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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

CASTELO DO BODE

Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.

 

José Mário Silva

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Poemas Com Cinema

Antologia organizada por

Joana Matos Frias

Luís Miguel Queirós

Rosa Maria Martelo

Assírio & Alvim, Lisboa Novembro de 2010


Cinemas King (Sessão Da Meia-Noite)


Deixa passar oito minutos

entra já às escuras, segue

o foco da lâmpada na

escuridão. Observa,

se puderes, o travelling

a reflectir-se, trémulo,

em rostos desconhecidos.

Guarda o bilhete rectangular

no bolso do casaco e senta-te

na primeira fila, para que a

vista arda. Depois respira

fundo. Sabes como funciona:

a verdade (e a mentira) em

24 imagens por segundo.

 

José Mário Silva

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


 

Poesia, Um Dia

Carlos Alberto Machado, Hélia Correia, Jaime Rocha, José Mário Silva, Margarida Vale de Gato,

Miguel-Manso

Colecção AzulCobalto

Companhia das Ilhas, Setembro de 2014

É uma ideia de aldeia, de comunidade, de partilha. Uma ideia que alastrou a uma vila, a um conselho – Vila Velha de Ródão. Começou com uma conversa entre uma bibliotecária e um escritor, corria o ano de 2011: porque não um Encontro de Poetas em Vila Velha de Ródão?

Porque não?

Temos o rio Tejo, barcos, grifos, jardins, comboio. Temos aldeias de xisto, temos museus, lagares, poetas populares. Temos uma população maravilhosa e ávida de cultura. Temos uma biblioteca, uma associação cultural, um grupo de teatro, serras, montes, ribeiros. Temos pessoas  as que gostam de ler e de discutir literatura. Temos boa comida e muitos bolos tradicionais, queijos, enchidos, azeite. Temos sol.

Da apresentação de Jaime Rocha

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 A viagem de hoje, leva-nos ao depoimento do jornalista José Mário Silva, que,  quando se dá o 25 de Abril, tinha dois anos, um mês e 23 dias.

O depoimento foi publicado no «JL». 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

Organização de José Mário Silva
Capa: Gito Lima
Companhia das Letras, Lisboa, Novembro de 2017

Auto Retrato

Eu sou outra em mim mesmo
e sou aquela.

Sou esta
dançando entre as lágrimas

Sou o gozo
no gosto de ser espelho
e me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

Sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

Eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

E se na história desta me confirmo
na vida de outra não me traio

Feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em Maio

Maria Teresa Horta