sábado, 31 de março de 2012

ENCONTREI DE NOITE


Encontrei, de noite, na paragem de um autocarro,
Perdido de pai e mãe, um menino. Como te
Chamas? Literatura. Nome estranho para um
Masculino. Trazia como este nos olhos um susto
Verdadeiro velado por uma ousada fantasia. Via-se
Que a realidade lhe causava muito incómodo. Por exemplo,
Ser noite, estar só, pagar bilhete, ter de saber a direcção,
Sentir fome, estar com frio, respirar tubo de ...escape. Dei-lhe
Minha mão e, através do veneno das trevas, para não o
Perturbar, trouxe-o para viver comigo. Seu nome
Pouco me dizia, mas por seu olhar daria
A própria escrita.


Maria Gabriela Llansol, O Começo De Um Livro É Precioso, Assírio & Alvim, Lisboa Outubro 2003.

SEM REGRESSO


Também nós não voltaremos à mesma casa.

Manuel S. Fonseca

POSTAIS SEM SELO


Um homem não pode esquecer a mãe dos seus filhos, ainda que saiba que nunca mais voltará a vê-la.


Legenda: fofografia de Lisette Model

sexta-feira, 30 de março de 2012

JANELA DO DIA

1.

Quando subia a Rua Garrett, numa altura em que o Corpo de Intervenção (CI) da PSP já recebera ordem para varrer os manifestantes, recorda-se de sentir uma "paulada" na cabeça forte o suficiente para lhe perfurar a pele. "Tenho a certeza de que era um bastão, não tive tempo de olhar para trás, só queria sair dali." O destino haveria de lhe pregar mais uma partida nesse dia. Minutos depois de ser agredido teve de partilhar o transporte para o hospital com um agente da PSP, ferido na face, na sequência do arremesso de uma chávena de café. João rangeu os dentes para se manter em silêncio. "Nunca mais vou olhar para a polícia da mesma forma", garante o técnico, que trabalha com vítimas de violência doméstica.

A VISÃO enviou várias questões para a direção nacional da PSP, na expectativa de que algum responsável da instituição ajudasse a esclarecer o comportamento dos polícias que estiveram de serviço naquele dia. As respostas nunca chegaram.
Vários agentes disseram-nos que não compreendem porque foi ordenado ao CI que avançasse no terreno, sabendo-se de antemão que esta unidade especial funciona habitualmente como um rolo compressor, e está mais habituada a lidar, de forma indiscriminada, com a agressividade dos adeptos das claques de futebol. "Foi como levar um dobermann para uma luta de gatos", refere um elemento do CI, sob anonimato. "Qualquer oficial da PSP sabe que o nosso modo de atuação é sempre mais ruidoso", diz. 

Citado de A Visão, 30 de Março de 2012

2.

O Banco de Portugal, no seu relatório da Primavera diz que vamos assistir em 2013 a uma estagnação da economia e a uma liquidação, entre este ano e 2013, de 207 mil postos de trabalho

Pedro Passos Coelho, hoje, durante o debate quinzenal na Assembleia da República:

O Governo viu as suas previsões contidas no Orçamento do Estado para 2012 ultrapassadas relativamente à matéria do desemprego.

3.

A proposta de lei do Governo que altera o Código do Trabalho foi aprovada na Assembleia da República com os votos da maioria PSD/CDS-PP e com a abstenção da bancada socialista.

Na votação na generalidade, o diploma contou com os votos contra das bancadas do PCP, BE e "Os Verdes", bem como da deputada socialista Isabel Moreira e do deputado democrata-cristão José Ribeiro e Castro.

4.

O maior accionista da Galp, Américo Amorim, disse hoje que se os angolanos da Sonangol quiserem entrar directamente no capital da empresa o podem fazer e que ressalvou que a sua relação com a empresa é amigável.

5.

Segundo os dados publicado pelo Instituto Nacional de Estatística, o estado português perdeu 882 milhões de euros em 2011 com o apoio dado aos bancos portugueses, no contexto do reforço da solvabilidade do sector financeiro.


Legenda: recorte do jornal República de 13 de Maio de 1974.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Enviado de Oman, em 17 de Abril de 2004, pela Angelika e o Hans-Martin.

QUOTIDIANOS

Chegou a passar na televisão um anúncio que, mais ou menos dizia que ainda sou do tempo em que um bilhete de eléctrico custava cinco tostões.
Se não erro nas contas cinco tostões, nos tempos que correm, não chega a meio cêntimo.
Há dias, tendo deixado caducar a mensalidade do passe, paguei 2 euros e oitenta e cinco cêntimos por uma simples viagem de eléctrico do Martim Moniz até Sapadores.

POSTAIS SEM SELO



Costumo ir à Tapadinha ver jogar o Atlético, encontro o Chico Calisto, falamos mal dos treinadores e do preço do bife, na segunda parte já estou um bocado esquecido do desafio – a não ser que o Vinha ameace driblar até à bandeirola de canto – e ponho-me a contar os aviões que baixam para os lados do aeroporto. Tirando isso li o Durkheim, não sou completamente analfabeto.

Fernando Assis Pacheco citado em Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco de Nuno Costa Santos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O LIVREIRO INSOLENTE


Crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

A poesia tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se "ser poeta é" o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a "dizê-lo, cantando, a toda a gente", compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado "país de poetas", um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria "Poesia Incompleta" fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que "poeta".

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário "Changuito" Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como "assustar um notário com um lírio branco", pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.

Legenda: imagem tirada de t41editores

O REINO DA MEDIOCRIDADE


Declaração de interesses: gosto de futebol.

Os meios de comunicação social derem a conhecer ao país que, esta manhã, sua excelência o presidente da república, Aníbal Cavaco Silva, recebeu Mário Figueiredo, uma outra presidencial excelência.

Sei que sua excelência, muito dificilmente, arranja um tempinho para ouvir os representantes dos trabalhadores, ou os dirigentes dos partidos da oposição, mas com o presidente da liga portuguesa de futebol profissional, a coisa foi rápida.

O sr Mário foi dizer ao senhor Aníbal que ele terá de apelar à nação para que esta trate, com a dignidade que lhes é devida, os árbitros do pontapé na bola.

As notícias não dizem se o sr. Figueiredo terá falado da desonestidade, da corrupção, da incompetência dos homens do apito, dos dirigentes dos clubes e demais maltosa, mas ficou o recado expresso: se o povo continuar a cagar na malga, onde come a única alegria que ainda tem, a malta do apito entra em greve.

Nos dramáticos dias que o país vive, esta gente do futebol pensa que é um mundo à parte, um mundo de mediocridade, é certo, mas onde, porventura gostamos de nos rever.

Cinquenta anos de ditadura não ensinaram que, quando só vemos e discutimos futebol, apenas estamos a meter golos na nossa própria baliza.

Volto a invocar a declaração de interesses que deixei no início da prosa, mas apetece-me citar o escritor Mário de Carvalho:

A maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola e meter na cadeia essa pardalada.


Legenda: imagem do Diário de Notícias.

POSTAIS SEM SELO


O país que precisa de um salvador não merece ser salvo.
Legenda: imagem do Público, s/d

quarta-feira, 28 de março de 2012

MILLÔR FERNANDES (1923-2012)


O escritor, cartoonista e humorista brasileiro Millôr Fernandes morreu na noite de terça-feira, aos 88 anos, no seu apartamento, na zona sul do Rio de Janeiro.
 Chamo-me Millôr Fernandes, o que, já não sendo uma novidade, ainda não é uma elegia. Sou um homem de estatura mediana, idade mediana, inteligência mediana, razoável saúde. Nasci no Méier, subúrbio baixa-classe-média do Rio, atravessei socialmente esta cidade, e hoje vivo pegado ao Country Club - mas não se assustem que não sou sócio. Sou magro e tonto, vago e preocupado. Gostaria de ter a beleza física de um Allan Delon, o génio de Sean O'Casey e a inevitável simpatia do Pato Donald, mas como o destino poderia me ter dado a fúria negativa de um Goldwater, contento-me com o que sou.
Só uma coisa me causa mau humor: o mau humor dos outros. Sou considerado comunista por alguns reaccionários e reaccionário por alguns comunistas e todos têm razão pois sou inengajável. Como o revolucionário mexicano, trabalho por conta própria. Eu mesmo faço fogo, eu mesmo grito por socorro, eu mesmo uso o extintor - não tenho salvação. Sou popular por natureza, por mais que me esforce para ser hermético e profundo. A mim, infelizmente, todos me compreendem. o maior de meus orgulhos profissionais é ter sido publicado no almanaque farmacêutico da Saúde da Mulher.
Creio no racional, mas também no amor à primeira vista. Creio numa lógica de ferro, mas também no alógico, no ilógico, no sensorial, no subjectivo, no subliminal. Meu lema é «tem de tudo». São precisos muitos tiques e muitos toques para fazer um mundo.
No escuro não enxergo, não entendo do que não sei, páro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação. Dou um boi para não entrar numa briga. Dou uma boiada para sair dela.
Sou hesitante, tenho, muitas vezes, o temor de desagradar, nem sempre sinto coragem de dizer exactamente o que penso ou tudo que penso, emprego palavras mais suaves do que o criticado mereceria, ou perco a cabeça e uso um padrão de julgamento agressivo e injusto. Sou, em suma, como todo o mundo.
Como quase todo o mundo. Pois há os duros, os verdadeiramente sábios, e há os santos. Nem por brincadeira devemos negar a existência dos privilegiados. Que existem e nos salvarão a todos. Não perguntes por quem os sinos dobram.
Com esta crónica planto aqui uma bandeira que esvoace a todos os ventos da nossa triste e sufocada língua. Minha intenção é falar do circunstancial, do supérfluo, do mínimo, do dispensável. Daquilo em que nós, cariocas, somos excelentes - não a grande retórica mas a miúda conversa do pé de ouvido, se possível ouvido, ai, que nem nos ouça. Vou falar desta cidade que não entendo para esse vasto mundo de que não entendo.
Os que, por acaso, forem um dia atingidos por qualquer pedra minha, que se defendam como os lagos, na beleza indorida dos círculos concêntricos. O que eu houver dito será somente uma opinião, pessoal e duvidosa. Como todo jornalista tenho a esmagadora vantagem de ver minha palavra multiplicada pelo número de exemplares do jornal em que escrevo. Mas é sempre bom lembrar: por mais potenciado que seja o que digo, jamais passará de uma opinião. Assusta-me influir mais do que devo - e mereço.
Estou longe de poder ou querer ser a palmatória do mundo. E isso por um motivo simples: acredito que, por meu comportamento, trabalho, e modo de viver, qualquer um pode-me aceitar, sem muito esforço, como um «homem-de-bem» Mas estou certo também de que, se a minha vida examinada rigidamente, à luz dos códigos, eu pegaria pelo menos trinta anos de cadeia.
E, não sendo hebreu, eu beijo as plantas da mulher de Putifar.
Este texto, Apresentação  (quase) desnecessária, foi retirado de uma Antologia editada, em 2004, pelo semanário O Independente  e organizada por João Pereira Coutinho, com prefácio de José Alberto Braga.
Tem uma epígrafe de Olavo Bilac:
Por ser de minha terra é que sou rico,
Por ser de minha gente é que sou nobre.

UM "NEGÓCIO" SURREAL


Crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

A história trágico-financeira-política do BPN atravessa dois governos e é assustadoramente surreal (ou talvez antes neo-abjeccionista): "nacionalizado" por um Governo PS, isto é, nacionalizadas as suas dívidas, a maior parte resultante de trafulhices, e detido o seu guru-mor, Oliveira Costa, enquanto os demais responsáveis continuam a andar por aí de cabeça despudoradamente erguida e como se não fosse nada com eles, coube a um Governo PSD/CDS "privatizá-lo" de novo.

Os jornais publicaram há dias a notícia de um grupo norte- -americano que se disporia a dar 600 milhões pelo BPN. Parece que, apesar de repetidas tentativas, nunca conseguiu chegar à fala com o Governo. E o Governo, não tendo melhor oferta, acabou por vendê-lo a um banco, o BIC, de Isabel dos Santos, filha de Eduardo dos Santos, e de Américo Amorim, pela módica quantia de 40 milhões de euros.

Entraram, pois, 40 milhões nas contas do Estado? Não: saíram (mais) 600 milhões, pois o Governo PSD/CDS comprometeu-se, para que o BIC fizesse o favor de "comprar" o BPN por 40 milhões, a dar-lhe... 600 milhões. Parece que para o "viabilizar". E ainda a emprestar- -lhe outros 300 milhões a 0% de juros. E a ficar com o encargo de metade dos seus trabalhadores.

Não foi um negócio da China, foi um negócio de pôr os olhos em bico. E, como em negócios assim há sempre um otário, adivinhe o leitor a que bolsos irão parar os seus subsídios de férias e de Natal.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Mais um velho bilhete da CARRIS que estava a fazer de marca num livro que, por mera curiosidade,pode dizer-se que é Notícia da Cidade Silvestre da Lídia Jorge.
Como isto anda tudo ligado, o bilhete serve de pretexto para publicar um poema do Pedro Tamem:

 Transporte Colectivo

Estatelam-se as estátuas; abre-se a morte
como um jacinto novo à chuva da manhã.
Aai, porém, a tarde vai-se ao mais profundo
e cai longe de nós. Agora vem ao Leme
a perfeita figura entretecida de água
e fogo. Agarra-nos de perto e somo dela.

Se alguma janela aberta o incomoda
peça ao condutor que feche.

Agora os ventos calmos; já não correm,
antes poisados velam, interligam
de A a Z o tímpano das coisas.
Descoberta, revela-se a memória:
Se uma janela fechada o incomoda
O Condutor,  pedindo-lhe, abrirá.

Pedro Tamem do livro Poemas a Isto em Tábua das Matérias. 

POSTAIS SEM SELO


A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa.

terça-feira, 27 de março de 2012

ESTAÇÃO


Passam dois minutos da hora.
Estamos a sincronizar os relógios.
Como se o tempo conseguisse
fazer algo por nós. O tempo,
essa probabilidade crescente
de desastre que nos deixa inquietos
com os seus modos excêntricos.
A verdade é que o futuro imediato
é um comboio que saiu agora mesmo
da estação, alguns segundos antes
de razões ou despedidas. «Sinto muito.
A seguir», diz a senhora do guiché,
o cabelo agora branco, a mesma voz
de sempre, habituada a calafrios.
Vítor Nogueira, em Modo Fácil de Copiar Uma Cidade, &ETC, Lisboa, 2011,

MARCADORES DE LIVROS

Ao contrário do que me dizem, entendo que não devo abrir o meu baú e despejar por aqui  tudo o que por lá se acumula.
Enfastiava quem aparece e nem todas as coisas que por lá estão são fáceis de entender. Apenas eu.
Uma das colecções a que me dedico, são marcadores de livros. Marcadores que vêm em livros que compro, marcadores que as livrarias põem à disposição, que os amigos, a família vão trazendo.
Começo com este marcador de livro, e começo muito bem.

POSTAIS SEM SELO


Deverás fazer a tua vida entre os vivos e, quer encontres ventos brandos ou tempestades, descobrir sozinha uma forma de chegar no fim a bom porto.

Fala de Daniel para Lucy em O Fantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicz.

segunda-feira, 26 de março de 2012

JANELA DO DIA


1.

A sétima edição do encontro internacional Literatura em Viagem, que deveria realizar-se entre os dias 21 e 24 de Abril, em Matosinhos, está suspensa e poderá mesmo vir a ser cancelada se até ao final do mês o Governo não regulamentar a Lei 8/2012 (a chamada “lei do compromisso”), que impede as autarquias de assumirem qualquer nova despesa que exceda os fundos disponíveis no curto prazo.

A organização do encontro já tinha assegurado a participação de cerca de meia centenas de escritores de dez países diferentes, entre os quais se contam os franceses Olivier Rolin e Laurent Gaudé, o belga Bernard Quiriny, o norte-americano Philip Graham, a italiana Romana Petri, o sueco Henrik Nilsson, a chinesa Xinran ou os portugueses Paulo Castilho e Maria Teresa Horta. As viagens estavam pré-reservadas, bem como a estada dos autores em Matosinhos, o que não deixará de representar também algum prejuízo para as empresas que iam prestar estes serviços.

2.

O governo decidiu não publicar ou comentar a quantidade de pessoas presentes nas greves e manifestações.

Um lacaio do patronato não concordou e hoje bolsou umas atoardas que os jornalismos ouviram e reproduziram.

Há gente que, quando nasce desprezível, cedo nunca perde o tique:

Numa conferência de imprensa em Lisboa, o secretário geral da UGT garantiu que nenhum dos seus sindicatos aderiu à greve geral da passada quinta-feira e convocada pela CGTP.
Apesar das críticas à outra confederação de sindicatos, Proença disse ter esperanças de que as duas centrais procurem uma unidade de ação futura para prosseguir objetivos comuns.

3.

Cavaco Silva lamentou hoje, profundamente, que dois fotojornalistas, na quinta-feira, no Chiado, tenham sido barbaramente agredidos pela polícia.

Penso que é importante que todos saibamos, que o povo português saiba bem tudo aquilo que aconteceu nos distúrbios que ocorreram no Chiado.

O povo português ficou a saber do que realmente se passou, na Ponte 25 de Abril, era Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro e Dias Loureiro seu ministro da Administração Interna?


Legenda: capa de António Domingues para Borobudur, Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas de Roger Vailland, Prelo Editora, Lisboa 1961

QUOTIDIANOS


Na quase alvorada da Primavera, houve uns tímidos de chuva, que rapidamente se sumiram.

 Os últimos dois meses de Inverno, foram uma quase eterna Primavera.

A Primavera, essa começou há meia de dias e mas o dia de hoje, lembra mais o Verão do que a Primavera.

Da tal falta de chuva, que tanta falta está a faltar nos campos, nem prenúncio.

No cair da tarde aqueles dois velhos ao fundo, sentados num banco do Jardim do Constantino, estavam à conversa.

Qual por eles passei, um dizia:

Nunca ninguém está satisfeito com o que tem!...

HÁ 50 ANOS


Crónica de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje:

Colette Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.

Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.

Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.


Legenda: imagem tirada de Entre As Brumas da Memória

OLHAR AS CAPAS


Poetas de Hoje e de Ontem

Selecção de Maria de Lurdes Varanda e Maria Manuela santos
Prefácio de Matilde Rosa Araújo
Capa e ilustrações: Filipa Canhestro
Escritório Editora, Lisboa, 2011

Poema do Coração

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão

POSTAIS SEM SELO


Debaixo da amendoeira da tua amiga,
Quando a primeira lua de Agosto
Se levantar em cima da casa,
Poderás sonhar, se os deuses sorrirem,
Sonhos de um outro.

Antiga canção chinesa

Epígrafe colocada por Antonio Tabucchi em Sonhos de Sonhos.

Legenda: quadro de Van Gogh

domingo, 25 de março de 2012

ANTONIO TABUCCHI (1943-2012)


O escritor italiano Antonio Tabucchi morreu de cancro, em Lisboa, aos 68 anos. Tabucchi tinha uma longa ligação com Portugal e era considerado um dos nomes maiores da literatura europeia.

Há uma série de motivos que nos podem levar a comprar livros: o autor em si, as capas, um começo, um final, tantas outras, também um título.

Sempre pensei que gostaria de visitar os Açores. Como tantos outros destinos, está arrumado no baú do que há a fazer um dia.

Não conhecia António Tabucchi, um dia, percorrendo livros nos escaparates de livraria encontrei Mulher de Porto Pim.

Fala dos Açores e começa assim:

Tenho uma grande afeição pelos honestos livros de viagens e deles fui sempre um assíduo leitor. Têm a virtude de oferecer um alhures teórico e plausível ao nosso onde imprescindível e maciço. Mas uma elementar lealdade obriga-me a pôr de sobreaviso quem porventura esperasse deste livrinho um diário de viagens, género que pressupõe tempestividade de escrita ou uma memória impermeável à imaginação que a memória produz – qualidade que devido a um parodoxal sentido do real desisti de perseguir. Tendo chegado a uma idade em que me parece mais digno cultivar ilusões do que veleidades, resignei-me ao fado de escrever segundo a minha índole.

Foi a partir daqui que passei a outros livros de Tabucchi.

Gosto de Sonhos de Sonhos e já por aqui andaram citações suas.

Grande admirador e conhecedor de Fernando Pessoa, era amigo íntimo de Alexandre O’ Neill, de quem foi testemunha do seu casamento com Maria Teresa Pinto Basto Gouveia., José Cardos Pires e o realizador Fernando Lopes.

Maria José Oliveira conta, em Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária, o modo como se conheceram:

Provavelmente um pouco antes desta viagem travou conhecimento com um jovem estudante recém-chegado a Lisboa, António Tabucchi, que viria a ser seu amigo chegado, e tradutor da sua poesia. Tabucchi preparava uma tese sobre a poesia surrealista portuguesa e trazia uma carta de apresentação para O’Neill. Foi então visitá-lo e encontrou-o a meio de um jantar, para o qual foi imediatamente convidado: “Queres comer sardinhas decapitadas?”

Nunca percebi muito bem como, mas travou-se de razões com José Saramago.
Pode ser que, por um destes dias, traga o assunto até ao Saramaguando, se bem que o que tenho em dossier não seja muito e o saber quem teve, ou não teve, razão, não fica muito claro.

De uma entrevista ao Público:

Está reformado. Sente-se com mais tempo?

Gosto muito de perder tempo. Acho que é um grande privilégio.

Como é que perde tempo em Lisboa?

Olhando para as coisas, para as pessoas na rua, para a paisagem. A pessoa fica a pensar, a aprender coisas, observa. Pelo gosto de ver, de apanhar a vida alheia, ou de a imaginar. Gosto muito de passar pelo jardim do Príncipe Real, de tomar um cafezinho, de ouvir as conversas dos outros.

VAGUEANDO PELA CIDADE


Lisboa, Avª Elias Garcia.

sábado, 24 de março de 2012

ESTA CIDADE DESPOVOA-SE


Porque  a  recusas,  esta  cidade  despovoa-se,  o granito
torna-se  subitamente  um  resina  pegajosa   e hostil.

As  gaivotas  fogem  para  o  mar  com  gritos  roucos,  um
arrepio  atravessa  as  ruas  como  sinal  de  inverno.

Encontro   as  portas  fechadas  ao  longo  das  paredes; um
curto   circuito  acaba  de  apagar  o  sol,  a lua  vazia  ergue
uma maré  que escava  furiosamente  as  paraias.

O  espaço  minga,  as  folhas  secas  tombam  com  um  riso
grato:  sabem  que  foram  nas  árvores  a última  primavera.

Um coração  está  pousado  no  solo  e  eu  tropeço  na  sua
Derradeira  pulsação. Já  o  vi  algures, creio, antes do medo.

Egito Gonçalves em Luz Vegetal, Limiar, Lda, Porto, Dezembro de 1975

Nota do autor:   Luz Vegetal inclui um ciclo de poemas escrito em um ano: de Setembro de 1971 a Setembro 1972. Este poema enviado para um jornal de província,  foi proibido pela censura.  

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro.

SOPA DE SIDÓNIO


Chaminé da Sopa dos Pobres nos Anjos.
A Sopa dos Pobres também é conhecida como Sopa de Sidónio.

POSTAIS SEM SELO


É americana? perguntou o rapaz do bar.

Ela respondeu: Não! Sou nova-iorquina!


Legenda: imagem de  Manhattan de Woody Allen, 1979

sexta-feira, 23 de março de 2012

A GRAÇA DOS PRAZERES


Prazeres que não de cemitério. Prazer, no outro lado da linha da carreira 28 – a Graça. Gozo da viagem tranquila, compassada, escolhendo horas fora de ponta. Conviver – se possível com a cordial botelha de que falava o outro. Fazer do trajecto uma festa para os olhos que miram a cidade à escala humana, também para o espírito que nela procura encontrar sentido – o lugar humanizado.

Graça do eléctrico que ainda não roubaram ao convívio. Deseje feito de paixão, destas coisas bem alfacinhas, como os corvos nas carvoarias; o balcão das tabernas; algumas mesas de mármore onde se bate com força o dominó; pátios, vilas, escadinhas.

Prazeres, pequenos que sejam, no deixar correr o sentimento no teclado, para dizer ao leitor que o eléctrico é uma das últimas aventuras permitidas no nosso dia-a-dia. A corrida e o salto para o estribo; a suavidade doce do cobre e do latão: o verniz nas madeiras; o que resta de um amarelo-limão a lembrar canários.

Graça, ali tão perto, feminina, namoradeira, deixando-se cair, redonda nos outeiros, para carris de fantasia que a levam às viagens mais loucas dos sentidos. Luzinhas que piscam nos palácios; claraboias a arder; mirantes de outros santos que não vêm no calendário.

Prazeres, leitor, no colorido das aldeias dentro do cinzento da metrópole; a sardinheira na varanda da vizinha: o rinhaunhau do gato no telhado ali defronte; o sapateiro naquele vão de escada; o amolador de tesouras e navalhas, quando chegam as primeiras chuvas.

Graça, em diminutivo, dos prazeres. Não nos tirem esta graça.

Eduardo Guerra Carneiro, crónica no Diário Popular s/d.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A Padaria Portuguesa

Lisboa, Avª João XXI, 9

Um lugar agradável.
Dizem que tem mais de 30 variedades de pão.
Simplesmente, o preço do pão acompanha os padrões da zona, noutros tempos chamavam-lhe Avenidas Novas.
Não há milagres, também não podemos exigir sol na eira e chuva no nabal.
Reduzido que seja o chique, isso tem um preço.
Resta o olhar.

POSTAIS SEM SELO


Se me esqueci dos cães?
Não, não me esqueci dos cães. Nem dos que ladram, nem dos que mordem. Mas é um tema para mais vasta meditação. Não quero de momento perturbar a tonalidade uniformemente ténue, carinhosa, fraternal desta homilia.
Porque nós somos mansos, Mathilde, e o reino dos céus é assim nosso, como vem na Bíblia.

Manuel de Castro em Grifo, Antologia de inéditos, organizada e editada pelos autores, Lisboa Abril 1970.

Legenda: otografia de Jacques Henry Lartigue.

quinta-feira, 22 de março de 2012

JANELA DO DIA


1.

Dois jornalistas, um da agência Lusa e outra da AFP, ficaram hoje feridos em incidentes com as forças policiais, no Chiado, em Lisboa, enquanto recolhiam imagens da manifestação organizada pela Plataforma 15 de Outubro, no âmbito da greve geral convocada pela CGTP.

2.

 O FC Porto pretende que o Ministério da Educação se pronuncie sobre os fascistas do gosto, na sequência de uma queixa contra o ensinamento às crianças de cantigas infantis com saudações ao Benfica numa escola pública da Ericeira.

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o clube portuense condena o proselitismo em escolas públicas, saúda o civismo do pai autor da queixa e critica o género de cantilenas naquele jardim-de-infância público:

Em vez de ensinarem os valores da liberdade de escolha, ou de opinião, preferem ser uma espécie de ‘ayatollahs’ das suas próprias preferências.

3.

O Sporting já solicitou, com carácter de urgência, uma audiência com o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, para apresentar uma série de dados relevantes sobre a arbitragem, com o intuito de que a intervenção governamental seja uma realidade num futuro próximo

OLHARES


Como dizem os alentejanos: o prometido é como jurado
É este o relógio da Rua da Escola Politécnica de que, num comentário, no vaguear pela cidade, se falou.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Duas ou três vezes por mês, havia cinema e jantarada com o meu pai.

Penso que já contei por aqui, quando fomos ao Londres ver A Insustentável Leveza do Ser e, ao fim da primeira vintena de minutos da fita, o meu pai diz:  e se fossemos jantar?

Lembro-me, quando vimos, no Fórum Picoas, do João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela.

 O divertimento foi de tal ordem, que mereceu jantar bem regado no Restaurante Isaura, ali à Avª Paris, a relembrar as loucuras do João.

Er um prazer enorme jantarmos com uma(s) garrafa(s) de tinto pelo meio.

As conversas debruçavam-se pelos mais variados assuntos: livros, política (pouca) filmes, música, futebol.

Gostava de árias de óperas e adquiriu alguns vinis de antologias.

Esta é uma dessas colectâneas

Os CDs nunca o entusiasmaram e recusou-se mesmo  a comprar um CD player.

Preferia os discos de vinil e as cassettes.

Volta e meia comprava CDs, chegava aqui a casa, comia uma sopinha, bebia uma garrafa de tinto Arruda, e dizia: gravava-me isto.

Os CDs ficaram por aqui.

Como este da ópera Dido e Eneias de Frank Purcell.


A acção de Dido e Eneias é baseada na Eneida de Virgílio. Passa-se em Cartago após a chegada de Eneias. Este e os seus homens vêm procurar auxilio depois de terem fugido de Tróia quando destruída pelos gregos.

A viúva Dido, rainha de Cartago, deixou-se encantar pela beleza do jovem troiano, contudo mostra-se relutante em declarar o seu amor. A sua aia, Belinda e a corte, incentivam-na a avançar. Quando Eneias a pede em casamento, Dido aceita.
Entretanto Bruxas malévolas planeiam a desordem. Levantam uma tempestade, e uma delas, disfarçada de Mercúrio, vai relembrar Eneias de que deve continuar o seu caminho para Itália. Para grande satisfação das bruxas Eneias acata as ordens do falso Mercúrio e deixa Cartago. Desolada pela traição de Eneias, Dido despede-se da Vida.

(Sinopse da ópera feito pela Antena 2)

Tinha um enorme gosto por esta obra de Purcell e comovia-se, especialmente, quando ouvia o lamento de Dido,  When I am laid in earth, que considerava uma das mais pungentes árias de ópera

Lembra-te de mim mas esquece o meu destino.

Deixo-vos, agora, com um  pedaço de crónica do António Lobo Antunes

- Será isto?

a responder-me

- Não deve ser isto mas vou continuar

sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso.

- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
insistia ele

- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer

e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

POSTAIS SEM SELO


Houve um tempo em que festejavam o dia dos meus anos, hoje sou eu que os festejo, se assim se pode dizer, é como as carícias sobre o corpo, a mão de um outro vem sempre de uma distância definitivamente perdida no eco das nossas duas mãos, e é uma experiência diferente que nos prende a uma estranheza, e não uma festa triste que se arredonda à nossa volta.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Vol. II, Edições ASA, Abril 1994


Fotografia de Idílio Freire.

quarta-feira, 21 de março de 2012

JANELA DO DIA


1.

O Governo deixou cair definitivamente o projecto do TGV após o Tribunal de Contas ter chumbado a concessão do troço Poceirão-Caia.

A empresa construtora Soares da Costa considera que tem direito a ser ressarcida da despesa de 264 milhões de euros feita no troço Poceirão-Caia.

2.

Mais de 175.000 pessoas aguardavam por uma cirurgia no final do ano passado.

Segundo dados revelados na Comissão Parlamentar de Saúde este número mostra o aumento de 14.000 inscritos por ano.

No final de Outubro do ano passado,1.821.722 utilizadores dos centros de saúde não tinham médico de família.

3.
           
O Estado vai assumir as responsabilidades com os processos judiciais contra o Banco Português de Negócios. Os pedidos de indemnização em curso contra o banco já ultrapassaram os 303 milhões de euros.
Esta transferência para o erário público dos custos ligados a riscos de litígio foi acordada entre o governo e o BIC no âmbito do processo de reprivatização do BPN.

4.

De acordo com a informação mensal publicada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, no final de Fevereiro encontravam-se inscritos nos centros de emprego do Continente e das Regiões Autónomas mais 92471 pessoas do que um ano antes.

Face a Janeiro, o número de desempregados aumentou em 10356 pessoas, mantendo-se assim a tendência de crescimento observada nos últimos meses.

5.

Vivemos no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição para se transformar numa ideologia e numa arma política. A Inquisição e Salazar deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta fatalidade histórica porque há quem limite as nossas forças e liquide as nossas esperanças. Por outro lado, aceitamos este fardo como um anátema. Reagimos escassamente mas não continuamos as acções contra a afronta.

O português comum, que sobrevive asfixiado entre o desemprego, o fisco, a multa, a humilhação, o vexame, a fome, a doença, a miséria, os impostos, as taxas moderadoras, a demolição do amor, o divórcio, a emigração, e outra vez a fome, a doença, a miséria, os impostos, esse português desorientado, desgraçado e triste sem remissão - que pode fazer ele?, que pode? Em cada um de nós reside a resposta sobre o compromisso com a honra e a recusa da servidão e da indignidade.

Da crónica de Baptista-Bastos no Diário de Notícias de hoje.

À CONVERSA...

Perguntaram-lhe:

Se tivesses apenas 24 horas de vida o que é que farias, por ti, ou pelos outros?

Respondeu:

Eu não terei nunca 24 horas de vida antes de marar. Quando muito meia-hora. Em meia-hora faz-se o quê? Nem o pino. Bebe-se um copo, lê-se um poema de Camões, uma redondilha bonita, Bye-Bye

Fernando Assis Pacheco, em Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco de Nuno Costa Santos.

SARAMAGUEANDO


Aos pobres que já existiam, há, agora, a juntar, segundo título de um artigo publicado no Público de 3 de Fevereiro: “Gente como nós” passa a figurar no catálogo dos pobres de Lisboa.

Esta “gente como nós”, podemos traduzir como aqueles que tinham uma vida estável, antes de os bancos os desafiarem para outros tipos de vidas.

A filosofia saloia do se os outros têm, nós também podemos ter.

Agora, a esmagadora maioria dessa “gente como nós”, não pode pagar, as casas, os automóveis, os electrodomésticos, as férias em Cancun que os bancos lhe disseram que podiam ter, bastava o simples click de um empréstimo bancário.

Números de 2010, que especialistas dizem pecarem por defeito, dizem que mais de um quarto dos portugueses estava ameaçadoss de pobreza ou exclusão social.

Juntem-se, impostos pela troika, as medidas de austeridade, o emprego precário, a redução da remuneração do trabalho e, facilmente, podemos sentir que estamos a voltar a tempos que julgaríamos ultrapassados.

Esta situação leva a pegar num texto de José Saramago.

Datado de 4 de Dezembro de 1994, pode ler-se no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote.
Um texto desassombrado de quem nada tem a esconder, que revela o quanto o escritor teve de subir a pulso para enfrentar agruras de vida e trabalho:

Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a beneficente prática que instituíra.
Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos… Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…

POSTAIS SEM SELO


Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira.

terça-feira, 20 de março de 2012

JANELA DO DIA

1.

Foi assim, com as cores garridas da Marimekko, que o Google anunciou, hoje, a chegada da Primavera.

A partir de agora os dias serão maiores.

Ruy Belo, se estivesse por cá, saberia que o Verão, a estação do seu contentamento estaria a caminho.

O tempo das suaves raparigas é junto ao mar.

2.

Melhor negócio do que a saúde só mesmo a indústria do armamento.

Isabel Vaz, presidente executiva da Espírito Santo Saúde.

3.

O presidente da Associação Nacional de Municípios admitiu hoje que a dívida global das autarquias portuguesas possa atingir os 12.000 milhões de euros avançados pelo ministro Miguel Relvas.