Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.
Jorge
Luís Borges
Hei-de
lá ir pelos jacarandás, pela frescura que a noite traz, mas este Maio está a ser
terrível com um calor de ananases.
E
pelos livros também lá irei, claro!
Recordando Francisco Vale, editor da Relógio d’Água:
Este
ano realizou a 8ª edição da Feira do Livro no Palácio de Belém.
Esteve
para ser realizada nos dias de 4 a 7 de Setembro, mas a tragédia do Elevador da
Glória, levou ao seu cancelamento e foi marcada para esta semana 25 a 28 de
Setembro.
Faltei
às anteriores edições, por isto e por aquilo, o tempo decorrido não permite à
metade do meu cérebro que ainda não está em branco, lembrar os porquês.
Este
ano não faltaria mesmo, quem gosta de livros como eu, não deixaria de ir até
Belém, inclusive, no final da visita, entrar nas longas filas, ali ao lado,
para comer um Pastel de Belém.
Mas
os deuses não quiseram nada com a cultura, e a Gabrielle resolveu estragar
tudo.
Hoje,
ainda olhei o tempo lá, li que são
permitidos os guarda-chuvas, mas não vi boas possibilidades, olhar, folhear
livros debaixo de chuva e vento não é nada agradável!...
Os
enormes lamentos, melancólicos e tristes, ficam comigo.
Contudo,
Luís Marque Mendes, candidato à presidência , com um largo sorriso, disse aos
jornalistas, que se for eleito presidente, manterá a organização da Festa do
Livro nos jardins do Palácio de Belém.
Marques Mendes, por motivos óbvios, não é o meu candidato, mas se ele for à 2ª volta das eleições, contará, qual novo sapo a engolir, com o meu voto…
O TEJO GLAUCO
A FECHAR AS VISTAS
«Gosto de melros, os espertotes,
ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas
de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e pombalhões
abafa-espaços, se duma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.
Ainda assim, aparecem uns tantos na feira do livro, a lavrar no parque.
Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em
superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste
Clément, ele é o Junqueiro…
Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de
encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros
de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva
de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo
glauco a fechar as vistas.
Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê
de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta
extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar
estar».
Mário de
Carvalho e, “Os
Livros no Parque”, Lisboa Maio 2004
(Texto publicado
em 12 de Maio de 2011.)
UM ENCANTO DE COISA MEDIEVAL
«Temo às vezes que as árvores não
pensem bem dos livros, que neles se vejam mortas. Depois lembro que os próprios
seres humanos se consolam, prevendo as flores que hão-de nascer das suas
cinzas. Posso então concluir tranquilamente que, quando as duas criações,
plantas e escrita, ocupam um só espaço, isso se faz em pleno assentimento e
harmonia.
Mesmo a palavra «feira» retoma o seu encanto de coisa medieval, desprotegida.
Com mais um bocadinho de liberdade, existiriam cestos e pregões. As pessoas
retomam os passeios do fim de tarde, como os há nos livros de Eça. E parece que
saem desses livros. Se não ouvimos já o roçagar das vestes femininas pelo chão,
podemos, no entanto, conhecer, por uma vez, esse rumor de gente, a exclamação
de encontros inesperados. Será mesmo provável que as crianças se sujem ao
rolarem sobre as ervas o que, para os lisboetas, começou a tornar-se difícil e
precioso. O calor puxa os cheiros vegetais. E até a minha chuva, a mal amada,
desce para criar simulacros de perigo, e as pessoas defendem as cabeças com os
sacos das compras que fizeram. Deve-se isto à feliz inexistência de tectos e
paredes. E não é uma dívida pequena.
A argumentação que mão me interessa, a da centralidade do lugar e do maior
sucesso nos negócios, que a façam os peritos, os que vendem. Tendo eu, como a
Lou Andreas-Salomé, dificuldade em distinguir livros de flores, sinto-me bem
nesse lugar comum. O que vai ler caminha no jardim, o que vai caminhar passa
entre livros.
Há uma ausência de especialização que vive aqui os últimos momentos e que
queria durar um pouco mais.»
Hélia Correia
em “Os
Livros no Parque” Lisboa Maio 2004
(Texto publicado em 13 de Maio de 2011)
A Feira do Livro, para mim, é sempre uma festa, mas
gostava mais dela quando acontecia em finais de Maio, princípios de Junho.
Porque, por esses dias, os jacarandás estão lindíssimos.
O Jorge Sila Melo também só gostava da Feira do Livro em
Maio:
«Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»
Texto publicado
no dia 10 de Maio de 2022
Terá dez novas barracas e os horários de segunda a quinta serão das 12h às
22h; às sextas e vésperas de feriado o fecho será às 23horas, aos sábados das
10h às 23horas; e aos domingos e feriados das 10h às 22,00 horas.
Recordo-me que já na edição do passado ano tive algumas dificuldades nos
caminhos de subida e este ano, como mais barracas, acontecerão as mesmas
dificuldades e, provavelmente, mais algumas.
Que seja tudo pelo amor dos
livros, do cheiro dos jacarandás, do voo dos melros, dos pardais, de todas as
magias que nos caem, vindas não se sabe de onde, ao longo dos passeios que em
cada dia fazemos em tempo de Feira.
Agora estão todos na Internet.
A Feira este ano apresentava
340 pavilhões em representação de 981 chancelas editoriais.
Se 61% dos portugueses, num ano, não leem um único livro, interrogo-me quem são os leitores da esmagadora dos livros que se publicam em Portugal, dos mais diversos temas, religiões e sei lá mais o quê.
As minhas pernas já não conseguem percorrer aqueles extensos corredores que são a Feira do Livro no Parque Eduardo VII. Vou-me socorrendo do mapa da APEL e, por atalhos, vou direito aos pavilhões onde quero encontrar os livros que procuro.
Como agora dedico-me
mais a releituras do que palmilhar livros de gente nova e outros escritores que
não conheço sequer de nome.
Há livros, autores que vou tendo dificuldade em ler, arrasto-me pelas páginas.
Humildemente, ponho
sempre as culpas em mim.
Mas terei sempre que
ir à Feira. Noutras feiras para tirar a fotografia ao pavilhão da & Etc.,
mas a Letra Livre já não lhe dá boleia porque a & Etc. acabou mesmo, uma
das mais interessantes aventuras editoriais, comandada pelo Vitor Silva
Tavares, mas vou sempre pela vista com o Tejo ao longe e pelos jacarandás.
Gosto das editoras que ainda guardam a possibilidade de pagar o livro no acto da sua compra. Odeio quando terei que ir para a bicha das editoras que estão colocadas nas aglomerações dos grupos editoriais. Aconteceu-me com o livrinho da Assírio & Alvim. Encontrei-o facilmente no pavilhão mas depois fiquei à espera uns 10/15 minutos para o poder pagar.
Nada a fazer: vou ficando velho e rezingão!
Hoje, que a Feira do Livro abre as suas portas, fui
buscar o 1º volume dos Cadernos de Lanzarote,
entrada do dia 4 de Junho de 1993.
A imagem que acompanha o texto mostra os jacarandás
das muitas fotografias que lhes tiro sempre que vou à Feira:
Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente ao saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas ousadias, pelo contrário, falo do que de mim leu com à-vontade e discernimento. Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente, com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: «Tinha-os todos, mas ficaram na outra casa.» Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga, pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…
Já lá devia ter ido.
Não fosse a
fotografia que todos os anos tiro ao pavilhão da & ETC, lembrando as
conversas que então tinha com o Vitor Silva Tavares, não iria lá.
A fotografia acima é
do Luís Eme no Largo da Memória e faz-me pensar o pior.
Também deixou estas
palavras:
«Voltei à Feira do Livro e estranhei-a, mais do que nunca.
Sei que o problema deve ser meu, por ser de outro tempo (e querer ficar por lá...), em que os livros não se vendiam em supermercados nem eram produzidos e vendidos como se fossem apenas mais um acessório para as nossas vidas, como um perfume, um vestido ou um casaco.
Acredito que se batam recordes de tudo, tanto no número de editoras presentes (há várias de que nunca tinha ouvido falar, das tais que podiam muito bem estar ali a vender "batatas" em vez de "livros"...) como nas vendas. Nas praças dos dois grandes grupos editoriais, formavam-se filas para se pagar. O que até se compreende, pois conseguiram meter no bolso as editoras mais interessantes e com melhores livros e autores deste nosso pequeno país...
Mas também sei o quanto devem ser importantes para toda a gente que
vive (ou finge viver...) dos livros. Como fui a um dia de semana, não encontrei
escritores à espera de leitores e a assinar os seus nomes na folha de rosto dos
livros que escreveram, mesmo que pensassem que estariam bem melhor deitados
numa praia sossegada que naquela "costa de caparica" dos livros. Mas
este é um dos "fados" de quem escreve livros...
Mas quando percebem, é quase sempre tarde demais. Afinal não são bem
escritores, apenas pagaram a impressão de um livro com as suas palavras...»
A APEL informou, «com entusiasmo», que a Feira do Livro
deste ano realiza-se de 25 de Agosto a 11 de Setembro no Parque Eduardo VII.
A Feira do Livro,
para mim, é sempre uma festa, mas gostava mais dela quando acontecia em finais
de Maio, princípios de Junho.
Porque, por esses
dias, os jacarandás estão lindíssimos.
O Jorge Sila Melo também só gostava da Feira do Livro em Maio:
«Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII.»
Estas são as recordações da Maria do Rosário Pedreira em crónica publicada no Mensagem de Lisboa:
«Enquanto
decorre mais uma Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII – a 91.ª, se
não estou em erro –, olho para trás e sinto-me velha. Da primeira vez que fui à
Feira do Livro sem um adulto por perto, e com carta-branca para comprar o que
quisesse (dentro de um determinado orçamento, bem entendido), devia ter uns
catorze anos e usar meias pelo joelho.
Nesse
tempo, a feira estava instalada ao longo da Avenida da Liberdade, aproveitando
a sombra das suas árvores frondosas; e, às horas de menos clientela, quem estava
sem fazer nada nos pavilhões também não podia deitar o olho às montras das
boutiques caras, pela simples razão de que a alta costura, bem como os turistas
endinheirados e os novos-ricos, ainda não tinham chegado a estas bandas.
Lembro-me
de que planeara comprar os Contos da Montanha, de Miguel Torga
(«Mariana» é dos meus contos favoritos até hoje); e, por influência de uma
colega, que sabia que eu gostava de poesia, Pelo Sonho É Que
Vamos, de Sebastião da Gama, que ainda conservo naquela edição bonita e
limpinha da Ática. E recordo-me de que, não sabendo na altura quem publicava
esses livros, me bastou perguntar num stand qualquer (não era,
note-se, um balcão de informações) para logo um senhor muito solícito me
informar, a mim e à colega que me acompanhava, em que barraquinhas (com número
e tudo!) podíamos encontrar o que procurávamos.
Claro
que hoje o computador da APEL faz o mesmo serviço; e claro que hoje o mercado é
dez vezes maior, o que explica muita coisa. Mas a verdade é que quem vendia na
Feira do Livro de Lisboa na Avenida era gente que percebia da poda, geralmente
funcionários de livrarias que conheciam exaustivamente os catálogos das
editoras e que tão depressa eram capazes de indicar onde se podiam comprar os
livros de José Hermano Saraiva aos cavalheiros interessados em saber um pouco
mais da história do país como A Mulher na Sala e na Cozinha, de Laura
Santos, às raparigas casadoiras.
Sabiam
quais eram as editoras de Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira, Camilo ou
Eça, mas também (sou testemunha!) de um livro que ensinava a fazer kefir, numa
altura em que nem os iogurtes eram correntes em Portugal. A uma mulher popular,
de bata florida e avental, que uma vez perguntou ao meu lado num pavilhão se
tinham «algum livro que explicasse como se deitavam os canários», o vendedor,
sem desfazer o ar de surpresa, indicou imediatamente duas ou três editoras com
livros sobre a reprodução de aves.
Quando
escolhi a edição como modo de vida, vendi «atrás do balcão» na Feira do Livro,
já no Parque Eduardo VII, uma dúzia de anos, a ouvir perguntas e comentários, a
aconselhar e esclarecer, a topar os larápios e pedir-lhes os livros roubados de
volta, a aprender com leitores interessantes e interessados, e até a aturar
esquisitinhos com um vinco numa lombada, que precisavam de ver dez exemplares
do mesmo título até decidirem o que queriam levar.
Hoje
lamento ter desaparecido esta relação com os leitores, que era humana,
empática, próxima, cúmplice, e que foi substituída por um sistema impessoal em
que o cliente entra no pavilhão, escolhe, mete no cesto e paga na caixa, como
num supermercado, por vezes sem se cruzar com ninguém; ou então quem está
dentro do pavilhão pouco percebe dos livros que tem à sua guarda, muito menos
dos da concorrência, para poder responder às dúvidas dos fregueses…
O
barulho das luzes, os cartazes XPTO, a música de feira, a bonecada toda, podem
ser muito giros para quem sobe o parque com os jacarandás em flor e olha os
livros à direita e à esquerda. Mas os antigos profissionais que sabiam tudo
extinguiram-se: aqui há uns anos, o locutor de serviço à feira conseguiu dizer
que, no stand da Livros do Brasil, o Livro do Dia era «Os
Maias, de Camilo Castelo Branco». E, tendo-se ouvido um burburinho de
espanto subindo o parque como um rastilho prestes a explodir numa gargalhada
colectiva, o locutor voltou ao microfone para dizer: «Perdão.» Só que, quando
todos pensávamos que íamos poder respirar fundo, ele acrescentou: «Pede-se
alguém do pavilhão da Livros do Brasil que venha confirmar se Os Maias são
mesmo de Camilo Castelo Branco»…
Por
motivos vários, as minhas visitas à Feira do Livro deixaram de ter aquele
instante feliz de outros tempos.
Quase arrisco a dizer que a visita que faço tem mais a ver com a fotografia que tiro
sempre ao pavilhão da «& etc.», recordando os tempos em que ficava por ali
a conversar com o Vitor Silva Tavares.
A
Feira tem pavilhões a mais, uma boa parte com nada relacionado com livros.
Como
é que um país que não lê, tem tantos editores a publicar milhares de livros que
não sei a quem se dirigem?
Estou
a tornar-me um leitor estranho.
Um leitor chato.
A 92.ª edição da Feira do Livro de Lisboa vai realizar-se entre 26 de Agosto e 12 de Setembro, no Parque Eduardo VII.
Sempre me lembro da
Feira por Maio e Junho.
Mas, a exemplo do ano
passado, a pandemia manda-nos o evento para Agosto e Setembro.
O único problema que
a nova data tem, é que esse não é o tempo dos jacarandás.
Livros e jacarandás é
um gosto de muita gente.
Jorge Silva Melo, por
exemplo:
Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a ruados livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII."
4 de Junho de
1993
Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os
meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os
finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a
saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente
ao saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas
ousadias, pelo contrário, falo do que de mim leu com à-vontade e discernimento.
Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente,
com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: «Tinha-os todos, mas ficaram
na outra casa.» Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga,
pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…
José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume I
Se o cidadão-português-vulgar-de-lineu
já muitas dúvidas tinha em relação à Justiça portuguesa, irá deitar-se, esta
noite, ainda mais depressivo, apreensivo, amedrontado.
Da leitura pública do despacho
de pronúncia, montado pelo juiz Ivo Rosa, 6.700 páginas de prosa, da acusação
do Ministério Público contra José Sócrates, Ricardo Salgado e outros, ressalta
que a maior parte das acusações já prescreveram, outras o juiz entende que o
Ministério Público não fez com competência o seu trabalho.
Apenas 5 dos 28 arguidos vão a
julgamento.
Sócrates será julgado por seis crimes: três de
branqueamento de capitais e três de falsificação de documentos, Ricardo Salgado
será julgado por três crimes de abuso de confiança, Armando Vara será julgado
por um crime de branqueamento de capitais, João Perna, o motorista de Sócrates,
será julgado por detenção de arma proibida.
O juiz Ivo Rosa reduz, quase a
cinzas, o megaprocesso, Operação Marquês, elaborado pelo Ministério Público,
que vai recorrer da decisão.
Este processo que já demorou
sete anos e qualquer coisa, arrisca-se a ser concluído lá para o ano 2026.
A justiça portuguesa sai
arrasada e desfeita desta diatribe de Ivo Rosa que, ao que dizem os entendidos-más-línguas
tem contas a ajustar com o Ministério Publico e com o Juiz Carlos Alexandre e
aproveitou a oportunidade para os deitar abaixo. O que poderia ser dirimido num
qualquer tasco, teve, durante a tarde do dia de hoje, o palco da Campus Justiça,
os holofotes das televisões.
Já o entardecer acontecia na
cidade, quando as televisões ainda apanharam Sócrates, numa esplanada do Parque
das Nações, com os seus advogados, a beber uns fininhos e a comer umas sandes
mistas em pão de forma.
Não resistiu em afirmar que «todas
as grandes mentiras da acusação caíram» e, cereja no topo do bolo, quer voltar à política.
Chegará?!
E será possível, neste país, alguém ser condenado por corrupção?
1.
Foi hoje anunciado que a 92.ª edição da Feira
do Livro de Lisboa vai realizar-se entre 26 de Agosto e 12 de Setembro, no
Parque Eduardo VII, com as mesmas condicionantes do ano passado. mas o importante é que os livros venham para a rua, possam ser olhados, folheados.
2.
Um restaurante em Lisboa abriu, na quarta-feira, ilegalmente as suas portas para que um grupo de gente famosa pudesse assistir à transmissão televisiva do Porto com o Chelsea.
Não li a notícia, apenas o cabeçalho.
Alguém foi preso? Alguém pagou
multas?
Há dias, um desgraçado foi
multado pela Polícia Municipal, à porta da leitaria do bairro, porque estava a comer «gomas».
3.
Nos últimos 45 anos fecharam
mais de mil quilómetros de linhas ferroviárias, e três capitais de distrito,
Viseu, Vila Real e Bragança ficaram sem acesso ao comboio.
4.
Disse Ana Sousa Dias:
«O acto amoroso, caramba, é muito mais complicado para um homem do que para uma
mulher. Nós temos esse lado de concha sempre pronto, mesmo que o desejo não nos
assista, o nosso corpo faz-se pronto, e o deles não, têm de estar sempre a
prestar a prova disso. Essa sim, é uma grande diferença.»