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segunda-feira, 21 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Vértice

Nº 473-475  Julho- Dezembro  1986

Homenagem a José Gomes Ferreira após a sua morte.

Colaboração.

António Ramos Rosa, Fernando Piteira Santos, Maria Velho da Costa, Fernando Lopes Graça, Artur Ramos, Baptista-Bastos, José Cardoso Pires, José Manuel Mendes, Mário Dionísio, Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Armando Alves

Preço deste número: 500 escudos

Sonho, morte, frio, terra, pedras, árvores, nuvens, estrelas, astros – eis algumas das palavras que se nos deparam com mais frequência nos poemas de José Gomes ferreira. O sonho não é mais que um momento, um ímpeto que se realiza no movimento do poema e só nele, dado que o sonho é impossível total. Assim, o sonho ou o desejo, só na linguagem encontra a totalidade que o revela como possibilidade poética ou seja, como palavra que, opondo-se à negação, se afirma independentemente da lógica negativa que muitas vezes domina este discurso poético.

 

                Se eu ao menos construísse

                a casa num terreno de cristal

                que o meu olhar atravessasse

                lâmpada de água que sobe à superfície

                para a luz ter face.

terça-feira, 8 de julho de 2025

POSTAIS SEM SELO

«Debati-me diante da tua face como a fêmea do açor no seu primeiro cobrimento. Mas a tua saliva vestiu-me de branco o dentro do corpo.

Maria Velho da Costa em Corpo Verde 

segunda-feira, 3 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Os afectos são flutuantes. É o que os torna perigosos. Quem diria que, depois de amar tão apaixonadamente os meus, poderia ir até à aversão.

Maria Velho da Costa em O Livro do Meio

Legenda: pintura de Jean-François Millet

quarta-feira, 12 de junho de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os saudosos do salazarismo, os saudosos da Fé e do Império, conseguiram espaço para que o 25 de Novembro seja comemorado na Assembleia da República.

Andam nisto há uma eternidade!

Há muito que já poderiam ter chegado a esta, triste, comemoração, mas por diversos factores não o quiseram.

Durante todo um tempo já planearam não sei quantas manifestações para comemorarem ESSE DIA NÃO!, mas faltam-lhes dedos para tocarem a guitarra e a pseudo exaltação acaba, quando acaba, em jantares manhosos, tristes, cheirando a naftalinas.

Agora, um gang de deputados semi-analfabetos, ignorantes da História, e do que foi o 25 de Abril, puxaram dos galões, abanaram os panos esfarrapados do  lá vamos, cantando e rindo levados, levados, sim pela voz de som tremendo das tubas, clamor sem fim.

O 25 de Novembro de 1975 foi apenas um episódio dos longos caminhos de Abril, como o 28 de Setembro de 1974, como o 11 de Março de 1975.

Abril 25 há apenas um.

Sempre!

E acabamos por voltar a José Saramago, Cadernos de Lanzarote V volume, quando um dia Vasco Lourenço disse:

«Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…»

sábado, 13 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.  

13 de Abril de 1974

As Viagens de Abril podem levar-nos a tempos que, esperávamos que não mais poderiam voltar, mas apareceu por aí uma pandilha, com azáfama demoníca, que exigem, à viva força, que as mulheres voltem para casa porque, como dizia o botas de santa comba, «o trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado porque uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer», que volteam a ser mulheres-despeja-penicos , que lhes lavem os pés, que lhes cortem as unhas, que tenham o jantar pronto quando eles chegam a casa, no fundo dos fundos, que as donas-de-casa, tenham um estatuto.

Esta gente católica, prufundamente reacionária e ignorante, não tem ponta de vergonha, não entendem que o mundo está sempre a pular e a avançar.

E não se pode exterminar?, tal como ouvi gritar, numa peça de Karl Valentin, encenada por Jorge Silva Melo, em 1979, no saudoso Teatro da Corbucópia, no Bairro Alto.

Mas fechemos a triste viagem de hoje, lembrando partes de outras tristezas.

A censura proibia qualquer notícia relativa ao «Julgamento das Três Marias» em que as escritoras Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, eram acusadas de «a partir de data ignorada de Outubro de 1971, terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de “Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.”
Como poderiam, aquelas almas penadas-censórias, que mal ouviam falar de cultura puxavam da pistola, ter outros procedimentos que não estes?

Só (?) a MariaTeresa Horta sabe a autoria dessas maravilhosas cartas. Prometeu que nunca as revelará. Estranha atitude, mas enfim!... Que se terá passado na cabeça das moças?

Sabe-se apenas que a primeira carta é de Isabel Barreno.

                                                                                                    

                                                                                               Primeira carta

Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.
 
Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício do seu sentido.
 
Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?
 
1/3/71

domingo, 17 de março de 2024

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Não sei se Maria Velho da Costa chegou a viver no Bairro Azul com vista para El Corte Inglés. No Irmão do Meio encontro alguns sinais.

«Despacho a despachar para ir para o Bairro Azul».

«A M. lê no Expresso o que vale a pena e fala de pintura como quem fala de compras para a semana. Vai aos leilões de arte como quem vai ao Corte inglês lanchar no último piso».

Por El Corte Inglés, reproduzo uma cena contada por José Saramago no Último Caderno de Lanzarote.

Estamos na entrada da página 233 do dia 14 de Janeiro de 1998.  Pilar tinha dito a Saramago que, se tivesse tempo, passasse pelo El Corte Inglés e comprasse calcetinos que estava precisado:

«Estava pois a escolher as meias (o que os espanhóis chamam calcetinos está mais próximo do que nós chamamos peúgas, e peúga, como qualquer português sabe, não é meia), quando ouço perguntar: «Es usted José Saramago?» Virei a cabeça (há que explicar que nesse momento me encontrava de cócoras a examinar as prateleiras mais baixas) e vejo um homem de meia-idade que me olhava com ar de dúvida, Retomei a posição vertical e respondi: «Sim, sou eu próprio…» «Era o que me parecia», disse ele, «mas como o vi aqui sozinho…» Acrescentou umas palavras simpáticas de felicitação, que agradeci, e afastou-se. Já não duvidoso, mas, pela expressão da cara, ainda perplexo. Evidentemente, a sua estranheza não provinha de me ver a escolher meias no El Corte Inglés: um homem, por mais incompetente que seja nestes assuntos, não precisa de estar sempre acompanhado quando faz compras. O que simplesmente tinha desconcertado o meu interlocutor era que um Prémio Nobel da Literatura estivesse a comprar meias como qualquer mortal, sem, ao menos a assistência de dois secretários e a protecção de quatro guarda-costas. Ainda por cima numa postura tão pouco digna…»

Legenda: fotografia de Rui Duarte Silva

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

... NA CELEBRAÇÃO QUE NÃO PODE HAVER


No domingo, não tive grandes notícias do Pai Natal – foi apanhado em Oxford Street em impropérios. Malhando com o badalo na cabeça de um rapazinho de treze anos. A polícia levou-o para averiguações e era todo um espectáculo, barafustando de dentro de uma barba que subira aos olhos e de uma casaca vermelha esgarçada de fiocos de algodão encardido. Ontem foi visto no departamento de lingerie de um grande armazém a espreitar para as cabinas de prova das senhoras. E diz o Times que neste ano de crise, o Pai Natal, por contrato com antecedência com casa da especialidade, faz biscates em festas de adultos, saltando nuinho e de barrete de dentro de um Christmas pudding de plástico, confetti e uma barbicha branca a sublinhar as partes. Mas que importância tem o grotesco crescente das nossas mais ternas celebrações? Uma outra crónica feminina, alarga-se humoradamente sobre a composição da nova mesa de família, alargada, segundo as novíssimas necessidades – uma sogra, a prima dela que é uma senhora com deficiência auditiva, um casal de ex-sogros, dois enteados do primeiro casamento dela, tês filhos do primeiro casamento dele que trazem o namorado de dis deles que é punk e queer, mais a nova criança de meses aos gritos.

Posto isto, o Natal é sem dúvida ainda um tempo deliciosos, crise dentro de crise, cada ano de recessão de orçamentos e esperanças mais patético na sua tenacidade. Queiramos os não, as ausências, as carências e conflitos tornam-se pela quadra mais penosos e agudos – o Natal vai fechando cada grupo humano na celebração que não pode haver.

Maria Velho da Costa em O Mapa Cor de Rosa

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

FOLHAS DE LIVROS CAINDO...


Precisei de consultar O Mapa Cor de Rosa da Maria Velho da Costa e Não Percas a Rosa da Natália Correia e ambos, quando os abri, desfizeram-se em pequenos blocos por que as colas utilizadas pelas tipografias, escolhidas pelas Publicações Dom Quixote, eram de má qualidade e as páginas descolaram das lombadas.

Outros livros existem na Biblioteca da Casa que enfermam do mesmo problema.

É uma pena, mas não adianta chorar por cima de leite derramado, mas algumas editoras, apesar dos preços que aplicam, continuam a tratar pessimamente os livros.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO


Com o país mergulhado numa crise infernal:  falta paz, pão, habitação, saúde, educação, como cantava o Sérgio, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, não encontrou nada melhor, para enchouriçar o seu discurso de ontem, do que  determinar e mandar publicar que Lisboa irá fazer uma enorme e festiva comemoração sobre o 25 de Novembro.

E mistérios dos mistérios, os direitistas, nestes quase 50 anos, nunca organizaram qualquer manifestação comemorativa do 25 de Novembro, não por seguirem o exacto  grito lançado por  Maria Velho da Costa,  «ESTE DIA NÃO!, mas simplesmente porque  lhes faltam dedinhos para a fraca guitarra que possuem.

No Público de 26 de Novembro de 2000,  Adelino Gomes perguntava:

Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traíu os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheuro da Revolução, vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

O 25 de Novembro existiu?

domingo, 12 de março de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Este interessantíssimo e útil livro de Maria de Fátima Bivar, Ensino Primário e Ideologia, é uma viagem pelos Livros de Leitura utilizados no ensino primário nos anos 50 e 60.

Todos eles seguiam as regras impostas por Salazar naquela frase lapidar de Deus, Pátria e Autoridade, que então se entendia ser tão ou mais importante que saber ler e escrever.

A autora também é conhecida como Maria Velho da Costa. De seu nome completo Maria de Fátima Bivar Velho da Costa.

O Outro Lado das Capas deste livro, não tem sequer uma linha escrita, pelo que se entendeu introduzir um pedaço do Livro de Leitura da Primeira Classe.

E pela mais descarada propaganda salazarista, pela demagogia pornográfica, introduz-se um outro texto:

Andei pela escola primária de 1952 a 1955, frequência na Escola Primária nº 68, na Rua da Penha de França, mesmo ao lado da sede do Sporting Club da Penha.

Uma escola escura, fria, um professor, o Sr. Amilcar, que nas nossas idas ao quadro, exibia o ponteiro na mão, um professor do quero, posso e mando.

Dos primeiros dias de escola, lembro os que iam de sapatos, os que iam de tamancos, os que iam de alpergatas, os que iam descalços. Os que levavam os livros, os cadernos, a ardósia numa pasta, os que levavam os mesmos livros, os mesmos cadernos, a mesma ardósia, numa sacola de serapilheira, ou  amarrados com uma corda.

Nada a ver com aquele conto, lido anos mais tarde, em Os Meus Amores de Trindade Coelho.

 «- Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.

 Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha.”

 A determinada altura, o professor falando para a Srª Helena, a que levara a encomendinha, e perante uma risada geral da aula, diz:

 “Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Srª Helena, começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!

 É o que vê, Srª Helena – disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom do Sr. Professor – É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem ferramenta, não faz nada. Santa Luzia milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.»

quarta-feira, 8 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Assim entendia Salazar o papel da mulher na sociedade.

«O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

Salazar em 1936.

A mulher quer-se é em casa. A mulher obesa e estúpida que despeja penicos e põe as refeições na mesa. Nas casas de muitas infâncias podia encontrar-se um quadrinho que dizia: «Cá em casa manda ela e nela mando eu».

Tal como dizia a mãe à Emilita: «Quando fores grande, hás-de ser uma boa de casa.», lia-se no Livro Único da Terceira Classe

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.»

Maria Velho da Costa em Cravo

Em Outubro de 1970, uma reportagem do Diário de Lisboa, referia que a escassez da mão-de-obra masculina – a emigração e a guerra colonial levava os homens do país… - e o pagamento inferior do trabalho feminino tinham feito surgir de mulheres a trabalhar nas estradas nacionais em reparação. Quarenta mulheres em Alcácer do Sal, sob sol escaldante, lançavam e espalhavam o saibro na estrada.

Então, o encarregado da obra soube dizer ao repórter: «Elas são melhores para este trbalho. Dobram-se melhor. Os rins delas aguentam-se mais tempo curvados e são menos insofridas do que os homens».

Faltou-lhe dizer que também ganhavam muito menos do que os homens.

No século XVII, já um tal D. Francisco de Melo se ria dos que julgavam as mulheres intelectualmente aos homens.

«Diz mulher ao teu país como lutaste até hoje o que fizeram de ti o que quiseram que fosses como prenderam teu grito sob a boca amordaçada mas como cantaste assim do teu teu desgosto apertada.»

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

QUOTIDIANOS


 A notícia está perdida entre as demais com que os jornais nos aparecem nos dias.

Um imigrante foi brutalmente agredido por um grupo de jovens em Olhão. O objetivo seria roubar o homem, tendo os agressores, inclusivamente, tentado incendiar o cabelo da vítima.

Videos mostram o momento da agressão.

O homem, que seguia de bicicleta, foi interpelado de forma violenta pelo grupo de cinco jovens que, entre risos, o agridem com um pau.

No chão, a vítima implora, em inglês, para que os agressores parem, assegurando não ter dinheiro.

A dado momento, um dos jovens tenta atear fogo ao cabelo do homem com um isqueiro, sendo travado por outro, atrás da câmara. “Guedes, já chega”, ouve-se.

Não se sabe por onde andava a polícia que, agora, tenta encontrar o fio da meada.

Lembro-me de «A Laranja Mecânica» do Stanley Kubrik.

Lembro-me de umas palavras da Maria Velho da Costa:

«É o ar do tempo.  Sabemos que este país está cheio de gente de outras  partes e que a maioria vive em estado de alto risco.»

O homem seguia de bicicleta…  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

O Tribunal Constitucional deu seguimento às reclamações apresentadas por cinco partidos: CHEGA, PAN, LIVRE, VOLT e MAS.

É necessário repetir as eleições nas mesas de voto da Europa.

E desta vez não será admitido o voto por correspondência apenas o voto presencial.

Com tudo isto, novo governo só lá para a Primavera. numa qualquer representação diplomática.

Eu leio mal, mas será que nas entrelinhas consegui vislumbrar que o presidente Marcelo terá insinuado que nos devíamos borrifar para estas «miudezas».

A incompetência político-partidária grassa por aí.

Há uma frase em O Livro do Meio, escrita por Maria Velho da Costa:

«Estás com o focinho demasiado em cima da merda; assim não respiras a tua respiração.»

terça-feira, 25 de maio de 2021

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


O jornal Público atingiu níveis de ilegibilidade. Pelo menos para os meus olhos. Virou neo-liberal e de direita.

Mas ainda mantém uns certos laivos de outros bons tempos. É o caso de ter iniciado uma colecção, Censura no Feminino, que reúne 10 obras de autoras portuguesas proibidas pela Censura, publicadas em fac-símile, e custam, cada um, 6,50 euros.

O primeiro volume da colecção foi Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Pelos temas abordados, pela qualidade da escrita, o livro terá de ser, obrigatoriamente, lido por quem nunca o fez e passarão a saber da dimensão política e social que contém. Os tempos eram os da enganosa primavera política de Marcelo Caetano mas ainda hoje retém uma assombrosa actualidade.

«E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»

Segundo Ana Luísa Amaral, foi em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos.

Em Janeiro de 1972 dão a obra como concluída e, em Abril, o livro seria publicado  pelas Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, a publicou na íntegra.

O  pide-censor, a quem a obra foi atribuída para leitura e opinião, não teve dúvidas:

«Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução e processo-crime».

No processo podia ainda ler-se que o livro era pornográfico e a tentório da moral pública.

A Pide invadiu a editora e as livrarias e procedeu à apreensão da obra.

Chamadas à esquadra, as três autoras só não foram imediatamente presas porque Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pagaram uma caução de quinze contos. Maria Isabel Barreno, por sua vez, provou que não tinha posses para isso e, em contrapartida, teve de comparecer uma vez por mês na polícia, para ofício de corpo presente. Posteriormente, David Mourão-Ferreira emprestou-lhe o valor para que também ela pudesse pagar a caução.

O julgamento começou a 25 de Outubro de 1973 e, nos interrogatórios, a acusação tentou por todos os meios saber quem escrevera o quê. Nunca o souberam e, Maria Teresa Horta, a única das autoras que ainda está entre nós, sobre essa autoria,  já disse que levava com ela o segredo.

O julgamento nunca veio a ter um fim.

Em Abril de 1974, um juiz mandava em paz as três Marias. 

Um livro de coragem dentro do cinzentismo ditatorial daqueles dias tão amargos.

Ana Luísa Amaral, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.

«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.

Desço:

macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.

Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»

segunda-feira, 17 de maio de 2021

DINIZ DE ALMEIDA (1944-2021)


Sim, havia o cansaço da guerra.

Mas havia uma parte dos militares que perspectivavam outros caminhos.

Dinis de Almeida esteve no pelotão dos que olhavam esses caminhos.

Os seus Diários são peças importantíssimas para se entender como eram os olhares de uma parte dos capitães sobre o modo de olhar a situação que o país vivia.

Em Maio de 1973, no Restaurante Snack-Bar «Galeto» tenta o aliciamento de um camarada:

- Temos de mudar isto.

Recordando os acontecimentos verificados na Capela do Rato cita uma carta do Padre Sampaio para o Padre Bertulli:

«Sinto-me reduzido a uma igreja de silêncio, em que a verdade é escondida e o Evangelho traído descaradamente».

Como, um dia, lembrou Manuel António Pina:

«Porque houve um tempo em que tivemos esperança. E, provavelmente, fé. Um tempo em que acreditámos em coisas maiores, em palavras e ideias por que valia a pena morrer. Também, no entanto, as nossas palavras, mesmo as mais desmesuradas, sucumbiram à trivialidade e à pequenez. E hoje olhamos em volta e vemos muitos dos que connosco partilharam a confiança e a esperança entre as piores dos porcos, dos feios e dos maus.»

Está por fazer toda a História do MFA e de tudo o que depois se seguiu.

Nos 20 anos do 25 de Abril, num inquérito sobre os melhores e os piores acontecimentos, José Saramago, ironicamente, entre outras coisas, escreveu:

«… o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho, o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço, o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio…»

Nesta hora, recorrer a Maria Velho da Costa quando gritou que eles hão-de pagar:

«Foram longe de mais. Nem um mês, nem uma no, nem um século decorrerão sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de cercar-me à traição. De limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados de sempre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos amaldiçoo.»

Se me pedissem para encontrar uma canção para lembrar Dinis de Almeida, dirigia-me a Ella Fitzgerald e punha a rodar «The Old Rugged Cross», uma lindíssima canção godspel utilizada largamente na luta pelos direitos humanos, principalmente dos negros.

Numa colina longínqua estava uma velha cruz robusta, a imagem da dor e da vergonha e lembro-a onde o mais querido de todos foi morto e agarro-me fielmente àquela velha e robusta cruz.


domingo, 25 de abril de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO


Esta gente das direitas adora meter a colherada em tudo o que eles sentem estarem em causa as liberdades, a democracia, não sabendo sequer o que estas coisas sejam.

Por causa da pandemia, no ano passado não houve desfile do 25 de Abril, mas agora, a Associação 25 de Abril entendeu que havia, com algumas restrições, condições para que isso acontecesse.

Por picuinhices que não consegui entender, a rapaziada da Iniciativa Liberal quis participar no desfile mas, segundo Vasco Lourenço, as inscrições já tinham fechado.

Não, o 25 de Abril não tem donos, tem apenas gente que gosta de se olhar, mandar duas ou três punhadas e gritar que a data será para sempre.

Escapam-me, completamente, as razões que a rapaziada direitista encontrou para querer desfilar, hoje, na Avenida. 

Coisas de liberais.

Porque eles são do 25 de Novembro.

E mistérios dos mistérios, os direitistas nunca organizaram manifestação comemorativa desse dia e, evidentemente, não pelas razões determinadas, em tempo exacto, por Maria Velho da Costa: ESTE DIA NÃO!

Legenda: imagem tirada de OTempo das Cerejas.

sexta-feira, 26 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


«Debati-me diante da tua face como a fêmea do açor no seu primeiro cobrimento. Mas a tua saliva vestiu-me de branco o dentro do corpo.

Maria Velho da Costa em Corpo Verde 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO

Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são apenas lacaios.

 Maria Velho da Costa em Cravo

 Legenda: pintura de Edward Hopper

terça-feira, 9 de junho de 2020

UM IMENSO VAZIO


Não sei Fátima
explicar
sequer aquilo que sinto

este nada atordoado
esta queda
este vazio

Esta saudade assustada
Uma rosa magoada
A falta do nosso riso

Maria Teresa Horta, na morte de Maria Velho da Costa, Público 25 de Maio

sexta-feira, 29 de maio de 2020

ETECETERA


Por isto ou por aquilo a TAP anda sempre pelas páginas dos jornais, pelos noticiários das televisões.

Não é só de agora e quase nunca por bons motivos.

No dia 12 de Agosto de 2009, Manuel António Pina escrevia a sua habitual crónica no Jornal de Notícias.

E era sobre a TAP:

«As más notícias são que a TAP atravessa, segundo o Conselho de Administração de Fernando Pinto, uma "crise gravíssima", tendo tido no ano passado 280 milhões de euros de prejuízos e vendo-se forçada a pedir sacrifícios aos trabalhadores e a recusar-lhes aumentos salariais.
As boas são que, no mesmo ano de 2008, os administradores atribuíram-se "prémios" com que duplicaram os seus vencimentos (Fernando Pinto, por exemplo, levou 816 mil euros, em vez dos miseráveis 30 mil mensais mais regalias que lhe cabiam); e que decidiram entretanto adquirir 42 automóveis topo de gama para si e as dezenas de directores avulsos que enxameiam a empresa, pois deslocavam-se todos em viaturas "velhas" de quatro anos, impróprias das suas altas funções. Trata-se de uma inovadora ideia de gestão: vão-se os dedos mas fiquem os anéis (e comprem-se mais). Deve-se, a inventiva ideia, a Dali que, contava Gala, era nos momentos em que atravessava "crises gravíssimas" que mais gastava, pois, argumentava ele, "a piedade dos vizinhos mata". A TAP pode morrer, mas ninguém há-de ter razões para se apiedar dos seus administradores.»

1

A companhia aérea de baixo custo EasyJet anunciou que vai despedir 4.500 trabalhadores e reduzir a frota, devido à diminuição da procura.
A companhia aérea britânica, que emprega 15 mil pessoas em oito países da Europa, revelou que vai iniciar conversações com os trabalhadores nos próximos dias.

2

Os Estados Unidos ultrapassaram os 100 mil mortos.

3.

Os colombianos criaram camas de hospital de cartão que se transformam em caixões.

4

Sempre vai haver a festa do livro no Parque Eduardo VII.
A 90ª edição da Feira do Livro ocorrerá entre os dias 28 de Agosto e 13 de Setembro, com naturais restricções e condicionalismos, mas os livros sairão à rua.

5

As consequências económicas da pandemia de Covid-19 podem levar cerca de 86 milhões de crianças a mais à pobreza até final do ano, segundo um estudo divulgado hoje pela organização não-governamental Save the Children da UNICEF. No total, serão 672 milhões de crianças afectadas pela pobreza este ano, o que traduz um aumento de 15% em relação à 2019.

6.

A escritora Luísa Costa Gomes sobre a morte de Maria Velho da Costa:

Em vez de chorar o desaparecimento da Maria Velho deviam ler os livros que publicou ao longo da vida. Está tudo nos livros, a voz dela está lá toda, viva».

7.

Pelo menos cinco bairros sociais na Grande Lisboa têm casos de covid-19.
Além dos 32 casos confirmados pela DGS espalhados por três bairros no Seixal (só o da Jamaica e de Santa Marta, em Corroios, foram identificados), há também famílias infectadas no Bairro da Torre (Loures) e Alfredo Bensaúde (Olivais).
Segundo o jornal Público, há em Lisboa 200 bairros ilegais, campo fértil para o vírus.

8.

Fiquem em casa.
Agora podem sair de casa.
Contudo o vírus ainda se passeia por aí e não sabemos quando terminará o seu caminhar.
A sobrevivência está na linha da frente.
Isto não está para acabar e é bem capaz de não acabar bem.
O medo.
Acima de tudo o medo.

9.

A vida é dizer-se adeus a um espelho.

Ramón Gómez de la Serna em Greguerías