será que é realmente algum prodígio
O amor que um estranho pode receber
Lançaste o teu feitiço
E eu caí nele
Acho tão difícil ir embora

Consigo ouvir esse comboio apitar
Vejo esse chefe da estação, também
Se houver algum pobre rapaz na rua
Então deixem-no ficar com o meu lugar
Porque esta noite ficarei aqui contigo

Atira o meu bilhete pela janela
Atira a minha mala, também
Atira os meus problemas porta fora
Já não preciso mais deles
Porque esta noite ficarei aqui contigo

Bob Dylan

Canção do álbum Nashville Skyline (1969).

Bob Dylan em Canções Volume I (1962-1973) Relógio D’Água, Lisboa Setembro de 2006.



OLHAR AS CAPAS


Como Um Romance

Daniel Pennac
Tradução: Francisco Paiva Boléo
Capa: João Machado
Edições Asa, Porto, Maio de 1993

E se não é a televisão ou o consumismo universal, é a invasão electrónica; e se a culpa não é dos joguinhos electrónicos, é da escola: a aprendizagem aberrante da leitura, o anacronismo dos programas, a incompetência dos professores, a decrepitude das instalações escolares, a falta de bibliotecas.
E que mais?
Ah, é verdade, o orçamento do Ministério da Cultura,,, uma miséria. E ainda por cima, nesta bolsa microscópica, a parte infinitesimal que é atribuída ao «Livro».
Nestas condições, como quer você que o meu filho, a minha filha, os nossos filhos, a juventude, leiam?
- Aliás, os franceses lêem cada vez menos…
-É verdade.

DO LUGAR-COMUM


A frase é do Vergílio Ferreira. Estará num dos volumes da sua Conta-Corrente:

Vê se uma tua ideia se não torna um lugar-comum para te não dizerem que te serves de um lugar-comum quando por acaso o repetires.

Maria Antónia Oliveira, na Biografia Literária que escreveu sobre Alexandre O’Neill, escreve:

Alexandre O’ Neill confessava-se um fascinado pela banalidade, pelo lugar-comum, que desmontava e remontava sob outra forma, noutro contexto. Fez sua a frase de Baudelaire: «Há lá coisa mais excitante que o lugar-comum?» Em termos poéticos e biográficos, esta era uma atracção pelo abismo: se nos entusiasmamos diante do lugar-comum, e nos esquecemos a fitá-lo, corremos o risco de por ele sermos devorados.