Mostrar mensagens com a etiqueta Feira do Livro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Feira do Livro. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A FESTA DO LIVRO


Há quem defenda que a Feira do Livro devia sair do Parque Eduardo VII.

Por causa daquele sobe-e-desce, também pelo vento, pelo sol, pela chuva.

Que a escolha poderia recair num espaço fechado.

Não estou nada de acordo.

Gosto que ela esteja ali.


Pelos jacarandás.


Por aquela nesga de Tejo que, lá do alto se consegue vislumbrar.

Para mim, a única coisa chata que a Feira tem, é essa parvoeira aberrante que as Leyas, as Porto Editora, as Bertrand arranjaram com aqueles condomínios de praças e pracinhas, com seguranças e sensores que apitam por tudo e por nada e levam o cidadão a provar que não gamou nenhum livro. Ao passo que em outras editoras pagamos os livros no próprio stand, com aquela rapaziada temos que ir para uma fila enorme de compradores que quase dá vontade de deixar os livros e zarpar dali para fora.

No topo do texto, o stand da &etc. sem a presença do Vitor Silva Tavares.

É um recordar das muitas conversas que, durante muitas feiras, com ele tive, a fotografia é um clássico que nunca deixo de registar.

A Feira fechou ontem portas.

Como dizia o Francisco  Vale, editor da Relógio d’Água:

«Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

sábado, 1 de junho de 2019

LIVROS E JACARANDÁS


Ainda não fui à Feira do Livro.
Está um calor de ananases, como diria o Eça, e as pernas já não são tão ligeiras.
Quando não existiam as tecnologias, que hoje permitem saber quais os livros do dia que as editoras colocam nos escaparates, passava todos os dias por lá, ou quase todos os dias, em busca dos descontos do livro do dia. Era uma cavalgada que permitia a economia de alguns trocos para outros livros, e havia sempre o perfume dos jacarandás.
Por mim, a Feira nos últimos anos, é mais para vasculhar no stand de descontos de fins de catálogo da Relógio d’Água – já foram melhores, já foram melhores… - e um outro alfarrabista – atenção à Casa Frenesi!  - na eventualidade de um milagre que permita encontrar livros que há muito procuro.
E antes da morte de Vitor Silva Tavares, era o ficar ali, no pavilhão da &etc, a conversar com um maravilhoso contador de histórias, possuidor de uma cultura vastíssima, uma experiência de vida que é uma epopeia.
Desde a sua morte, tiro uma fotografia ao pavilhão e fico a olhar memórias.
Isto de palavras não é saber se o vento as leva, é encontrá-las para valerem no momento em que são necessárias. E nunca as encontro.

Legenda: pavilhão de &etc. na feira do ano passado que, penso, não a cheguei a colocar por aqui.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

REVISÃO DA MATÉRIA DADA


Hoje, começa mais uma Feira do Livro.

 Chega-se a esta minha idade e existem na biblioteca livros comprados e ainda não lidos.

E há sempre o suave ímpeto de comprar mais livros.

A Feira do Livro é, acima de tudo, a lembrança daquela noite, em redor das taças de água do Rossio, em que o meu avô me comprou o primeiro livro de Emílio Salgari. Curiosamente não me inclinei para qualquer Sandokan, ou o Pirata Vermelho, antes Os Pescadores de Pérolas, sei lá bem porquê.

Depois, a pouco e pouco é que vieram os restantes salgaris que, continuo a considerar, na devida idade, um dos melhores estímulos para hábitos de leitura.

Já escrevi:  um dia emprestei a um primo meu – santa ingenuidade!... -  todos os livros que possuía de Emílio Salgari.

Passados uns tempos, quando os quiz de volta, fiquei a saber que tinham sido vendidos que redundaram, se para tanto chegaram, em rebuçados da bola e uma qualquer ida à matinée do Cine-Oriente.

Tenho por aí dois ou três exemplares adquiridos em alfarrabistas a preço baixo.

Um dia, num daqueles alfarrabistas que estacionam, nos sábados, na Rua Anchieta, ao Chiado, pediram-me uma exorbitância por Os Pescadores de Pérolas.

Fiquei a olhar assim um tanto para o surpreendido, mas o livreiro logo atalhou: «É pegar ou largar!».

Não gostei do preço e da fanfarronice e… «larguei.»

A Feira é um gosto muito meu.

Os livros, os jacarandás, o Tejo muito lá ao fundo.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

FEIRA DO LIVRO



Feira do Livro.

Abriu pavilhões a 25 de Maio e fecha-os a 13 de Junho.

Em Lisboa, no Parque Eduardo VII, com jacarandás à vista.

Este ano a Feira conta com 294 pavilhões, mais oito pavilhões que no ano passado.

Apenas a Porto Editora, que o edita, assinalará, com pavilhão próprio, os 20 anos que em Outubro passam sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

A APEL assobiou para o lado.

Como para o lado assobia no que se refere aos voluntários que fazem trabalho nos dias da Feira.

Um larguíssimo grupo de escritores, em abaixo-assinado, denuncia o abuso que é sistematicamente feito com esses trabalhadores:

«Nós, os abaixo-assinados, estamos contra o recrutamento de "voluntários" para trabalhar na Feira do Livro de Lisboa, feito pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).
A APEL recebe das editoras muitos milhares de euros pela presença na feira, além das quotas e de outras subvenções. A APEL tem dinheiro, ou devia ter, para remunerar quem recruta durante a feira.
Para aliciar estes "voluntários", a APEL invoca o contacto com livros e autores. Estar em contacto com livros e autores não é remuneração de ninguém. Aqueles de entre nós que contribuem para que os livros sejam feitos e circulem recusam-se a ser usados como isco.
É bom poder dar tempo e trabalho a quem entendermos, e deles precisa. Não é o caso da APEL. Este abuso sistemático tem de acabar já na feira de 2018. Quem foi recrutado deve ser remunerado.»

Não lembro uma Feira em que a chuva não faça a sua aparição, e nesta ranhosa Primavera que este ano nos calhou em sorte, não tem falhado.

Mas que isso não seja impedimento para ir ao encontro dos livros, das gentes, das farturas, dos fininhos, das bifanas, dos caracóis… dos jacarandás.

A Feira do livro é uma festa.

Enquanto dedilho este palavreado lembro, quando as pernas eram mais ágeis, que não havia dia que não passava por lá em busca dos «Livros do Dia».

Hoje, graças à internet, sabe-se quais são os Livros do Dia que cada editora disponibiliza.

Dizia o Baptista-Bastos: «há coisas na vida de que um homem se arrepende; porém, há uma coisa de que nunca se arrependerá de ter lido livros.»

terça-feira, 27 de junho de 2017

OLHARES


Encontrava-se, então, no Rossio.
A Feira do Livro realizou-se pela primeira vez em 1930, era Salazar ministro das Finanças.
Em 1940 foi para os Restauradores mas  em 1957 regressou ao Rossio.
Mais tarde subiu para a Avenida da Liberdade junto ao Cinema Tivoli.
Em 1996 entenderam fazê-la na Praça do Comércio e na Rua Augusta.
Não sei qual foi a ideia. Quem a teve também não deve saber. Ou então concretizou-a pessimamente.
Em 1980 passou a realizar-se no Parque Eduardo VII que considero o perfeito cenário.
Mesmo que em cada ano que passe, as pernas se queixem com evidente amargura.
Mas… quem corre por gosto não cansa, dizia a minha avó.

A imagem, pertencente ao arquivo do Diário de Notícias, refere a Feira do Livro de 1932.

SAUDADES DE SALGARI


Sempre que, em cada ano, visito a Feira do Livro, lembro o primeiro livro de Emilio Salgari que o meu avô me comprou, dizendo-me para escolher um: Os Pescadores de Pérolas.

Plantava-se, então, a Feira do Livro em redor das taças de água do Rossio.

Lembro-me que custou oito escudos, qualquer coisa como, ao câmbio dos dias de hoje, 0,04 euros.

Em prosa atrás colocada, também disse que só depois vieram os sandokas, os corsários negro e vermelho, o Capitão Morgan, tantos outros.

Como prometera, ficam aqui as capas dos únicos livros de Salgari que possuo, comprados num alfarrabista-vão-de-escada a preço confortável.

Sim, porque os outros alfarrabistas sabem o que vendem e o seu valor.

Outras histórias.

Emílio Salgari nasceu em Verona a 21 de Agosto de 1862.

Não se sabe ao certo quantos livros escreveu. Admite-se que ultrapasse as duas centenas. Em Portugal a João Romano Torres, casa fundada em 1885 com sede na Rua Alexandre Herculano nº 70 a 76, publicou 150.

Pensei até certo momento que esses livros eram o resultado de inúmeras viagens feitas pelo mundo e em que dissertava sobre a fauna e a flora das regiões onde se desenrolava a acção, fosse na Malásia,n o Bornéu, nas Caraíbas e até no Farwest americano.

Mas não!

Em toda a sua vida realizou apenas uma viagem no mar Adriático, na costa oriental italiana, quando frequentou, um curso para capitão da marinha e em que acabou por reprovar.

Os livros, escreveu-os sem sair do seu quarto, servindo-se de relatos e leituras de outros viajantes e aventureiros, enciclopédias, também das leituras de livros de vários autores e toda a sorte de assuntos, sendo o mais recorrente Júlio Verne.

A tudo isso juntava a sua fértil imaginação.

Não resisto à tentação de transcrever o começo de A Noiva do Corsário Negro:

O célebre mar da Caraíbas, açoitado pelo temporal, rugia furiosos, projectando verdadeiras catadupas de água contra os molhes de Porto Limão, costas da Nicarágua e da Costa Rica.
O sol estava no ocaso e as trevas caíam rapidamente como se tivessem pressa de ocultar a tremenda luta travada entre a terra e o céu.
Ainda não chovia, mas não devia tardar e por isso os habitantes se tinham apressado a abandonar as ruas da cidadela e o pequeno porto, refugiando-se nas suas casas.

Também o começo de Sandokan Vence o “Tigre da Índia”:

Na manhã de 20 de Abril de 1857, o faroleiro de Diamind-Harbour assinalava a presença de pequeno veleiro, que devia ter entrado no porto durante a noite, sem auxílio de piloto.
Pelas dimensões das velas assemelhavam-se aos paraus malaios, mas não se viam os balancins para se defender das rajadas, nem a cobertura chamada «attap», que os barcos daquela natureza costumam usar. Além disso, não tinha a popa baixa e, por certo, deslocava três vezes a tonelagem dos paraus ordinários.
Fosse como fosse, era um veleiro lindíssimo, de casco esguio, verdadeiro barco de corrida, que devia ganhar em velocidade a todos os barcos a vapor que então possuía o governo anglo-indiano.


Nenhum dos livros indica o autor das capas.

A tradução de Sandokan é de Leyguarda Ferreira e a do Corsário Negro é de António Vilalva.

 Ambos foram editados em 1958, tinha eu 13 anos, e impressos na Tipografia H. Torres na Rua de S. Bento nº 279-B.

Toda a vida de Emílio Salgari foi composta por enormes carências financeiras, realizando os mais variados sacrifícios para poder sobreviver, bem como sua mulher e os quatro filhos.

Tentou que os diversos editores, que lhe iam publicando os livros, lhe prestassem um qualquer auxílio.

Em vão.

Desesperado, suicidou-se no dia 25 de Abril de 1911. Tinha 49 anos.

Deixou um recado escrito aos crápulas dos editores:

«Aos meus editores: A vós que haveis enriquecido à custa da minha pele, mantendo-me a mim e à minha família numa contínua quase miséria, ou pior, só vos peço que em compensação dos lucros que vos proporcionei tomeis a vosso cargo o meu funeral. Saúdo-vos quebrando a pena.»

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHARES




Ainda a Feira do Livro.
Um jacarandá ainda em flor, o Tejo lá ao fundo e, para que nada falte. um fraldário.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

AINDA A FEIRA DO LIVRO


Chega-se a esta minha idade e existem na biblioteca livros comprados e ainda não lidos.

E há sempre o suave ímpeto de comprar mais livros.

A Feira do Livro é, acima de tudo, a lembrança daquela noite, em redor das taças de água do Rossio, em que o meu avô me comprar o primeiro livro de Emílio salgari. Curiosamente não me inclinei para qualquer Sandokan, ou o Pirata Vermelho, antes Os Pescadores de Pérolas, sei lá bem porquê.

Depois, a pouco e pouco é que vieram os restantes salgaris que, continuo a considerar, na devida idade, um dos melhores estímulos para hábitos de leitura.

Penso que já disse, mas um dia emprestei a um primo meu – santa ingenuidade!... - - toda a minha Colecção Salgari.

Passados uns tempos, quando os quis de volta, fiquei a saber que tinham sido vendidos para angariar tostões para rebuçados da bola e idas às matinés do Cine-Oriente.

Tenho por aí dois ou três exemplares adquiridos em alfarrabistas a preço baixo.

Um dia, num daqueles alfarrabistas que estacionam, nas tardes de sábado, na Rua Anchieta, ao Chiado, pediram-me uma exorbitância por Os Pescadores de Pérolas.

Fiquei a olhar assim um tanto para o surpreendido, mas o livreiro logo atalhou: «É pegar ou largar!».

Não gostei do preço e da fanfarronice e… «larguei.»

A Feira é um gosto muito meu.

Os jacarandás, o Tejo muito lá ao fundo.

Este ano, nos dezoito dias de Feira, venderam-se 400 mil livros e concluíram que quatro em cada cinco visitantes compraram um.

Olhei o que quis olhar, mas o que me ocupa mais tempo são os stands da Relógio d’Água com os seus caixotes com livros dos fundos do catálogo, a bom preço.

Depois o tirar a fotografia ao stand da & etc. onde sei que nunca mais encontrarei o Vitor Silva Tavares.

E as saudades que me saltam aos molhos enquanto caminho para casa.

domingo, 18 de junho de 2017

V.S.T. & ETC


Feira do Livro.
Já sabia que quando passasse pelo pavilhão da & etc., voltaria a não encontrar o Vitor Silva Tavares.

sábado, 3 de junho de 2017

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A Feira do Livro abriu no dia 1 e encerrará no dia 18 de Junho.
Como escreveu a Maria do Rosário Pedreira:

«  O tempo foge e os livros estão à espera.»

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A FESTA DOS LIVROS


Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, no seu livro Autores, Editores e Leitores, escreve:

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

Ainda há livros, e tenho a firme convicção que, apesar de tudo o que tem por aí aparecido, os livros sempre existirão.

Ontem, li no Diário de Notícias, que os editores estão preocupados com o festival de comes e bebes que se vai realizar durante a Feira do Livro.

Compreendo os editores, mas não vejo os motivos da preocupação.

Quem vai aos livros pode pelo meio beber um fininho, comer uma fartura ou um pratinho de caracóis.

Quem for só pelos comes e bebes – e não estou a ver que isso aconteça… - também pode passar por um stand e trazer um livro.

Vai-se a um jogo de futebol e também se vai à bifana e aos couratos.

Tudo pode estar ligado, já dizia o velho.

domingo, 12 de junho de 2016

V.S.T. & ETC


Feira do Livro.

Eu sabia que quando passasse pelo pavilhão da & etc. na Feira do Livro, não iria encontrar o Vitor Silva Tavares.

O ano passado, nas duas vezes que por lá passei, também não o encontrei, mas aí sabia que era apenas um desencontro e bastava descer ao subterrâneo da Rua da Emenda para o ouvir, brilhante contador de histórias que ele era.

Mas agora, a situação é irremediável.

O Vitor deixou-nos, ia Setembro passado pelo meio.

Olho o pavilhão e apenas acontecem memórias fugidias de um homem que, como ninguém, amava os livros.

E que tenho imensa pena de não mais ouvir, de deixar de saber a sua alegria de menino quando punha um livro nos escaparates.

No pavilhão da Quetzal, folheio o último livro de Patti Smith, saído no mês passado, e em lista de espera para ser comprado.

Como sempre, leio o começo do livro.

Sinto um arrepio: o livro segue o acordês.

A minha vontade é deixá-lo por ali.

Mas Patti Smith é um chamamento, e o meu inglês-de-cais-do-sodré não dá para ler o original.

Mal digo as brilhantes mentes que pariram semelhante atrocidade, e levo o livro para casa.

sábado, 11 de junho de 2016

OLHARES


Feira do Livro.

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas dna Feira do Livro de Lisboa com um«até para o ano, se ainda houver livros».
A frase era irónica. numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos écrans e desabituada de livros.
Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da da edição electrónica revelavam-se apressadas.

Fernando Vale, editor da Relógio D'Água.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

FEIRA DO LIVRO 2016


A Festa começa no dia 26 e prolonga-se até 13 de Junho, dia de Santo António.

Fica aqui um velho texto.

Guardei-o mas, por lapso, não tem indicação do autor nem a sua origem.

Talvez Fernando Assis Pacheco, mas não  é mais do que um palpite.

Feira do Livro.
Pratique então você, sozinho e em segredo, a sua subversão. Faça uso do seu tempo, respire fundo, atenda aos seus sentidos, deixe-se apaixonar, ao toque, ao cheiro, por algum livro antigo, manchado por bolores de anónimos invernos. Oculto, disfarçado como um tesouro celta, enigmático e no entanto familiar, está aquele livro que você sempre quis ler ou perdeu em criança e vai encontrar por escolha sua.
Vá-o abrindo devagar, desfrute-o como um ser único que lentamente se desvenda e oferece sucessivas camadas de beleza. Confunda-se com ele, risque, comente, assinale-lhe no corpo o seu percurso. Use-o, gaste-o, comece-o outra vez. Será este um prazer de nossos avoengos a quem a vista de um tornozelo de mulher proporcionava excitações inconcebíveis e a posse de um livro, só por si, legitimava orgulhos genealógicos.
Boa Feira e bons encontros.

domingo, 14 de junho de 2015

PARA O ANO HÁ MAIS


A Feira do Livro está prestes a encerrar portas.
Para além do Rossio, a Feira do Livro já passou por outros lugares emblemáticos da cidade como o Rossio, a Rua Augusta, a Praça do Comércio e a Avenida da Liberdade.
Já há vários anos que está estabelecida no Parque Eduardo VII e parece-me ser o melhor local para sua realização.
No ano em que esteve na Rua Augusta e na Praça do Comércio foi um autêntico desastre
A primeira vez que me lembro de percorrer a Feira do Livro teria 13 anos e foi no Rossio.
Fui com o meu avô e lembro-me como se fosse hoje: no pavilhão da Romano Torres comprou-me Os Pescadores de Pérolas de Emílio Salgari.
Lamentavelmente perdi esse livro.
Há uns anos, juntamente com outros livros de Salgari, encontrava-se à venda naqueles alfarrabistas que, aos sábados, montam escaparate na Rua Anchieta, ao Chiado.
Pediram-me seis mil escudos e disse, de mim para mim, que o alfarrabista faria melhor ir para a estrada. Há gente que não se limita a ganhar dinheiro, preferem roubar.
Deixei o livro, desandei, e ainda o ouvi dizer que me fazia cinco mil escudos.
Continuava a ser um roubo e um preço demasiado elevado para satisfazer o meu sentimentalismo.
Talvez um dia o volte a encontrar a um preço mais acessível.
Até hoje não voltou a acontecer. 

sábado, 30 de maio de 2015

OLHARES


Feira do Livro, Lisboa, Junho 2014.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Palavras dos Outros

Baptista-Bastos
Colecção Prisma nº 12
Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1969

A Feira dos tempos em que éramos rapazes, nunca mais. Mas há outras Feiras e outros rapazes, rapazes que, como muitos de nós, aprenderam na Feira a amar os livros, de quem a Feira fez leitores em potência, a decorar nomes e títulos e faces e palavras e sonhos. E sonhos sonhados por outros homens escritos por outros homens em frases que se encontram agora expostas na rua.

LIVROS NO PARQUE


A Feira do Livro abriu, há pouco, os taipais dos quiosques.
A festa prolonga-se até ao dia 14 de Junho.
Vá ver os livros, os jacarandás, ouvir a passarada a soltar trinados, tome uma bebida fresca, sente-se num banco a ver as gentes e a passar os olhos pelos catálogos e talvez se surpreenda ao encontrar o  livro que há muito procura, por num ápice ter saído dos escaparate das livrarias.

Boa Feira, bons encontros.

domingo, 2 de junho de 2013

DOMINGO NO PARQUE


Sempre entendi a Feira do Livro como uma festa.


Também oportunidade para encontrar, a bons preços, livros que já temos dificuldade em encontrar nas livrarias, por motivos que só estão ao alcance do oportunismo de editores e livreiros.

Chamam-lhes fundos de catálogo, ou lá o que é.

Neste aspecto a Relógio d’Agua, mais uma vez, dá uma banhada à concorrência.

Facilmente manuseados em caixas que mostram os respectivos preços, estão ali grandes livros, grandes autores, por preços que vão dos 3 aos 10 euros.

Sou rapaz de livros e petiscos
.

Este ano a mistura é abrangente e espalhada ao longo de todo o recinto: farturas, churros, bifanas, cachorros, caracóis, gelados, cafés, ginjinha.



Espanto-me como ainda não chegaram as roulottes de sandes de coiratos.

Dêem-lhes tempo…

Como dizia: o poeta: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Feira do Livro.

Um encontro de cheiros, sejam eles dos petiscos, dos próprios livros – sempre gostei de cheirar os livros – das flores e árvores do parque, a despedida, por este ano, dos jacarandás, um deles apanhado em pleno gozo de sol e que encima o texto.


Experimente comprar um livro e vá folheá-lo para uma das esplanadas que a feira oferece e que, resumidamente, se espraiam por aqui.


Neste ano, a Feira regista a presença de 480 editores espalhados por 240 pavilhões. Milhares e milhares de livros que, em grande parte, não sei a que públicos se destinam, mas editam-se.

Nada melhor para encerrar o dia, que reler um velho texto que, suponho seja do Fernando Assis Pacheco:


Feira do Livro.

Pratique então você, sozinho e em segredo, a sua subversão. Faça uso do seu tempo, respire fundo, atenda aos seus sentidos, deixe-se apaixonar, ao toque, ao cheiro, por algum livro antigo, manchado por bolores de anónimos invernos. Oculto, disfarçado como um tesouro celta, enigmático e no entanto familiar, está aquele livro que você sempre quis ler ou perdeu em criança e vai encontrar por escolha sua.

Vá-o abrindo devagar, desfrute-o como um ser único que lentamente se desvenda e oferece sucessivas camadas de beleza. Confunda-se com ele, risque, comente, assinale-lhe no corpo o seu percurso. Use-o, gaste-o, comece-o outra vez. Será este um prazer de nossos avoengos a quem a vista de um tornozelo de mulher proporcionava excitações inconcebíveis e a posse de um livro, só por si, legitimava orgulhos genealógicos.

Boa Feira e bons encontros.

domingo, 13 de maio de 2012

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


No Parque Eduardo VII, em Lisboa  a Feira do Livro encerra hoje  as suas portas.

Os tempos são de crise, os cêntimos contados para o dia-a-dia, talvez não permitam a aventura de comprar livros.

Hölderlin, citado por Hélia Correia:

Para que servem os poetas em tempos de indigência?

Talvez…

Se por acaso sobrar qualquer cêntimo, dêem um salto à Feira, aproveitem o desconto, e levem para casa O Teu Rosto Será o Último de João Ricardo Pedro que, recentemente venceu o prémio literário atribuído pela Leya.

Talvez encontrem nele algo que lhes permita dar a volta à pergunta de Hölderlin.

E como isto anda tudo ligado chama-se para aqui o texto que, na apresentação do prémio, Manuel Alegre leu e a que chamou Uma vitória do Talento contra o desalento e a crise:

A presença do Senhor Primeiro Ministro nesta cerimónia vem realçar o significado do Prémio Leya, este ano atribuído ao escritor português João Ricardo Pedro, pelo seu romance “O Teu Rosto Será o Último”. Numa hora de crise, em que há uma visão redutora da vida e a própria linguagem está invadida pela economia, pela dívida e pelos números, apetece lembrar o que, em outro difícil contexto, disse José Régio: “Há mais mundos”. Sim, há mais mundos. Nomeadamente o grande mundo da língua portuguesa.
Creio que, para além da retórica, existe a compreensão de que a língua portuguesa, a terceira da Europa Ocidental mais falada no mundo, é a nossa principal riqueza e o nosso principal instrumento de afirmação como país. Não só no plano cultural, mas também no plano político, no plano económico e, sobretudo, parafraseando Miguel Torga, “como traço de união” entre povos e continentes.
Na era da globalização, em que há uma tendência para a uniformização cultural e até linguística, é um privilégio podermos falar e escrever nesta língua da “lusitana antiga liberdade”, que é também a língua em que, primeiro o Brasil e depois Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor proclamaram a sua independência e posteriormente escolheram como língua oficial. Língua de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Agostinho Neto, Pepetela, José Craveirinha, Mia Couto, Alda Espírito Santo, Arménio Vieira e Xanana Gusmão.
Nesta hora de crise e perplexidade no mundo, é preciso compreender que não é possível dizer-se como no passado se dizia: “em português nos desentendemos”. Não. Este é tempo de em português nos entendermos com todos os povos e estados que partilham os mesmos vocábulos e a música incomparável da mesma língua.
Creio que é este o significado que tem o Prémio Leya, cujo objectivo é revelar e divulgar novos autores que se exprimem na língua portuguesa.
Um prémio diferente, não só por ser o de mais alto valor pecuniário, mas pela sua própria natureza. Em primeiro lugar a composição do júri a que me honro de presidir e de que fazem parte escritores, poetas, críticos literários e professores universitários de países de língua oficial portuguesa: o escritor e crítico literário brasileiro José Castello, a Professora Doutora Rita Chaves da Universidade de São Paulo, o escritor Pepetela de Angola, o Professor Doutor Lourenço do Rosário Reitor da Universidade de Moçambique, o poeta, escritor e ensaísta Professor Doutor Nuno Júdice da Universidade Nova de Lisboa e o Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira da Faculdade de Letras de Coimbra.
Mas sobretudo pelo facto de ao Prémio Leya concorrerem autores de todos os países de expressão portuguesa.
É além disso um concurso em que não há interferências. Ninguém sabe quem é quem. Os originais chegam sem rosto e sem nome, apenas com pseudónimo. Não é um prémio político nem de qualquer espécie de compadrio. Vence quem tem a maioria ou a unanimidade dos votos do júri, sem que os seus membros saibam em quem estão a votar. Confesso que há um momento de certa magia: aquele em que o representante da Leya, Dr. João Amaral, entrega ao presidente do júri o envelope que contém a identidade correspondente ao pseudónimo do vencedor. Já por três vezes vivi esse momento. Não esqueço a emoção dos que recebem a notícia do outro lado do telefone. Mas talvez nunca como quando comuniquei a João Ricardo Pedro que era ele o vencedor. “Agora é que me vai dar uma coisa” disse ele. Nunca como então o Prémio Leya teve tanto sentido e um tão profundo significado. Eu estava a telefonar a um jovem engenheiro desempregado, casado e pai de dois filhos, e que, no mesmo dia em que ficou sem trabalho, resolveu sentar-se ao computador para começar a escrever. Deu a volta ao destino e compôs um notável romance.
Foi uma vitória do talento contra o desalento e a crise e foi uma vitória da língua contra o silêncio e a adversidade. A história de Duarte, personagem principal do romance, é, ao fim e ao cabo, a de uma geração cujos pais foram à guerra, viveram o 25 de Abril, tiveram sonhos, assistiram à queda do muro, ao desmoronar de utopias e ao início de uma nova era de incerteza e insegurança. É o país recente e de agora que perpassa nas páginas deste belíssimo romance. Composição de histórias autónomas, que se traçam em fios secretos, “O Teu Rosto Será o Último” é um romance apoiado em imagens fortes que nos dá um perturbador painel do presente português. Nenhum leitor ficará indiferente à sua linguagem marcada pelo lirismo e pela violência do quotidiano.
Sou daqueles que pensam que a crise que estamos a viver é muito mais do que uma crise financeira, é sobretudo uma crise moral e cultural. E que há um défice de valores espirituais e humanistas. Octávio Paz, Prémio Nobel de Literatura, dizia que todas as grandes crises são sempre crises de civilização. E Rob Riemen, quer nos seus escritos, quer em recentes entrevistas, sublinha a importância da leitura e proclama que o primeiro combate é contra a estupidez e contra a ignorância.
João Ricardo Pedro mostra que mesmo numa situação de desamparo é possível encontrar caminhos novos. E que um desses caminhos passa pela criação, pela arte, pela cultura. Tal como em outras épocas difíceis, o mundo volta a precisar dos filósofos, dos escritores e dos poetas.
Contra a crise, atrevo-me a recomendar aos políticos, tanto aos do governo como aos das oposições: ler todos os dias um poema e algumas páginas de um bom romance como o de João Ricardo Pedro. Faz bem à saúde e ao espírito. E até à política.