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quarta-feira, 29 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO



Recordo-me ter lido umas instruções aos inquisidores que diziam, mais ou menos, isto acerca dos livros em exame: se houver algo a cortar, é cortar essas partes insidiosas, porém, se a obra não apresentar, a uma primeira leitura, nada de censurável, então deve ser totalmente proibida a sua edição, poi isso apenas pode significar que a insídia se encontra completamente disfarçada.

José Viale Moutinho

UM CHAUFFEUR RUSSO E UMA CAPA VERMELHA


Segundo números da Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo, foram proibidas cerca de 3.300 obras pela PIDE.

Sabe-se que o romance de Max du Veuzit, John Chauffeur Russo, foi alvo de apreensão porque deveria ter algo de subversivo, e que o editor e livreiro José Ribeiro teve de ir à António Maria Cardoso explicar porque publicara o livro Isto Anda Tudo Ligado de Eduardo Guerra Carneiro com capa vermelha.

O editor e livreiro Fernando Fernandes disse um dia:

«Quando um editor suspeitava que um determinado livro estava sujeito a ser proibido combinava previamente com as livrarias da sua confiança e o envio de uma determinada quantidade de exemplares, par que no seu armazém ficasse apenas uma quantidade mínima destinada a uma eventual visita da polícia. Logo que a proibição se confirmava, as editoras informavam de imediato as livrarias e estas, por sua vez, tomavam as medidas necessárias, as quais se resumiam a esconder os livros e a avisar os seus clientes em quem podiam confiar. Para isso tinham já os seus lugares secretos só acessíveis a poucos. Mas o medo era uma constante, o medo já enraizado no subconsciente, que se manifestava mais racionalmente sempre que alguém não conhecido entrava porta adentro. Seria um novo cliente ou algum agente da PIDE para nos encomendar?»

Foi com base neste esquema, em que imperavam princípios de respeito e lealdade, que o meu pai com a cumplicidade do Senhor Carvalho, trabalhador da então Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, junto ao edifício onde era o Cinema Eden, conseguiu, entre outros, adquirir a «Antologia de Poesia Portuguesa do Pás Guerra», organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva Tavares, «A Praça da Canção» de Manuel Alegre, editada também pela Ulisseia, e a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e editada pela Afrodite de Fernando Ribeiro de Melo, e que, em Junho de 1969, deu origem a um julgamento por, segundo a acusação,«algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Diga-se que esta Antologia foi, no início deste mês, reeditada pela Ponto de Fuga de Vladimiro Nunes, mantém as ilustrações de Cruzeiro Seixas e também inclui o processo judicial que a sua publicação, no tempo da ditadura, provocou.

Certamente que a encontrarão à venda na Feira do Livro que hoje abriu taipais.

terça-feira, 2 de abril de 2019

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A ditadura salazarista/Caetanista proibiu milhares e milhares de livros.

Uma longa e miserável história.

A Crónica dos Pobres Amantes foi um desses livros apreendidos.

Comprei-o, juntamente com meia dúzia de números do Almanaque, numa barraca,
que vendia  livros em segunda mão, que durante muitos anos existiu logo à entrada do Parque Mayer.

Deixo esta transcrição tirada do prefácio do poeta José Blanc de Portugal:

«A Crónica dos Pobres Amantes é das raras «sinfonias» em prosa em que se aproveita o folclore de uma cidade multissecular e da sua humanidade. O resto são processos e era possível reescrever a Crónica com os fascistas no papel dos bons e os “subversivos” a fazerem de tiranos. O fascismo teria ensinado a um Mário fascista o mesmo que o Partido ensinou ao Mário comunista: que era «preciso perseguir até ao fim a felicidade através dos erros e dos sofrimentos quando se tem a certeza de seguir pelo caminho que a ela conduz». É o que aprendemos em todos os partidos e em todas as crenças religiosas ou políticas.»

No findar do prefácio, Blanc de Portugal revela que a tradução demorou dois anos a ser feita.

O prefácio está datado de Polana aos 14 de Junho de 1957.

«Escrevemo-la nas margens de dois oceanos, em dois continentes e em cinco territórios ou países. (…) O vosso tradutor português procurou mais a fidelidade e o espírito do estilo original do que primores literários mais pessoais em que provavelmente ainda mais se perderia. Pios leitores, rezai uma Ave-Maria pelos tradutores culpados ou caluniados – sempre incompreendidos e inglórios servidores das letras que só lhes pertencem por empréstimo. Traduções perfeitas? «Que ideia pândega!» Seria inda mais extraordinário do que um «Um aviadoe na Via del Corno!» como se lê na última página deste romance.»

domingo, 3 de março de 2019

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Uma sinistra e insignificante criatura, ao tempo funcionário da censura salazarista, assina, como Capitão Borges Ferreira, o despacho que determinou que o livro Vagão “J”, da autoria de Vergílio Ferreira, não poderia ser lido..

As ditas «razões» do militar Ferreira, são estas:

«Parece que o autor esteve em qualquer vila ou aldeia, e escolheu para protagonista do seu romance a família mais asquerosa do povoado – a família Borralho.
É uma família de degenerados, sem escrúpulos, sem caracter, sem dignidade, constituida por pae, mãe e muitos filhos, dormindo todos no mesmo quarto, em que os pais têm relações sexuais deante dos filhos, sem o mais leve pudor de parte a parte.
A filha mais velha, que a certa altura foi servir para uma casa rica, era induzida pela mãe a roubar a patroa e a ter relações sexuais com o filho da casa, para obter recompensas.
De vez em quando o autor salienta a questão social, pondo em destaque a diferença entre ricos e pobres e mostrando bem o rancor que se apodera dos segundos pelos primeiros, quando postos em presença uns dos outros.
O romance gira todo em volta destas misérias sociais, como se pode ver com facilidade em diferentes paginas que vão assinaladas.
Em vista do exposto, sou de opinião que o livro não deve ser publicado.»

Vagão “J" é uma das poucas incursões de Vergílio Ferreira pelo neo-realismo antes de encetar os caminhos do existencialismo.

No findar do romance Gorra desafia:

«- Vocês vêm todos pra Lisboa, sempre tenho a família ao pé. Trabalho sempre se há-de arranjar.
Não Gorra, Lisboa é longe.
- Aldemenos lá ninguém nos conhece, porque isto é mesmo uma porcaria de terra, a gente não pode dar um traque que se não saiba logo.
Calhau também tinha muitos projectos na cabeça e pô-los pràli todos, Gorra foi-os examinando um por um e Joaquina transbordava de alegria. Nunca saíra daqueles sítios e que espanto quando entrou na carruagem de terceira!,  Calhau ainda inquiriu se não haveria lugar mais barato, só se fores no Vagão Jota, disse o Gorra e riu.
- Atão vamos nesse, canudo, sempre se forra alguma coisa.
- Homem, isso é pràs bestas.»

sábado, 19 de janeiro de 2019

NÓDOAS DE SOMBRA


27 de Agosto de 1970

Estava anunciado para ontem um Festival Pop, dedicado aos hippies nacionais que apareceram aos magotes no Estoril – sítio escolhido para a cerimónia.
Afinal, ao que parece, os promotores esqueceram-se de pedir autorização legal para a reunião, os rapazes vindos de longe desataram a protestar e a polícia de choque com cães e tudo, interveio à pancadaria sem poupar ninguém, brutalmente, como de costume.
Hoje O Século traz sete linhas sobre o caso. E nem uma palavra sobre a violência verdadeiramente brutal.
Portugal é um paraíso – porque escamoteia por sistema as nódoas de sombra.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: sobre esta caso que José Gomes Ferreira refere, ver artigo do Blitz sobre os Festivais antes do 25 de Abril. 

sábado, 22 de dezembro de 2018

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Em Olhar as Capas surge a edição da casa de Podem Chamar-me Eurídice, adquirida já depois do 25 de Abril.
Mas a primeira leitura tinha ocorrido antes, livro emprestado pelo Carlos Alberto que era o campeão da rua no que tocava a livros «Fora do Mercado». 
Nunca revelou como os obtinha mas ninguém se preocupava com o pormenor.
Um livro de que gostei muito e que me marcou. 
Reli-o agora e continuo a achá-lo um livro muito bonito, maravilhoso mesmo.
Uma história de amor que tem no contexto histórico a vivência da clandestinidade e repressão da subversão universitária dos anos 60. É também uma metáfora do assassínio do escultor José Dias Coelho, abatido a tiro por agentes da PIDE.
Na etiqueta «José Dias Coelho» deste blogue, encontrarão evocações desse hediondo crime.
E este é o texto com que um qualquer major de cavalaria determinou a proibição do livro:

«Trata-se de um romance de amor entre estudantes universitários, cuja acção se situa num ambiente subversivo e com alguma imoralidade, em que o A. manifesta o propósito de exteriorizar o seu espírito de facção.
Vão assinaladas as passagens das páginas  3º6 a 38, 50, 51, 71 a 76, 100, 103, 109,115, 129, 130, 139 a 141,  153, 174, 175 e 204 até à última página.
É pois de proibir a circulação deste livro dada a sua índole acentuadamente revolucionária e o despudor que o caracterizam.

O leitor

José de Sousa Chaves

Major»

No posfácio a Podem Chamar-me Eurídice, escreve Orlando Costa:

«Durante quasi 50 anos – dos quais o autor partilhou 23 – a Censura cresceu num grande corpo tentacular, opressor de pensamento e voz, para acabar interdirá à porta das nossas casas. E em plena praça pública. Escritores de caneta e lápis, de máquina de escrever ou esferográfica, hoje sabem que a arte e a cultura oprimidas e reprimidas defendem-se com armas.»

Legenda: Orlando Costa

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

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Esta é a reprodução do Relatório da Censura nº 8.665, de 3 de Fevereiro de 1970, que determinou a proibição da venda de O Encoberto, peça de teatro de Natália Correia.
Um livro interessantíssimo que ainda é possível encontrar em alfarrabistas e também na colecção de alguns livros proibidos pela ditadura que o Público publicou e ainda tem à venda.

O analfabeto-coronel-censor tirou a conclusão que o livro deveria ser proibido por «inconveniência política» e por ser «pornográfico».

Assim (sobre)vivíamos!

«O Encoberto conta a história de Bonami-rei que se faz passar pelo rei D. Sebastião, com o cognome de O Encoberto ou O Desejado. A história depreende-se em várias críticas a um povo crente, iludido, que não quer ver a realidade e, ao mesmo tempo, a uma falsa nobreza, interesseira, que só pensa em dinheiro. Mas mais. Segundo o relatório da censura, de 1970, “trata-se do desenvolvimento em estilo ‘paródia’ de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de ‘Natália Correia’, com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar»


«Entre 1584 e 1598, a história regista o surgimento de quatro falsos D. Sebastião, que tentaram, com pouca verosimilhança e nenhuma sorte, fazer-se passar pelo Rei Desejado. Alimentaram o mito e foram objeto, pelo menos três deles, de tentativas de dramatização com resultados muito desiguais, no ponto de vista teatral. Essas peças estão quase todas tão esquecidas como os aventureiros que lhes deram o tema...
Com a exceção de "O Encoberto" (1969) de Natália Correia, texto oscilante entre um simbolismo barroco e algo próximo do teatro narrativo, mas de indiscutível força poética, não obstante a exuberância, violência, por vezes a tocar o blasfemo, da estrutura e da linguagem. Reconstitui, com total liberdade criativa, as aventuras, essas sim, amplamente documentadas, do calabrês Marco Tulio Catizone. Como dissemos, de nada lhe valeu a aventura.»

Algures em O Encoberto, um personagem exclama:

«Para se verem livres dos espanhóis os portugueses são capazes de reconhecer D. Sebastião no cu de um gorila.»


«O Encoberto tem a condicionante de um tempo mas dele se descondiciona na intemporalidade do próprio tema. O seu enquadramento é histórico. Situa-nos no período paradigmático da monarquia filipina. Paradigmático porque em “ocupação estrangeira” se traduz o poder sempre que exercido despoticamente. Na altura em que a peça foi escrita, essa conotação com o regime que então vigorava em Portugal foi-me recurso para focar uma situação presente que o rigor censório não permitia abordar às claras. Mesmo assim não conseguiu a peça passar às malhas da severíssima censura que nela só descortinou um manifesto contra o fascismo exótico à vontade dos portugueses e por isso identificável com o reinado filipino. Dentro da moldura histórica adensavam-se contudo os valores mais importantes de O Encoberto. No negativo da alienação dos povos e dos indivíduos germina o sonho que liberta. A irracionalidade do poder que escraviza só pode ser destruída, no sentir dos que impotentemente a sofrem, por outra irracionalidade: a do libertador impossível, o Monarca da Bruma. O Encoberto é a confrontação surda destas duas irracionalidades. A insolução é, consequentemente, a poética e o humor lírico que se dão lide na peça.»

segunda-feira, 4 de junho de 2018

APROVEITO UM PORTADOR


Carta, datada de Paris, meados de 1965, de António José Saraiva para Óscar Lopes:

De vez em quando experimento a necessidade de dialogar contigo, mas esta distância e sobretudo esta censura do correio impedem qualquer carta séria. Aproveito um portador.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

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Durante os tempos da censura salazarista/marcelista, vários foram os esquemas utilizados pelos jornalistas para driblarem os coronéis-censores.

Um deles era «escrever nas entrelinhas» e, por vezes, a burrice/analfabetismo dos censores não entendiam a mensagem que navegava por essas entrelinhas.

Em 1973, Eduardo Valente da Fonseca, jornalista do República desde 1965, conseguiu convencer direcção e chefias do jornal a publicar uma brincadeira, com alguns riscos, é certo, no suplemento Fim de Semana, servindo-se dos signos astrológicos.


Tudo o que se publicava no jornal tinha de ir à censura, excepto as palavras cruzadas, os números da lotaria, o movimento das marés, os discursos anedóticos do presidente Tomás e os horóscopos.

Semanalmente, com  humor e inteligência o Eduardo Valente da Fonseca lançava directas e indirectas à situação política, e não só.

Quando os coronéis conseguiram descobrir as subtilezas do Eduardo, exigiram que o Horóscopo também passasse a ir à censura.

Mas foi sol de pouca dura.

Faltavam poucas semanas para que acontecesse o 25 de Abril.

Em Maio de 1998 a Campo das Letras editou esses Horóscopos de Delfos.

Alguns dos textos são de difícil entendimento porque datados, e apenas os que viveram aqueles conturbados tempos, se apercebe da subtileza do humor e da acutilância militante da escrita ímpar de Eduardo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

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Sobre os incidentes ocorridos no Teatro Capitólio, em Março de 1960, durante a representação, pela Companhia de Maria Della Costa, da peça de A Boa Alma de Sé-Chuão de Bertolt Brecht, e referidos nestas Pancadas de Moliére, reproduz-se uma página de memórias, escrita por Luiz Francisco Rebello, e que está incluída no programa da representação da peça pelo Novo Grupo.

sábado, 25 de novembro de 2017

TODA A NOITE CHOVEU


Sábado, 25 de Novembro de 1967.

Estava em Tavira a cumprir o serviço militar obrigatório.

Tinha vindo a Lisboa passar o fim-de-semana e aproveitar para tirar a medida ao 2º fato do casamento, que ocorreria em Dezembro.

A chuva fustigava Lisboa.

Perto das sete da tarde estávamos, eu e a Aida, no alfaiate, num 3º andar da Rua do Fanqueiros, a fazer a prova do fato.

Um enorme trovão e ficámos às escuras.

As costureiras trouxeram um candeeiro a petróleo, algumas velas.

Muito à média luz, conseguiu o alfaiate fazer a prova possível.

Como não houve oportunidade para outras provas, o facto é que o fato nunca me assentou bem.

Também nunca foi coisa a que desse qualquer tipo de importância.


Saímos do alfaiate sem que a luz tivesse sido reposta.

A chuva desabava como um dilúvio.

Aguardámos bem perto de uma hora e acabámos por nos fazer ao caminho.

A forte ventania destruíra os chapéus-de-chuva, as gabardines estavam ensopadas em água, não protegiam coisa alguma.

Não havia transportes.

A Avenida Almirante Reis era um rio, o Martim Moniz era um lago, onde carros, tudo o que imaginar se possa, flutuavam.

Abandonávamos os vãos de escada quando a chuva aliviava um pouco, se é que num temporal como aquele se pode falar em momentos de alívio.

Um pânico indescritível apossara-se das pessoas.
Sem telefones não era possível avisar as famílias.

Ninguém sabia de ninguém.

Da Rua dos Fanqueiros até ao alto da Penha de França demorámos mais de três horas.


A rádio e a televisão apenas transmitiam o que a censura impunha, ou seja: nada!

Durante toda a noite e madrugada choveu.

Só no domingo começámos a ter uma ideia, pálida ideia, da tragédia que se abatera sobre Lisboa e arredores.

Os jornais, rigorosamente vigiados, davam notícia: 250 mortos.

«Lamento profundamente a tragédia e, na medida do possível, tudo farei para minorar o sofrimento das pessoas que necessitarem dos nossos socorros», palavras do ministro do Interior Santos Júnior.

Anunciava-se que o presidente Américo Tomás, oportunamente, visitaria alguns dos locais atingidos pela intempérie.


Joaquim Letria, jornalista do Diário de Lisboa, trinta anos depois, resumiu para o Diário de Notícias:

«A Censura cortava sobretudo o número de mortos e o que se referia às causas da tragédia e à incúria governamental e camarária que estava por trás da catástrofe.
No DL fomos, o Pedro Alvim e eu, destacados para cobrir os acontecimentos. Estivemos noites sem ir à cama e tínhamos de fazer a nossa própria contabilidade dos corpos (contávamo-los um a um, o que oAlvim imortalizou numa belíssima crónica intitulada «Os Mortos e os Fósforos») e todos os dias tentávamos actualizar esse número, que a Censura nunca deixava passar. Chegávamos às centenas, quando os números dos censores não ultrapassavam as dezenas.»

Depoimento do jornalista João Paulo Guerra:

«Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém».

No seu livro, Os Segredos da Censura, César Príncipe, reproduz estas determinações dos coronéis:


César Príncipe dá-nos ainda uma uma outra, miserável, determinação dos coronéis da Censura, datada de 30 de Dezembro de 1967.

Referia o baile de passagem de ano, realizado no Palácio dos Valenças em Sintra:

«Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.» 

No dia 4 de Dezembro o governo contabilizava 458 mortos.

O número definitivo de mortos nunca veio a ser conhecido, mas calcula-se que tenham morrido para cima de 700 pessoas.

A censura retalhou tudo quanto assinalava ausência de infra-estruras, bem como a falta de apoio às populações.

Escreveu o jornalista António Valdemar:

«Terrível e insólito paradoxo: um regime político que tinha na Igreja católica um dos seus mais poderosos sustentáculos, remetia para Deus as culpas e responsabilidades da catástrofe.»
Diário de Notícias, num dos seus editoriais:

«Ocorre-nos perguntar se não estará alguma coisa profundamente errada com o sistema de colectores da capital.
Sim, é verdade, os colectores da cidade não estavam preparados para o anormal caudal de água que dos céus desabou, mas outros motivos existiam, ainda existem.
Por exemplo, o arquitecto Ribeiro Telles, sempre se bateu arduamente pelo desenvolvimento entre o ordenamento do território e a terra, sistematicamente chamou a atenção para o perigo de canalizar ribeiras ou secar o subsolo.
Nunca foi ouvido.»


Em Quintas, uma aldeola poucos quilómetros a norte de Vila Franca de Xira, morreram mais de cem pessoas.

O fatídico 25 de Novembro de 1967, pôs a nu a miséria em que a população da Grande Lisboa vivia.

A maioria das vítimas habitava barracas construídas nos cursos de água, em escarpas, onde calhava.

Estão passados 50 anos.

Há acontecimentos que nunca esquecem!
Há lições que nunca devíamos esquecer.

Acabamos por esquecer...

Volta e meia a desgraça das cheias, das inundações bate-nos, de novo. à porta.

Ouvem-se lamentos, as promessas de sempre.

Até um outro dia em que tudo volte a acontecer!

domingo, 25 de junho de 2017

CENSURA GULBENKIANA


Dois dos mais importantes intelectuais portugueses, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, viram-se na obrigação de emigrar para poderem sobreviver e escrever. Isso tornou-os homens amargos, muitas vezes à beira do desespero.

Mesmo longe, sentiram-se sempre perseguidos pela ditadura salazarenta.

E não só!

Pelos seus pares que não apoiavam o regime, também se sentiram injustiçados e marginalizados.

Num texto «A Literatura Portuguesa no Secundário»,  publicado na revista do Expresso, 10 de Junho de 2017, Diogo Ramada Curto revela:

Por isso, releio esta minha denúncia acerca de um programa escolar da nossa literatura tendo à minha frente os papéis de Rodrigues Miguéis e o seu dossier sobre uma antologia do conto português (Hay Library, Universidade de Brown). Verifico que também ele hesitou – e não foi pouco – nos autores a incluir e nas relações a estabelecer com a literatura brasileira. A antologia organizada por Miguéis estava para ser traduzida pelo seu amigo Raymomd Sayers, professor de Literatura. Dados os custos envolvidos, o editor pediu um subsídio, em 1961. A Fundação Gulbenkian disponibilizou-se para apoiar a edição. Mas, segundo o dossier da John Hay Library, terá imposto uma condição: que o nome de Miguéis não figurasse como coautor da antologia. Uma hipótese plausível, destinada a explicar este ato de censura, é que a sombra das suas ligações ao Partido Comunista – mau grado a distanciação adotada por Miguéis, desde a Segunda Guerra. No seu longo exílio em Nova Iorque – continuava a apesar. O livro nunca saiu e a história da literatura portuguesa, pelo menos a sua difusão em língua inglesa, ficou mais pobre.

Salazar, juntamente com os crápulas que o apoiavam e veneravam, sempre viu comunistas em tudo e em todos. De tal ordem que chegaram ao ponto de inventar Fátima para que o mundo ficasses livre do Comunismo

Pego em José Rodrigues Miguéis, Vida eObra, de Mário Neves, e reproduzo:

Se José Rodrigues Miguéis tinha então algum compromisso com o sector comunista não está devidamente averiguado, nem é muito fácil sabê-lo, dada a confusão em que tais coisas se processavam, nessa época de cautelosa clandestinidade. Em averiguações posteriores, ao pretender-se identifica-lo no quadro político da época, discutiu-se esse ponto, embora não pudessem restar dúvidas das suas simpatias pelos princípios defendidos pelo Partido Comunista e que se traduziam em frequentes atitudes de empenhada militância. As diligências feitas com vista a um esclarecimento nesse sentido deparam todos, porém, com informações nem sempre convergentes. Ao passo que as pessoas responsáveis da direcção do partido afiançam que Miguéis foi mesmo filiado, Camila Campanella, a esposa e companheira dedicada do escritor, que com ele conviveu dezenas de anos e conheceu os mais íntimos aspectos da sua carreira, afirma perenptoriamente que não. Por sua vez, Ana Maria Alves, num estudo em que analisou criteriosamente a posição de «Miguéis seareiro», escreve: «É possível que Miguéis tenha estado ligado ao Partido Comunista, mas é difícil ponderar o grau e o significado desse comprometimento, já que o PCP é, nesta época, uma pequena organização muito fluida e de ideologia confusa.» Ainda num trabalho recentemente publicado na Análise Social, sob a responsabilidade de Luís Salgado de Matos, o militante anarco-sindicalista Emídio santana, que muito se ocupou desses temas, por curiosidade histórica e interesse partidário, não hesito em afirmar que Miguéis «esteve ligado ao PC».

terça-feira, 25 de abril de 2017

O DIA EM QUE ACABOU A CENSURA


Já do dealbar da tarde de 25 de Abril, depois de vividos os acontecimentos do Largo do Carmo, os tiros na fachada do quartel, o discurso de Francisco Sousa Tavares, megafone em punho, desemboquei na redacção do República.

O último dos tunantes de que fala o Fernando Assis Pacheco, nos cinco minutos para contar uma história, foi o José Cardoso Pires, sentado na secretária do Vítor Direito, sita no canto, junto à varanda, da redacção do República, um grande sorriso na cara, olho brilhante, cigarro atrás de cigarro.

O relato da transmissão das polícias do regime, foi publicado no República de 26 de Abril e que acima se reproduz.

Fica também  a crónica do Assis Pacheco e um pormenor da capa do República de 26 de Abril: nunca mais um jornal foi visado pela Censura.



sábado, 1 de outubro de 2016

PANCADAS DE MOLIÉRE


A demolição do Cine-Teatro Monumental, a ocupação do Cinema Império por  uma seita, dita religiosa, são dois crimes que marcam a vida de Lisboa.

O CinemaImpério tinha uma capacidade para 908 espectadores na plateia e 1418 espectadores nos seus dois balcões.

A sala do Estúdio tinha uma capacidade para 250 espectadores.

Para além das fitas e espectáculos de music-hall, Cliff Richard e os Shadows por ali actuaram, e não só, de 1961 a 1965 albergou uma das mais importantes experiências teatrais de antes do 25 de Abril : o Teatro Moderno de Lisboa, fundado por um grupo de actores de que faziam parte Carmen Dolores, Fernando Gusmão e Rogério Paulo.

O Teatro Moderno de Lisboa estreou em 13 de Novembro de 1961, com a peça de Carlos Muñiz “O Tinteiro”, encenação de Rogério Paulo, peça que em Abril de 1962 representou Portugal no Festival Internacional de Le Theatre de Lutece em Paris.

Dada a programação cinematográfica do Império, apenas foi possível enconrtar disponíveis as sessões das 18,30 horas às segundas, terças, quintas e sextas, para além de uma sessão nas manhãs de domingo.


Segundo José Carlos Alvarez de José Carlos Alvarez, o Teatro Moderno de Lisboa, foi responsável pela formação de um novo público e de um novo gosto teatral, num tempo de grande agitação social e política.

Por motivos referidos na História Breve do Teatro Moderno de Lisboa, atrás reproduzida, os seus responsáveis resolveram interromper a actividade da companhia na época de 1963-64.

Receou-se que seria o fim do Teatro Moderno de Lisboa mas, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, ainda houve a possibilidade de fazerem a temporada de 1964-65, em que tiveram a oportunidade de representar O Render dos Heróis, peça de José Cardoso Pires.

Reproduz-se a seguir um texto de João Antunes Tunes, que deveria ser publicado no Diário de Lisboa-Juvenil caso a Comissão de Censura salazarista não lhe tivesse colocado a indicação de CORTADO.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O 25 de Abril de 1974 apanhou o nº 30 do Cinéfilo, referente a 27 de Abril de 1974, já fechado, razão porque não há qualquer referência à data histórica.
Apenas no nº seguinte, referente a 4 de Maio, a revista não teve intervenção da sinistra censura.
Finalmente!
Nos recados livres, ressalta a notícia da exibição do Couraçado Potemkine de cujo cartaz nafachada do Cinema Império, aqui, se fez referência.

São estes os recortes, onde se destaca um alerta contra os especuladores e os mixordeiros:




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

PROCURA-SE!


Num tempo, em que a censura da ditadura marcelista perseguia Mário Castrim, chegou mesmo a suspender, durante semanas,  o seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa, A Mosca, suplemento dos sábados do Diário de Lisboa, fez publicar este aviso.
Aliás, a qualidade jornalística e satírica de A Mosca, mereceria um estudo e que, ao mesmo tempo, se fizesse uma recolha de alguns dos textos que poderiam ser publicados em livro.
Os textos, por norma, não eram assinados, mas conhece-se colaboração, entre outros, de Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, João Paulo Guerra, Mário Zambujal, Luís de Sttau Monteiro com as célebres redações da Guidinha.

Hoje, tenho uma imensa pena de não ter coleccionado esse suplemento, como fiz em relação a outros, como seja o Jornal de Crítica que, mais tarde, também aos sábados, se publicava no República.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

ABUSO DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Do Diário Popular de 12 de Outubro de 1967


Do Diário Popular 10 de Novembro de 1967.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

NOTÍCIAS DO CIRCO




O quanto teria sido gratificante que a Igreja, no tempo da ditadura, também tivesse expressado a sua opinião sobre a precaridade de vida, trabalho infantil, censura, falta de liberdade, perseguições, espancamentos e assassínios políticos – era de noite e levaram… - guerra colonial, e não o ensurdecedor silêncio que sempre manteve.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS



A Emissora Nacional Nos Primeiros Anos do Estado Novo

Nelson Ribeiro
Quimera Editores, Lisboa, 2005

A Emissora Nacional mantinha como característica principal «o seu ar ponderado e grave», como era reconhecido numa notícia inserida no jornal oficial da estação, em Fevereiro de 1938. Aliás, a Comissão Administrativa fomentava esta imagem, repreendendo os locutores sempre que estes ousavam imprimir uma leitura menos formal aos textos:

«Julgava já desnecessário esconder aos senhores locutores que lhe é vedado fazer ao microfone prova dos eu espírito com as alusões jocosas, os risos e as inflexões de voz intencionadas que em certa altura constituíram moda neste estabelecimento. Vejo que infelizmente assim não é ao tomar conhecimento do que passou com a leitura do argumento da Ópera «Tristão e Isolda» feita pelo locutor Sr. Fernando Pessa, em que, perdido por completo o sentido das proporções, este senhor permitiu sublinhar com risos certas passagens do mesmo argumento. (…) A fim de evitar a repetição de factos semelhantes que seja punido o locutor (…) com a pena de repreensão registada.

domingo, 9 de agosto de 2015

AVANTE AVANTE P'LO BENFICA!


Com carácter oficial começa hoje a época futebolística 2015/16.

Nada melhor que um Benfica-Sporting.

Apimentado pelo que no defeso foi acontecendo.

Tempo para relembrar que Ser Benfiquista, cantado pelo Luiz Piçarra, não é o hino do Benfica.

Segundo António Vilarigues, do blogue O Castendo, a 16 de Abril de 1953 foi apresentado num sarau de angariação de fundos para a construção do Estádio da Luz, no Pavilhão dos Desportos, com a presença de cerca de 6 mil benfiquistas o tema "Ser Benfiquista" com letra e música de Paulino Gomes Júnior, simpatizante da ditadura salazarista.

O Hino do Benfica fia mais fino.

Dá pelo nome de Avante, Avante p’lo Benfica.

Voltando a António Vilarigues, ficamos a saber que o hino foi composto em 1929, por ocasião do 25º aniversário do clube, tem letra de Felix Bermudes e música de Alves Coelho.

É esta a letra do Hino do Benfica:

"Todos por um!" eis a divisa,
Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.

Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.

REFRÃO
Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!

Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!

Este Avante, Avante p’lo Benfica fazia comichões ao ditador Salazar que, em 1942, deu ordens para que o hino deixasse de ser cantado.

Ordens expressas foram, mais tarde, dadas à Censura para que os jornalistas não designassem os jogadores por vermelhos mas sim por encarnados.

O Benfica é o maior clube de Portugal e um dos maiores do Mundo.

No blogue Planeta Benfica ficamos a saber das raízes verdadeiramente populares do Glorioso.

Nos meus tempos de miúdo as carroças eram puxadas por machos - arre macho!

Os machos tinham pendurado ao pescoço um avental-guardanapo de serapilheira. Essas serapi-lheiras tinham estampadas emblemas de clubes de Lisboa. A esmagadora maioria eram emblemas do Benfica. Muitos do Atlético e do Belenenses.

No fundo, clubes populares.

Não me recordo - mesmo verdade - de ter visto uma serapilheira com o emblema do Sporting.