terça-feira, 26 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Anjo da Tempestade

Nuno Júdice
Capa: Henrique Cayatte
            Pintura da capa de Jorge Martins
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2004


Com a mulher, que depois dessa manhã já se lhe pode chamar assim, e não apenas noiva, é que as coisas mudam de figura porque, depois de se deitar com um homem, mesmo que nada se tenha passado entre eles, embora a criada jure que não, avaliando pelo estado em que descobriu a colcha, sobre a cama, a sua reputação nunca mais será a mesma, a não ser que se case com o homem, o que não será o caso porque a um morto já não se pede a mão, e mesmo que ela esteja pedida, já a mão deste não se pode estender, na igreja, para receber o anel de casamento. Morto e bem morto, ainda que não houvesse cadáver, nem ele tenha aparecido, a não ser muito tempo depois, e num estado em que ninguém poderia jurar que era ele, ou se seria o ladrão, que ele teria conseguido eliminar, aproveitando-se disso para fugir para onde não mais o encontrassem, que era o que ele queria, para se ver livre não se sabe bem de quê, se dos trabalhos da vida, se das dívidas, se da noiva, cujo corpo não lhe teria parecido igual ou melhor do que outros que conhecera, antes dela, e não se sentia com paciência para lhe transmitir a educação que ela não tivera com outros, namorados ou não, ou pura e simplesmente porque sim, nesse desejo de aventura que poderá acontecer a alguém, num meio de vida que já se sabe não irá durar muito, e ou a irá gozar agora ou depois será demasiado tarde.

MAS QUEM O ACEITA?



28 de Setembro de 1969

Fez ontem um ano que o Marcello ocupou o poder – data festejada com sessões de homenagem e todos os foguetes habituais nestes regimes de culto da personalidade a compilação em livro dos discursos pronunciados pelo chefe, o documentário das viagens e as inaugurações de vários fontanários pelo Salazar II, etc.
Outro número da comemoração: a recusa da candidatura a deputados de cinco personalidades apresentadas pela Oposição – com o pretexto de que não aceitavam o actual regime.
Mas quem o aceita?


José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

LEMBRAR NEWMAN, SEMPRE


Nove anos sem Paul Newman, o actor dos mais belos olhos azuis do cinema.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Um solitário que não se revela um grande apreciador da solidão.

Patti Smith no prefácio a The One Inside, último livro de Sam Shepard, citado por João Gobern em Diário de Notícias, 19 de Setembro de 2017.


Legenda: capa de The One Inside de Sam Shepard editado por Alfred A. Knopf.

OLHARES


Tenho coma Feira da Luz uma memória antiga.
Nos meus tempos de miúdo, o futebol começava a meio de Setembro e havia sempre um domingo em que, mais o meu avô, íamos ver o Benfica e depois direcionávamos os passos para o Largo da Luz.
O meu avô tinha como objectico comer polvo seco grelhado na brasa.
Numa das muitas barracas de petiscos, sentados a uma mesa grande de madeira, onde cabia toda a gente que ia aparecendo, deliciava-se com o polvo, meio jarrinho de tinto enquanto me cabia um pirolito e um bolo que dava pelo nome de «rocha» que nunca mais vi.
Sempre que íamos à bola, havia petisco no fim mas só se o Benfica ganhasse. O empate já não dava para nada, era como s fosse uma derrota.
Mas no domingo da Feira da Luz, mesmo que o Benfica tivesse perdido, íamos à feira. Era talvez a única altura em que o meu avô encontrava o polvo seco grelhado, e a bola que se lixasse.
Assim como um gosto valer mais do que 4 vinténs.
A Feira da Luz que continua a organizar-se, não tem nada a ver com a daqueles tempos.
A única coisa que resiste é a habitual procissão da Nossa Senhora da Luz.
Aberta desde 26 de Agosto, a Feira da Luz fechou portas ontem.

MARCADORES DE LIVROS

OLHAR AS CAPAS


O Carteiro de Pablo Neruda

Antonio Skármeta
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Colecção estórias nº 81
Editorial Teorema, Lisboa s/d

O que não conseguiu o Oceano Pacífico com a sua paciência semelhante à eternidade, conseguiu-o o simples e doce posto dos correios de San Antonio: Mario Jimenez não só se levantava de madrugada, assobiando e com um nariz fluído e atlético, como se lançou com tanta pontualidade no seu ofício que o velho funcionário Cosme lhe confiou a chave do local, no caso de alguma vez se decidir a levar a cabo uma façanha desde há muito sonhada: ficar a dormir de manhã até tõ tarde que já fosse hora da sesta e dormir uma sesta tão grande que já fosse horas de deitar, e ao deitar-se dormir tão bem e com um sono tão profundo que no dia seguinte sentisse pela primeira vez essa vontade de trabalhar que Mario irradiava e que Cosme meticulosamente ignorava.

PELO SONHO É QUE VAMOS


No dia 16 fui mostrar-me aos rapazes… que têm alguns, para cima de 40 anos. E depois de assentarmos que o nosso programa seria traçado sobre o que fosse parecendo mais necessário, li (pois claro!) o «Para a Escola», de Trindade Coelho. E pedi uma redacção em que lembrasse cada um dos seus dias de escola.
Isto é que é gente! Mais de metade trabalhou; mais de um quarto trabalhou bem; e quem nada fez veio pedir desculpa.

Sebastião da Gama em Diário

domingo, 24 de setembro de 2017

RELACIONADOS


A propósito deste Olhar as Capas, recuperamos um texto publicado neste Cais do olhar em 15 de Outubro de 2011:

Quando Manuel da Fonseca, publica Seara de Vento  encerra aí o seu grande percurso na prosa.

Segue-se um interregno de 10 anos, interrompido pela publicação do livro de contos Um Anjo no Trapézio.

Numa entrevista a Maria Teresa Horta publicada em A Capital de 20 de Junho de 1968 disse Manuel da Fonseca:

“Pouco depois de “Cerromaior”, escrevi um romance. Duzentas e tal páginas. Um sujeito que o leu, gostou. Eu não. Nem o publiquei. Agora, que já tinha “esquecido” o tal romance inédito, mas não as pessoas, nem os acontecimentos, dei-me à escrita, e as duzentas e tantas páginas ficaram reduzidas a quarente e nove. O título do conto é o mesmo do romance “Um Anjo no Trapézio”.

O livro foi muito mal recebido pela crítica.

Alice Vassalo Pereira escreveu no “Jornal do Fundão” de 28 de Julho de 1968:

Manuel da Fonseca publica pouco. Sabemos isso. Temos dele meia dúzia de livros, e um longo silêncio de cerca de dez anos entre a publicação do último – “Seara de Vento” – e a de “Um Anjo no Trapézio” que surge agora nas nossas mãos. Um longo silêncio apenas povoado, de vez em quando de reedições e trabalhos dispersos por jornais. “Um Anjo no Trapézio” é a palavra de quebrar o silêncio.
Mas (infelizmente) para certos casos o silêncio continua a ser de oiro. E por vezes (agora) a palavra nem de pedra é…

José Gomes Ferreira, nos seus “Dias Comuns”, 5º volume, no dia 14 de Junho de 1968 escreve esta entrada:

O Manuel da Fonseca publicou um livro novo: “O Anjo no Trapézio.
Ainda não o li, mas gelou toda a gente.
O João José Cochofel:
- É muito mau… Com as palavras derretidas.
O Augusto Abelaira, a medo, com a delicadeza natural de não dizer mal dos ausentes:
- “O Fogo e as Cinzas” é um livro formidável.
O Carlos de Oliveira sacode a cabeça apavorado com esta verificação:
É terrível! Pode perder-se o talento!
Desgosto de família.

Damos os pêsames uns aos outros. Sinceros.

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA


Em 1926 sucedeu o que tinha de suceder, mais ano menos ano, para pôr cobro ao desassossego em que se vivia: a instauração de uma ditadura. Tinha este vosso tetraavô então a bonita soma de vinte anos. A ditadura prolongou-se até 1974, o que significa que esteve instalada em Portugal durante 48 anos! Foi demais para a nossa inquietude mas justifica-se tão dilatado tempo por duas fortíssimas razões que, conjugadas, permitiram esse resultado: uma, foi a simultaneidade de outras ditaduras em países europeus; outra, foi o surgimento inesperado de um homem monolítico, nem de torcer nem de quebrara, possuído de uma filosofia política firmemente assente nos valores tradicionais da Nação (Deus, Pátria e Família), provinciano de quatro costados, homem sem mulher, que usava botas com atacadores. Sobre a pressão dessas botas  pôs o país em silêncio enquanto as cabecinhas dos portugueses assomando na periferia das gáspeas erguiam os olhos para o seu salvador.
Chamava-se, o homem, António de Oliveira Salazar. Era natural do Vimieiro, no concelho de Santa Comba dão, e mestre de Economia e Finanças na Universidade de Coimbra.
Notem, meus queridos tetranetos, que Salazar não se esgueirou por entre as massas para alcançar a ribalta política. Ele estava sentado na sua cátedra, a debitar os seus saberes, quando os ditadores militares de 1926, já desorientados com a sua própria revolução, lhe suplicaram que viesses até Lisboa tornar conta da pasta das Finanças, pois tinham notícia da sua competência e a nau portuguesa estava prestes a afundar-se. O homem veio, aceitou o cargo e apresentou o seu plano de acção governativa. As exigências do seu programa eram muitas e pesadas e, como não foram aceites, Salazar pôs o chapéu na cabeça e voltou para Coimbra. Cerca de dois anos mais tarde, como a confusão continuasse na mesma, tornaram a chamá-lo. Que viesses, que fizesse o que quisesse. Ele veio e fez o que quis, com a consciência tranquila.

Rómulo de Carvalho em Memórias

OLHAR AS CAPAS


Um Anjo no Trapézio

Manuel da Fonseca
Capa: Pilo da Silva
Colecção de Autores Portugueses nº 11
Prelo Editora, Lisboa 1968

O súbito acender das luzes da sala desfez o encanto. Houve como que uma surpresa e o alívio de ter sido de outros aquele drama. Recuperados, não por completo mas o suficiente para escaparem ao sortilégio, todos se encaminharam para as saídas. Pelo átrio, ainda a perturbação os acompanhava. No entanto, já procuravam descobrir qualquer assunto que os libertasse de vez. Era-lhes necessário chegar à sua o mais depressa possível.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

sábado, 23 de setembro de 2017

NÃO TENTAR AQUILO DE QUE NÃO SE ESTÁ CERTO


Mário-Henrique manda-se para fora de pé.

Longa carta, datada de 13 de Setembro de 1961, ainda em S. Domingos de Rana. E diz a Isabel  que a vai começar a tratar por tu.

Minha Maruska, ouve com atenção e não digas que não te avisei: vais ter algum tempo para pensar, mas olha que depois, se quiseres, nunca mais poderás voltar atrás. Não vai haver mais nenhum processo de divórcio na minha vida, Isabel, creio que concordas e compreendes.
Ouve, querida, ouve com atenção e não digas que não te avisei: não sou um homem nada fácil, sei isso muito bem. Complico coisas que não devem ser complicadas, atiro outras pelo ar, enfim, parece que viver comigo não é exactamente um paraíso. Além disso, tenho nesta altura a vida quase completamente destruída (porque eu, estupidamente, a deixei destruir, é um facto). Terei que reconstruir tudo mas, se tu quiseres, reconstrui-la-ei para nós, com tanta ou mais força do que tenho feito até aqui. Também, Isabel, irão acontecer várias coisas: vai haver fedelhos a rasgar livros e a quem eu berrarei furibundo, só para tu os poderes beijar em seguida. Vai haver complicação económica se tu não fores capaz de deitar a mão a esse assunto, como administradora, Vai haver zanga e querela de vez em quando, talvez só para poder haver uma razão para eu te beijar depois… Vão haver muitas coisas e, portanto, deves pensar bem e saber se queres ou não queres que tudo isso aconteça. Se não quiseres, Isabel, deixa-me pelo menos a recordação do teu sorriso e a saudade enorme dos beijos que nunca te dei. E tenho muitas saudades deles! Deixa-me isso – que não me podes tirar, nunca poderás – e sê perfeitamente honesta para contigo e para comigo também. Já te disse, creio, que em amor só há dois caminhos: sim ou não. Ninguém pode amar apenas por simpatia e tolerância. Acaba tudo mal, como viste na minha “estimada esposa”. É preferível não tentar aquilo de que não se está certo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

ÀS VEZES NUNCA MAIS LÁ VOLTAMOS


Connosco é assim, meu rapaz. Somos polícias e toda a gente nos detesta. E, como se já não bastassem as arrelias da profissão, ainda temos de aturar tipos como você. Arriscamos constantemente a vida em casos sórdidos, sempre à espera de receber um punhado de «chumbo» no corpo, enquanto nos esperam em casa para jantar. Às vezes nunca mais lá voltamos. Há noites em que chegamos a casa tão cansados que não conseguimos comer, nem dormir, nem sequer ler as mentiras que os jornais dizem a nosso respeito. Ficamos acordados, às escuras, numa casa humilde de uma rua modesta, a ouvir os bêbedos que passam pela rua. E, no momento preciso em que pegamos no sono, o telefone toca, levantamo-nos e a rotina recomeça. Nada do que fazemos merece aplauso. Quando obtemos uma confissão, dizem que a conseguimos à força de espancar um tipo e, no tribunal, há sempre um que nos chama Gestapo. Se cometemos um erro, põem-nos fardados na rua e passamos as agradáveis noites de verão a apanhar bêbedos caídos na sargeta, a ser insultados por prostitutas e a desarmar teddy-boys. Mas tudo isto não basta para nos tornar inteiramente felizes. Precisamos de tipos como você.

Raymond Chandler em IngénuaPerigosa

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Só um homem em mil lidera outros homens. Os restantes 999 vão atrás de mulheres.

Groucho Marx

CANÇÕES DE ENTARDECERES



O Sol hoje pôs-se às 19,32 horas e deu-se o último pôr-de-sol do Verão.
Já estamos no Outono.
Peguemos nas páginas de O Principezinho de Antoine Saimt-Exupéry:

 Ah, principezinho, assim fui conhecendo, aos poucos, a tua vida melancólica. Durante muito tempo, apenas a doçura dos poentes te serviria de distracção. Tomei conhecimento deste novo pormenor no quarto dia, de manhã, quando me disseste:
- Gosto muito do pôr-do-sol. Vamos ver um pôr-do-sol...
- Mas é preciso esperar...
- Esperar o quê?
- Esperar que o Sol se ponha.
A princípio ficaste muito surpreendido e depois, riste-te de ti próprio. E disseste-me:
- Julgo sempre que estou no meu sítio...
Com efeito. Quando é meio-dia nos Estados-Unidos, o Sol , toda a gente o sabe, põe-se em França. Bastava ira França num minuto para assistir ao pôr-do-sol. Infelizmente, a França fica muito longe. Mas no teu planeta tão  pequenino, bastava-te afastar a cadeira dois ou três passos e contemplavas o crepúsculos sempre que desejasses…
- Um dia vi o pôr-do-sol quarenta e quatro vezes!
E algum tempo depois, acrescentavas:
- Sabes... quando se está muito, muito triste, gosta-se do pôr-do-sol...
- Então no dia das quarenta e três vezes estavas assim tão triste?
Mas o principezinho não respondeu.

A canção escolhida recaiu em I Believe I’m gonna love you.
Há mais de uma versão desta canção, mas apenas uma vale a pena registar: a que se ouve na voz de Frank Sinatra.


OLÁ, OUTONO!


Quando Setembro chega, risca do calendário o horroroso Agosto e ficamos a saber que, mais uns dias, e o Outono bate-nos à porta.
Será hoje, às 21 horas mais dois minutos, e chamamos-lhe o tempo da serenidade.
O Hai-Kai do Outono por Mário Quintana:

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?






NOTÍCIAS DO CIRCO


Ricardo Araújo Pereira na Visão:

«Como é que se espera que um homem habituado a auferir uma pensão de três mil euros por dia viva agora com 11 mil e 500 euros por mês? Vai ter de fazer contas, certamente, o que equivale a condená-lo à pobreza: é muito provável que um homem que conseguiu levar à falência o maior banco privado e a maior empresa portuguesa não tenha especial jeito para números.» 

OLHAR AS CAPAS


Atravessando o Paraíso

Sam Shepard
Tradução: José Vieira de Lima
Capa: Fernando Felgueiras
Difel, Lisboa, Fevereiro de 1997

Era uma coisa que lhe dava sempre náuseas, fazer as malas. Aquela comichão indistinta a espreitar na garganta. A boca a saber a algodão. Bastava-lhe ver a roupa interior e as meias estupidamente à espera dele na cadeira. A pilha de T-shirts desbotadas. Estava-se nas tintas para a ordem segundo a qual as roupas iam para o saco verde. Misturava-as a esmo e nunca pensava no que poderia precisar de tirara primeiro ou em que cidade poderia para na primeira noite. Para dizer a verdade, agora não fazia ideia nenhuma sobre a direcção a seguir ou sobre a estrada que havia de tomar. Era cara ou coroa. Tentou imaginar um destino: Lexington; El Paso; Boulder City. Não fazia ideia. Os destinos misturavam-se todos. Tentou ver-se a si mesmo lá. Algures num sítio qualquer. A chegar. Albuquerque, talvez. Tucumcari. Viu uma cafeteira Denny’s que lhe parecia familiar, para lá de um parque de jogos e de uma velha estação dos caminhos de ferro; mas não estava certo quanto à cidade onde se lembrava de os ter visto ou quanto ao que esses sítios teriam que justificasse o seu regresso. Pensou em queimar todos os seus mapas.

ARRISCOU AMBAS


Um contraste com a esoteria de outro lugar de livros em Carmel by The Sea, antes de entrar no Big Sur, junto ao restaurante que pertenceu a Clint Eeastwood. Ele foi o mayor daquela cidade turística, quase um lugar de bonecas. Trouxe de lá a biografia de Jack London, o homem que se dividiu pela Califórnia e pelo Alasca, ideologicamente o contrario de Eastwood, quando ser comunista era rebeldemente proibido na América e ser lobo do mar uma aventura quase tão grande como isso. Arriscou ambas.

Isabel Lucas em Livrarias – Um Mapa Pessoal Incompleto, publicado na revista Ler, nº 146, Verão 2017.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SOU UMA SOMA DE TODAS AS PARTES


Acerca da minha voz para começar. Não tenho lá grande voz. Tenho a força, a capacidade de alcance e a resistência de um típico cantor de bar, mas não tenho uma grande beleza a nível de timbre, ou sequer categoria. Cinco actuações por noite? Sem problema. Três horas e meia de actuação? É possível. Necessidade de aquecimento? Quase nenhuma. A minha voz cumpre as devidas funções. Mas é o instrumento de um trabalhador a prazo, e por i só, nunca me levaria a voar alto. Preciso de recorrer a todas as minhas capacidades para conseguir comunicar em profundidade. Para conseguir vender o que vocês compram, tenho de escrever, tenho de editar, tocar, dar um grande espectáculo e, sim, cantar o melhor que me é possível. Sou uma soma de todas as partes. Cedo aprendi que isto não é motivo de preocupação. Todos os artistas têm os seus pontos fracos. Parte do sucesso deve-se a saber o que fazer com o que se tem e com o que NÃO se tem. Como disse o Clint Eastwood; «Um homem tem de saber os seus limites.» Depois há os que os esquecer e seguir em frente.

Bruce Springsteen em Born to Run

OLHARES


Algures na Rua João de Freitas Branco.

TRUMPALHADAS


DonaldTrump foi às Nações Unidas dizer que «não temos alternativa senão destruir completamente a Coreia do Norte.»

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou, também nas Nações Unidas, que a ameaça nuclear está «ao nível mais alto desde a Guerra Fria», avisando as partes envolvidas na crise da Coreia do Norte que «conversa inflamável pode conduzir a mal-entendidos fatais».

Ainda Guterres: «Somos um mundo em pedaços. Precisamos de ser um mundo em paz.»

A primeira reação da Coreia do Norte ao discurso de Donald Trump, quando ameaçou destruiraquele país, chegou pela boca do ministro dos negócios estrangeiros quando afirmou que o presidente dos Estados Unidos parece «um cão a ladrar».

O mundo está perigoso.

Muito mesmo!

Imperdível a crónica de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias:

«Num debate do partido chama "Ted mentiroso" a um colega (Cruz). À adversária Clinton chama "Hillary vigarista". Logo, da primeira vez que vai à ONU põe o dono da casa em pânico. António Guterres bem preveniu: "Discursos empolgados podem levar a desentendimentos fatais." E se calhar o português até fez aquele seu peculiar gesto de duas mãos a encher um pneu com bomba de bicicleta: calma, por favor... Qual o quê! O Donald esteve imparável, ontem. Sabem, aqueles rufias que estão debaixo do prédio do suicida? Em vez de apelar por juízo açulam: "Atira-te, ó cobardolas!" Assim fez Trump. Em 1962, com a crise nuclear a 80 km da Florida, John Kennedy chamou ministro dos Negócios Estrangeiros ao Mr. Gromyko e presidente a Khruchtchev - e foi firme, a ponto de ser ouvido pelos soviéticos. Não chamou Monstro do Pântano a um, nem Homem Aranha a outro. Ontem, Trump, depois de anunciar que a Coreia do Norte seria "totalmente destruída", acrescentou: "Rocket Man [o Homem Foguetão] está numa missão suicida para ele próprio e para o seu regime." Tentem seguir o fio ao pensamento. O ponto de partida é aceitável, Kim Jong-un é pírulas e dele tudo se pode esperar. Ainda mais grave do que o suicida que ameaça atirar-se do quinto andar, ele quer levar o prédio e até o bairro com ele. Mas, então, Trump goza e chama-lhe Rocket Man? O que eu quero dizer é seguinte: o gajo do quinto é maluco, mas o instigador do pátio é parvo.»

OLHAR AS CAPAS


Exercícios de Estilo

Luiz Pacheco
Editorial Estampa, Lisboa, Julho de 1971

Tenho Amigos até 1 copo. Tenho todos os meus Amigos tabelados: a cincos (o Edmundo Bettencourt, o Jaime Salazar Sampaio, por ex.), a vintes (são a grande maioria), a cinquentas (o Mário Alberto, etc.), a cemzes, a quinhentos (o Artur Ramos), a miles (destes últimos convém não abusar, é só para as grandes aflições). A vintes cada bebedeira são á bicha, bêbedas que apanhamos eles a pensarem neles e no que mais lhes interessa ou por um bocado de companhia ou por um ouvido irmão para desabafar; eu a pensar nos vintes que lhes vou cravar à despedida, na hora das emotivas efusões em que a fraternidade é lei. Tenho Amigos que dão vintes mesmo sem vinho – e sabe-se lá porquê? Tenho Amigos que dão a gravata a camisa a calça curta ou comprida cachecóis lenços de assoar a esferográfica deles, todos os trocos miúdos das suas algibeiras, com uma careta ou um riso satisfeito, tanto me faz. Tenho ainda Amigos que me levam uma vez por ano à praia de popó e me dizem insistem para que molhe ao menos os pés, lave as ventas na água salgada, insistem por pura amizade para eu respirar fundo «qu’ali é qu’é bom». O iodo. As brisas atlânticas. As beldades carnudas bem à mostra. Tenho outros Amigos que me põem a ouvir a última gravação que compraram do Brell e oiço Les Timides, Les Vieux e choramingo, na hora dos copos qualquer pretexto (me serve) lachrima triste à esquerda (veio decerto directa do coração), lagrimeta condensada na pupila à direita pelos tintos, forma de arroto vínico irreprimível subido do fígado inchado que se enganou no caminho natural talvez sugestionado pelo Brell. Tenho Amigos-amigos, Amigos-negócios à parte e Amigos-meio a atirar pró torto, da onça. De todos preciso e assim-assim de todos gosto à minha maneira porque a solidão e o silêncio são causas de morte, são a morte. O meu maior Amigo, digo: aquele que me tem feito sofrer mais, sou eu. Por isso, talvez, também que o prefira (e me gramo). Entre todos os Amigos às vezes me prefiro e tiro mais, carrasco e vítima de mim mesmo, e bebo e drogo-me para o esquecer, o desconhecer, e ainda às vezes tanto asco lhe voto e desespero que o matava logo ali – a não ter tanto medo da polícia Eu).

4º MOTIVO DA ROSA


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PROJECTO DE SUCESSÃO


Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos.

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nú em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio. 

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias. 

António Maria Lisboa

Legenda: poema de António Maria Lisboa encontrado no espaço do Legado de Mário Henrique Leiria

A LUZ DA ETERNA FACE



Meditai nos vossos leitos.

Em silêncio.

Quem
afinal
nos dá
felicidade?

A luz da eterna face
traz ao meu coração
mais alegria
do que abundantemente o pão e o vinho.

Deito-me e adormeço.

Mário Castrim em O Livro dos Salmos

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


O Desconhecido do Norte Expresso

Patrícia Highsmith
Tradução: Elisa Lopes Ribeiro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 70
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Leste isto tudo?
- Tudo, não. Quantos copos bebeste esta manhã?
- Um.
- Cheiras a dois.
- De acordo. Bebi dois.
- Escuta, querido, tens que deixar de beber de manhã. É o pior que há. Passei a minha vida a ver alcoólicos…
- Alcoólicos é uma palavra desagradável – atalhou ele, passando pelo quarto. – Sinto-me melhor, desde que bebo um pouco mais. Tu própria disseste que me achas mais alegre e com mais apetite. O whisky é uma bebida sã. Não sou só eu a ter esta opinião.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que me resta é regressar à vida, amá-la delicadamente, como os mortos – se os mortos pudessem reviver.

José Fernandes Fafe

PODE ESTAR DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS


O quarto tinha uma cama de dossel confortável e uma mesa antiga – o resto, mobiliário de estilo rústico e uma cozinha pequena equipada. Mas não comemos lá. Deitei-me, ouvi os grilos e os animais pela janela, na escuridão fantasmagórica. Gostei da noite, as coisas crescem à noites. À noite a minha fica ao meu dispor. Todas as minhas ideias preconcebidas das coisas desaparecem. Às vezes anda-se à procura do paraíso nos sítios errados. Às vezes pode estar debaixo dos nossos pés. Ou na nossa cama.

Bob Dylan em Crónicas

RELACIONADOS


A ANTÓNIO SÉRGIO

em quem admiro
- para além de algumas discordâncias e desencontros -
a indelével acção pedagógica,
a claridade intelectual
e o heróico exemplo,

dedico este livro.

(Dedicatória em Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes de António José Saraiva).

OLHAR AS CAPAS


Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes

António José Saraiva
Capa: António Domingues
Colecção Estudos e Documentos
Publicações Europa-América, Lisboa, Dezembro de 1960

Quando os adultos respondem ao inconformismo da juventude repetindo os ensinamentos teóricos que ela sabe melhor do que eles (pois que é justamente em nome desses ensinamentos e para salvaguardar a sua pureza que ela se levanta), colocam-se, evidentemente, numa posição absurda e risível. E quando, pelo contrário, argumentam com as necessidades e limitações na prática, criam uma situação trágica porque estão desmentindo tudo quanto ensinaram. O diálogo entre a juventude e os adultos só teria sentido se uns e outros colaborassem na transformação da realidade social de modo que esta deixe de ser a negação das virtualidades e promessas do jovem. Mas justamente encontramo-nos numa sociedade que condena o jovem a assassinar a sua utopia antes de aceder aos postos onde deveria realizá-la, com ela enterrando a sua própria juventude. O diálogo não é possível, em condições normais, nesse mundo em que os adultos são cadáveres de jovens.

VELHOS RECORTES



O recorte com o título de uma entrevista de Francisco Vale ao Diário de Notícias não é tão velho quanto isso: é de 9 de Agosto.


Velho, nem sequer encontrei a data do jornal, é este recorte de um percurso que o quinzenário JL, um dia, fez de Francisco Vale.

A Relógio d’Água é uma das boas editoras portuguesas que não estão metidas nos grandes grupos editoriais.

Francisco Vale é um homem dos livros que sabe muito bem do que fala.

«A edição de livros é por natureza uma indústria artesanal, descentralizada, improvisada e pessoal; realizam-na melhor pequenos grupos de pessoas com ideias afins, consagrados à sua rate, ciosas da sua autonomia, sensíveis às necessidades dos escritores e aos diversos interesses dos leitores.»

Japson Epstein, co-fundador da The New York Review of Books, citado por Francisco Vale em Autores, Editores e Leitores.

Será polémica a opinião que tem sobre o escritor-pivot-televisivo, mas tem a sua boa dose de razão.

Guilherme de Azevedo, editor da Gradiva, não gostou da opinião e respondeu a Francisco Vale nas colunas do Diário de Notícias. Não mostrou unhas para tocar tal guitarra – há damas difíceis de defender… – e enredou-se em coisinhas marginais.

Francisco Vale respondeu-lhe mas teve o cuidado de avisar os leitores:

«Nota final: à medida que escrevi este texto, fui tendo a desagradável sensação de que não pode ser esclarecedora a discussão com alguém em tão avançado estado de megalomania como GV. Por isso não voltarei a responder-lhe, confiando na inteligência dos leitores.»

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Os meus livros são uma questão de ritmo, que tem muito a ver com a música.
Parece que todas as pessoas morrem com música na cabeça, ouvi dizer um dia. Quando tudo já é distante – espírito, ser, recordação -, fica ainda a música. E quando o ser humano está clinicamente morto, e isto também está provado, ainda existe a música dentro dele.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Logo a seguir ao 25 de Abril apareceu a um filme marado que dava pelo nome: «Você interessa-se pela coisa.»
O interessar-se pelo que quer que seja, é o busílis dos quotidianos do homem.
Se a cada um interessar o futuro do país, da sua cidade, da sua aldeia, não será um qualquer jogo de futebol que impedirá que exerça o seu direito de voto.
Umas cabecinhas pensadoras do governo do Partido Socialista, volta e meia, põem cá fora umas ideias que não lembram, para citar Marcelo, ao careca.
Chatearam-se que a liga de futebol programe jogos para o dia de eleições e, para o futuro, irão legislar de acordo.
Vão também impedir que o cidadão, em dia de eleições, vá à praia, ao cinema, ao teatro, ao jardim, ao centro comercial, ao café?
Portem-se bem e esqueçam o disparate.
Porque, quando nos interessamos pela coisa, não há nada que faça impedir esse interesse.

HARRY DEAN STANTON (1926-2017)


Meia centena de dias depois de Sam Shepard foi a vez de Harry Dean Stanton nos ter deixado.
Esteve aqui, há dias por causa desse extraordinário Paris Texas.
Contava 91 anos.
Com apurada formação musical teve uma carreira cinematográfica em que, qualquer papel, fosse secundário ou principal, o levava a brilhantes interpretações.


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CARTA DE VITOR SILVA TAVARES

22.7.09

                                                     Caro Paulo

Disseste-me que o teu livro não é aquilo a que se pode chamar “um livro de memórias”. Em rigor em rigor, acho que é e não é. Não é, por certo, um livro “jornalístico” (o autor vai ali ao calendário da sua vida e dá notícia) mas é sim senhor, quanto a mim, um mergulho visceral – entenda-se, visceralmente poético, logo interventivo – naquele magma de impressões redivivas, experiências e encontros determinantes, obsessões e traumas que musculam mais que uma vocação – aliás, afirmada . um sentido de e para a vida (pelena).
Encaixa o que tem de encaixar, rejeita o que afinal não passou de acidentes de percurso, necessários embora.
O teu livro, até na sua formulação linguística, nada funcionária, funde-se no complexo da tua obra poética. Não ilumina, não revela, não toca e foge – faz parte.
Surpresa propriamente dita, não a tive. Mas foi-me grato o reencontro com a persona.
                                                        
                                                      Um abraço do teu
                                                                                   VST


Legenda: Paulo da Costa Domingos, Vitor Silva Tavares e Jorge Fallorca na Brasileira do Chiado, Janeiro 2009

OLHAR AS CAPAS


Narrativa

Paulo da Costa Domingos
Carta-Prefácio de Vitor Silva Tavares
Desenho da capa a grafite de Vitor Silva Tavares
Alambique, Lisboa, Maio de 2016

Não esqueço.
Aqueles a quem roubaram o sorriso. Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses; também ramela. Queixumes e câmbios de mazelas e, no fundo, ninguém quer que lhe tirem as doenças. Nada mais possuem. Depois como era!!?... E há os intelectuais: os intelectuais têm muita graça.

domingo, 17 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO




A franqueza entre amigos, é como o sol quente depois da chuva. A amizade aumenta.

Earl Derr Biggers em O Camelo Preto

Legenda: imagem de Tiffany Guarch

À LUZ DE CANDEEIROS


Largo da Luz.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Cada ano lectivo que começa, traz-mos o espectáculo miserável e degradante das praxes.

Este ano, foi distribuído, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, um panfleto nojento a que aquelas cabeças chamaram Manual de Sobrevivência do Caloiro e onde se pode ler:

«O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado. Não é um ser racional. A espécie em questão não goza de qualquer direito, salvo o da existência (até por vezes questionável). O caloiro é assexuado. Deve ser sempre moderado no uso da palavra (zurra, grunhe, bale e relincha só quando lhe é dada permissão). Não é permitido pensar, opinar, gesticular, buzinar, abanar as orelhas ou pôr-se em equilíbrio nas patas anteriores.»

Isto não pode estar a acontecer sem que exista uma intervenção da autoridade universitária e da polícia.

As praxes não podem ter lugar nas escolas e universidades, e se saltam para a rua terão que ser impedidas pela polícia.

Sim, isto é um caso de polícia!

Que raio de futuro está a ser construído com este tipo de gente?!

UMA VERDADE QUE É UNIVERSAL


 A terra ensina-nos muito mais sobre nós do que todos os livros. Porque nos resiste. O homem descobre-se quando se mede com o obstáculo. No entanto, para o atingir, necessita de uma ferramenta. Precisa de uma plaina ou de uma charrua. Na sua lavra, o camponês vai, pouco a pouco, arrancando alguns segredos à natureza, extraindo uma verdade que é universal.

Antoine Saint-Exupéry em A Terra dos Homens

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


O Camelo Preto

Earl Derr Biggers
Tradução: Alfredo Ferreira
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 49
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- O homem que olha para o passado vê os seus erros acumulados – sentenciou Chan
- Mas nunca pensei que Ana fosse perder assim a cabeça. Estas mulheres, inspector…
- São criaturas primitivas, as mulheres.
- Assim parece. Ana sempre foi uma criatura estranha, silenciosa, esquiva. Mas havia um laço entre nós: ambos gostávamos de Denny. Quando ela provou, ontem à noite, que o amava tanto… Bem; não pude resolver-me a traí-la. Preferi entrar em duelo com o senhor. Lutei até ao limite da minha habilidade, e perdi.
Estendeu a mão. Chan apertou-lha.
- Só os mesquinhos são implacáveis na vitória – disse ele.

A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


No dia 25 de Março de 1976 sofre um enfarte de miocárdio.
Ainda vem a Portugal entre 3 e 17 de Maio e de 3 a 20 de Junho de 1977. Neste segundo período, esteve em Coimbra, a 7, na Guarda entre 10 e 11 para as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidade Portugueses, em que discursou, e no Porto, entre 15 e 17 de Junho.
Jorge de Sena adoece, gravemente, no início de 1978, com cancro., vindo a falecer no dia 4 de Junho.

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 5 de Ju8nho de 1978, enviada a Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui me tem, quase sem palavras, só para um abraço emocional, e não só pela perda do Jorge – um dos raros portugueses universais do nosso tempo, que nos morre, como já tive ocasião publicamente – mas também por si.
Disponha de mim para o que necessitar e, quando tiver ocasião, diga-me se o Jorge ainda recebeu a minha última carta quando soube da gravidade da sua doença, pois depois de a ter metido no correio verifiquei que não indiquei o número que se segue a Califórnia.
Grande abraço do seu, afectuosamente

                                                                           Eugénio de Andrade

Carta de Eugénio de Andrade, datada de 9 de Outubro de 1978, para Mécia de Sena:

Querida Mécia:

Aqui vai o poema sobre o Jorge. Quero que V. seja dos primeiros leitores destes versos.
Junte-lhe as saudades e um grande abraço


A JORGE DE SENA, NO CHÃO DA CALIFÓRNIA

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu - concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portugueses
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

                                                                             Agosto de 1978
                                                                    Eugénio de Andrade

sábado, 16 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Continuo lucidamente bêbedo, como de costume. Sabes que a felicidade é, afinal, uma coisa simples? Resume-se em conseguir não ter dores durante cinco minutos... só cinco, já bastam.

Mário-Henrique Leiria

Legenda: Claridade dada pelo tempo, de Mário-Henrique Leiria.

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"Eu compro isto tudo", disse Manuel de Brito, fundador da Galeria 111 e um dos maiores coleccionadores de arte portuguesa do século XX - que é cerne da actividade do centro de arte com o seu nome, no Palácio Anjos, em Algés - quando chegou à porta da casa de Mário- -Henrique Leiria, para onde correu depois de o amigo Carlos Lobo da Cunha o ter avisado que os seus herdeiros estavam a deitar fora tudo o ele que deixou, ao morrer prematuramente, aos 57 anos, em 1980.
Quem nos conta a história é a viúva de Manuel, Maria Arlete Alves da Silva, a propósito da inauguração de O Legado de Mário Henrique Leiria, marcada para quinta-feira, dia 30: "De repente, na minha garagem, estava toda a casa dele - as arcas com trabalhos, os móveis, as travessas e os pratos, três ou quatro mil livros, milhares de revistas e jornais, a correspondência, os quadros, os manifestos surrealistas, os discos, os filmes e as máquinas de filmar, as pastas com desenhos, as peças de barro e cobre, catálogos das exposições e móveis, alguns insólitos, outros desenhados por ele... Parecia que nunca mais acabava."

Rita Bertrand na revista Sábado, Março de 2017

Legenda: Mecanismo da Revolução, 1948, colagem sobre papel de Mário-Henrique Leiria, tirado do catálogo do Legado de Mário Henrique Leiria

OLHAR AS CAPAS



O Legado Mário Henrique Leiria na Colecção Manuel de Brito

Coordenação do catálogo: Maria Arlete Alves da Silva
Texto: António Gonçalves
Capa: imagem da Exposição Surrealista de Lisboa, Janeiro de 1949
Paginação e Arte final: Susana Ferreira
Edição da Câmara Municipal de Oeiras, Fevereiro de 2017


O exemplo prático ao qual temos acesso nesta exposição refere-se à aquisição que Manuel de Brito fez aos familiares de Mário Henrique Leiria, que, após a sua morte, se quiseram desfazer de todo o núcleo de “coisas” que lhe pertenciam. Este  núcleo de “coisas” eram todos os pertence de Mário Henrique Leiria, onde se encontravam obras de sua autoria e de seus pares: manuscritos, entre os quais se encontra a sua correspondência, a sua biblioteca, os seus objetos pessoais, os seus filmes, as suas revistas, alguns móveis e memórias da infância. Ao tomar esta decisão Manuele de Brito vem salvar a memória de um dos nomes relevantes no contexto do surealismoa e da arte nacional – Mário Henrique Leiria.

ESTALOU-LHE A CASTANHA NA BOCA



 23 de Setembro de 1969

Na lista que a União Nacional apresentou no Porto, a Aparece o nome da Agustina Bessa Luís – que nunca me enganou, aliás.
Grande escritora, sem dúvida, embora aproveite tudo o que é fácil para ser uma grande escritora. (Fácil para mim é o lixo da angústia, a diminuição sistemática do homem através de palavras ambíguas, etc.)
Fascista sempre ela foi. Por cálculo conformista, misturado quase paradoxalmente com exibicionismo e retórica. Serve-se das palavras co mo de máscaras.

                                                                     *
Outo nome: o filho de Leonardo Coimbra…
Custa-me a compreender que esse homem, filho do Leonardo, aprove o actual regime da PIDE, a violência para defender os interesses dos Grandes Capitalistas, etc.
As estranhas coisas a que tenho assistido!
Até à traição das árvores às raízes!

24 de Setembro de 1969

Afinal a Agustina Bessa Luís não pode concorrer porque não está recenseada.
O Carlos que encontrei no Monte Carlo:
- Ainda bem! A tipa queria vir passar todos os anos, seis meses a Lisboa e, ainda por cima, receber dinheiro…
Estalou-lhe a castanha na boca.


José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

OLHARES


Não me canso de olhar a passagem do «28» na Rua da Graça.