segunda-feira, 24 de abril de 2017

A RELIGIÃO É HUMANAMENTE IMPOSSÍVEL


Muito lhe agradeço Eugénio a prosa que escreveu, e que a tenha escrito. Sem que isso implique juízos de valor a meu próprio respeito, gosto muito dela – e só lhe pediria que cortasse aquela da «nostalgia do catolicismo» (que é livre de manter se acha que não tenho razão) que já tem dado, ao longo dos anos, equívocos demasiados. O que nos meus primeiros livros apareceu, foi uma série de poemas irónicos, precisamente para libertação do que acaso existia de tal em mim, e que não sinto que haja. Nostalgia, afim, se a tenho, é de que a religião seja humanamente impossível. E nisso o catolicismo tem muito pouco ou nada. Se a nós sempre parece que essas questões se equacionam em termos dele, é porque na nossa tradição, não temos outros (e alguns anos de contacto com o protestantismo no Brasil e nos Estados Unidos mostram-me que a mentalidade protestante é ainda mais odiosa). E, pela minha parte, nunca senti senão repugnância pelas religiões orientais e extremo-orientais, tão em moda agora.

Carta de Jorge de Sena, 18 de Fevereiro de 1968, para Eugénio de Andrade em Correspondência

LIMITES


Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.

Entre os livros da minha biblioteca estou (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

Jorge Luís Borges

Legenda: fotograma de O Sétimo Selo de Ingmar Bergman

domingo, 23 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Se uma pessoa está condenada a viver sempre com medo mais lhe vale morrer.


Agatha Christie em Morrer Não é o Fim

RECADOS


AO PROFESSOR S. R. K. GLANVILLE

Caro Stephen:

Foi você quem primeiro me sugeriu a ideia de uma história de detectives passada no antigo Egipto, e se não fosse a sua ajuda activa e o seu encorajamento este livro nunca teria sido escrito.
Quero testemunhar-lhe quanto apreciei toda a interessante literatura que me emprestou, assim como agradecer-lhe a paciência com que respondeu às minhas perguntas, o tempo que perdeu e os incómodos a que se sujeitou. O prazer e o interesse que experimentei ao escrever este livro já você conhece.
Sua amiga grata e afeiçoada.

AGATHA CHRISTIE

Dedicatória de Morrer Não é o Fim.

OLHAR AS CAPAS


Morrer Não É O Fim

Agatha Christie
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 237
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Estarás em segurança, Renisenb, porque se descres o carreiro eu descê-lo-ei contigo e nenhum mal te acontecerá.
Mas a jovem franziu a testa e abanou a cabeça.
- Não, Hori, descerei sozinha.
- Porquê, pequena Renisenb? Não terás medo?
- Terei, creio que terei… Mas, mesmo assim, devo fazê-lo. Lá em casa todos tremem, correm aos templos para comprar amuletos e afirmam que não se deve andar neste caminho à hora do pôr do Sol. No entanto, não foi magia o que fez a Satipy cambalear e cair; foi medo, medo provocado por um crime que praticara. È crime cruel roubar a vida a alguém que é jovem e forte e gosta de viver. Mas eu não fiz mal nenhum e, por isso, mesmo que a Nofret me odiasse, o seu ódio não me pode molestar. É assim que penso. De resto, se uma pessoa está condenada a viver sempre com medo mais lhe vale morrer. Sobrepor-me-ei ao meu medo
-Essas palavras são corajosas, Reinsenb.
- São-no talvez mais do que eu, Hori... -  Sorriu-lhe e levantou-se- - Mas fez-me bem dizê-las.

sábado, 22 de abril de 2017

DÉCIMO OITAVO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Proibia
a paz entre os amantes.

Dizia: agora agarrem-se
depois esperem o tédio
e no inferno separem-se.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

Legenda: pintura de Van Gogh

QUOTIDIANOS


Durante dez anos Gracinda Rosa foi guarda substituta. Sempre nas passagens de nível em torno da Lamarosa, tendo muitas vezes que percorrer alguns quilómetros pela beira da linha para pegar ao serviço e para regressar a casa. Acompanhava-a o farnel com comida e a garrafa de água, porque alguns dos postos de trabalho onde cumpria turnos de 12 ou 14 horas não tinham sequer um poço. À noite, Gracinda tinha a companhia da lanterna com que fazia sinal aos comboios. De vez em quando, o farol de uma locomotiva varria a escuridão, o comboio passava veloz, e a ferroviária ficava a ver o farol da cauda, a luzinha vermelha a esvair-se na noite. Depois, novamente as trevas.
Dez anos demorou a entrar nos quadros da CP e, mesmo assim, só por ordem do tribunal. «Em 1990 é que entrei para o quadro. Foi o sindicato que tratou de tudo no tribunal. Foi fácil. Entrei para efectiva e ainda recebi uma indemnização».

Carlos Cipriano em Guardas de Passagem de Nível.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sou um homem feliz mas não o digo a ninguém porque os deuses são ciumentos.

Jorge Listopad

DA MINHA GALERIA


Gosto de boleros e gosto muito da Cesária Évora.
Esta é uma extraordinária interpretação de Besame Mucho. Um bolero com um cheirinho a morna.

BASTA UMA JANELA PARA ME FAZER FELIZ


Verdade seja dita: não tenho muitas queixas a fazer do Destino. E aqui no estágio, além do mais, encontrei uma varanda linda: Linda porque Lisboa é linda e vê-se metade dela da varanda da sala 19. Uma vez subi a um quarto andar onde mora um tipógrafo; ia com ganas de lhe comer os fígados, porque me andava a enganar desde que o livro entrara na oficina. Pois recebeu-me, lá no alto, um sol magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto por uma pequena janela. Adeus, fúrias, adeus palavras como punhais! Basta uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu, quando cheguei à sala 19. Era o castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema. «Da varanda da nossa aula» podia muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser outro, à escolha do freguês. O que eles escrevessem servia para eu ver como escreviam, como viam e como imaginavam.

Sebastião da Gama em Diário

NOTÍCIAS DO CIRCO


O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas, considerou hoje que a canonização de Francisco e Jacinta Marto, a 13 de Maio, reconhece a importância mundial de Fátima.

INFLUÊNCIA HUMANA


Conheci o William Burroughs quando tinha cerca de 22 anos, no Chelsea Hotel. Eu era bastante nova e o William costumava vir ao hotel com o seu sobretudo negro, as suas camisas e gravatas, e achei que era muito digno e tinha uma paixoneta colegial por ele… Costumava segui-lo por toda a parte e ele costumava dizer-me: «Bem, tu sabes que eu prefiro rapazes…», mas eu respondia-lhe «Tudo bem, eu vou ser a tua miúda de qualquer das maneiras…» Tornámo-nos grandes amigos e ele apoiou muito o meu trabalho. Costumava vir ao CBGB e sentar-se lá, nos primeiros tempos. Foi um grande amigo até morrer, visitei-o até ao fim da vida. Oliver e eu fomos ao seu funeral e está sempre na minha cabeça. Sempre adorei o seu trabalho, mas a maior influência que William Burroughs teve em mim foi uma influência humana. Ele tinha muita dignidade e sempre ensinou uma coisa: «Tem um bom nome, esforça-te por fazer bom trabalho», mas, em termos de sucesso… Para ele, sucesso era: se uma cidade que ele queria visitar o convidasse, mesmo que não tivessem dinheiro nenhum, mas a cidade o trouxesse e o tratasse bem, se lhe dessem algum café. Jantar, um pouco de vinho e amizade, ele actuava. Foi por isso que as coisas correram bem para mim. Vim a Lisboa, convidaram-me para o festival e foi um acto mútuo de fé. Não é um trabalho oficial, mas trouxeram-me cá e trataram-me muito bem, como uma amiga, e em troca eu faço o meu trabalho.

Patti Smith em Outubro de 2007.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO



Onde não há nada nem o diabo rouba.

Provérbio de origem desconhecida

A VIDA NUNCA ME SEDUZIU


No dia 31 de Março, terminei a peregrinação por algumas das páginas do livro que Cristina Carvalho escreveu sobre o seu pai, Rómulo de Carvalho, também poeta António Gedeão.

É tempo de cumprir promessa aqui deixada no dia 17 de Maio de 2011, dia em que comprei, na Feira do Livro, Memórias de Rómulo de Carvalho e em que deixei escrito que voltaria a falar do livro.

Li-o, então, de uma assentada, muitas vezes já o revisitei e, agora, é tempo de cumprir a promessa.

Trata-se de um livro comovente, lindíssimo, envolvente, 557 páginas, o delicadíssimo prazer de escrita de alguém, que, para meu grande espanto, a escassos 14 dias de morrer, deixou escrito:

A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.

Estas são as primeiras palavras da Introdução das Memórias de Rómulo de Carvalho:

Pois queridos filhos dos netos dos meus netos, tão queridos quanto é certo que nunca teremos trato pessoal. É fácil amarmos as pessoas à distância e por isso nos condoemos dos que padecem quando temos notícias dos sofrimentos, através dos meios de comunicação social. Se as conhecêssemos pessoalmente diríamos que tinham tido o que mereciam, e voltávamos a página. Eu amo-vos por princípio, mas como já haverá tanto sangue diverso entrecruzado nas vossas veias,, pouco teremos de comum.
Saí há dois dias do hospital onde fui sujeito a uma intervenção cirúrgica. Não sei se lá para meados do século XXI precisarão de consultar uma enciclopédia para saberem o que é um hospital. É um estabelecimento onde se recolhem as pessoas necessitadas de cuidados médicos que exigem vigilância activa e o emprego de aparelhagem que não se tem em casa. Recorri ao hospital porque o meu coração (sabem o que é?) precisa de conserto. Enquanto os corações normais funcionam ao ritmo de 70 pulsações por minuto, o meu, pobrezinho, tímido, inadaptado, envergonhado, trabalhava com metade daquele valor. Vinha assim decrescendo, em frequência, desde anos atrás, e preparava-se para me dar uma morte suave, com um suspiro, mais dia, menos dia. No hospital estenderam-me numa cama, abriram-me o peito com um golpe, à frente, à esquerda e em cima, quase a tocar no ombro, e por aí introduziram uma caixinha misteriosa, pequenina e complexa, superiormente sábia, que lá ficou escondida debaixo da pele e do tecido muscular. Da caixinha sai um tubo fininho que foi enfiado ao longo de uma veia até que a ponta tocasse no coração, metendo-o na ordem, fazendo-o pulsar com a frequência devida. Que métodos tão atrasados! Como era aquilo naquele tempo! Dirão vocês. E eu direi: que extraordinário progresso!

PEQUENOS CADERNOS


Nos Pequenos Cadernos há de tudo, como na botica.
Até um recorte da explicação de como surgiram as alheiras.
Pelo-me por alheiras.
Grelos salteados, uma batatinha cozida, um ovinho estrelado.
As alheiras mais maravilhosas que comi, foram as que uma tia do Germano fazia em Montalegre, Verdadeiramente de fabrico caseiro.
A tia do Germano já não se encontra entre nós.
Mas ficou o sabor e o prazer.

NOTÍCIAS DO CIRCO




Jornal de Notícias

A NOITE


Mas a noite ventosa, a noite límpida
que a lembrança somente aflorava, está longe,
é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais distante que as recordações apenas resta
um vago recordar. 

Às vezes volta à luz do dia,
na imóvel luz dos dias de Verão,
aquele espanto remoto.

Pela janela vazia
o menino olhava a noite nas colinas
frescas e negras, e espantava-se de as ver assim tão juntas:
vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem
que sussurrava na escuridão, apareciam as colinas
onde todas as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era outra, de vento, de céu,
e de folhas e de coisa nenhuma.

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada. 

Cesare Pavese, poema retirado de Citador

Legenda: Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DE QUEM LHE ROUBARAM O QUE NÃO TINHA


Nos começos de Maio de 1963, desde Nova York, José Rodrigues Miguèis escreve a José Saramago:

Posso dizer que esta é a 1ª carta que escrevo desde que aqui cheguei (a 5 de Abril): ao devolver provas à Seara, mandei uma curta nota ao Dr. Rogério Fernandes. Nem as condições em que parti, nem aquelas em que me encontro – sem apartamento até Julho,  possivelmente sem perspectiva de trabalho remunerado, e sobretudo num estado de espírito de quem lhe roubaram o que não tinha! – são de molde a consentir que a mão cumpra o dever de escrever – seja o que for! Mas basta de divagações…
«Há sempre outros céus!» - escrevi eu em 1935; e o José Régio diz que «há mais mundos»… (que ele não descobre, mas enfim!)
Das minhas janelas (um 9º andar desafogado, em Brooklyn) vejo todo o perfil da parte baixa e média de Manhattan, com os seus arranha-céus, e as duas pontes inferiores por onde corre dia e noite o rio do tráfego: mas, não sei porquê, N. York perdeu para mim todo o glamour e mistério que tinha. Tem chovido quase sempre. E apesar do cinema, do ballet, dos teatros e concertos (quem tivesse dinheiro para gozar tanta riqueza!...) sinto-me longe de tudo, inútil e estéril. Aos 62 anos não é fácil viver sem perspectiva de vida pessoal.

Saramago responde a 1 de Junho e diz-lhe:

Não me surpreende o seu estado de espírito. Este nosso Portugal é afinal tudo quanto temos. Por mim, sei bem que não poderia viver fora desta «desgraça». Talvez masoquismo (vai com z, como quer o nosso Severiano), gosto de sofrer, o diabo!

José Rodrigues Miguéis/José Saramago em Correspondência

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


João Botelho, de uma entrevista s/d.

OLHAR AS CAPAS


Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada

João Pedro Grabato Dias
Colecção O Som e o Sentido
Edição de Académica Lda, Lourenço Marques, 1975

Um silêncio vazio está demasiado perto da loucura.
Temos de ritmá-lo continuamente. E logo
esvaziá-lo dos especialíssimos silencios do remorso
alimentá-lo sem cessar de outros silencios
dar-lhe sempre e sempre o veludo das carícias.

Passeio-me na solidão como a um cão de luxo.
Povôo-a de regularidades e higiene.
Alço a metafísica como uma pesada para trazeira.
E com a possível e muito estudada simplicidade
jorro-me contente nos bocados mais amargos.

Agora cão, mão e dono e cão, passeio. Passo
por entre goivos dominicais em plástico.
Sou o olho vagaroso a deter viúvas, o sapato
a moer érres de saibro no ondular morno da alameda
o cheiro tudo nada pungente da cera.
E cão, mão, dono, olho, sapato, odor, sigo
curva tensa da trela
satisfatóriamente menos, qualquer coisa mais.  

Abri, suponho, a porta errada.
E saí para dentro desta calma máquina de moer cristal.
Tateio as engrenagens de mucosa
estou todo fora cá dentro, arranho-me e é bom.

Com extrema doçura amarelece a infância
nas caixas ordenadas em cada visita.
Sem pensamento possível, miro-me.
Reconheço-me: olá, subo à nespereira pela malícia acima
toco o arco das bruxas, e, enforquilhado
tiro a broa das alhadas do bife
e berlindo o Universo com dois olhos contentes
e, óbviamente incontáveis, caroços de nêspera.

Pita branca, pita preta, pinta branca – pinta preta.
À volta do olho redondo imobilizam-se as pintas
num plano de atenção. Dona pedrez roufeja
o convite, e o olho faz-se o pórtico enorme
por onde entro a patinar de barriga e um pouco surdo
no labirinto sem curvas de uma quente ansiedade
e torno a sair à mesa no amarelo do ovo
riso babão reflectido no bojo do candeeiro
a falar baixo da avó, o brilhar dos dentes da avó
o esmalte laranja das caçarolas, o tinir das malgas
o encher lento e morno da barriga a apertar o corção.
(o João pestana entrou agora e cerrou a porta
Avó tenho tosse. Queres um patacão?Toma.)
Do forro pingam bordões da guitarra.
E da boca da guitarra sai um silêncio grosso e contente
como  um jorro de sangue que me lava os olhos
me rodeia, me embala e onde navego
no exatíssimo instante que antecede
o grande mergulho no meio do Sol.

Recortada no estanho da hesitação tremeluz a sardinha.
Busca os fundos da memória, fende a carne mais antiga
Desce fresca entre duas águas, crepita num azul de escama
Meigo e seguro bisturi asséptico, a sardinha, revela agora
o pequeno nódulo perlífero que cresce girando
e, subitamente mole, é o branco duro da duna
é o orvalho das camarinhas, é o barulho morno dos pés na caruma
é um besugar sem vento nas canas, um rasquinhar de formigas
é o espantoso silencio do mar, só evidente
no segundo após a vaga quebrada

Buraco movediço na paisagem, borrão preto
elástico, roja a sombra que projecta
e transporta sem custo duas palhetas de hipnose.
Não faz ruidos , não é daqui, só vagueia
pelo presente. Determinado num sem rumo certo
presente-se-lhe a cabeça cheia de esmeraldas
que saiem em pedradas rápidas e se fundem
imediatamente na luz de antemanhã.
Sinto o peso da bola de sombra
o arripio da cerda na orelha
o apunhalar das unhas na coberta de papa
e o roronar desta máquina de meiguice.
Bichinho gato.
Bichinho. Meu gato,

(Poema ou parte do poema premiado no concurso da Câmara Municipal de Lourenço Marques, recuperado em fragmentos do original.)  

ENTÃO DEU MEIA-VOLTA


A automotora, quase vazia, depô-lo na plataforma da estação e arrancou para leste como um brinquedo correndo à disparada, com uma leve oscilação lateral, tão galgueira que era milagre não descarrilar: mas aderindo bem às curvas suaves. Ficou a vê-la afundar-se na planície até que o farol vermelho da cauda desapareceu. Então deu meia-volta, atravessou a estação, e dirigiu-se de maleta na mão para a saída.

José Rodrigues Miguéis em Idealista no Mundo Real

terça-feira, 18 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Uma única ideia, colhida em Júlio Verne: quando o sol vai desaparecer na linha do mar, há por vezes um último raio de um verde maravilhosos, que só pode ser o verde da Esperança. Aquele que sabe esperar o suficiente para o ver será capaz de afastar as ilusões que toldaram a sua vida e será feliz.

Autor desconhecido

Legenda: imagem centinela

SARAMAGUEANDO


- Em 1987 publiquei a Jangada de Pedra e estou em pleno romance de amor com a Pilar. Aí era quando eu viajava de Lisboa, em autocarro, até Rosal de la Frontera, saía de Lisboa às seis horas da manhã, e aí havia um outro autocarro que me levava pela Sierra Morena por estradas horríveis – agora está tudo transformado – até Sevilha. Saía de Lisboa às seis horas da manhã e chegava a Sevilha às três da tarde.
- Eram nove horas. Não tinha carro, não gosta de conduzir?
- Não, não sei conduzir.
- Ah, não? Mas por que não?
- Porque não, porque nunca me interessou.

Parte de uma entrevista de José Saramago em Um Céu e Dois Caminhos de José Prudêncio.

OLHAR AS CAPAS


A Cinco Horas da Morte

Hartley Howard
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº  186
Livros do Brasil s/d

Um destes dias, ainda acabo por largar este ofício! Não oferece o mínimo futuro. Em primeiro lugar, um tipo que acaba de festejar o trigésimo sétimo aniversário deve compreender que o trabalho e o sentimento não são compatíveis, sobretudo quando se trata deste género de trabalho; e, em segundo lugar, que, se continuo a ser sentimental, terei de aprender a tocar harpa, pois precisarei disso para responder às perguntas de São Pedro, quando me apresentar à porta do Paraíso.
Tinha digerido em paz dois pratos de caldo de legumes e um bife mal passado e achava-me perto da janela, refastelado na minha poltrona giratória, a ver a chuva cair, lá fora.
Enquanto sorvia o meu bourbon favorito não pensava em coisa alguma o que constituía o meu único passatempo havia três semanas. Conhecera uma época em que me teria amaldiçoado a mim próprio, por viver em tal ociosidade, mas a minha consciência deixara de dar-me dores de cabeça. Já descobrira o que ela era: uma vòzinha repetindo calmamente: «Não te safarás com a facilidade que pensas!»
Mas isto só até casar porque haveria uma mulher empenhada em não nos deixar cometer qualquer deslize. Eu cá não sou casado. Prefiro continuar solteiro e ser eu próprio a admoestar-me. É uma maneira de viver agradável que recomendarei a meus filhos.

RECADOS

Sou um leitor compulsivo.
Não preciso de grandes sinais para comprar um livro: pela capa, pelos começos, pelos finais, por tudo e mais alguma coisa.
Lembro-me que comprei Viver com os Outros da Isabel da Nóbrega pela leitura da parte final do discurso que Mário Dionísio proferiu no jantar da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco de 1964.
No meio de imensa papelada, fui dar com esse pedaço de recorte.
Comovi-me.
Já agora: numa carta, datada de 20 de Março de 1966, José Saramago escreve, a José Rodrigues Miguéis sobre esse jantar: 

Neste  triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar da entrega do Prémio Camilo À Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l'église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável,logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates - e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


A tradução é como uma mulher. Se é bela, não é fiel. Se é fiel, não é com certeza bela.

Evtuchenko citado por José Cutileiro no Expresso

MARCADORES DE LIVROS


AS TERRAS DOS SONHOS


Escrevi «Born to Run» sentado à beira da minha cama, numa casa de campo recém-alugada, no número 7/2 de West End Court, em West Long Branch, New Jersey. Na altura estava mergulhado num frenesim de descoberta do rock’n’roll dos anos 50 e 60. Tinha posto uma pequena mesa com um gira-discos ao lado da minha cama, e só precisava de rebolar sonolentamente para pôr a agulha a deslizar sobre aquele que fosse o meu álbum preferido do momento. À noite desligava as luzes e deixava-me embalar até à terra dos sonhos pelas vozes de Roy Orbison, Phil Spector ou Duane Eddy. Aqueles discos falavam-me de uma maneira que a maior parte do rock produzido no final da década de 60 e início da década de 70 não conseguia fazer. Amor, trabalho, sexo, diversão. O romantismo obscuro de de Orbison ou de Spectro estava em sintonia com a minha ideia de romance, com o próprio amor a mostra-se uma enunciação arriscada. Aquelas eram gravações bem trabalhadas, a tresandarem de inspiração, servidas por grandes canções, grandes vozes, grandes arranjos instrumentais e excelentes músicos.

Bruce Springsteen em Born to Run

Legenda: Long Branch, New Jersey pintura de Winslow Homer


QUOTIDIANOS


A electricidade não é cara, as casas é que estão mal construídas.

António Mexia, presidente da EDP

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS



O Que Foi Passado a Limpo
Obra Poética
1965-2005

Armando Silva Carvalho
Prefácio: José Manuel de Vasconcelos
Capa: Maria da Graça Lampreia
Assírio & Alvim, Lisboa, Março 2007

Aqui o inferno mata as profissões
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve
De criar servidores para os condenados
Ao tédio.

Morre-se no emprego
Com a garganta apertada por uma mão
Sem ossos.

Aqui os anos crescem pouco ou nada.
Os dias e dias secam na raiz.
Não há horas felizes.

O sol sempre se deu bem com gente como esta
Que salpica de chuva os seus pequenos
Afazeres
Para ficar em casa.

Gente com plenos poderes
Para desmanchar a festa que se alonga
Para lá da cabeça.

Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço?

Nos campos vicejam novamente as urtigas
São restauros agrícolas,
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima,
Ao ouvido,
Na sala dos banquetes.

O mar faz de cão velho e deixa-se ficar
À espera no patamar dos mitos.
Ninguém o suporta
Nem ao seu uivar aos pés
Da história.

Comovidos estamos, com um não sei quê,
Um quanto, um como, uma dor
Que levanta asas
E vai do vale à montanha
Como vão os monges cavaleiros
À televisão.

Aqui a cidade abre-se para lá da noite
E é sempre belo ver a madrugada
A chorar os seus ídolos.

Aqui os que têm coração
Têm desconto. 

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



Há um pequeno texto de Jorge Listopad, provavelmente publicado no JL, não encontro a data, muito bonito e em louvor das máquinas de escrever. Acredito que muito boa agente desconheça do que se trata:

Tinha um vizinho desconhecido. Mas ouvia-o a escrever à máquina às mais variadas horas nocturnas. Agora reina o silêncio. Pergunto: morreu? Foi raptado? Mudou-se? Comprou um computador?
Seja como for, celebro a memória daquela máquina de escrever, desconhecida.

Sabe-se que Fernando Assis Pacheco, uma das muitas suas imagens de marca, martelava o teclado da sua máquina de escrever HCESAR, apenas com o dedo indicador da mão direita e que se perguntava a Augusto Abelaira por que é que ele demorava tanto tempo a publicar um livro:

É que eu escrevo à mão e depois passo à máquina. Só que depois de uma primeira passagem à máquina vêm as modificações. Então é preciso passar tudo de novo à máquina.

Um dia hei-de falar da minha máquina de escrever, também uma HCESAR.


Está ali, naquele canto, a olhar…

domingo, 16 de abril de 2017

NÃO HÁ NADA QUE A SUBSTITUA


Veio a K, com o Carlos. Pensei: De que me serve ser um nacionalista angolano, ser um homem verdadeiro, ser o Luandino Vieira, toda a gente a falar bem de mim, muita gente ter medo de mim, mais ainda terem esperança em mim, ser exemplo etc. etc. etc. se nem sequer posso acompanhar a L.?
Sim, para que serve? – Pode haver coisas que nos façam merecer a liberdade; não há nada que a substitua. Todos os prazeres e orgulhos dessas coisas não valem o minuto de prazer de acompanhar a K.
        (e calo-me para não dizer mais coisas destas!)
                                                        *
(Fugiu a disposição para trabalhar. Merda pr’a mim!)

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Um recorte da página de espectáculos do Diário de Notícias de 4 de Dezembro de 1968.
Cinco cinemas de bairro onde em cada sessão se viam dois filmes.
Filmes inesquecíveis com actores fabulosos.
Estão por ali o Jean-Paul Belmondo, Jean Servais, Ernest Borgnine, Elizabeth Taylor, Van Johnson, Walter Pidgeon, a esplendorosa Sara Montiel, Henry Fonda, a beleza ruiva de Maureen O'Hara, Marilyn Monroe, Rock Hudson, Elvis Presley, Dolores del Rio, Rossana Podesta.
Cinemas que, juntamente com outros, cumpriram o seu papel de arregimentar gerações de cinéfilos. Falo por mim, que nasci em 1945.
Era no tempo em que só havia domingos.


APENAS ROCK AND ROLL



Duas fotografias de Elvis Presley com o grupo The Jordanaires.

OS CROMOS DO BOTECO


Uma capa do Elvis em Domingo de Páscoa.

Elvis acompanhado pelos The Jordanaires.

Returno to Sender - I Don't Wanna Be Tied - Girls! Girls! Girls!- I Don't Want To

Tenham um Bom Domingo de Páscoa.


sábado, 15 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


A questão não é saber se existe um mundo desconhecido, a questão é saber até que horas está aberto e a que distância fica de Midtown Manhattan.


Woody Allen

NOTÍCIAS DO CIRCO



Títulos do Expresso de 8 de Abril e Público de 8 de Abril.

OUVIR TUDO NA VOZ DE FRANK


Em casa do Ray, como não havia muitos discos folk, costumava pôr algumas vezes a tocar o fenomenal «Ebb Tide» do Frank Sinatra, que nunca deixou de me encantar. A letra era tão deliciosa e estupenda. Quando o Frank a cantou, consegui ouvir de tudo na voz dele – morte, Deus e o universo, tudo. Só que eu tinha mais que fazer e não podia passar a vida a ouvir aquilo.

Bob Dylan em Crónicas

A POESIA NÃO É UM CARTÃO DE IDENTIDADE


Rio-me dos que fazem
profissão de poeta.

A poesia não é um cartão de identidade
para exigir nas relações cosmopolitas.
A poesia não é a prova malabar
das teorias dos exegetas.

Talvez a poesia seja afinal e apenas isto
apenas esta maneira discreta de adivinhar
os nexos ocultos que existem
entre a espera cansada dos homens
e o hálito fresco da maresia,
a violência quente das searas,
a nitidez metálica das máquinas.

João José Cochofel em 46º Aniversário

sexta-feira, 14 de abril de 2017

PEQUENOS CADERNOS


No livrinho, sem indicação de autor:

«O voo dos pássaros é preciosos porque semeia a alegria no rosto do espaço.»

O QUE TEMOS DE MELHOR PARA DAR


Porto, 1 de Setembro de 1967

Querido Jorge,

Cheguei há dias de Londres – que é a maravilha que sabe – e encontro em casa as suas Novas Andanças, que havia lido há muito. Alegrou-me que, finalmente, você me tenha perdoado o meu silêncio, que só tem a ver com o meu desespero e onde até a ternura e a amizade podem morrer à míngua de palavras, E, contudo, se ainda vivo, é na esperança de que à vida as palavras possam restituir uma possível dignidade. Algumas palavras, e entre elas contam-se as suas. Eis porque nada de quanto V. escreve me passa despercebido, o que é raro, nesta língua, a que ambos damos o que temos de melhor para dar.

Jorge de Sena/Eugénio de Andrade em Correspondência

TRUMPALHADAS



Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Guardas de Passagem de Nível

Carlos Cipriano
Capa: Inês Sena
Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Fevereiro de 2017

Gilberto Gomes, que tem investigado a história do caminho-de-ferro em Portugal, conta que quando as linhas foram construídas e passaram à fase de exploração se privilegiou a contratação de mulheres para desempenhar as funções de guardas de passagem de nível. É isso que explica que esta profissão seja essencialmente feminina. Os poucos homens guardas de passagem de nível que existiam, tendo o mesmo tipo de trabalho, ganhavam mais. Por isso, saía mais barato contratar mulheres.
A guarda de passagem de nível foi sempre a mais mal paga de todas as profissões ferroviárias. E também a única aberta ao sexo feminino. Seria necessário esperar pelos anos trinta do século XX para que as primeiras mulheres com outras funções entrassem na CP, sobretudo enfermeiras e empregadas de bilheteira. Só depois do 25 de Abril, e acompanhando o que aconteceu na sociedade portuguesa, houve um afluxo significativo de mulheres a este sector, até para maquinistas, uma profissão até então vista como intrinsecamente masculina. Ainda assim, seria preciso esperar até 1997 para que, pela primeira vez, uma mulher integrasse o conselho de gerência da CP.
Além do magro salário, as condições de vida das primeiras gerações de ferroviários eram miseráveis. As guardas de passagem de nível viviam, tal como os trabalhadores das linhas, em barracas de madeira. A prioridade era fazer chegar os carris cada vez mais longe e construir a linha. As estações, os edifícios de apoio, o alojamento do pessoal, ficavam para depois.
Por isso, os ferroviários viviam em barracas, ou mesmo em vagões de carga estacionados nos ramais, até que construíssem os edifícios das estações.

As guardas das passagens de nível foram as últimas a ser contempladas com casas. Durante anos, longe das vilas e aldeias isoladas ao longo das ilhas, à entrada de túneis, em trincheiras onde quase nunca entrava o sol, perdidas em zonas de montanha ou desterradas na planície, continuaram a viver em barracas à espera que o progresso que o monstro de carvão e aço arrastava atrás de si as brindasse com uma habitação minimamente digna.

SALMO


Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz 
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
— Pai Pai faça-se a tua vontade! —
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém 
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer 
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de álibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti 

Jorge Sousa Braga


Legenda: pintura de Rogier van der Weyden

quinta-feira, 13 de abril de 2017

POSTAIS SEM SELO


Quero lá saber das Quaresmas e suas restrições gastronómicas! Prefiro, a bem dizer e sem ligar quase nada, mesmo quase nada as Páscoas e os Natais e todos os desvarios doces e salgados que um homem leva desta vida. 

DÉCIMO SÉTIMO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Espiava mais um pobre homem
a enterrar a carne da sua carne.

Dizia: não há motivo lógico
para legislar que os pais
não sepultem os filhos. As
excepções confirmam a regra.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

Legenda: imagem Aeon

OLHAR AS CAPAS




Correspondência
1959-1978

Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena
Notas Prévias de Mécia de Sousa e Maria Andresen Sousa Tavares
Capa: Ilídio J.B. Vasco
Guerra e Paz, Lisboa, Fevereiro de 2010

Desculpe o longo silêncio: você sabe que eu tenho a maior vocação para falar ao telefone e nenhuma vocação para escrever cartas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

APENAS ROCK AND ROLL


Fotografia tirada da revista «Elvis 100%».

quarta-feira, 12 de abril de 2017

OLHARES


Na tarde quente, o amador de pescador deixou a cana junto ao rio e fui até à barraquinha de bebidas matar uma qualquer sede.