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quarta-feira, 29 de julho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um útil e interessante documento sobre a censura em Portugal, publicado pelo Expresso e que assinala os 35 anos do nascimento do semanário.

A contra capa do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.

A ignorância mata!

Em Portugal existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.

Em Novembro de 1945, Salazar disse:

«Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os baixos sentimentos?

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos – na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro, totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.

Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.

Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»

Hélia Correia

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 O Que a Censura Cortou

José Pedro Castanheira

Prefácio: Francisco Pinto Balsemão

Capa: Rui Guerra

Expresso, Lisboa Abril de 2009

“Politicamente só existe o que o público sabe que existe»

                    António de Oliveira Salazar, 1933

“Sem censura, o salazarismo não duraria um mês”

                     Mário Soares, 1972

domingo, 17 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Durante a Ditadura salazarista/marcelista a censura, por ignorância, por maldade pura e dura, foi aplicada nas coisas mais incríveis. 

Legenda: recorte tirado de Os Beatles e a Censura em Portugal 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


Os Beatles e a Censura em Portugal

Abel Rosa

Prefácios.

Lauro António

Rui Zink

Âncora Editora, Lisboa, Agosto de 2021

Foi com uma notícia, publicada em Inglaterra no dia 28 de Setembro de 1964, que começou a história deste livro.

Um dos maiores especialistas sobre os Beatles, Mark Lewisohn, presentemente a escrever uma trilogia sobre os quatro de Liverpool, cujo primeiro volume, All These Years Volume One- Tune In. Já foi editado em 2013, enviou um email com dois recortes de jornal e um pedido de informação. A notícia, a mesma nos dois jornais, Liverpool Echo e Liverpool Daily Post, tinha a data de 28 de Setembro de 1964 e Mark pedia-me que confirmasse se era verdadeira e, a sê-lo, quais as cenas ou os diálogos que tinham sido alvo de cortes por parte da censura portuguesa. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Vasco Granja

Edição comemorativa no centenário do nascimento

Prefácio e organização: Cecília Granja

Edições Avante, Lisboa Novembro de 2025

A 16 de Novembro de 1954, é detido pela PIDE na sequência da apresentação do filme italiano neo-realista O Caminho da Esperança de Pietro Germi (1950), exibido no cinema Capitólio. A detenção resulta de uma denúncia, pois a receita da sessão destinava-se a apoiar os movimentos de resistência antifascista e as famílias dos presos políticos. A PIDE invade a sala, bloqueia a entrada, apreende o dinheiro e identifica várias pessoas. 

sábado, 10 de janeiro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Folheto encontrado no interior de A Censura e as Leis de Imprensa: um dos muitos caminhos que a Seara Nova, como outras editoras, percorriam para divulgarem as suas obras, maneiras de fugir à censura, evitar, que quando a Pide invadia as editoras, existissem muitos exemplares de uma obra o menor número de livros a serem proibidos, colocados Fora do Mercado.

OLHAR AS CAPAS


A Censura e as Leis de Imprensa

Alberto Arons de Carvalho

Capa: Acácio Santos

Colecção: Que País nº 3

Editora Seara Nova, Lisboa, Outubro de 1973

Alguma imprensa sindical e um pequeno número de jornais regionais são excepção a este panorama. Muito mais dependentes dos leitores do que dos anunciantes, esses órgãos (Notícias da Amadora, Comércio do Funchal, Jornal do Fundão, Jornal do Centro, Opinião, etc.) têm procurado e conseguido uma qualidade pouco comum na imprensa portuguesa. O facto de serem jornais de opinião conferiu-lhes, por outro lao, um público que será tanto mais fiel quanto mais se acentuar a progressiva estandardização da imprensa diária. Dependentes, em última análise, da conjuntura política do momento, sendo extremamente crítica a sua posição em relação ao regime, esses órgãos constituirão, por outro lado, um importante elemento de crítica em relação à própria imprensa diária.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

VELHOS RECORTES


Mais uma passagem pelos Cadernos da Censura, publicados pelo Notícias da Amadora.


terça-feira, 30 de setembro de 2025

VELHOS RECORTES


 O Notícias da Amadora publicou, em devido tempo, uma colecção de fascículos em que deu a conhecer a enorme quantidade de notícias e artigos de opinião cortados, parcial, ou totalmente pela censura de Salazar e Caetano.

Este é um desses documentos.

terça-feira, 15 de julho de 2025

VELHOS RECORTES


O Notícias da Amadora, juntamente com o Jornal do Fundão, e o Comércio do Funchal, foram bastiões regionais contra a ditadura que caiu a 25 de Abril de 1974

O semanário publicou-se desde 25 de Outubro de 1958 até Dezembro de 2006.

A censura nunca o deitou abaixo, o que levou ao seu fim foi a crise económica que tem vindo a destruir a imprensa escrita.

A censura sempre foi implacável com o semanário.

Em 2001 foram publicados diversos suplementos em que se  mostrava o quanto a censura invadiu as prosas que se queriam publicadas e amiúde eram cortadas, parcial ou totalmente.

Um extraordinário e importante espólio que pode ser consultado na Torre do Tombo.

Hoje, publicanos um artigo de Vitor Silva Tavares, totalmente cortado pela censura:

terça-feira, 13 de maio de 2025

À LUPA


A lupa detém-se hoje na censura que a ditadura nos impôs e chega a um trabalho de Maia do Amaral realizado para a Universidade de Coimbra e anda à volta de um livro de José Cardoso Pires - O Dinossauro Excelentíssimo, um livro escrito à rédea solta, uma sátira política que ridicularizava Salazar, recheado de ingredientes que, necessariamente acabaria por colocar o livro «Fora do Mercado» e em que os desenhos de João Abel Manta ocupam sinal de relevo.

O livro começa assim: 

«De facto, não há muito tempo existiu no Reino do Mexilhão um imperador que na ânsia de purificar as palavras acabou por ficar entrevado com a paralisia da mentira.» e a história «censória» que envolve o livro é esta:

«Um dos casos mais extraordinários deu-se com o Dinossauro Excelentíssimo de J. Cardoso Pires. O livro acabara de sair e o deputado da «ala liberal» Miller Guerra afirmou na Assembleia Nacional que não havia liberdade em Portugal. Para o contrariar, o deputado Casal-Ribeiro (ultraconservador) perguntou-lhe, precipitadamente: «V. Exa. falou no falso conceito de liberdade. E eu pergunto o seguinte: V. Exa. quer mais liberdade do que aquela que nós vivemos neste momento, quando se permite, por exemplo, a saída de um livro ignóbil chamado Dinossauro Excelentíssimo?» (Diário da Sessões, n.º 201, 29 nov. 1972, p. 3960–3961). Apontado estupidamente como um exemplo da liberdade, a Censura ficou sem capacidade de atuar, em relação ao livro e ao seu autor. E foi um verdadeiro sucesso com seis edições entre 1972/73.»

quinta-feira, 10 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Antes do 25 de Abril: Era Proibido

António Costa Santos

Capa: Ilídio J.B. Vasco

Guerra & Paz, Lisboa, Março de 2025-04-10

Há 60 e tal anos, os estudantes de Maio escreviam nas paredes de paris «É proibido proibir!» Há uns 40, Fausto, o cantor lembrava que «atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir». Mas que esta mania parece difícil de erradicar, lá disso não tenhamos dúvidas. E ainda parece estar a ganhar novo fôlego com a chmada cultura de cancelamento. Vamos ter cuidado?

domingo, 2 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 PIDE/DGS : Um Estado Dentro do Estado

Fernando Luso Soares

Capa: Dorindo de Carvalho

Colecção Cadernos Portugália nº 1

Portugália Editora, Lisboa s/d

Em Conversas com Marcelo Caetano, de Alçada Baptista, podemos ler a páginas 106: - «Noutro dia, ao chegar à Covilhã, dizia-me uma das minhas tias: - Vi noutro dia o Marcelo na Televisão, e achei-o muito cansado… Fiquei tão preocupada… Diz-lhe que descanse. Depois, se ele adoece, quem é que há-de tratar de nós?»

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


Há dias, neste Cais, poderia encontrar-se o lamento de que as livrarias vão desaparecendo por Lisboa, também a ideia de fazer um roteiro de algumas livrarias, quando as havia.

Porém na Internet podemos ir encontrando sites que vendem livros.

Um bem interessante e de confiança é a Frenesi Loja:

Mais de 5.500 obras disponíveis no catálogo.

Vou lá regularmente e hoje copio as referências que a Frenesi faz ao livro que reúne as peças de teatro A Guerra Santa e A Estátua:

«Livro apreendido pela polícia política do Estado Novo em circunstâncias particularmente vergonhosas, dando origem ao encerramento da casa editora, que, depois de ver as instalações seladas, acabou com as caves-armazém criminosamente inundadas. Sttau Monteiro será preso, paga do regime pela sátira à ditadura e à guerra colonial. A imprensa, a 7 de Dezembro de 1966, transcreveu o comunicado do governo com a versão oficial para o referido “encerramento”:

«Do S. N. I. recebemos a seguinte informação:

“Foi mandada aplicar á Editorial Minotauro a pena de encerramento definitivo, prevista no art.º 3.º do Decreto-Lei n.º 33015, de 30 de Agosto de 1943.

Esta pena foi aplicada àquela empresa por ter editado um volume com graves implicações prejudiciais á defesa dos fins superiores do Estado e nomeadamente ofensivo do prestígio das Forças Armadas, que neste momento se batem, numa guerra que nos é imposta, em defesa da integridade nacional.”».

1.

«Resumindo e concluindo: Portugal é mesmo um país especial e indescritível, dos poucos onde dois partidos gémeos, o PS e o PSD, governam à vez e fingem odiar-se, apesar de frequentarem os mesmos restaurantes, as mesmas igrejas, as mesmas organizações secretas, as mesmas praias, e terem entre os seus quadros todo o tipo de gente, desde corruptos a ladrões, malucos, pervertidos, bêbados, esotéricos e desavergonhados. E imagino que seja assim na Iniciativa Liberal, no Livre, no PAN, no PCP… No jornalismo é a mesma coisa: há de tudo, como na farmácia.»

Pedro Garcias de uma crónica no «Público» de 14 de Fevereiro de 2025

2.

No final de Janeiro deste ano, mais de 1,5 milhões de utentes continuavam sem ter um médico de família atribuído. Um número em linha com os valores registados no final do ano passado e com os de final de Março desse ano - o Governo tomou posse a 2 de Abril. Na altura, o objectivo enunciado pelo executivo é dar uma resposta de saúde familiar a todos os portugueses até ao final deste ano.

3.

No dia em que Carlos Paredes nasceu há 100 anos, o Público publicou um excelente trabalho sobre o príncipe da guitarra portuguesa designado por Três Músicos escrevem sobre Carlos Paredes:

Um leitor deixou este comentário:

«Parabéns ao jornal Público, pelo serviço cívico, cultural e artístico, que presta, ao dedicar espaço, tempo e esforço a divulgar o legado de Carlos Paredes. Permito-me, com a devida vénia, complementar o testemunho de Manuel Fúria, com algumas ideias, que espero serem úteis para o debate, que se pretende plural e tudo menos unânime, consensual e, por isso, vazio de substância. Vinte anos depois da morte de Paredes (em 2004), num mundo em que a política dita um rosário de casos de corrupção, de escândalos éticos, económicos, de guerra selvagem e de gente desiquilibrada e megalómana (Trump e Musk são apenas os mais evidentes), relembrar o legado, a simples existência, de um homem simples, humilde, generoso e elegante como Paredes constitui um bálsamo para a alma. Haja esperança e alegria.»

4.

59% dos professores já se sentiram vítimas de bullying e 10% dos professores dizem já ter sofrido agressões físicas, principalmente de alunos, mas também de pais.

 5.

Nas empresas de restauração e similares os imigrantes são já mais de 30% do total de trabalhadores.

6.

Um em cada cinco portugueses reforma-se antecipadamente e em 2024 verificaram-se cinco despedimentos de grávidas por dia, um significativo aumento face a anos anteriores.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

QUOTIDIANOS

A Porto Editora deu, hoje, a conhecer, que a Palavra do Ano 2024 é: Liberdade. Angariou 22% dos votos dos portugueses. Outras palavras em discussão, que decorreu até 31 de Dezembro de 2024: "conflitos", "imigração".

No final do editorial no Público, a jornalista Sónia Sapage escreve:

 «Censura. Talvez venha a ser essa a Palavra do Ano 2025, nós é que ainda não o conseguimos prever.»

Um leitor do jornal deixou este comentário:

«Para as crianças, uma das melhores formas de melhorar as capacidades de leitura é criar o hábito de leitura regular. Incentive o seu filho/criança a ler todos os dias e crie um ambiente que promova a leitura. Certifique-se de que existe acesso a livros e revistas adaptados aos interesses e ao nível de leitura da criança. Ao tornar a leitura numa actividade divertida e gratificante, a criança irá desenvolver as suas aptidões de leitura e o seu interesse pelos livros… Como mãe e pai e/ou adulto educador, pode servir de modelo lendo assiduamente e demonstrando entusiasmo pelos livros e pela literatura. As crianças e os jovens tendem a imitar o comportamento dos adultos, por isso, se os virem a ler, é mais provável que leiam também…»

segunda-feira, 10 de junho de 2024

CONVERSANDO


 Do livro de Urbano Tavares Rodrigues, livro de Urbano Tavares Rodrigues, que hoje se apresenta em Olhar as Capas, escolhemos uma citação da crónica «Dia da Arte e do Povo», que retrata a Festa do Povo que ocorreu em Belém no dia 10 de Junho de 1974 em que os artistas plásticos pintaram um longo painel que, misteriosamente, foi destruído num incêndio.

Nessa festa aconteceu, talvez, o primeiro acto censório do governo provisório, dos responsáveis televisivos de então. Sim, era impossível que, tão só de repente, tivessem surgido tantos democratas, quando tanta gente, tanta gente, tanta gente, não marcou presença na colagem de cartazes, na distribuição de panfletos, não foi perseguida pela pelos carros de tinta azul da polícia e pelos esbirros da PIDE.

Ainda nos lembramos quando Cavaco Silva, na pele de primeiro ministro do reino, disse frente às câmaras da televisão disse que aquele 10 de Junho era o Dia da Raça.

Neste 10 de Junho, Dia de Camões, recordamos os acontecimentos desse 10 de Junho de 1974:


« No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.

Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

«Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»

Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

«Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…»

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.

A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Fontes:

Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

Legenda:

a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória

b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974

c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de                 1974.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

VELHOS RECORTES


 Artigo de Marina C. Ramos publicado no Público s/d

AS PALAVRAS PROÍBIDAS

 


Finais do ano de 2023, o semanário Notícias da Amadora publicou uma série de cadernos registando os actos da censura ditatorial de que o jornal foi vítima.

Fundado em 25 de Outubro de 1958, na sua luta pela Liberdade e pela Democracia, o Notícias da Amadora terá sido o jornal português mais flagelado pelos esbirros salazaristas/marcelistas.

No seu historial, Portugal acusa um passivo de centenas e centenas de anos de Censura, o que significa que o melhor da nossa voz e do nosso pensamento, foi construído sob o medo e a contracultura.

Mário Castrim:

«Porque neste País houve uma censura. Às imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram, destruíram, odiaram, one estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão a defender?

O texto que acima se reproduz, é da autoria de Orlando César, director do Notícias da Amadora e que consta do Caderno nº 16 publicado pelo jornal.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS

 

Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa

António Baião

Capa: Acácio Santos

Colecção Seara Nova nº 8

Seara Nova, Lisboa, Dezembro de 1972

No 1º de Outubro de 1885, deu entrada nos cárceres de custodia da inquisição de Coimbra o maior vulto do Portugal de então, o jesuíta António Vieira-

Recluso durante 44 dias, tanto gemeu e pensou que não teve outro remédio senão pedir que o transferissem para o seu colégio ou o internassem em qualquer convento de religiosos. O cárcere do Santo Ofício de Coimbra era húmido e frio, muito exposto ao vento norte, e para mais Vieira tinha sido preso ainda convalescente, já lá dentro tivera três ameaças de recaída, com febre e hemoptises e quando assim era no Outono, que faria em chegando os rigores do Inverno?!

Além disso precisava de quem lhe escrevesse a alegação da sua inocência, o que ele não podia fazer com a perspectiva constante duma ética, como então se dizia, que o ia minando, e precisava duma copiosa livraria, principalmente de teólogos e juristas, para o auxiliarem nessa elaboração.

Nada disso porém lhe foi concedido e o Padre António Vieira conhecido do leitor ilustrado pelos seus sermões tão ortodoxos e pelas sua carta tão morais, estava ali encerrado, como o último dos blasfemos que negasse a divindade de Jesus ou conspurcasse a hóstia consagrada!...

sexta-feira, 26 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25

A fotografia mostra a decisão de Mário Viegas na sua Auto-PhotoBiografia (não autorizada), quando determina que o seu 25 de Abril foi de curta duração.

 No dia 25 de Abril de 1974, quando o Movimento dos Capitães saiu para as rua, já os matutinos estavam em fecho de edição. Alguns ainda conseguiram colocar uma pequena notícia, a informação possível, na 1ª página, mais tarde fariam 2ª e 3ª edições. Os vespertinos tiveram mais desenvolvimento, mas só no dia seguinte, as notícias, as reportagens, os comentários conseguem um outro tipo de desenvolvimento.

Em alguns jornais poderia ler-se a frase histórica: «não terem sido visados por qualquer comissão de censura.

Os acontecimentos ocorridos na véspera são referidos: a rendição de Marcelo Caetano, a apresentação, madrugada alta, através da RTP, da Junta Nacional de Salvação, a rendição da PIDE/DGS, a libertação, em Caxias, dos presos políticos, a partida de Marcelo Caetano e Américo Tomás para a Ilha da Madeira.


Aos poucos, a rotina do quotidiano entra na normalidade.

Caminha-se para os empregos, para as escolas, para as fábricas, os mesmos passos, os mesmos rostos, mas têm uma outra vivacidade, um outro fulgor.

O Diário de Lisboa é o único que puxa para a primeira página a grande notícia do dia: a libertação dos presos políticos.

No miolo da reportagem uma pergunta óbvia, uma resposta com o seu quê daquilo que mais tarde irá acontecer:

- O que vão fazer aos pides, pergunta o repórter ao comandante dos páras.

- Temos que ter compaixão e humanidade para com eles, respondeu-nos o capitão.


Na página 15 do República uma pequena, mas lamentável, notícia dá conta de que, apesar da intervenção dos militares, não foi possível salvar muitos arquivos e documentos da Censura que o povo lançou à rua e foram destruídos.

Aqueles documentos eram parte da nossa história.

Estava lá nesse momento, assisti ao crime, mas como se poderia tê-lo evitado?

Quarenta e oito anos de ódio e repressão sobre um povo, cegam, pesam muito.

Na sua 3ª página “O Século” noticiava que, presidida pelo engº Amaral Neto, e com a presença de 38 deputados, reunira o plenário da Assembleia Nacional.

A sessão demorou quinze minutos e, não mais, como Nacional, voltaria a reunir.

Também em O Século, a primeira fotografia publicada na imprensa da prisão de três pides, passos iniciais do que vai ficar a ser conhecido como a «caça ao pide.»

Num Diário de Noticias, de que não possuímos a data, uma História de Joaquim Santos da Póvoa de Santo Adrião:

«Exm.º Senhor Director-Geral,
Informo V. Exª que ontem, dia 25 de Abril de 1974, vários funcionários faltaram ao serviço, invocando ter ocorrido uma revolução no País.
Esclareço que esta revolução não foi autorizada superiormente, não vendo qualquer justificação para as faltas, tanto mais que o serviço se atrasou consideravelmente.
Como na legislação vigente não estão previstas faltas pelo ocorrência de revoluções, submeto o assunto ao alto critério de V. Exª, na certeza de que o mesmo merecerá a atenção devida.
Lisboa, 26 de Abril de 1974
A Bem da Nação
O Chefe da 3ª Secção
Ambrósio Silva»