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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


A Invenção do Amor

Daniele Filipe
Prefácio: Francisco Espadinha
Colecção Forma
Editorial Presença, Lisboa s/d

Mas há a noite. O estar sozinho
e no entanto acompanhado — servo de um deus estranho
cumprindo o ritual jamais completo.

Mas há o sono. A lúcida surpresa
de um mundo imaterial e necessário,
com praias onde o corpo se desprende.

Mas há o medo. Há sobretudo o medo.
Fel, rancor, desconhecido apelo,
suor nocturno, rápido suicídio.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Discurso Sobre a Cidade

Daniel Filipe
Sagitário, Porto 1957

São múltiplas as faces da cidade. Matinal ou nocturna, para a conhecer é indispensável descobrir todos os seus disfarces. Quem dela se abeira em busca do rosto único e imutável, busca a simplicidade, que é engano, a evidência no que é íntimo, misterioso, oculto. Diversa e contraditória aos olhos que a percorram com amor, nisso reside a sua maior grandeza e sua força.

Exterior à cidade, não a possuirás nunca. É preciso esquecer, é preciso aceitá-la, como um menino aceita o seio de sua mãe. É preciso que lhes dês um amor novo — um amor feito de conhecimento e de dádiva. É preciso que as tuas veias sejam as veias da cidade — e o sangue rubro, vivo, corra cantando nos teus músculos mortais e aflore de sonho as pedras da cidade. É preciso, afinal, que faças parte da cidade.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Manuscrito na Garrafa

Daniel Filipe
Colecção Horas de Leitura nº 15
Guimarães Editores, Lisboa Março de 1960

O Pinheiro apressava-se. «Ele é sincero consigo e com os outros, porque acredita em tudo o que defende. Mas eu não. Já não sou suficientemente simples para acreditar em fadas, nem ainda bastante hipócrita para o fingir a contragosto. Nada tenho a fazer aqui. Para experiência basta».
À porta quatro homens olhavam-no, indecisos. Entraram, um a um, tìmidamente, como quem pede desculpa de se fazer notar. Carlos identificou-os logo – operários em traje domingueiro. Aqueles, por certo, também acreditavam. Vinham, de toda a parte, procurar a verdade, integrar a verdade nos corações submissos. Sorriu-lhe, inquirindo:
- Desejam alguma coisa?
Pinheiro ergueu a cabeça. E explicou:
- São representantes dos trabalhadores. Caramba, esqueci-me Tinham pedido para serem recebidos.
E para os homens, à vontade:
- Vocês desculpem. Mas com tanta coisa que fazer, passou-me inteiramente. Fica para a próxima. Cá nos encontraremos de novo. Tenham paciência.
«Tenham paciência». Carlos sentiu a frase como uma bofetada. «Tenham paciência. Uma vida inteira a ter paciência: paciência para os filhos, para a mulher, para os salários de fome, para os patrões espoliadores, para a doença, para a morte. Cabeça sempre curvada, concórdia, humilhação. E agora também paciência para os intelectuais de pacotilha que não se lembrara deles. Raio de vida».
Falou-lhes:
- Mas, afinal, queriam alguma coisa? Se lhes pudermos ser úteis…
O mais velho dos quatro gaguejou, rodando nas mãos o boné de xadrez:
- A gente queria era vê-los. Apenas para dizer que cá a rapaziada está pronta para o que for preciso. O que a gente quer é aprender
Carlos sentiu um nó na garganta. «Raios partam isto tudo. Tanta pureza, tanta ingenuidade malbaratada». 

sábado, 14 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Pátria, Lugar de Exílio

Daniel Filipe
Editorial Presença, Porto s/d

Je dis à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui j'aiment
Même si je ne les connais pas

Pelas tuas razóes
Prevert
e por outras também
trato por tu a quem amo
mesmo que seja o nosso primeiro encontro
e nunca mais talvez
nos voltemos a ver

Viajantes clandestinos
na pátria dominada em forma de navio
amamo-nos mesmo sem nos conhecermos
tratamo-nos por tu
tratamos por tu os que se amam
tratamos-te por tu a ti Prevert
sob a forma de poema
desta pátria-navio
o nosso amor visado pela Censura


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.