terça-feira, 31 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!

Fialho d’Almeida, no seu livro de crónicas “Saibam Quantos…” datado de 1910,
deixava escrito:

“Povo? Não há povo.
A turba acéfala, alternadamente feroz e sentimental (tarada em todo o caso), que em Portugal faz as vezes de povo, é uma força de inércia sem a menor consciência de si própria, e que no estado de bestialidade africana em que jaz, tão cedo pode ter papel na marcha do país, restando-lhe continuar a ser explorada por caciques, ou levada para o mal por papagaios de comício, no sentido das suas taras homicidas.”

D. Ermelinda Pinto, quando a criada um dia lhe perguntou, se tinha votado bem, não se conteve e disse:

Albertina: os ricos votam sempre bem, os pobres é que se enganam!

Prova provada de que os ricos são coerentes com as ideias, chamemos-lhe ideias, que têm, o que não acontece com os outros.

Olhando lá para trás, a crer no que nos contam, convém não esquecer que Pilatos teve o cuidado de perguntar primeiro ao povo por quem optava: se por Cristo, se por Barrabás.

O pormenor não está em ele ter lavado as mãos. O mais importante foi o povo ter escolhido mal.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS



31 de Maio de 1961

Há 50 anos, o Benfica vencia a sua 1ª Taça dos Campeões Europeus, derrotando o Barcelona por 3 a 2.

A televisão, a preto e branco, transmitiu o jogo directamente mas cheio de interferências e às duas por três, a transmissão foi mesmo interrompida para que a Eurovisão se servisse do satélite para chegada a Paris do Presidente Kennedy.

Valeu-nos a rádio, velha amiga, querida companheira, rádio.

Depois foi um fartar vilanagem: durante toda a semana, uma vez por dia, a RTP transmitia o jogo em diferido. Os cafés deitavam por fora, quem tinha televisão viu a casa invadida pela vizinhança.

Aquando da assinatura do contrato, como treinador, Bella Guttman exigiu uma cláusula de 200 contos caso vencesse a Taça. Muitos sorriram, mas a velha raposa era isso mesmo,  uma muito velha raposa.

Estádio Wankdorf, Berna
Completamente cheio, 28 mil espectadores, dois mil eram portugueses e foi considerado um número impressionante.
Benfica: Costa Pereira, Mário João, Angelo, Neto, Germano, Cruz, José Augusto, Santana, José Águas Coluna e Cavém

Barcelona: Ramallets, Foncho, Garay, Nergés, Gensana, Garcia, Kubala, Suarez, Evaristo, Kocsis, e Czibor.

Marcadores:
Kocsis, Águas, Ramallets na própria baliza, Coluna, Czibor.

Uma sorte de todo o tamanho. Para a história, para além de outras cenas, aquele pontapé do Kocsis , que bateu no poste direito, percorre toda a linha de golo, bate no poste contrário e morre nas mãos do Costa Pereira.




Como não poderia deixar de ser, a ditadura, ciente de que há venenos próprios para o povo ter alegria agarrou-se, com unhas e dentes, a esta vitória do Benfica.
Esta fotografia mostra Salazar e o Ministro da Educação Nacional, Manuel Lopes de Almeida com os jogadores treinador e dirigentes do Benfica.

“O sr. Prof. Dr, Oliveira Salazar cumprimentou os componentes da equipa, e manteve com eles, durante alguns minutos, conversa amistosa, em que manifestou o seu apreço pela vitória alcançada e pela expressão que ela teve como serviço prestado ao país.
- Foi então difícil de resolver o vosso problema de futebol?... interrogou o sr. Presidente do Conselho. Mas tudo acabou bem e há que dar-vos parabéms pela vitória, que é a primeira de um clube português na Taça dos Campeões Europeu. Agora só falta continuar.”

Antes desta recepção, os jogadores tinham estado no Palácio de Belém, onde o Presidente Américo Thomaz lhes concedeu a Medalha de Mérito Desportivo.
Servido um Porto de Honra, cálice erguido, Américo Thomaz declarou:

“Bem hajam pelo vosso comportamento!”

POSTAIS SEM SELO


Adormecer sobre a profusão dos girassóis, pensando nos flancos menos expostos de outro corpo. Várias foram as negligências do olhar, bem pouco curioso para outra coisa que não fosse a nudez da terra, às vezes muito jovem, outras, fatigada. O desejo, só o desejo impede a perversão da alegria. E destas sílabas.

Eugénio de Andrade em “A Memória Doutro Rio”, Limiar Editora, Abril 1978

segunda-feira, 30 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!




A campanha eleitoral entrou na sua última semana.
Um desesperado Pedro Passos Coelho, dizia hoje aos jornalistas: “as pessoas que nos ouvem ficam com a ideia de que andamos aqui a jogar à bulha uns com os outros. “
Mas o que é verdade é que, nestes dias, os portugueses, a outra coisa não têm assistido.
Saberão, sabem com toda a certeza, as três luminárias partidárias que assinaram o memorando com a troika que, para cumprir a maior parte dos os objectivos que nos impuseram, vão ser necessárias, na Assembleia da República, maiorias de dois terços dos deputados?

Dia 1 é Dia Mundial da Criança.
Um estudo do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa, revelado hoje pelo “Público”, dá conta que as crianças até aos 17 anos são o grupo mais vulnerável à pobreza, tendo ultrapassado o dos idosos.
Uma em cada quatro crianças (23 por cento) estava, em 2009, inserida em famílias com rendimentos abaixo do limiar de pobreza; 27 por cento viviam uma situação de privação, e mais de uma em cada dez (11,2 por cento) acumulava a forma mais gravosa de pobreza - estava em privação e, ao mesmo tempo, os seus agregados dispunham de rendimentos abaixo do limiar de pobreza.

Por hoje, volto a este um poema de Sophia Mello Breyner Andresen.
O tempo em que tivemos o nosso futuro nas mãos, em que muita coisa dependia apenas de nós, e tudo, ou quase tudo, deixámos perder.

"Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
Da sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos da sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?"

PIOR QUE MENTIRA E DESEMPREGO?


“Agora que a renegociação e subsequente reestruturação da dívida se afiguram uma inevitabilidade, fundada, mais do que em valores ideológicos, em meras razões de bom senso económico, vale a pena atentar no resumo da matéria dada feito no "New York Times" pelo Nobel da Economia Paul Krugman (artigo que o "i" publicou em Portugal).
O que Krugman fundamentalmente diz é que Portugal, Grécia e Irlanda não conseguirão pagar as suas dívidas, cujas condições usurárias forçarão a sucessivas e cada vez mais gravosas "ajudas", acompanhadas de "programas de austeridade selvagens" com efeitos recessivos que bloquearão o crescimento económico e impedirão a geração dos recursos necessários às amortizações e pagamentos de juros.
Se não forem os países "ajudados" a tomar a iniciativa da renegociação, acabarão por, na iminência da bancarrota, ser os próprios credores a fazê-lo (quando concluírem que sugaram todo o sangue que poderiam sugar e preferindo receber alguma coisa em vez de mais nada).
Neste contexto, ganha contornos inquietantes a resposta de Sócrates a Louçã quando, no debate televisivo entre ambos, foi posto o problema da reestruturação da dívida: "Reestruturar uma dívida significa pagar um preço em miséria, desemprego e falências e, pior que isso, significa pôr em causa o projecto europeu e a moeda única". A minha esperança é que aquele "pior que isso" tenha sido só um nariz de cera retórico”

Crónica de Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de hoje.

Legenda: pintura de Bem Shahn.

IDÍLIO EM BICICLETA


“Pelo vale inóspito do Utcubamba…há quem viva em condições inacreditáveis”.

Texto e Imagem de Idílio Freire.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS




Winston Charchill.

Sangue, suor e lágrimas, charutos, champanhe, um nome gravado na História.

"Tirei mais do álcool do que o álcool tirou de mim", escreveu.

Guy Debor, autor de “A Sociedade do Espectáculo”, disse por outras , quase as mesmas, palavras: “Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais do que a maioria das pessoas que bebem.”

Quando perguntaram a Winston Churchill se os seus inimigos se sentavam na outra bancada, a resposta foi certeira: do outro lado sentam-se os meus adversários, os meus inimigos sentam-se deste lado.

A lenda diz que no “Dia D” terá dito que não estava em causa a libertação da França, mas também do champanhe.

Ainda Churchill:

"Bebo sempre champanhe; na vitória para celebrar e na derrota para me consolar".

domingo, 29 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!


“Expresso”, 21 de Maio.



“Público”, 23 de Maio.



“Público”, 27 de Maio

POSTAIS SEM SELO


“Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, dclarei em família que iria começar a escrever poesia
“Antes
De te sentares
à  mesa
lava bem
essas mãos”

Luís Filipe Parrado em “Resumo: a poesia em 2009”, Assírio & Alvim, Março 2010

Legenda:  fotografia de Melanie Safka tirada do álbum “Candles in The Rain”, Setembro 1970 

MATINÉ DAS 3


“Esplendor na Relva”Realização: Elia Kazan (1961)
Com Natalie Wood, Warren Beaty
Nada é tão eterno como o amor.

“Bud – Casei com a Angelina. Sabes que nem ao fim do 1º ano cheguei?
Deanie – Ela é muito simpática.
Bud – Foi maravilhosa quando as coisas se complicaram.
Deanie – És feliz, Bud?
Bud – Acho que sou. É pergunta que não costumo fazer a mim mesmo. E tu?
Deanie – Caso para o mês que vem com um rapaz de Cincinatti. Acho que ias gostar
dele.
Bud – A vida às vezes leva cada rumo, não é, Deanie?
Deanie – Lá isso!...
Bud – Espero que sejas muito feliz.
Deanie – Também eu não penso muito na felicidade. Como tu.
Bud – Para quê? Temos de aceitar a vida como ela é.
Deanie – Gostei muito de te ver.
Bud – Obrigada, Bud
Deanie – Adeus.”

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Este foi o último programa desdobrável da programação mensal da Cinemateca Portuguesa.

Todos os meses, o caminhar para a Cinemateca, ou a Culturgest, ou a Livraria Barata, para recolher o folheto, olhá-lo, circundar as escolhas dos filmes a ver.

Não mais se publicará.

Ficámos confinados á programação que, no site na Internet, a Cinamateca coloca, ou aos avisos afixados no edificio da Barata Salgueiro.

Há pequenos gestos, aparentemente insignificantes, que marcam os nossos dias.

Deixamos de os ter e assim vamos ficando mais pobres…mais tristes...

A notícia, juntamente com outros, veio em jeito de comunicado em que a Cinemateca esclarecia que “as recentes medidas administrativas introduzidas no funcionamento dos Organismos dependentes da Administração Central do Estado, nomeadamente as que decorrem da aplicação da Portaria 4-A/2011, obrigam a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema a proceder a algumas alterações na sua actividade pública, que, no imediato, comprometem a programação anunciada para as duas salas. As referidas medidas têm implicação nos procedimentos administrativos, afectando o transporte das cópias e os serviços de legendagem.”
Maria do Rosário Pedreira disse, há meses, numa entrevista que quando ouvia alguns políticos falarem se perguntava que teriam lido algum livro inteiro, tal era a pobreza do seu discurso.

Quando a crise invade o quotidiano, a primeira coisa que os políticos se lembram é cortar na cultura, essa coisa de minorias, possivelmente tiques vindos do tempo em que um biltre, mal ouvia falar em cultura puxava logo da pistola.

Difícil é cortar as mordomias que os boys-de-gracata-azul-bebé, espalhados pela administração pública, usufruem e engordam – e de que maneira! – a despesa do Estado.. e endividam o estado.

João Bénard da Costa, onde quer que esteja, terá dado um enorme grito de indignação!

SARAMAGUEANDO



Pelos Cadernos, ficamos a saber que, no dia 1 de Março de 1994, Saramago recebeu, em Lanzarote, a visita de Mário Soares.

Ter-lhe á dito, como sempre fez questão de dizer, que era um europeu céptico que aprendeu todo o seu cepticismo com uma professora chamada Europa.

“Tive a melancólica satisfação de ouvir dizer a Mario Soares que partilha hoje de algumas das minhas reservas, antigas e recentes sobre a União Europeia: “Que será de Portugal quando acabarem os subsídios?”, foi sua a pergunta, não minha). Aproveitei a ocasião e permiti-me substituir a pergunta por outras mais inquietantes: “Para que serve então um país que depende de tudo e de todos? Como pode um povo viver sem uma ideia de futuro que lhe seja própria? Quem manda realmente em Portugal?” Não tive respostas mas também não contava com elas.”

Dos Cadernos, um salto até à Longa Viagem:

“Entraram aqui milhões de contos por dia em fundos da União Europeia e perguntamo-nos onde está esse dinheiro, o que se fez com ele? Gostaria que o Governo publicasse um anúncio de página inteira nos jornais para explicar o q ue Portugal recebeu da Comunidade e onde é que essas importâncias foram aplicadas. Era uma informação para o povo português ficar a saber que a entrada na Comunidade não tinha sido um capricho político e que havia razões – que até se comprovavam – justificadas pelo apoio económico materializado em milhões todos os dias no país. Não se fez nunca isso, nem foi dada uma explicação porque seria muito difícil dá-la. E, claro, que eu nem queria chegar ao pormenor dos tostões…”

A agência EFE de Madrid, no dia de natal do ano de 2006, publicou uma entrevista com Saramago:

 “A Europa não está definida, não sabe o que é e, ao fim e ao cabo, um projecto social que fracassou. Cada país está a puxar para o seu lado.”

De uma entrevista ao “Canarias 7” de Las Palmas em 20 de Fevereiro de 1994:

“A Comunidade Económica Europeia é um conselho de administração de um espaço económico, sobretudo económico. E, como acontece sempre nos conselhos de administração, quem manda é quem tem mais acções. Em poucos anos, a Europa será administrada pela Alemanha e nós seremos só uma espécie de satélite do Bundesbank.”

Se ainda estivesse entre nós, e ao ver o que está a acontecer ao País, teria mais uma das suas “melancólicas satisfações”.

sábado, 28 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!



Hoje, a chuva desabou sobre o vazio, pobre e triste, da campanha eleitoral.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

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Dou sempre um salto quando o reles e parvo dia-a-dia aparece no meio de um filme. Lá para metade do “E.T.” de Spielberg, quando já acreditamos em tudo, em extra-terrestres e que há um anjo em cada um de nós, o esverdeado ser de outros mundos dirige-se ao frigorífico. Abre-o e tira uma cerveja. Bebe-a e arrota. É uma pincelada de
quotidiano que faz o espectador feliz.

Manuel S. Fonseca, na revista “Actual” do “Expresso”, 14 de
Maio de 2011.

 O “E.T” é um filme de 1982 realizado por Steven Spielberg e está considerado com um dos maiores sucessos de bilheteira de toda a história do cinema.

 Um alienígena perdido na Terra faz amizade com um garoto de dez anos, que o protege de todas as formas para evitar que ele seja capturado e transformado em cobaia pelo serviço secreto americano. O menino ajuda o ET a regressar ao seu planeta.

Alguns dos substantivos, adjectivos e verbos que Miguel Esteves Cardoso emprestou à crítica que fez ao filme:

Esplendor, fascínio, divertimento, carinho, nostalgia, magia, prazer, felicidade, simpatia,
encantamento, afecto, glorioso, feliz, celeste, gentil, inocente, prodigioso, resplandecente, amoroso, chorar, comover, seduzir, enfeitiçar, fantasiar, solidarizar, desejar, cativar.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

Largo de Santa Bárbara em Lisboa

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PORREIRO PÁ!!



Até ao dia 5 de Maio, foram formalizadas acusações contra 66 pessoas e entidades, dos quais 32 executivos de topo, incluindo presidentes executivos e administradores financeiros, de acordo com os dados disponibilizados pela entidade que regula os mercados financeiros nos Estados Unidos.

"A crise foi o resultado da acção e inação humana, não da mãe natureza ou de modelos disfuncionais", esta foi apenas uma das conclusões da investigação dos EUA à maior crise financeira desde a Grande Depressão.

Bancos, reguladores, Governo, agências de 'rating' estão entre aqueles que são apontados como os que mais contribuíram, potenciaram ou mesmo provocaram uma crise que, antes de mais, "era evitável", conclui o relatório.

A Islândia e a Irlanda já terminaram investigações à crise financeira, semelhantes à dos Estados Unidos, a Comissão Europeia abriu vários inquéritos, e o Reino Unido decidiu investigar as respostas à crise da própria Comissão Europeia.

Desde o eclodir da crise financeira nos Estados Unidos, mais visível na segunda metade de 2008, a Islândia ficou à beira da bancarrota e Grécia, Irlanda e Portugal tiveram de pedir apoio financeiro a Bruxelas e ao Fundo Monetário Internacional.

O membro do Banco Central da Islândia Gylfi Zoega defendeu que Portugal deve investigar quem está na origem do elevado endividamento do Estado e bancos, e porque o fez.

"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu país eu sei quem puxou os cordelinhos, porque o fizeram e o que fizeram, e Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve esse incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e como se pode solucionar esse problema no futuro.”

A eurodeputada socialista Elisa Ferreira diz não encontrar qualquer vantagem na realização de uma auditoria à dívida pública portuguesa, considerando que mais vale concentrar energias noutras direcções do que em "revisitar o que já está revisitado".

O eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes defendeu que o responsável pelo "descalabro das contas públicas" está identificado, considerando que uma auditoria para apurar quem esteve na origem do endividamento estatal seria apenas uma "caça às bruxas".

"Essa auditoria para mim está feita. Todos sabemos que o responsável pelo descalabro das contas públicas foi o Governo do engenheiro Sócrates",

O eurodeputado Diogo Feio defende que as responsabilidades da crise financeira em Portugal devem ser determinadas nas urnas, rejeitando a necessidade de instaurar uma
investigação para saber quem está na origem do endividamento do Estado e dos bancos.

A eurodeputada Ilda Figueiredo defendeu que uma investigação para apurar quem esteve na origem do elevado endividamento do Estado e bancos só serve para encontrar "bodes expiatórios" de uma situação causada por governos, Comissão Europeia e Conselho Europeu.
"Os responsáveis pela crise vivida em Portugal são o Conselho, a Comissão a Comissão e o Governo português

O Bloco de Esquerda defende a realização de uma auditoria urgente à dívida pública como forma de aferir a responsabilidade pela situação do país e como primeiro passo para a renegociação com os credores.
Miguel Portas considerou que "a realização de uma auditoria é a medida mais urgente que o país tem para enfrentar o problema da dívida pública".

O empresário Belmiro de Azevedo afirmou que "alguém foi responsável por todos os portugueses estarem 30% a 40% mais pobres neste período mais recente", considerando que "tem que haver culpados".
 
Fonte “Diário de Notícias”

DA MINHA GALERIA


José Sócrates ligou duas vezes a Fábio Coentrão para o convencer a participar na acção de campanha que o PS tem agendada para amanhã nas Caxinas, em Vila do Conde.
Coentrão disse que não ia.
Vou mesmo ter saudades deste Puto!

VAGUEANDO PELA CIDADE

Ontem, meio da tarde, no Jardim Constantino.

POSTAIS SEM SELO


As viagens inventaram-se para quem está triste. Se não houvesse pessoas tristes, não havia agências de viagens.

Agustina Bessa Luís

Legenda: capa do livro 20th Century Travel: 100 Anos de Publicidade de Viagens

quinta-feira, 26 de maio de 2011

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Na sua edição de 26 de Maio de 1974, “O Século” , colocava em título de 1ª página a atribuição do valor do Ordenado Mínimo Social.

Antes da decisão do Conselho de Ministros presidida por Adelino Palma Carlos, admitia-se a possibilidade do valor ser de 6.000$00, mas este valor era incomportável pele estrutura económica do País.

 Em França, o valor do salário mínimo era um pouco superior a 5.000$00.

Dois casos não ficaram abrangidos por esta decisão: os trabalhadores rurais e as empregadas domésticas.

Valor do Salário Mínimo Nacional em 2011: 485 euros.

PORREIRO PÁ!!



Passo a passo, o dia 5 de Junho aproxima-se…
José Sócrates, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas… ou os Salteadores da Arca Perdida.
As sondagens referem uma série de indecisos que ainda não sabem em que partido irão votar.
Gostava de conhecer uma sondagem em que apenas houvesse uma pergunta:

Você é masoquista?

 Legenda: Pintura de George Grosz

IDÍLIO EM BICICLETA


“Entrámos no Peru sob o sol quente do meio da tarde”

Texto e Imagem de Idílio Freire.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE



A Colecção “Ídolos do Desporto” já não existe.

Era uma publicação semanal dirigida por E. Carradinha. Preço: 3$00.

Este é o nº 8 da 7ª serie, datado de 22 de Janeiro de 1972 e dedicado a “José Henrique – Um “Gato” Entre os Postes”.

José Henrique tem hoje 68 anos.

O 1º capítulo do livrinho intitula-se: “De Zé Ninguém a Grande Senhor da Baliza”
.
Representou o Arrentelense, o Amora, o Seixal, o Atlético e, por fim, o Benfica onde
foi campeão nacional por oito vezes, conquistou 3 Taças de Portugal, foi vice-campeão europeu em 1967/68.

Sucedeu a Costa Pereira na baliza do Benfica, tendo ganho a corrida a Nascimento, um guarda-redes que tinha vindo do Belenenses. Despediu-se do futebol em 1 de Junho de 1977 e para o seu lugar entrou Manuel Galrinho Bento.

Venceu duas “Balizas de Prata”, troféu para o guarda-redes menos batido.

Na baliza da Selecção Nacional sofreu a forte concorrência desse senhor chamado Victor Damas.

O nº 9 da 2ª série de “Ídolos do Desporto” seria dedicado a Lemos do F.C. do Porto. Um jovem promissor que num domingo, num jogo nas Antas, meteu quatro golos ao Benfica e, depois nunca mais fez nada no futebol, sendo esses quatro golos a sua única glória.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI




Sempre acontece assim:

Ninguém, até hoje, me empresta tanta comoção como Carlos Paredes.

 E é vasto o meu panteão de gente de que gosto

Não apenas pela sua genialidade, o seu virtuosismo, mas também a sua coerência, a sua postura perante a vida, os ideias que cedo abraçou e nunca mais abandonou, uma modéstia arrasadora que levou um dia Amália Rodrigues a dizer que só lhe apetecia bater.

Ouvir Carlos Paredes é sentir todo um país, este que a que, volta e meia, emprestamos arremedos de amor e ódio.

Carlos Paredes era um dos clássicos do meu pai.

Foi ele que comprou todos vinis e considerava-os arrepiantes

Ficava com os olhos molhados quando ouvia “Guitarra Portuguesa” e era esse o disco que aqui eu devia colocar.

Mas será este e passo a explicar.

Uma mensagem enviada de Serajevo, o Pedro a perguntar-me se eu tinha o “Movimento Perpétuo”, na volta eu a dizer que não, já o tivera, mas o disco, emprestado que foi, pelas artes do costume, não retornou à casa pai, ele a finalizar a conversa: “comprei dois, levo-te um quando for a Lisboa.”

Está aqui.

Este lindíssimo disco do Príncipe que nos calhou em sorte, Carlos Paredes de seu nome.
Um tempo feliz, porque uma coisa é ter discos, outra coisa é esses discos serem de vinil, e só quem foi do tempo do vinil, sabe do que estou a falar.

Obrigado, Pedro!

Como isto anda tudo ligado, não fica mal colocar aqui um texto do Mário Viegas, escrito pata uma homenagem que, em 1993, o TEL fez a Carlos Paredes.

A mensagem está incluída na "Auto-Photo Biografia" de Mário Viegas:

“Conheci Carlos Paredes no Pólo Norte … Exactamente! Numa viagem “Mágica” de avião que atravessou esta bola imensa em que vivemos, a caminho do Japão, em 1970, com a Companhia do Teatro Experimental de Cascais.
Lembra-se Carlos, da nossa noite perdida no “bas-fond” de Osaka? O que nos divertimos!!!
É que Carlos Paredes é não só um músico genial como um conversador imparávelel, um homem cultíssimo, um namoradeiro incorrigível, um eterno apaixonado, o maior distraído do Globo terrestre, que atravessou sempre a vida de gravata, máscara de uma enorme humildade e violenta coragem física e crítica.
Se a “Cantiga é uma Arma”, as suas guitarras são e foram um dos maiores canhões contra o fascismo e a indignidade!
Tive a honra de viver com ele espectáculos e convívios que não me esqueço. Mas sem os querer maçar, gostava só de recordar um dos momentos mais comoventes da minha vida. O primeiro espectáculo que se fez dentro dum quartel depois do 25 de Abril, na noite de todos os nossos Primeiros de Maio. No quartel do Campo Grande, onde durante dois anos me embebedava com o horror da estupidez da tropa, como pseudo-oficial miliciano…
Sem hesitar, o Paredes aceitou ir tocar no refeitório e eu a dizer poemas, pela lª vez em Liberdade. E ao ver aquelas centenas de trabalhadores-fardados a aplaudir de pé, a chorarem, a inutilidade da Poesia e das notas de uma guitarra, tive a certeza que ainda podemos servir para alguma coisa como artistas.
Beijinhos Paredes e copiando o seu inimitável estilo, só lhe resta dizer entre o surpreendido e o desajeitado

“Oh amigo!!!”


Nota do editor: o ano da edição em vinil é 1971.
A fotografia da capa é de Augusto Cabrita.
Carlos Paredes é acompanhado por Fernando Alvim na viola e Tiago Velez na Flauta.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!


Do “Público” de hoje”

Os trabalhadores portugueses são os que menos conseguem equilibrar a vida familiar e profissional, têm níveis de stress elevado, e 22 por cento são pressionados pelas empresas a trabalhar longas horas.

Segundo o GfK International Employee PR 36 por cento dos inquiridos em Portugal admitem que foram obrigados a aceitar um emprego de que não gostam devido à crise.
Cerca de 39 por cento dos portugueses estão dispostos a mudar de país para conseguirem um emprego melhor (a média global é 37 por cento) e 38 por cento dos trabalhadores referem que o seu empregador está a utilizar o argumento da recessão para exigir mais esforço, com os mesmos recursos.

Do “Correio da Manhã” de hoje:

O PS está a oferecer aos militantes e apoiantes de Penafiel uma visita ao oceanário Sea Life do Porto, no domingo, como contrapartida da presença no comício com José Sócrates, no mesmo dia à tarde. Mais de 200 pessoas já reservaram lugar num dos vários autocarros que fazem a viagem até ao Porto, que também é oferecida pelo PS.

UM PASSEAR PELOS TEMPOS




De uma velha crónica publicada por José Cutileiro em “O Tempo e o Modo” s/d

AINDA SOBRE GUARDA-REDES


Tendo andado por aqui a falar do Victor Damas, do Bento, e por guarda-redes, ocorre-me uma velha crónica do José Neves de Sousa, publicada no extinto semanário “Sete”,

Fala do tempo em que Julio Iglesias, antes de, com as suas cantorias, começar a dar cabo das cabecinhas das meninas e das balzaquianas, foi guarda-redes suplente do Real Madrid.

Atente-se:

“Ilustre multimilionário: aplausos para uma voz. Talvez não se recorde de mim: recuando no tempo (viajando até 1963) eu estava naquela fila de jornalistas que, na Embaixada de Espanha, em Lisboa, participou na Conferência de Imprensa em que o Real Madrid adiantava que não tinha medo nenhum do Benfica.

Este seu distante amigo botou umas perguntas: responderam os Puskas e os Gentos, a gente importante dos “merengues”, você (simples guarda-redes suplente, mas já a abarrotar de dinheiro por via do papá cirurgião-mor) nem abriu o bico.

Hoje, pagam-lhe fortunas só para cantarolar umas tretas que reviram os olhos das meninas.

Naquele tempo, daí a horas, o Real apanhava cinco na Luz, o Eusébio foi um portento, o Julito nem saiu da lateral: mudar de “portero” não adiantava nem atrasava, elas entravam como bólides, o pagode só queria o Eusébio e até estou em crer que você, ilustre personagem hoje mundial, nem sequer deu um autógrafo. Era bonitão, mas não funcionava como “craque” dos relvados. Entrava mudo e saía calado.

Agora entra a desfazer-se em melaço e sai em ombros. É isso que me leva a ficar cismando como o mundo vira. Sei lá se continuaria “pobretanas” caso tivesse também feito uma agulha a 180 graus e me tornasse (por exemplo) piloto de helicóptero, caçador em safaris, político profissional ou pianista para baile.

Você, Julito, nasceu confortavelmente, em berço de ouro: teve tempo para fazer experiências e até antes de ser marido da esbelta senhora que lhe deu dois filhos, já tinha tido nos braços meio mundo de misses espampanantes.

Eu tive de me governar com a prata da casa. Desculpe se não me vir no Estoril: ir ao Casino para o rever (um quarto de século depois do anonimato da futura vedeta) dava cabo do orçamento lá de casa e os “indios” tinham de travar os serrotes dentais.

Mas, em espírito, estou ao pé de si: é impossível deixar de admirar-se quem é esperto e sabe bem governar a vidinha. E vá aparecendo, a malta gostará de o ver um dia que se faça uma festa para a terceira idade, a rapaziada do nosso tempo tiver uma lagrimazita ao canto do olho e você der uma borla. Talvez a única de uma vida onde só o cifrão tem sido comandante.

Aquele (longínquo) abraço do admirador Neves de Sousa”.

Legenda: Fotografia de Gerard Castello Lopes

terça-feira, 24 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!


O número de reformados do sector público que ganham pensões superiores a 2500 euros - o dobro do valor médio pago a todos os ex-funcionários - explodiu na última década.
O contingente de aposentados com 4000 ou mais euros engordou cerca de 400%.
Números que elevam o esforço dos contribuintes, prejudicam a execução orçamental e contrastam com outros mais moderados ao nível dos "mais pobres".

Sobre os dados revelados de que há cerca de 20 administradores a acumularem funções em mais de 30 empresas distintas, leia-se a crónica de Manuel António Pina no “Jornal de Notícias” de hoje:

“Com 689 000 desempregados e 204 000 "inactivos" (pessoas que desistiram já de procurar emprego), isto é, 15,5% de gente sem trabalho que os critérios estatísticos transformaram em 12,4%, o país já há muito teria soçobrado não fosse o patriótico esforço daqueles que, para compensar a calaceirice nacional, se desdobram por sucessivos postos de trabalho, correndo incansavelmente de um para outro, indiferentes à tensão arterial, ao colesterol, aos triglicerídeos e à harmonia familiar.
O Relatório Anual sobre o Governo das Sociedades Cotadas em Portugal - 2009, da CMVM, agora tornado público, refere "cerca de 20" desses magníficos, todos membros de conselhos de administração de empresas cotadas, muitas delas públicas, que "acumulavam funções em 30 ou mais empresas distintas, ocupando, em conjunto, mais de 1000 lugares de administração".
Revela a CMVM que, por cada um destes lugares, os laboriosos turbo-administradores recebem, em média, 297 mil euros/ ano, ou, no caso dos administradores-executivos, 513 mil, havendo um recordista que, em 2009, meteu ao bolso 2,5 milhões de euros.
Surpreendente é que, no meio de tanta entrega ao interesse nacional, estes heróis do trabalho ainda encontrem nas prolixas agendas tempo para ir às TV exigir salários mais baixos e acusar desempregados, pensionistas e beneficiários dos "até" (como nos saldos) 189,52 euros de RSI de viverem "acima das suas possibilidades".

VAGUEANDO PELA CIDADE

Uma guitarra à varanda na Avª Almirante Reis.

IDÍLIO EM BICICLETA



“Almoço tranquilo no simpático “complexo” Vida Aventura, um mar de sossego no coração verdejante das montanhas do sul.”

Texto e imagem de Idílio Freire

SARAMAGUEANDO


São de eleições os tempos que atravessamos.

Dizem-nos: em cada eleição joga-se o nosso futuro.

Serão os indecisos que irão decidir o vencedor.

Podem os indecisos decidir alguma coisa?

O voto dos indecisos já nos trouxe até aqui

Voto consciente?

Não: apenas voto indeciso e as indecisões nunca resolveram problemas, casos houve em que os agravaram mais.

No seu “Ensaio Sobre a Lucidez” José Saramago aborda o voto em branco.

"O voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco

“Estou contra o sistema que nos governa e consegui encontrar o instrumento por excelência de contestação: o voto em branco.”

O voto em branco é uma questão que acompanha Saramago, pelo menos, desde Abril de 1975, altura em que, dando concordância ao apelo do MFA para que assim votassem os que não estavam esclarecidos sobre o sentido do seu voto, escreveu um “Apontamento”  no “Diário de Notícias”:

“É preciso que fique esclarecido que o voto em branco ou inutilizado com um traço também é voto. É voto que deve merecer tanto respeito como aquele que se exprime firmemente por uma opção partidária. O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma. O voto em branco é uma forma de protestar contra quarenta e oito anos de fascismo que, eles sim, são os verdadeiros responsáveis por esta discussão tão pouco clara, em que se procura pescar votos como em águas turvas se pescam peixes cegos.”

Em “Uma Longa Viagem com Saramago” , João Céu e Silva, pergunta-lhe se  a tese do voto em branco, expressa no livro tinha sido uma provocação.

Saramago confirma e explica:

“Porque uma democracia que não se decide, que não sabe que uso fazer dos votos expressos – ou que às vezes sabe muito bem o que é que há-de fazer dos votos expressos, exactamente o contrário daquilo que foi prometido aos eleitores, chega a um momento em que faz uma pessoa perder a paciência. Há quantos anos é que andamos a meter papéis dentro de urnas? Uma quantidade deles e continuamos a fazê-lo porque a democracia é muito boa e, portanto, é preciso levá-la a toda a parte para que mais pessoas metam papeis dentro de uma urna (…) Isto é também uma comédia, só que uma comédia que tem consequências muito graves e uma delas é que da democracia à demagogia vai um passo –que está constantemente a ser dado, pois os políticos não respeitam a sua própria palavra.

Legenda: Caricatura de António publicada no “Expresso”, Março 2004

segunda-feira, 23 de maio de 2011

PORREIRO, PÁ!



Dizem os entendidos que estas eleições irão ser decididas pelos indecisos.

Andamos nisto há trinta e sete anos.

O resultado salta à vista.

Legenda: o título é do “Público” de 20 de Maio.

EVTUCHENKO EM LISBOA


Maio de 1967, tempos de ditadura.

Por aqueles tempos, o cinzentismo, a muralha de silêncio, por vezes, quebrava-se e saltavam pedras para o charco.

Acontecia  um grito, uma festa.

Como é que um escritor soviético desembarca no Portugal de Salazar?

Mercê das muitas influências, nacionais e no estrangeiro, que Snu Abecassis, fundadora e proprietária das “Publicações Dom Quixote”, mantinha
.
Possivelmente fez chegar a Salazar a mensagem que o homem, apesar de soviético, era inofensivo. Terá dado garantias.

O regime viu que talvez valesse a pena correr o risco. Para compor a cena, terá imposto, aconselhado que o escritor fosse a Fátima, ocorria o 50º aniversário do milagre da fé, com a presença do papa Paulo VI. Também calhava bem uma fotografia com um cartaz turístico, outras miudezas…

Penso que terá sido na “Seara Nova” que dei com uma referência, ao sucesso que a tradução do livro de um jovem escritor soviético estava a provocar no Brasil. O autor era Eugénio Evtuchenko o livro chamava-se “Autobiografia Precoce”.

Falei do entusiasmo ao meu pai, e se ele, pelos meios habituais e clandestinos, arranjava o livro.

A costela marxista-leninista do senhor meu pai, fez-lhe torcer o nariz, lembro-me de o ouvir dizer que autobiografia de alguém que tinha 30 anos, deveria ser apenas para gozar o pagode.

Passadas duas ou três semanas, chegou o livro. Começava assim:

“A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas. O resto é suplementar.”

Sorrio ao lembrar a alegria com que li e reli o livro, como o fiz passar, de  mão em mão, pela malta.

Fácil ser-se ingénuo naquela idade, naquele tempo.

Peguei-lhe agora, está todo sublinhado.





Ao acaso:

“… para ser poeta, não é suficiente saber escrever poemas. É necessário, ter capacidade para defendê-los.”

“O pão não substitui o ideal. Mas, o ideal substitui o pão. Tal é, a meu ver, a natureza do homem. E estou convencido que só os grandes sofrimentos geram os grandes ideais.”

“A dura escola da vida me ensinou a ter confiança nos outros”.

Em Janeiro de 1967 aparecem na imprensa as primeiras notícias de que estava para breve a publicação, pelas “Publicações Dom Quixote”, da “Autobiografia Prematura” de Ievtuchenko – “um depoimento sobre a juventude, a poesia, o estalinismo e o socialismo,”

A 13 de Maio, surpresa das surpresas, Evtuchenko,, vindo de Espanha, passaporte devidamente visado pela Embaixada de Portugal, aterra na Portela.

Apenas no dia 16 os vespertinos darão a notícia da sua presença em Portugal e ficamos, então, a saber que, mal pusera pé em Lisboa, de imediato arrancoara para Fátima.

Do porquê de ir a Fátima dirá aos jornalistas:

“Porque eu sabia que uma experiência destas é uma coisa muito rara, muito importante.”

Pela ida de Evtuchenko a Fátima, ainda estou a ver o sorriso trocista do meu pai.

A leitura dos jornais da época, permite este desenhar dos passos do poeta:

Sábado à noite, regressa de Fátima.

Domingo de manhã dará um passeio por Lisboa, uma fotografia, publicada no “Diário Popular”, mostra-o junto à estátua de Camões.

“Camões é muito conhecido na União Soviética”, disse.

Manifesta o desejo de ver o Benfica e Eusébio mas estes jogavam em Aveiro e acabou por ir ao Restelo ver o Belenenses ganhar, por dois a zero, ao Vitória de Setúbal.

Encontro com jornalistas nas instalações das “Publicações Dom Quixote”. Uma frase que ficou:

“A poesia é como os pássaros e os pássaros não conhecem as fronteiras.”




Recepção com escritores portugueses, em casa de Snu Abecassis.

A 15 de Maio, na mouche, José Gomes Ferreira escreve nos seus “Dias Comuns”:

 “Telefonaram-me de “Publicações Dom Quixote a convidarem-me pata uma recepção em honra do poeta Ievtuchenko que se encontra, há dias, em Lisboa (facto que os jornais ainda não anunciaram). Agradeci, dei uma resposta vaga e não fui. Com toda a sinceridade, interessa-me pouco a carne-e-osso desse Poeta-Turista que anda a pavonear-se pelos países fascistas, por reclamo próprio.”

- Mal chegou e apareceram os fotógrafos – contou-me hoje o Baptista-Bastps – parecia histérico aos berros está aí algum fotógrafo americano? Algum fotógrafo americano?
- Que o pariu! – Disse eu comigo – Não o conheço. Ele, se quiser, que me procure!”

Na manhã seguinte vai até Sesimbra, na companhia de Fernando Namora.
Confraterniza, numa taberna, com pescadores, petisca queijos, bebe vinho da região.
O repórter do “Diário Popular” deixa cair um pormenor: ”comeu vorazmente salsa crua.”

À noite aparece, inesperadamente, na “Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense”, onde José Carlos de Vasconcelos dava um recital de poesia.

Não resistiu a recitar, em russo, o poema “Dorme Amor”

Dia 17, sessão de autógrafos na “Livraria Divulgação”, na Estefânia. Mais um pormenor da reportagem do “Diário Popular:Esgotados os exemplares da sua “Autobiografia Prematura”, (1000.000 exemplares) assinou sobre toda a espécie de papéis. Alguém lhe apresentou, subitamente, um Dicionário de Russo-Português.”
 
Nessa mesma tarde, no “Capitólio”, dará um recital de poesia, “lotação largamente excedida”, lê-se na reportagem do “Diário de Notícias”.
Teatralmente, Evtuchenko, recitou os poemas em russo. Antes, Fernando Assis Pacheco leu a tradução desses poemas, feita por J. Seabra-Dinis.

Em Junho, as “Publicações Dom Quixote”, hão-de lançar um livrinho “Ievtuchemko em Lisboa”, com a tradução do recital no “Capitólio”.

À noite, sessão de autógrafos na Feira do Livro. Os escassos livros reservados para a ocasião, desapareceram num abrir e fechar de olhos. 






Com uma máquina-quase-de-brincar, tirei algumas fotografias.
Gosto particularmente daquela em que Evtuchenko, oferece ao guarda da P.S.P. destacado para o pavilhão para manter a ordem olha o poeta, um exemplar da “Autobiofrafia Prematura autografado.

Aparece o José Carlos Vasconcelos e, no fresco da noite, ficamos à conversa. Fala-me, com emoção e entusiasmo, da impressão que, na véspera, quando apareceu no Recital de Poesia no Seixal, Evtuchenko lhe deixara.

A viva comunicabilidade de Evtuchenko não deixou apenas Carlos Vasconcelos impressionado, foram muitos mais.
   
Entusiasmo de ocasião que o tempo haveria de provar.

Na manhã do dia 18, Evtuchenko, toma o avião para Paris, onde apanhará um outro que o levará para Moscovo.
Disse aos jornalistas que “o público português é um dos melhores do Mundo”





No aeroporto da capital francesa, instado pelos jornalistas sobre a sua peregrinação a Fátima, Evtuchenko responde:

“A minha impressão foi extremamente forte e não pode ser resumida numas palavras. Nunca me poderei esquecer das expressões angustiadas dos circunstantes, procurando no céu uma esperança que, para eles, não existe na Terra.”

Lembrança para novo sorriso trocista do senhor meu pai.

Passados dois, três anos, começaram a ser conhecidas notícias que realçavam o seu oportunismo, o seu único interesse em conservar privilégios.

O entusiasmo pela leitura da “Autobiografia” foi morrendo aos poucos, para hoje ser apenas  uma remota lembrança no canto da memória.

A História diz que não se pode enganar as pessoas todo o tempo.

Em 5 Agosto de 1974, Alexandre O’ Neill, escrevia em “A Capital”:

“O Pássaro esteve há sete anos entre nós. Não chegou a ser o Maiakowski que provavelmente alguém esperava que ele afivelasse, mas alguns entusiastas tocaram-lhe como se o pássaro fosse uma peregrina relíquia do grande poeta soviético. Não era, não podia ser, como rapidamente se viu.”