Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Costa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Filipe Costa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de maio de 2024

terça-feira, 21 de julho de 2020

LUÍS FILIPE COSTA (1936-2020)


Aos 84 anos, morreu Luís Filipe Costa.

Foi outras coisas, mas é como homem da rádio que o quero lembrar.

Essencialmente num noticiário do Rádio Clube Português no dia em que a PIDE prendeu Palma Inácio, dirigente da LUAR.

Impedido de dar a notícia da prisão, acabou o noticiário com a frase «Hoje esteve um dia de calor, mas esta noite felizmente há luar!»

Respiguei os textos que aqui deixo sobre a rádio, para lembrar o que a rádio ao longo dos anos da ditadura me deu e, duma certa maneira, também como homenagem a Luís Filipe Costa no dia emque, fisicamente, nos deixou.

O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.

Sam Shepard em Crónicas Americanas

Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida.

Bob Dylan em Crónicas 

Já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

Luiz Pacheco

«Ouça, importa-se de baixar mais o rádio?»
«Ora essa. Desculpe, tenho a mania de o pôr muito alto.»
«Como os taberneiros.»
«Ou como os apreciadores de jazz. Como as prostitutas baratas, se quiser. O rádio, Guida, é um vício de solitários.»

José Cardoso Pires em O Anjo Ancorado

Durante o dia, a telefonia estava ligada para o emissor clássico da Emissora Nacional. Apenas ao serão havia uma interrupção do fluxo da grande música quando a voz do meu avô ordenava: “Meninas vamos ouvir a BBC”. Mudava-se de onda durante os minutos com as notícias de Londres lidas pelo Ferando Pessa ou pelo Augusto da Silva, sobre o desenrolar da guerra. “Aqui Londres, Estação da BBC na banda dos 41 e 49 metros.

António Cartaxo em Quase Verdade Como São Memórias

domingo, 5 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

OPERAÇÃO PAPAGAIO

Os escassos atentados que foram levados a cabo para derrubar Salazar, fracassaram todos.
O ditador cairia por um mero acidente cadeiral quando, em férias no Forte de Santo António da Barra, o calista se preparava para lhe tratar das extremidades.

Os que lembram estas coisas, sabem do assalto ao Santa Maria, o assalto ao Quartel de Beja, mas poucos saberão da Operação Papagaio.

A serenidade da aleluia pascal tem dado para uma revisitação ao Mário-Henrique Leiria.

Que também mete Luiz Pacheco.

Olha que dois!

Ao Mário, conheci-o, antes do 25 de Abril, na redacção do República.

Um tipo extraordinário, vivaz, uma ternura desconcertante, de uma verticalidade assombrosa.


Perguntavam-lhe por histórias velhas: os tiros de caçadeira na noite de Carcavelos,  a Operação Papagaio.

Mário-Gin-Tonic sorria e ficava-se por aí.

Como escreveria:

… já lá vão tantos anos que talvez o que me reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá.

 Fernando Correia da Silva, no já citado Surrealismo e Carbonária conta assim sobre a Operação Papagaio:

…a maioria dos frequentadores do Café A Brasileira em 1961 já sabe, regabofe colectivo: tu, e um grupo de malucos, entre os quais Virgílio Martinho e o poeta António José Forte, estão a programar, de mesa para mesa e em voz alta, a revolucionária “Operação Papagaio”. Numa das próximas noites vocês propõem-se bater à porta do Rádio Clube Português, que fica na Parede, povoação mesmo ao lado de Carcavelos. Lá dentro há apenas um contínuo enquanto roda a bobine com o programa nocturno “Companheiros da Alegria”. A porta é aberta. Vocês apontam um revólver, imobilizam, amarram e metem o contínuo num cacifo que depois fecham por fora, a cadeado. Entram no estúdio e trocam a bobine por uma outra que trazem convosco. Esta contem marchas militares, também o Hino Nacional tocado frequentemente e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Termina convidando a população a deslocar-se á Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos.
Enquanto gira a nova bobine vocês retiram-se do Rádio Clube Português. Ficarão, pelas esquinas, a aguardar a reacção dos ouvintes que, esperam, seja de entusiasmo...
Quem não aguarda é a PIDE, que vos prende mas fora d’A Brasileira, para não dar nas vistas. Durante o interrogatório os agentes, volta e meia, correm para o corredor a desrolhar as gargalhadas. Vocês ficam detidos uns quatro ou cinco dias, talvez uma semana. Depois levam uns safanões e são postos na rua. O espaço já é curto para arrecadar tantos subversivos, quanto mais uns brincalhões inofensivos...

Luiz Pacheco, no seu Prazo de Validade, conta uma outra versão:

Que se passou na Parede? Ao chegarem ao Rádio Clube Português, os carros dos conspiradores depararam com obstáculo inesperado, imponderável: havia ali, no ringue de patinagem, um desafio de hóquei, gente a assistir, um polícia, o gratificado, a olhar. Gerou-se discussão no interior dos automóveis. Que fazer? Aquilo não fora previsto, aquilo, assim, podia dar para o torto… não estavam mentalizados para violências. Somente uma acção anarca, súbita, rápida, insólita. Sem vítima, sem derramamento de sangue nenhum. Por mim sempre pensei, que, à chegada à Parede, já haveria arrependidos, temerosos do pior. Que a presença de jogadores, entretidos na sua lida, algum público e o chui não seria inconveniente para os forçar a desistir. Mas foi o pretexto. Foram a votos e ganharam os indecisos e os pusilânimes. Voltaram para trás. Argumento de peso: vimos cá amanhã!... Amanhã também é dia!

Luiz Pacheco conta também de uma artigalhada, sem qualquer sentido pejorativoo Pacheco gostava da frase, que Luís Filipe Costa escreveu para o semanário Extra, a falar da Operação Papagaio, mas não encontrou o recorte na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Teria sido mais exacto, escreveu Pacheco.

Se para aqui chamássemos o John Ford ele diria que se os factos se transformam em lenda, deve publicar-se a lenda.

Mas o poeta Carlos Loures, em Estrolabio, tenta os factos e faz um apanhado das versões que ele conhece sobre a Operação Papagaio.

Vale a pena ler!   

Texto publicado em 28 de Março de 2016          

segunda-feira, 18 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Agora e na Hora da Morte

Luís Filipe Costa
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Agosto de 1988

No écran apareceu a palavra fim, as luzes começaram a acender-se e a malta, ainda a piscar os olhos, pôs-se a aplaudir.
Era sempre assim nas sessões do cineclube. Às vezes, até se gritava abaixo a censura quando o filme dava um salto e a gente via perfeitamente que tinham cortado uma cena.
Mas, naquele dia, a voz que se ouviu era outra.
Vinha lá do fundo, do pé da porta, e disse:
- Tudo em fila por aqui, para identificação.
As palmas morreram num instante e a voz, então, ouviu-se muito bem
Depois começou tudo a falar ao mesmo tempo e veio um tipo pela coxia fora a mandar andar.
Caraças, é a Pide, pensei eu e fiquei à rasca.
Era a primeira vez que me via num assado daqueles. Levei a mão ao bolso e lá o senti.
Um livrinho do Gorki. Era mesmo o que me fazia falta.
- Tens coisas aí?
Olhei para o lado. Havia um tipo a sorrir-me. Tinha o cabelo todo aos caracóis e os maxilares quadrados. Devia ser um bocadinho mais velho que eu. Já devia ter pelo menos vinte anos.
- É A Mãe – disse eu e abri o bolso para ele ver o livro.
A malta continuava a morder palavras alusivas ao acto, andando pelo corredor, abaixo, devagarinho.
- Embora por aqui.
O tipo levantou a perna e passou por cima da cadeira, para a fila da frente. Fui atrás dele. Saímos para a coxia lateral a correr em direcção ao écran. E de repente um cortinado verde e uma porta e um hall vazio e outra porta e por fim a rua.

segunda-feira, 28 de março de 2016

OPERAÇÃO PAPAGAIO


Os escassos atentados que foram levados a cabo para derrubar Salazar, fracassaram todos.

O ditador cairia por um mero acidente cadeiral quando, em férias no Forte de Santo António da Barra, o calista se preparava para lhe tratar das extremidades.

Os que lembram estas coisas, sabem do assalto ao Santa Maria, o assalto ao Quartel de Beja,mas poucos saberão da Operação Papagaio.

A serenidade da aleluia pascal tem dado para uma revisitação ao Mário-Henrique Leiria.

Que também mete Luiz Pacheco.

Olha que dois!

Ao Mário, conheci-o, antes do 25 de Abril, na redacção do República.

Um tipo extraordinário, vivaz, uma ternura desconcertante, de uma verticalidade assombrosa.

Perguntavam-lhe por histórias velhas: os tiros de caçadeira na noite de Carcavelos,  a Operação Papagaio.

Mário-Gin-Tonic sorria e ficava-se por aí.

Como escreveria:

… já lá vão tantos anos que talvez o que me reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá.

 Fernando Correia da Silva, no já citado Surrealismo e Carbonária conta assim sobre a Operação Papagaio:

…a maioria dos frequentadores do Café A Brasileira em 1961 já sabe, regabofe colectivo: tu, e um grupo de malucos, entre os quais Virgílio Martinho e o poeta António José Forte, estão a programar, de mesa para mesa e em voz alta, a revolucionária “Operação Papagaio”. Numa das próximas noites vocês propõem-se bater à porta do Rádio Clube Português, que fica na Parede, povoação mesmo ao lado de Carcavelos. Lá dentro há apenas um contínuo enquanto roda a bobine com o programa nocturno “Companheiros da Alegria”. A porta é aberta. Vocês apontam um revólver, imobilizam, amarram e metem o contínuo num cacifo que depois fecham por fora, a cadeado. Entram no estúdio e trocam a bobine por uma outra que trazem convosco. Esta contem marchas militares, também o Hino Nacional tocado frequentemente e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Termina convidando a população a deslocar-se á Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos.
Enquanto gira a nova bobine vocês retiram-se do Rádio Clube Português. Ficarão, pelas esquinas, a aguardar a reacção dos ouvintes que, esperam, seja de entusiasmo...
Quem não aguarda é a PIDE, que vos prende mas fora d’A Brasileira, para não dar nas vistas. Durante o interrogatório os agentes, volta e meia, correm para o corredor a desrolhar as gargalhadas. Vocês ficam detidos uns quatro ou cinco dias, talvez uma semana. Depois levam uns safanões e são postos na rua. O espaço já é curto para arrecadar tantos subversivos, quanto mais uns brincalhões inofensivos...

Luiz Pacheco, no seu Prazo de Validade, conta uma outra versão:

Que se passou na Parede? Ao chegarem ao Rádio Clube Português, os carros dos conspiradores depararam com obstáculo inesperado, imponderável: havia ali, no ringue de patinagem, um desafio de hóquei, gente a assistir, um polícia, o gratificado, a olhar. Gerou-se discussão no interior dos automóveis. Que fazer? Aquilo não fora previsto, aquilo, assim, podia dar para o torto… não estavam mentalizados para violências. Somente uma acção anarca, súbita, rápida, insólita. Sem vítima, sem derramamento de sangue nenhum. Por mim sempre pensei, que, à chegada à Parede, já haveria arrependidos, temerosos do pior. Que a presença de jogadores, entretidos na sua lida, algum público e o chui não seria inconveniente para os forçar a desistir. Mas foi o pretexto. Foram a votos e ganharam os indecisos e os pusilânimes. Voltaram para trás. Argumento de peso: vimos cá a manhã!... Amanhã também é dia!

Luiz Pacheco conta também de uma artigalhada, sem qualquer sentido pejorativoo Pacheco gostava da frase, que Luís Filipe Costa escreveu para o semanário Extra, a falar da Operação Papagaio, mas não encontrou o recorte na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Teria sido mais exacto, escreveu Pacheco.

Se para aqui chamássemos o John Ford ele diria que se os factos se transformam em lenda, deve publicar-se a lenda.

Mas o poeta Carlos Loures, em Estrolabio, tenta os factos e faz um apanhado das versões que ele conhece sobre a Operação Papagaio.

Vale a pena ler!