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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Aquele rapaz que palreia sobre futebol na estação-sargeta, que é deputado chegado a cheiros de ultra-extrema direita, apresentou um projecto de resolução, na Assembleia da República, a recomendar ao Governo que proceda à instauração de uma celebração solene do 25 de Novembro, com o fim de que lhe seja dado a mesma dignidade do 25 de Abril.

No projecto de resolução, o rapaz lembra que a liberdade só foi devolvida aos portugueses no dia 25 de Novembro de 1975 e isso deve-se à intervenção pronta e eficaz do Regimento de Comandos da Amadora, então sob o Comando do Coronel Jaime Neves, pelo que à sua ação decisiva devemos todos nós a liberdade e o regime democrático de que hoje podemos usufruir.

Em Novembro de 1976, Maria Velho da Costa escreveu um texto, manuscrito acima, que intitulou ESTE DIA NÃO.

«O 25 de Novembro não é para celebrar.
Porque não foi um acto de alegria, foi
um acto de necessidade. Para os melhores,
dolorosa, para os piores, maligna.
Proponho a esta assembleia de povos um
dia de silêncio em honra da fala
portuguesa sem ódio. Que não viva a morte.»

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SARAMAGUEANDO


O meu pai dizia que devemos ler alguns maus livros.

João Bénard da Costa era de opinião que devemos ver maus filmes porque podem ter por lá perdido algo que valha a pena ver.

Franz Kafka citado um destes dias pelo Manuel S. Fonseca na sua blogueira Página Negra: «Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem».

Quando soube da publicação deste livro de Joaquim Vieira, sabendo de experiências anteriores como as que fez com Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares, questionei-me se o iria ler.

Estava nesse mar de dúvidas, quando o meu filho Mário pediu um livro para me colocar no saco do Pai Natal e chutei o do Joaquim Vieira.

Corria ainda Dezembro, uma semana para ler as suas 751 páginas.

Repetir a leitura de algumas páginas pelos dias que se foram seguindo.

Com a chegada da Primavera, o escrever, finalmente!, algumas palavras sobre as diversas leituras.

Começo por sentir excessivas as largas páginas que, ao longo do livro são dedicadas ao facto de José Saramago gostar de mulheres. Há mesmo um capítulo, o 6º, com as suas 30 páginas, que Vieira não resistiu à tentação de titular:  «O Pinga-Amor».

Em 1977, François Truffaut realizou L'Homme qui aimait les femmes.

É do filme que me lembro quando leio o rol de mulheres que andaram com, por, Saramago, mulheres por quem mostrou amor, simpatia ou quaisquer rituais de sedução.

Só ele saberia dizer o porquê, se a tanto achasse útil ou necessário.

Largamente referido é o relacionamento que Saramago manteve com a escritora Isabel da Nóbrega.

Corria o ano de 1954, Isabel da Nóbrega, com 31 anos, abandona o marido e os seus três filhos para ir viver com João Gaspar Simões, ao tempo um escândalo.

Pelo ano de 1966 acontece o grande romance entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, «o amor da vida dela», no dizer de Maria Velho da Costa.

Em 1977 Saramago conhece Pilar mas a relação com Isabel da Nóbrega já, há algum tempo, esfriara.

Deixo apenas um pormenor curioso: Isabel da Nóbrega sempre acreditou que um dia, José Saramago ganharia o Prémio Nobel.

Numa entrevista à Visão, Joaquim Vieira conta a seguinte história:

 «Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.»

Diversos são os depoimentos em que se procura transmitir que Isabel da Nóbrega escrevia, ou largamente emendava, as crónicas que Saramago publicava nos jornais.

De um depoimento de Ana Isabel, filha da escritora:

«A minha mãe escrevia em cima de uma tábua no sofá e ele na mesa de trabalho da minha mãe. Quando ele acabava de escrever as crónicas, levava-as à mãe e ela lia e dizia-lhe: “José, e se experimentasses pôr assim?” E ele sentava-se e tornava a escrever.»

Carlos Leça da Veiga: 

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?

Maria Velho da Costa:

 «Uma mulher que fez tudo por ele, ensinou-o a comer e beber.»

Passo ao lado dos muitos depoimentos de gente que entendeu não dar a cara porque foram amigos de Isabel da Nóbrega e Saramago, amigos ficaram quando Saramago se relacionou com Pilar.

Há depoimentos estranhos, como os de Mário Ventura Henriques, inúteis como os do Sr. Fernando Canhão, filho de um dos patrões da Estúdios Cor onde Saramago trabalhou como encarregado da produção literária, depoimentos de muita gente que desconheço e que outro propósito não têm senão o dum botabaixismo que apenas visa desacreditar a pessoa e o escritor José Saramago.

A dois depoimentos devidamente identificados, terei que dizer que estão no livro por pura inveja, despeito ou algo difícil de catalogar: os de Maria Teresa Horta e o de José Jorge Letria.

Maria Teresa Horta, algo que terá a ver com o relacionamento editorial de Luís de Barros, seu marido, com José Saramago, enquanto ambos estiveram na direcção do Diário de Notícias.

Mas ainda em vida, José Saramago referiu Maria Teresa Horta.

Faz parte da entrevista que Joaquim Vicente teve com José Manuel dos Santos que foi assessor de Mário Soares:

«Fui almoçar com ele ao Farta Brutos, até para combinar várias coisas, nomeadamente a condecoração. E no meio da glória nacional, ele diz-me assim:
«A Maria Teresa Horta disse que, lendo os meus livros, se percebia logo que eu nunca iria ser um grande escritor. Está-se a ver agora.» O que eu achei mais extraordinário foi esta conversa, dois ou três dias depois de o Saramago estar cá. No meio daquele coro de louvores. Fiquei muito impressionado, porque a grande coisa de que ele se lembrava era disso, A Maria Teresa Horta era uma pessoa que o estava a marcar profundamente, e ainda por cima tinha afinidades políticas com ela. Ela, aliás, saltou logo no dia do Prémio, dizendo que o Nobel não devia ter sido dado ao Saramago, devia ter ido para a Agustina ou para Sophia».

Quanto ao que José Jorge Letria diz ao longo do livro, remeto para a mente doentia que o tem acompanhado toda a vida. Um ódio que, certamente, por falta de coragem nunca o diria na cara de Saramago. Seria, simplesmente arrasado. Em 1978 pediu a José Saramago que lhe escrevesse um prefácio para o seu livro Os Dias Contados. Saramago sabendo das não qualidades literárias e intelectuais de Letria disse-lhe que não. Letria não lhe perdoou e Joaquim Vieira escreve que José Jorge Letria não o revelara antes, mas agora disse:

«Ele nunca foi para mim um escritor referencial. Eu teria visto também com satisfação o Nobel ser dado a Agustina Bessa-Luís, por exemplo. Não é por receber o Nobel que ele se transforma numa estátua.»

O que ressalta em muitos dos depoimentos recolhidos por Joaquim Vieira para o livro,  é que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura não agradou aos companheiros de escrita de Saramago. Para muitos – e não são assim tão poucos! - custa a engolir que um pé descalço nascido na pobreza angustiante de uma aldeia ribatejana, um aprendiz de  serralheiro, um autodidacta que, em jovem, não tinha um único livro em casa,  que passava noites nas mais diversas leituras na Biblioteca de Galveias, um comunista confesso, sem vontade alguma de o deixar de ser, apesar de tanto coisa que o poderia ter levado a sair do Partido, tenha conseguido subir a pulso e construir a obra que lhe permitiu  um dia chegar aonde chegou.

Não é difícil perceber que na intelectualidade portuguesa, seja qual for a época, campeia o ciúme e a inveja.

Como observou Luiz Pacheco:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

Dando-lhe os devidos descontos, por exemplo, entradas em domínio da vida privada algo desnecessárias, esta Rota de Vida ajudará muitos leitores a perceber o percurso de uma das personagens, doa a quem doer, mais importantes da nossa história recente.

José Saramago: a persistente ideia de morrer idêntico ao que sempre foi.

Durante alguns dias, irei Saramaguear por aqui, transcrevendo algumas passagens do livro de Joaquim Vieira que, por isto ou por aquilo, entendo terem algum interesse.

domingo, 13 de agosto de 2017

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O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns

quinta-feira, 15 de junho de 2017

RECADOS


No dia da morte de Armando Silva Carvalho, deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que – tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica literária?!... – e leitores.

Aguardava vez para entrar em «Olhar as Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando nos deixou.

Obviamente, a capa leva textos de cada um dos autores.


O livro junta memórias de infância, de outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.

Pelas 412 páginas do livro, passeia uma série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos, tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas inteligente.

Claro que o livro retém episódios e gentes que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322 cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».

Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.

Pode ser que ainda o encontrem na Feira do Livro, que fecha portas no domingo.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ARMANDO SILVA CARVALHO (1938-2017)



Sabia-o muito doente e, mais dia, menos dia, esperava a notícia.
Chegou hoje.
O Herberto Helder deixou escrito que é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
Há o Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, um livro maravilhosos a que poucos dedicaram a atenção merecida. 
Não sabem o que estão a perder.
Nesse livro, Maria Velho da Costa escreve:

Tenho uma rosa branca na mesa de trabalho revisitada, rosa que não cessa de não murchar (de facto, não é metáfora de qualquer tenacidade) vejo o céu que passa de azul fosco azul tinta (idem) por cima dos telhados dos remediados vizinhos, remediada também eu. Os gatos, macho e fêmea, dormem, pretos, num sofá preto, na sala. A cadela, ainda mais preta, porque reluz de muito jovem, dorme com eles. Não tenho fome, não tenho frio. Que mais quero?
O pior, Armando, é que amanhã é outro dia.
A vizinha da frente acendeu a luz na cozinha de contraplacados. Tem oitenta anos, não é viúva, nem desgraçada. Baixou agora o estore.
Eu também.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Comentava as montras de próteses: «O que não se diz do fascismo é que aleija toda a gente, para sempre.»

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

domingo, 4 de dezembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Fumando espero o homem a quem quero.

Maria Velho da Costa em Missa In Albis

Legenda: pintura de Jack Vettriano

sábado, 3 de setembro de 2016

MARIA ISABEL BARRENO (1939-2016)


Morreu esta tarde Maria Isabel Barreno, investigadora, escritora, e juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, uma das escritoras julgadas no processo conhecido por «Caso das Três Marias».

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

UMA MISSA NEGRA


Tirado da badana de Missa in Albis de Maria Velho da Costa

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


A curvatura da onda é a mão que não apreende. A virilidade do mar está no ronco e na coloratura. O glauco é grave, a paciência, a espessura que dilacera a audição. A sereia é tecida do rochedo erodido à distância, sopro de alvéolos milenarmente tangidos. Sólida, a mulher do homem desfaz sob o bloco abissal a finitude da teia, espuma limítrofe, lateral.

Maria Velho da Costa em Da Rosa Fixa

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


E aí volto àquela noite, que volto a não ter pejo de achar que não é para celebrar. Alguns anos volvidos, pergunto-me à esquerda também moderada, terá sido um acto legítimo a interrupção do galhofeiramente nomeado PREC? Terá valido a pena, a não conciliação dentro daquele terreno, que, fosse para onde fosse, não deixava de galvanizar grandes massas de trabalhadores, muitos intelectuais, muita gente honesta hoje marginalizada? Porque não é mais possível, na memória comovida ou irritada de todos nós, dizer que o que estava sendo era instrumentalizado por Moscovo.
Para falar com franqueza, a memória que tenho é que Moscovo seguia com com tanta atenção, não só a questão portuguesa, como, honra lhe seja a este, as andanças, folestrias e experimentações do próprio PCP. Quase até ao fim.


Maria Velho da Costa em Mapa Cor de Rosa

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


26 de Novembro de 1975

O dia seguinte

Rodrigues da Silva, jornalista do Diário Popular:

Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou, algum erro se cometeu. Seria altura de saber, onde, como, porquê. Mas talvez seja demasiado tarde…

O 25 de Novembro é o fim da revolução. Acabou para mim… Uma coisa que eu não suportava era ouvir dizer que a revolução continuava depois do 25 de Novembro. Isso não. Não se engana o povo. Porque eu acho que é uma coisa inadmissível enganar o povo. E se algumas vezes me irritei com o Partido Comunista uma das razões foi essa. Eu percebia qual era a intenção, mas achava que era um desrespeito pelas pessoas. Era preciso não deixar as pessoas desanimar… é verdade… mas também dizer-lhes que a revolução continuava…
Quando era evidente, depois do 25 de Novembro, que tinha acabado a revolução.


Foram longe de mais. Nem um mês, nem um ano, nem um século decorrerão sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de cercar-me à traição, de limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados de sempre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos amaldiçoo. Um por um vos hei-de corromper do desastre lento, da aventura adiada. Eu não sou a cidade de origem, eu sou a tomada da na ida, a reconquistada dez mil vezes com um farnel e um saco de pano, a donde se vem mudar a vida, a nossa. Vocês pagam. Esta é uma maldição lançada aos reles da ressurreição da minha história. As minhas janelas hão-de abrir-se de novo a escarnecer usurpadores a soldo, a cuspir-vos para esse país de rezas e mesinhas sem luz nem ar onde conservais os vossos trastes e cagais sentenças e ditadores em nome do bom senso. Eu sou a cabeça da terra dos que mais tentam a morte que tal sorte. Eu duro da aventura desventurada, o menor mal. Vocês pagam.

A declaração do estado de emergência, proibia a publicação de jornais na região de Lisboa, bem como a distribuição e venda, na área do Governo Militar de Lisboa, de jornais de outros pontos do país.

Os jornais só voltarão às bancas no dia 1 de Dezembro.

A informação ao país processava-se através dos estúdios do Porto da RTP e da Emissora Nacional.


Até deliberação em contrário do Conselho da Revolução, manter-se-á a proibição da publicação de jornais na área da Região Militar de Lisboa. Esta proibição não abrange os jornais desportivos.

De uma ma outra nota oficiosa:

A pedido de muitos trabalhadores que necessitam de movimentar-se antes das seis horas, o Conselho da Revolução alterou o período de recolher obrigatório, que passou a ser entre as zero e as cinco horas.

De uma posterior nota oficiosa:

A proclamação do estado de sítio na área da Região Militar de Lisboa inclui restrições aos direitos de reunião, manifestação e expressão.

Às três horas da madrugada, o comando do Regimento da Polícia Militar informava que os comandos tinham chegado à zona e dispersado as massas populares que se encontravam frente ao quartel, recorrendo a granadas de mão.

Um oficial da Polícia Militar em contacto telefónico com um jornalista do Diário Popular, desabafou:

Fomos traídos até ao tutano! Foi uma traição! Foi uma traição!

Dos incidentes ocorridos junto ao Quartel da Polícia Militar, o Estado-Maior-General da Forças Armadas, informava em comunicado, que se verificou, segundo tudo indica alvejados pelas costas  por civis armados, a morte de um oficial e um sargento dos comandos,

Ao começo da tarde, um veículo, segundo fonte oficial, terá desobedecido à intimidação de parar e foi atingida a tiro de metralhadora pelos Comandos.
Segundo a mesma fonte, os comandos teriam apontado para os pneus mas acabaram por atingir mortalmente a acompanhante da condutora do veículo.

Por determinação do Presidente da Republica, cerca das 5 horas, o major Dinis de Almeida, comandante do RALIS, apresentou-se, no Palácio de Belém, tendo-lhe sido dada ordem de prisão.

Já madrugada alta, o Estado-Maior-General das Forças Armadas emite um comunicado dando conta dos acontecimentos verificados durante o dia.

No comunicado é realçada a actuação exemplar do Regimento de Comandos, que, com a maior eficácia, serenidade e mais completa abnegação revolucionária. Respeitaram e cumpriram as ordens dos seus superiores.

Fontes:

-Acervo pessoal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Foi melhor assim? Evitou-se a guerra civil, o sangue, a ruína, a ameaça às instituições? Não se evitou a corrupção, não se evita a inoperância dos partidos, não se evita a apagada e vil tristeza da coisa pública que, depois, como depois de todo o reunir de energias profundas coarctado, é pior. Evitou-se a aventura. Evitou-se a sujeição internacional, a carência dos mais carentes, o aventureirismo político? Evitou-se uma crise grave. Não se evitou uma crise grave e baixa.
São palavras. Também a constituição, redigida por uma Assembleia livremente eleita. São palavras. Restituir ao povo português a dignidade… esqueci o conteúdo global. Esquecemos.

Maria Velho da Costa em OMapa Cor de Rosa

sábado, 31 de outubro de 2015

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


31 de Outubro de 1975

VOLTOU A NÃO SAIR O SÉCULO. Ontem aconteceu o mesmo. Trabalhadores apoiantes do PS juntaram-se a trabalhadores do MRPP e, em referendo , aprovaram a demissão do director Adelino Tavares da Silva e do chefe de redacção Joaquim Benite.
De um comunicado do Partido Socialista:


Um plenário, terminado já de madrugada, aprovou que o director do jornal seria. o tipógrafo Francisco Lopes Cardoso que remete para um caso semelhante em que o tipógrafo Alexandre Vieira, durante a primeira República, dirigiu  o jornal A Batalha.
Os trabalhadores e jornalistas afectos ao PS e MRPP consideraram a eleição como uma manobra vil de um minoritário grupo partidário «social-fascista». Os restantes trabalhadores chamaram-lhe uma grandiosa vitória da classe operária.
Até ao 25 de Novembro o jornal no cabeçalho o nome do novo director.

CARLOS ALTAMIRANO, secretário-geral do Partido Socialista chileno, que se encontra em Lisboa fazendo parte de uma delegação do Conselho Mundial para a Paz, disse, ontem, num comício em Sacavém:
As massas exploradoras de todo o Mundo têm, agora, a sua atenção concentrada
No que se passa em Portugal. O vosso processo revolucionário tem numerosas singularidades. Desejamos que Portugal não seja um novo Chile e sim um Vietname vitorioso.
O República pega em outras palavras de Altamirano e publica um «Ponto Assente»:


FALTAM 25 Dias para que se dê o golpe do 25 de Novembro de 1975, o «DIA NÃO», tal como escreveu Maria Velho da Costa.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ELAS SÃO QUATRO MILHÕES...


Paulo Portas, ontem, em pré-campanha eleitoral:


Alguém – e não apenas as mulheres – poderá votar em gente desta?

É impossível que Portas não tenha bebido nas palavras que Salazar disse em 1936:

O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.


Nota do editor: o título do post é o começo de Revolução e Mulheres de Maria Velho da Costa em .Cravo

Legenda: fotografia de Yves Bottineau.

sábado, 25 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Não se pode ser nada, quando o solo debaixo dos pés é um coágulo informe sorvido por outros corpos sociais dominantes de que os que governam são apenas lacaios.

Maria Velho da Costa em Cravo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 20 de dezembro de 2014

PERCUSSÃO A TANTAS VOZES


Maria Velho da Costa no Diário de Lisboa (17 de Dezembro de 1976) por ocasião os 70 anos de Fernando Lopes Graça

quinta-feira, 8 de maio de 2014

TRÊS MARIAS DE CRAVO AO PEITO


Há 40 anos, no Tribunal da Boa-Hora, o juiz Acácio Lopes Cardoso, mandava em paz Três-Marias de cravo ao peito.

Interrompido pelo 25 de Abril, o processo tinha em vista a condenação de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, o editor da Estúdios Cor, Romeu de Melo, por terem escrito e publicado um livro pornográfico, imoral e obsceno, atentório da moral pública para além de muito mal escrito.

Apreendido pela Pide em 1972, cinco dias depois de ter saído para as livrarias, Novas Cartas Portuguesas é uma escrita a seis mãos, sem qualquer regra pré determinada, mas em que nenhuma das autoras interferiria nos textos de cada uma.

Um livro de coragem dentro do cinzentismo do Estado Novo.

As autoras nunca revelaram quem escreveu o quê.

Maria Teresa Horta já declarou que, muitas vezes, tem dúvidas e pede ajuda às outras duas autoras.

Não será bem assim, mas que fique a lenda.

Elas baralharam e voltaram a dar.

Não deixa se ser um inteligente e divertido passatempo para as noites de Inverno, tentar
descobrir o que escreveu Velho da Costa, Teresa Horta, Isabel Barreno.

Ana Luísa Amaral que, em 1990 preparou para as Publicações Dom Quixote, uma reedição das Novas Cartas Portuguesas, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.







Legenda: recorte do Diário de Lisboa de 8 de Maio de 1974.


A Terceira Carta IV é retirada da edição da Editorial Futura, publicada em Maio de 1974.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

EXPRESSÕES ATENTÓRIAS DA MORAL PÚBLICA



18 de Abril de 1974

No Tribunal Plenário de Lisboa continua o julgamento de cidadãos acusados de pertencerem à Acção Revolucionária Armada (ARA) A censura (recorte retirado de Os Segredos da Censura de César Príncipe) determina que as notícias do julgamento devem ser reduzidas à expressão mais simples.
Proibidas também todas as notícias da homenagem ao professor Óscar Lopes, assim como as notícias sobre um jantar de confraternização de antigos alunos do Colégio Militar.


Qualquer notícia sobre as sessões do julgamento das Três Marias, serão todas CORTADAS.



Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta eram acusadas de a partir da data de 1 de Março de 1971 terem escrito em conjunto, mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o título de Novas Cartas Portuguesas que contém diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico, atentórias da moral pública.
Para os coronéis-censores pornografia e expressões atentórias da moral pública seria, possivelmente algo como as últimas palavras da última carta do livro:
Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dedos.
Desço:
Macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessariamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa da morte do meu corpo.

Esta é a primeira carta do livro:  


sexta-feira, 8 de março de 2013

UM DIA, TODOS OS DIAS


Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Maria Velho da Costa, capítulo 7 de Revolução e Mulheres em Cravo, Moraes Editores,
Legenda: ilustração do Google para o Dia Internacional da Mulher.