segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O FINDAR DE SETEMBRO


Agora que Setembro está achegar ao fim, fica aqui uma canção do Gilbert Bécaud de que gosto muito.
Escolhi esta versão porque Bécaud faz dueto com um rapaz da minha geração e que há muito não ouvia: Sacha Distel.

UMA DITADURA DE AÇÚCAR


30 de Setembro de 1968.

Diariamente continuam a ser publicados boletins médicos dando conta do estado clínico de Salazar, terminando todos com a frase: O prognóstico continua grave.

Marcelo Caetano dá os primeiros passos na governação do país.

José Gomes Ferreira escreve por estes dias:

Preparemo-nos, pois, para gramar uma ditadura de açúcar – que acabará por nos enjoar a todos.

Regista também uma pergunta da filha de Augusto Abelaira:

- Ó Pai o Marcello foi para Salazar?

Augusto Abelaira que, em 1959, escreveu no seu livro A Cidade das Flores:

Quando morrer, comem-se uns aos outros, pai. Ele não tem um único discípulo de categoria, nem sequer soube criar discípulos com uma certa inteligência. Salvo um, talvez, mas ninguém no partido gosta dele. E seria ainda pior para nós, é mais esperto. Manteria o fascismo, mas disfarçando-o…

Legenda: O Chefe de Estado numa das suas visitas à Casa de Saúde
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1117

POSTAIS SEM SELO


Meu caro amigo, a terceira idade é aquela em que a gente põe óculos para ouvir o rádio.

SARAMAGUEANDO



Manual de Pintura e Caligrafia.

Arriscaria que talvez seja dos livros menos lidos, menos abordados, menos queridos de José Saramago.

Também há a História do Cerco de Lisboa e Jangada de Pedra.

Li-o um bom pedaço de tempos antes de José Saramago se ter revelado, ao grande público, – por que não à crítica? – o escritor que veio a ser.

Um brilhante exercício autobiográfico.

Gostei tanto de o ler que volta e meia pego-lhe.

Largamente sublinhado, é-me fácil encontrar pedaços como este:

E, agora repouso em Positano, nesta costa de Salerno que eu baptizei de «bem-aventurada» antes de saber que a propaganda turística oficial lhe chamava «la divina costiera». Ambos temos razão: esta paz é divina e bem-aventurada. Mas ali vai, é ela Melina Mercouri, de chapéu de palha e vestido comprido, pálida e magra, com Jules Dassin. Arranco-me à indolência do sol e imagino este diálogo entre mim e  ela: «Então, Melina, continua fora da Grécia. Aqui tão perto, e não pode entrar na sua terra. Como vão as coisas por lá?» E logo a resposta: «E por lá, como vão as coisas?»
Regresso ao meu lugar, olho as águas paradas deste mar interior que sabe tantas e tão antigas histórias, e repito a mim mesmo a pergunta: E por lá, como vão as coisas?»

Percorri ruas e ruelas para encontrar uma imagem de Melina de chapéu de Palha.

Não consegui.

Detive-me nesta, que faz parte de Nunca ao Domingo , em que aparece ao lado de Jules  Dassin, actor e realizador do filme, pai de Joe Dassin, um dos cantores franceses da minha adolescência.

Fica também a canção tema do filme da autoria de Manos Hadgidakis.

Já agora, e para que passem dias diferentes para melhor:

 Não deixem de ler o livro do Saramago e ver o filme de Dassin.




domingo, 29 de setembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


- Se julga ter-me endereçado um cumprimento, enganou-se redondamente – atalhou rápida – Sempre que um homem descobre que uma mulher pensa, a primeira coisa que lhe ocorre é dizer que ela se parece com um homem. Pois eu juro-lhe que sou excessivamente mulher.

Budd Schulberg em Que Faz Correr Sammy?, Editores Associados, Lisboa s/d

Legenda: pintura de Vincent Giarrano.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há meses doces, doces meses.
Setembro é um deles.
Tal como disse Eugénio d’Andrade: conheço Setembro pelo cheiro.
Há uma canção do Bob Dylan, I Shall Be Free, em que ele diz que o telefone não parava de tocar.


Era o Presidente Kennedy a perguntar por mim
Ele disse: «Amigo Bob, do que precisamos para fazer o país crescer?»
Eu disse: «Amigo John, Brigitte Bardot
Anita Ekberg
Sophia Loren»


As três nasceram num há longo, muito longo Setembro e ainda se passeiam por aí.
Brigitte que nasceu a 28 de Setembro de 1934, anda metida numas guerras malucas pela defesa dos animais.
Sophia nasceu no mesmo dia, no mesmo ano de Brigitte, exala charme, está aí para as curvas e tudo, tudo, entre sorrisos ela o diz,  graças ao esparguete.
Anita é a mais velha das três, nasceu a 29 de Setembro de 1931 e ainda estamos a vê-la na Fonte de Trevi, naquele filme de Fellini.
Pode-se, assim, salvar uma nação?
Dylan diz que sim
Why not?

COMO UMA RIBALTA


da antena imperativa e alta
como uma ribalta de teatro lisboeta
chega-se à velha
passando com certeza pelo pombo

em Lisboa é isto
fatalidade drástica
antena lá no alto
pombo pelo meio
velha cá em baixo


Fotografia de João Freire em Lisboa ao Voo do Pássaro, Forja Editora, Lisboa Abril de 1979.

sábado, 28 de setembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


MAU TEMPO em todo o País.

Para além de muitos e variados percalço, a bandeira nacional hasteada no topo do Parque Eduardo VII rasgou-se devido ao mau tempo.

A bandeira colocada num nastro de 35 metros de altura foi uma ideia de Pedro Santana Lopes, ao tempo Presidente da Câmara de Lisboa.

COM CHUVAS E TROVOADAS a fustigarem o País, os portugueses mantém-se recolhidos nas suas casas em reflexão.

Amanhã, exercerão o seu direito de voto nas eleições autárquicas.

Ao depositarem os seus votos nas urnas não esqueçam que a rapaziada da troika ainda anda por aí.

José Saramago, algures num dos seus Cadernos de Lanzarote, deixou escrito:

Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir. 

 Legenda: imagem do jornal I.

REZANDO POR SALAZAR


28 de Setembro de 1968.

Os portugueses de todos os credos religiosos continuam a encher as igrejas do País rezando pelas melhoras de Salazar.

Notícias dos jornais apanhados ao acaso:

Na igreja de S. Domingos, em Lisboa, reuniram-se os membros da Junta Freguesia de Santa Justa, na missa mandada celebrar por aquele corpo administrativo pelas melhoras do Presidente do Conselho.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Marvão mandaram rezar missas pelas melhoras do Prof. Oliveira Salazar.

Também na Casa de Trabalho Doutor Oliveira Salazar, em Bragança, têm sido celebradas, diariamente, missas na capela privativa, por intenção das melhoras do seu patrono desde o início da doença.

Voz corrente:

Quando Salazar sai de cena e tudo prossegue com Marcelo Caetano, pouco há a fazer.

Augusto Abelaira em Sem Tecto, Entre Ruínas:

Porque os Portugueses estão conformados, são fatalistas, ou melhor, desejam  que algo de novo aconteça, mas não acreditam que dependa deles.

Legenda: Os membros cessantes do Governo apresentaram cumprimentos ao Chefe do estado. Da esquerda para a direita: Dr. Paulo Rodrigues, Dr. Joaquim de Jesus Santos, Eng.º Machado Vaz, General Gomes de Araújo e Doutor Motta Veiga.


Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1118.

OLHAR AS CAPAS


Ao Contrário das Ondas

Urbano Tavares Rodrigues
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2006


É impressionante como numa cidade com uma oferta cultural tão rica como Lisboa (música da melhor, algum cinema bom e o ballet renovado, as grandes exposições) há tão pouca procura e se mantém no galarim esta gente bacoca, espertalhona e pobre de espírito que ostenta uns três automóveis de luxo e tem duas casas de veraneio e quantas vezes mistura negócios escuros com o seu peso político. Gente com ódio à liberdade e com desdém pelo povo, excepto quando fazem discursos eleitorais.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

PORTUGAL NÃO PODE CEDER, NÃO PODE CAPITULAR


27 de Setembro de 1968.

Salazar nunca cuidou de arranjar sucessores para a sua política.

Essencialmente porque a gente que o rodeava era um amontoado de oportunistas, incompetentes, incultos, bajuladores, corruptos, nada mais que tralha.

Um único se perfilou: Marcelo Caetano.

Mas rapidamente o colocou de lado.

Incompatibilizaram-se e até ao afastamento do ditador, apenas se cruzaram em momentos em que não foi possível a fuga.

O seu discurso de tomada de posse, proferido às 17 horas, fornece de imediato sinais de que Marcelo jamais, por vontade própria, ou porque os ultras do regime não lhe permitiram outros caminhos, abandonaria a política de Salazar no que a África dizia respeito.

… que dizer quando se trata de suceder a um homem de génio que durante quarenta anos imprimiu à política portuguesa a marca inconfundível da sua poderosíssima personalidade , dotada de excepcional vigor do pensamento, traduzida por uma das mais eloquentes expressões da nossa língua e senhora de uma vontade inflexível e uma energia inquebrantável que ao serviço do interesse nacional não tinha descanso nem dava tréguas?

Dirá em Outubro de 1968:

Portugal não pode ceder, não pode transigir, não pode capitular na luta que trava no Ultramar.

Aqui se reproduz o discurso de Marcelo Caetano:




Legenda: O Almirante Américo Thomaz e o Prof, Doutor Marcello Caetano, no Palácio de Belém, por ocasião da cerimónia do compromisso de honra do novo governo.
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1118.

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro em Trigaches, perto de Beja.

POSTAIS SEM SELO


Um curto silêncio, durante o qual me ocupei a esboçar uma breve vida completa de Samuel Glick – uma vida começada a doze dólares por semana para chegar a duzentos e cinquenta. E esse esboço incluía uma análise exaustiva que abrangia pontos de vista sociológico, psicológico, filosófico e zoológico. A América em toda a sua glória! O oportunismo, o arrivismo, a velocidade, o ranger da engrenagem! E toda a sua porcaria também.

Budd Schulberg em Que Faz Correr Sammy?, Editores Associados, Lisboa s/d

Legenda: fotografia do The Drnver Post

NO COMBOIO DESCENDENTE


No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão.

Fernando Pessoa.

José Afonso musicou este poema de Fernando Pessoa.

Faz parte do álbum Eu Vou Ser Como a Toupeira, 1972

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


 26 de Setembro de 1968.

Américo Tomás, às 21,30, pela televisão, com voz aos tropeços nos soluços, anuncia a exoneração de Oliveira Salazar, terminando a comunicação com a nomeação de Marcello Caetano, uma mera evolução da continuidade.

José Gomes Ferreira comentará nos seus Dias Comuns:

E assim o Carmona III nomeou o Salazar II.





 Miguel Torga no 11º volume do seu Diário:

Na História do mundo nada aconteceu, mas na de Portugal acabou um reinado, uma época – trágica, como se há-de ver -, uma maneira específica de governar, qualquer que seja a vontade do sucessor. Não existem heranças carismáticas. As circunstâncias, uma inteligência impassível, um certo sentido de grandeza pessoal, o conhecimento satânico do preço dos homens, a obstinação, o oportunismo, a ousadia, a crueldade e o desprezo podem num dado momento fazer do mais apagado indivíduo um chefe providencial. Mas quando o ídolo, ou o déspota, obrigado pela força ou pela erosão do tempo, é removido do pedestal, leva anos, às vezes séculos, a surgir outro. De maneira que tão cedo não estamos em perigo de novo ditador, mesmo que a nostalgia de alguns o sonhe ressuscitado. Resta apenas perguntar o que vai ser agora do nosso espírito bambo, mole, incapaz de encontrar sozinho a tensão de que todo o espírito activo necessita. Sem hábitos de liberdade e aliviados da canga do opressor que alimentava em nós, apesar de tudo, um salutar complexo de Édipo, a que outra razão de luta iremos pedir energias? Por quem substituiremos o pai tirano que combatíamos?

Legenda: O Sr. Almirante Américo Thomaz lendo a sua comunicação ao País.


Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1117.

MARCADORES DE LIVROS

A BUSCA DE UM PAÍS MAIS JUSTO




Mas eu continuo a acreditar que foi um facto (pelo menos antes do 25 de Abril) que a maior parte dos militantes comunistas (a começar pelo próprio Cunhal) entrou para o partido por um invencível imperativo moral. Não deram o passa «para o outro lado) ávidos de poder, inveja e de vingança, mas levados pela fome e sede de justiça de que falam as Bem-aventuranças. Foi depois, pouco a pouco, que essa fome e essa sede se saciaram ou se reduziram à expressão de uma cegueira que é só uma das alegorias da justiça. Se alguns – raríssimos – podem ter aceite a clandestinidade, o exílio, a tortura, por uma vitória que os recompensasse de tudo isso nas doces datchas de um Cáspio à portuguesa, a maioria não entrou nessa vida como os guerreiros de Alá nas guerras santas: entrou, como dizem agora tantos, de ambos os lados, para dar os melhores anos da sua vida e das suas qualidades à busca de um país mais justo.

João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º volume, Assírio & Alvim, Lisboa Fevereiro de 2010.

Legenda: Artigo publicado da revista Problemas da Paz e do Socialismo, nº 1, Janeiro de 1974.
                Folheto publicado pelas Edições Avante, Outubro de 1974.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

VELHOS DISCOS



Mais um disco comprado na Grande Feira do Disco.
Mais um dos muitos discos do James Last que tenho por aqui.
E vejam se pela sequência de rock escolhidos não dá para saltar da cadeira?

SÓ QUANDO DEUS DETERMINAR


25 de Setembro de 1968

Neste dia, o Chefe de Estado Américo Tomaz fica a saber que a vida política de Salazar está terminada.

A 17 de Setembro já convocara o Conselho de Estado, desconhecendo-se o que terá sido discutido, mas não é muito difícil imaginar o que por lá se disse.

Neste dia dá-se a morte de Salazar.

Não a física mas uma outra.

O teatro de fantoches entrará pelo próximo ano.

Durará até 27 de  Julho.

Como escreveu José Cardoso Pires a abrir o DinossauroExcelentíssimo:

Hoje em dia pode-se roubar tudo a um homem. – atá a morte. Rouba-se-lhe a morte com a mesma facilidade com que se lhe rouba a vida, a face ou a palavra, que são coisas mais que tudo inestimáveis.

Jacinto Baptista no seu livro: Caminhos Para Uma Revolução:

Manuel Anselmo, premonitório, em 9 de Novembro de 1961, ao discursar no Teatro da Trindade, na sessão de encerramento da campanha eleitoral organizada pela União nacional:

«… Salazar não cai nem cairá senão quando Deus – o Deus de Ourique! – o determinar, Deus que nós adoramos como primeira certeza das nossas consciências e que, como prova de Amor, se dignou enviar a esta Geração do Resgate, em nossos dias, como Embaixatriz do Céu, cheia de Luz e Milagre, Sua Santíssima Mãe, a Virgem Imaculada, Nossa Padroeira desde Dom Afonso Henriques.»

José Gomes Ferreira no 6º volume dos seus Dias Comuns:

Aos optimistas fáceis, que esperam que Alguém Misericordioso nos traga o Futuro numa bandeja, não me canso de dizer com voz de ser-fácil-acertar quando se aposta no que há de menos vil nos homens.
- Não se regozijem antes de tempo… O Salazar vai pesar durante anos e anos na nossa vida, como uma espécie de Lénine do avesso para medíocres…

Legenda:  O Prof. Christian Barnard, autor da primeira transfusão cardíaca, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1118.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


António Ramos Rosa de O Grito Claro em Não Posso Adiar o Coração, Plátano Editora, Lisboa Junho de 1974.

Legenda: pintura de  Leonid Afremov.

PROGNÓSTICO AINDA RESERVADO



24 de Setembro de 1968

Continuarão a chamar-lhe presidente, mas este é o último boletim médico de Salazar ainda como Presidente do Conselho:

Às 20 horas o estado do Sr. Presidente do Conselho é o seguinte: temperatura 37,3; tensão arterial, máxima 15, mínima 8; pulso 80/m; respiração assistida pelo respirador Engstrom. Acentuam-se as respostas motoras francas às solicitações verbais. O prognóstico continua ainda reservado.

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores:

- Quando morrer, comem-se uns aos outros, pai. Ele não tem um único discípulo de categoria, nem sequer soube criar discípulos com uma certa inteligência. Salvo um, talvez, mas ninguém no partido gosta dele. E seria ainda pior para nós, é mais esperto. Manteria o fascismo, mas disfarçando-o.

Legenda: A presença do povo
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1117.

DO BAÚ DOS POSTAIS


Setúbal, entardecer no Rio Sado.
Postal comprado em Palmela no dia 4 de Janeiro de 1964.

PROIBIÇÕES


Notícia publicada no semanário O Ponto de  24 de Setembro de 1981

OLHAR AS CAPAS



Estou Vivo e Escrevo Sol

António Ramos Rosa
Orientação gráfica: Espiga Pinto
Colecção Poesia e Ensaio nº 11
Editora Ulisseia, Lisboa Março de 1955

                                                              ao Ruy Belo

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol 

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida 

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924. 2013)


Com 88 anos, morreu, hoje, o poeta António Ramos Rosa.

O Público revela que, já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra – “Estou vivo e escrevo sol” –, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel.

Em Novembro de 1988 atribuíram-lhe o Prémio Pessoa.

Homem simples que sempre foi, espantou-se, mas ficou muito feliz.

Acho que um prémio assim é uma reparação que se faz à poesia

Viveu sempre tentando ficar longe da fama mas a qualidade da sua poesia não permitiu a plenitude desse refúgio

Gostava de ter sido pintor, a poesia é também uma forma de pintar, se quiserem, também o contrário.

Viveu sempre com enormes dificuldades económicas, tal como, por exemplo, confidenciava numa carta enviada  a Jorge de Sena.

Uma frágil saúde multiplicou todas essas dificuldades mas não impediu o seu combate, desde os tempos do MUD Juvenil, pelo carácter, pela consciência, pela poesia liberdade livre, título de um seu livro de crítica e ensaio publicado, em 1962, pela Moraes Editora.

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore.
Quem escreve quer ser terra sobre terra,
solidão adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

Foi tradutor, professor e também empregado num escritório, donde resultou o poema O Funcionário Cansado, que faz parte do seu livro O Grito Claro:

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

No prefácio de Ocupação do Espaço, publicado na excelente colecção Poetas de Hoje, editado pela Portugália (Novembro de 1963), E.M. Melo e Castro escreve:
a presença única do homem e a beleza do seu «gostar» da vida dão-nos a medida maior desta Poesia que já hoje é, por isso mesmo, uma das Maiores da Moderna Poesia Portuguesa.
Gastão Cruz num texto publicado por ocasião dos 80 anos de António Ramos Rosa:
Para a minha geração, António Ramos Rosa representou, se não propriamente a abertura, a consolidação de uma via, paralela, sem dúvida, a algumas outras igualmente decisivas, mas especialmente consciente das exigências da inovação e da modernidade.


Legenda: caricatura de Rui, publicada em O Jornal, 18 de Novembro de 1988.

O ESTADO ESTACIONÁRIO


23 de Setembro de 1968.

Boletim médico, divulgado às 20 horas:

Faz hoje sete dias que o Sr. Presidente do Conselho, em plena convalescença da operação por hematoma intracraniano pós-traumático subdural à esquerda, foi acometido por um inesperado e súbito acidente vascular cerebral (hemorragia no hemisfério cerebral direito) que veio interromper a recuperação que estava a fazer.
As oscilações da temperatura, pulso, tensão arterial, respiração e reactividade ocorridas durante a semana estabilizaram-se hoje em sentido favorável.
Às 20 horas a situação é a seguinte: temperatura 38,3; tensão arterial – máxima 15 – mínima 8; pulso 86 p/m.
Continua com respiração assistida com respirador Engstrom.
Resposta motora mais franca às solicitações verbais, mantendo-se, entretanto, o prognóstico reservado.

Em Lisboa corre a anedota:

Acabou o Estado Novo. Agora é o Estado Estacionário.

Nesta altura já é perceptível que Salazar não voltará a governar o país.

Também já não restam muitas dúvidas de quem, dentro de dias, lhe sucederá.

José Gomes Ferreira no 6º volume dos seus Dias Comuns:

… o José Manuel Castelo Lopes foi parar à cadeia, onde dormiu dois dias, por causa dos dizeres vulgares de um anúncio de fita («Um homem morre sozinho! Sem amor, sem isto nem aquilo! Etc.») em que os olhos ridiculamente sectários de não-sei-que-imbecil viram insultuosas referência ao Entubado.
O Diário de Lisboa esteve também, há dias, retido duas horas. Razão: um conteco de principiantes para o Juvenil intitulado A Morte do Palhaço.
E mais espantos deste género.
Estão raivosos de haver morte!


Legenda: A Srª D. Marta do resgate Salazar, irmã do Professor Salazar, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha.


Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1117.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


RIBADOURO


Para mim, a Ribadouro, esquina do fundo da Rua do Salitre com a Avª da Liberdade, está sempre agarrada ao Belarmino, filme do Fernando Lopes, ali pensado, escrito, encenado, discutido.

Também conhecida pela Universidade do Tremoço.

O José Cardoso Pires em A Balada da Praia dos Cães:

O chá na cervejaria Ribadouro: Isto não é uma cervejaria, é uma baía de cascas de tremoços com canecas à deriva. Chulos do Parque Mayer a atacarem o fastio na perna da boa santola, chauffeurs de praça a combinarem a sua bandeirada de jogo num casino clandestino para os lados de Arroios ou para Campolide que são bancas de entendidos por onde a polícia faz que não vê. Um galador de coristas a puxar fumaças à distância. A dono Lurdes abortadeira. Mestres-de-obras a arrrotar! Oh, senhores.

Quantos finos, quantos bifes com ovo a cavalo, quantas conversas pela noite dentro, a esperança vã de mandar Salazar borda fora.

O que ainda tivemos de esperar!...

Hoje, a Ribadouro está mais voltada para os turistas, para uma classe específica,  gente que encheu os bolsos de dinheiro para, nos tempos que correm, nos acusarem de que andámos a viver acima das nossas possibilidades.

Já não anda por lá a malta do Parque Mayer, gente do jazz, das escritas, dos jornais e onde pontificava o clã da Ribadouro.

Assim de memória, alguma da rapaziada desse clã: Fernando Lopes, Canto e Castro, Manuel de Azevedo, Baptista-Bastos, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires, Alexandre Vieira, Carlos de Oliveira, rapazes, outros já entradotes, que, no fundo, só queriam assaltar a felicidade, felicidade que, como dizia o Saint-Just, era possível.

Esperanças, sonhos, amores, desamores, frustrações, andaram por aquelas  mesas, juntamente com cervejas, tremoços, cafés, o que calhava.

Não consigo passar junto à Ribadouro, sem que os passos se encaminhem para o balcão, beber um copo de cerveja clara, Sagres, naturalmente, olhar as mesas, agora atoalhadas para turistas e gente fina, e sentir o rumor das conversas, não deixando de seguir os ditames do José Gomes Ferreira:

Saudades de não poder inventar o futuro. Às mais variadas horas, desde as sete da manhã até ao fim da tarde.

OLHAR AS CAPAS


Que Faz Correr Sammy?

Budd Schulberg
Tradução: Francisco Mata
Capa: José Antunes
Editores Associados, Lisboa s/d

Eu contemplava-o fixamente, mais ou menos como teria olhado a fotografia de um homem que se equilibrasse numa corda esticada sobre as cataratas do Niágara. Uma exibição de tal género não me suscitava a menor simpatia, e no entanto estava fascinado pelo que ele continha de loucura e de audácia. Sammy resumia para mim tudo o que eu mais detestava no mundo: a desonestidade, a impertinência, a brutalidade ruidosa.

domingo, 22 de setembro de 2013

AVISO


Lisboa.
Estação de comboios do Cais do Sodré.

DOMINGO AO CAIR DA TARDE


Desde miúdo que não gosto de pombos.
Não vos sei dizer o porquê.
Em adolescente ouvi a escritora Matilde Rosa Araújo dizer que os pombos eram um símbolo cansado de paz, mas isso é uma outra história.
Desprevenidos que vamos a andar pelo passeio, um pombo caga-nos em cima.
Sabem, certamente, daquele cheio horroroso, tão difícil de eliminar.
Os pombos estragam os monumentos da cidade
Os pombos estragam as pinturas dos carros.
Os pombos são uma praga.
Uma praga que não se consegue debelar porque as velhinhas, que dão milho e miolo de pão aos pombos, fazem finca-pé e não permitem que os serviços camarários os esterilizem, evitando assim que se tornem um verdadeiro perigo para a saúde pública.
Problemas da democracia…

Na tarde de domingo, junto ao cais das Colunas, este pombo olha as águas do Tejo, o esvoaçar das gaivotas.

FRUTA DO TEMPO


Alguém prendeu a bicicleta para que não fosse roubada.
De pouco serviu: levaram-lhe as rodas.

QUOTIDIANOS


Os Bombeiros Voluntários de Viana do Castelo foram multados pela GNR por estacionamento irregular de uma viatura durante um incêndio florestal, mas a direção garantiu que vai impugnar a multa porque o veículo integrava o dispositivo de combate.

O auto em causa, ao qual a agência Lusa teve acesso, reporta-se a uma infracção ao código da estrada por uma viatura de transporte de pessoal daquela corporação, por estacionamento num local "onde o trânsito se faz nos dois sentidos, obrigando à utilização de parte da faixa de rodagem destinada ao trânsito em sentido contrário".

A infração, lê-se no mesmo auto, registou-se pelas 00:02 de 14 de setembro, na Estrada Municipal 526, em Nogueira, Viana do Castelo, estando a corporação obrigada ao pagamento de uma multa entre 120 a 600 euros, tendo ainda de identificar o bombeiro que a conduzia na ocasião.
Esta viatura integrava o dispositivo que, no terreno, naquela freguesia, combatia o maior incêndio do ano em Viana do Castelo - que chegou a ameaçar dezenas de habitações e que afetou mais quatro freguesias do concelho.

Contactada pela agência Lusa, fonte do comando da GNR de Viana do Castelo não teceu qualquer comentário sobre o caso, admitindo apenas que, como em qualquer outra situação, o auto "pode ser contestado para a respetiva entidade competente", no caso a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

Conforme a requisição da ANPC à qual a Lusa teve acesso, a viatura foi mobilizada para fazer a rendição de três bombeiros, que estavam no teatro de operações há várias horas, na frente de fogo em Nogueira, tendo saído pelas 23:26. Chegou ao local de recolha pelas 23:53 e o regresso ao quartel deu-se pelas 00:23, segundo o mesmo registo.


Dos jornais

sábado, 21 de setembro de 2013

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O VICE-PRESIDENTE DO PSD, Marco António, acusou o FMI de hipocrisia institucional, afirmando que a entidade financeira faz relatórios em que admite excessos de austeridade nos países sob ajustamento, mas depois, na mesa das negociações, o que se vê é uma atitude muito pouco flexível.

Outro vice-presidente do PSD, Moreira da Silva, também Ministro do Ambiente, mandou calar Marco António e tambem terá enviado recado ao  ministro da Economia Bernardo Pires de Lima para ser comedido nas críticas à troika para não prejudicar as negociações.
ENQUANTO ISTO,  o Paulo, em plena campanha autárquica, afirmou que a economia portuguesa já saiu do fundo e que a questão agora é saber a que ritmo vai crescer, de forma a garantir riqueza e emprego.

Por sua vez, o Pedro volta a garantir que o país está no bom caminho.

Esta gente, outros mais, não vive no mesmo país que os restantes portugueses vivem.

É impossível!

A PINCO, a maior gestora mundial de fundos de obrigações arrasa Portugal no seu mais recente comentário enviado aos clientes e a outros agentes do mercado. Diz mesmo que Portugal está pior do que a Grécia em termos de previsibilidade como país em ajustamento. e defende um segundo programa de empréstimos, com mais austeridade.

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO, Nuno Crato, cortou o Inglês no ensino básico.
Haverá agora alunos a chegar ao 5º ano com zero anos de inglês, outros com um, dois, três ou até quatro, dependendo da escola que frequentaram. No 9º ano, a carga horária é de 90 minutos por semana

Num tempo de generalizada globalização, em que o inglês é o idioma base de entendimento, sua excelência determina esta incrível decisão.

E ficam ofendidos quando lhes chamam o que realmente são: incompetentes e maus.

O SOBA DA MADEIRA continua a exibição da sua alta cretinice, a exibição de atitudes de incontornável salazarismo.

Jardim, ao ser abordado por dois cidadãos no decurso de uma visita a uma obra de canalização de uma ribeira, no Curral das Freiras, recomendou-lhes: falem com os comunas da televisão, que eles põem tudo. Puseram um vigarista à frente daquilo. Isso é para resolver a seguir com o Maduro: Tudo para o olho da rua.

O Sindicato dos Jornalistas já manifestou o mais vivo protesto por estas declarações.

A forma desprimorosa e até ofensiva com que Alberto João Jardim se refere a jornalistas – e a personalidades da vida pública madeirense e nacional – já não surpreende ninguém. Mas continua a ser inaceitável e justifica o mais vivo repúdio.

Tais ameaças constituiem um indício muito grave de que Alberto João Jardim não hesitará em encetar despedimentos punitivos se algum dia lhe for entregue poder sobre a empresa no plano regional.

PEDRO TADEU no Diário de Notícias:

Trataram de aumentar os impostos de quem trabalha, investe e consome. Levaram patrões à falência ou a despedir milhares de trabalhadores. Cancelaram dezenas de milhares de contratos com funcionários sem vínculo ao Estado.
Mudaram as regras do subsídio de desemprego e diminuíram os apoios sociais. Convidaram os jovens, que educámos superiormente com os nossos impostos, a emigrar. O PIB, a riqueza produzida no País, caiu. A sociedade entra em incumprimento crónico: o número dos que não podem pagar os seus empréstimos à banca dispara.
Os impostos recolhidos diminuíram, apesar de toda aquela arquitectura, medida pelos génios da finança a quem entregámos os planos da nação, desenhar o efeito contrário.
As pazadas de subsídios de desemprego (mesmo diminuídos) agravaram o problema: o Estado não consegue pagar a dívida, nem os respetivos juros. O défice não desce para os níveis pretendidos.

ANA SÁ LOPES no jornal I:

É por isso que estes meninos estão a brincar com o fogo e depois gritam que se queimaram.
Hoje, os banqueiros dão lições de moral e são os principais conselheiros de governos como o nosso. Os banqueiros, para os governos, não viveram acima das suas possibilidades, porque as suas possibilidades são infinitas – incluindo a possibilidade de, em última instância, serem sempre salvos e protegidos pelos executivos que ajudam a manter e a derrubar.
O esquecimento, a demagogia, a cassete da austeridade virtuosa (para lhe chamar qualquer coisa que não seja simplesmente a cassete da defesa da classe dominante) é particularmente evidente no corte retroactivo das reformas e na lei chumbada do despedimento de funcionários públicos. Estes reformados nunca viveram acima das suas possibilidades porque, quando nasceram, não havia “possibilidades”. Nasceram num país miserável, onde quase ninguém estudava e os serviços de saúde metiam medo. Foram eles que ajudaram a construir o país mais ou menos decente que ainda temos enquanto não rebentarem com ele de vez. Solidariedade intergeracional é ter consciência do que lhes devemos e não os tratar como carne para canhão. Como diz Pacheco Pereira,  defender a “revolução” acima da Constituição dá legitimidade a outras revoluções e implosões do Estado de direito.

IMPLORANDO AS MELHORAS DE SALAZAR


21 de Setembro de 1968.

Boletim médico deste dia:

Às 20 horas o Sr. Presidente do Conselho apresentava a seguinte situação:
Pulso, 90 por minuto
Tensão arterial: máxima 17, mínima 8,5
Temperatura: 38º
Radiografia ao torax: pulmões normais
Continua com respiração assistida.
Pela primeira vez o Sr. Presidente do Conselho, manifestou indubitáveis reacções sensoriais: apesar disso mantém-se reservado o prognóstico.

Os jornais dão realce ao facto de portugueses de todos os credos religiosos continuam a afluir aos templos do País, implorando as melhoras do Presidente do Conselho. Eis uma amostra da geral preocupação em que o estado do ilustre enfermo lançou as populações de todo o território pátrio.

José Gomes Ferreira no 5º volume dos seus Dias Comuns:

Prevejo (profecia fácil) que os reaccionários tentarão manter o mito Salazar através dos tempos. Isso é: dar-lhe a autoridade da morte através dos tempos para impor a ditadura do medíocre que é uma das constantes da história do povo português, poucas vezes vencida e sempre por curtos períodos.
Nesse sentido vão meter nas cabeças das crianças que ele saneou as finanças (!) reformou o exército, abriu estradas, fabricou pontes, etc.,etc., para esgotar todos os sonhos passageiros portugueses.
Ó homens do futuro: aturem-no morto que nós aturámo-lo vivo – o que foi mais humilhante.
E quanto ao resto (tudo o que digam dele no Futuro) é mentira, é mentira, é mentira! É MENTIRA!

Legenda: O Ministro das Corporações fala aos jornalistas das mensagens dirigidas ao Prof. Oliveira Salazar pelos trabalhadores portugueses.

Fotografia e legenda do Notícias de Portugal, nº 1117

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


As actrizes do tempo do código de censura de Hollywood, o célebre Código Hays, conseguiam ser mais eróticas que toda a difusão de consumo que por aí pulula e que toca, ultrapassa mesmo, as raias da pornografia.
Tal como disse a Coco-Chanel:

Uma mulher está mais perto de estar nua quando está bem vestida.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

AINDA MORRO ANTES DELE


20 de Setembro de 1968

Neste dia foi fornecido o seguinte boletim médico:
                                                                                                                                 
O estado do Sr. Presidente da República é aproximadamente estacionário: respiração auxiliada; tensão arterial 16/8; pulso 80 por minuto; temperatura 38,3.
Embora haja melhoria da actividade reflexa, o prognóstico mantém-se reservado.

Às 14,50 compareceu no Hospital o Cardeal-Patriarca de Lisboa.

José Gomes Ferreira no 5º volume dos seus Dias Comuns:

O Salazar continua em coma… «O estado mantém-se estacionário» - como se diz em linguagem de boletim médico.
A Rosalia, temerosa:
- Vais ver que ainda morro antes dele)
Reflexo de uma preocupação generalizada há muito em certa camada da população que sentia como que uma espécie de desonra morrer antes dele… (Tantos que se foram a suspirara o desejo irrealizado de vê-lo morto!)
O pior é que vai continuar a viver – pela mediocridade do país dentro.
No fim de contas (falemos já como historiador-jornalista-testemunha) foi um político afortunado. Reinou discricionariamente durante quarenta anos de tirania, e morre na cama, convencido de que era amado de toda a gente, como declarou meio gagá, na última entrevista concedida a um jornal estrangeiro. Era porventura idolatrado abstractamente pela burguesia endinheirada, católica e monárquica que via nele o Grande Medíocre necessário, que tinha preenchido por fim o modelo esboçado por João franco e Sidónio Pais, anos antes.
Não foi amado, nem podia sê-lo, sempre de ponteiro em punho e distante, a ler para um aís-classe de cábulas, o fala-só das suas sebentas pretensiosas, muito apreciadas, porque espalhavam com eficácia o tédio adormecedor e monopolizador da inteligência (oficial) portuguesa.
Frio como um perfil de punhal, nunca teve um gesto de bondade pública: o preso que se solta por ímpeto de coração, a injustiça que se repara, por gosto de não ver o espelho humilhar-nos, o filho que se leva à cabeceira da mãe moribunda…
Implacável. Em tudo. Principalmente quando se tratava da defesa dos tabus reverentes da sua adolescência de padre falhado e filho de feitor: as calças de fantasia, o chapéu de abas reviradas, as ambições medíocres do Senhores que queriam também à força, como lá fora, gozar as delícias da Civilização Burguesa, implantada pelo gáudio de um milhão de pessoas (o máximo), enquanto, pelo menos, seis milhões mourejam o seu destino de bicharada reles.
Quanto à vida de espírito, metia dó, Nunca ouviu um concerto sinfónico, uma peça de teatro, ou leu um livro de poesia… E, no entanto, ditava leis sobre estética, sobre edifícios e estragou a Batalha com a estátua imbecil de Nuno Álvares Pereira, modelada por Leopoldo Almeida.
(estou a recordar-me de que o Agora-Moribundo disse uma vez a Francisco Franco esta enormidade - «O monumento mais belo de Lisboa é o da Guerra Peninsular.» - «Falta-lhe um sistema de relojoaria, para lhe mover os bonecos…» - respondeu o famoso escultor, católico e salazarista.)
Mediania em tudo, menos na vaidade que o induziu a atitudes feíssimas, como a daquele indigno discurso sobre a morte de Humberto delgado, insultando-o com a presunção mentirosa de que o ex-candidato à Polícia para denunciar os companheiros de luta. E, por último, encerrou a carreira com a deportação de Mário Soares que o incomodava por denunciar a corrupção sexual de certos homens da classe dominante e desejar o julgamento dos assassinos de Humberto Delgado
Isto não é um libelo – note-se bem. É um deixar correr a pena improvisadora num comentário ligeiro e benévolo.

Legenda: O Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa falando aos jornalistas, na Casa de Saúde da Cruz Vermelha.
Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1117

CAMINHAR PARA OS DIAS DO OUTONO


O Verão, se preferirem silly season, faço-vos a vontade, vai-se finando, lentamente.
O divertimento já teve o seu tempo.
Há quem prefira que o Verão termine abruptamente em vez de esmorecer repleto de melancolia.
Nos meus tempos de liceu, as férias grandes prolongavam-se até ao fim de Setembro.
No dia 1 de Outubro acontecia a abertura dos liceus enquanto a Escola Primária começava no dia 7.
Para os miúdos e rapaziada dos dias de hoje,  os liceus e as escolas começaram na segunda-feira.
Dizer baixinho: repara como os dias são mais pequenos... e sempre,  a lembrança de September Song, aquela canção do Sinatra.


Legenda: pintura de Jack Vettriano.

OS CROMOS DO BOTECO

NA CASA DO AVÔ...


… por estar tão próxima de nós s sua vida, é como entrar, talvez, na casa de um avô aonde todos os domingos vamos para o almoço de família.

Raquel Ribeiro, sobre a Casa-Museu de Miguel Torga, Público, 4 de Agosto de 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

FOI UMA HONRA


19 de Setembro de 1968

O Prof. Houston Merritt, durante a manhã, volta a observar Salazar.
Após reunião com os médicos, o Prof. Merritt assinou o seguinte comunicado:

O estado de saúde do sr. Presidente mantém-se aproximadamente o mesmo de ontem. A respiração está sendo auxiliada e o doente está mais desperto. Nota-se resistência mais normal às tentativas de abertura das pálpebras e reage aos estímulos cutâneos com movimentos mais amplos. O pulso e a tensão arterial são normais; houve uma ligeira elevação térmica. O prognóstico continua grave, mas mantém-se possibilidades de melhoria.

O neurologista norte-americano deixou o país às 16,00 horas.

À partida disse aos jornalistas:

Foi uma honra ter vindo a Portugal examinar o Presidente do Conselho.

Legenda; Um alto dignitário da Igreja.

Fotografia e legenda do Notícias de Portugal nº 1116.

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro no pátio da Junta de Freguesia da Penha de França.
Ao fundo a Igreja da Nossa Senhora da Penha de França.

CARTA ABERTA A UNS PEDAÇOS DE MERDA


A crónica de Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias:

Olá, amiguinhos do FMI. Eu sou o ratinho branco. Desculpem estar a incomodar-vos agora que vocês estão com stress pós-traumático por terem lixado isto tudo. Concluíram vocês, depois do leite derramado: "A austeridade pode ser autodestrutiva." E: "O que fizemos foi contraproducente." Quem sou eu para desmentir, eu que, no fundo, só fiquei com o canto dos lábios caídos, sem esperança? O que é isso comparado com a vossa dor?! Eu só estiquei o pernil ou apanhei três tipos de cancro, mas é para isso que servimos nos laboratório: somos baratos e dóceis. Já vocês não têm esses estados de alma (ficar sem emprego, que mau gosto...), vocês são deuses com fatos de alpaca e gravata vermelha como esses três novos que acabam de desembarcar para nos analisar os reflexos. "Corre, ratinho branco!", e eu corro. Vocês cortam-me as patas: "Corre, ratinho branco!", e eu não corro. E vocês apontam nos vossos canhenhos sábios: "Os ratos sem pernas ficam surdos." Como vocês são sábios! E humildes. Fizeram-nos uma experiência que falhou e fazem um relatório: olha, falhou. Que lição de profissionalismo, deixam-nos na merda e assumem. Assumir quer dizer "vamos mudar-lhes as doses", não é? E, amanhã, se falhar, outro relatório: olha, falhou. O vosso destino, amiguinhos do FMI, eu compreendo. Vocês são aves de arribação, falham aqui, partem para ali. Entendo menos o dos vossos kapos locais: em falhando e ficando, porque continuam seguros no laboratório?

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.