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sábado, 22 de fevereiro de 2025

O OUTRO LADO DAS ESTANTES

Este livro de Gordon Childe, 520 páginas referindo o «progresso da humanidade desde as suas origens até ao fim do Império Romano» faz parte daquele largo número de livros que o meu pai foi comprando, preferencialmente, para serem lidos em tempo de reforma.

Faz parte do Outro Lado das Estantes da Biblioteca da Casa, e foi editado pela excelência das Edições Cosmos de Manuel  Rodrigues  de  Oliveira,”O  Homem da Cosmos”, Testemunha de um tempo passado,  um  homem  que  fez  da sua vida  um  culto ao livro e à arte de imprimir as ideias.

As edições  Cosmos contaram, entre outros, com a excelência do trabalho de Bento de Jesus Caraça e Vitorino Magalhães Godinho, principalmente na Biblioteca Cosmos.

Volto a dizer: não terei tempo para olhar todas as capas desta Biblioteca da Casa, que começa com uma meia dúzia de livros de Mário Santos, meu avô paterno, republicano histórico, benfiquista e anticlerical, tal como gostava de se dar a conhecer a quem lhe perguntasse quem era.

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O Homem esse Desconhecido

Gordon Childe

Tradução e notas:

Vitorino Magalhães Godinho e Jorge Borges de Macedo

Colecção A Marcha da Humanidade nº 1

Edições Cosmos, Lisboa, Julho de 1947

No século passado aceitava-se o «progresso» como um facto. O comércio expandia-se, a produtividade da indústria aumentava, a riqueza acumulava-se, As descobertas científicas prometiam um avanço indefinido ao domínio do homem sobre a natureza, e, por conseguinte ilimitadas possibilidades de intensificar a produção. Ora, tal optimismo sofreu um rude abalo. A guerra de 1914 e as crises consequentes, com a produção mesmo no meio de horrível pobreza , de um excesso aparente de bens, minaram os alicerces económicos. Dúvidas quanto à realidade de «progresso» estão largamente espalhadas.

domingo, 14 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Os Mitos Acerca da Origem das Guerras

Vitorino Magalhães Godinho

Cadernos da Seara Nova

Seara Nova, Lisboa 1945

A história, tal como geralmente se estuda, consiste num quasi ininterrupto desenrolar de conflitos diplomáticos e guerras. Da frequência do fenómeno bélico resvala-se facilmente para a ideia que no homem existe o instinto guerreiro, e que este instinto é que explica o deflagrar de lutas armadas. Consequência lógica desta posição: a guerra sempre existiu e há-de existir, logo não passa de utopia pretender evitá-la.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TODOS ESTIVEMOS COMPROMETIDOS


Todos os princípios são difíceis, e os assuntos delicados ainda mais.

Quando os assuntos têm que ser tratados com pinças, há que inventar um abrir de prosa.

Lembrei-me de algo que Vitorino Magalhães Godinho disse em Outubro de 1974, citado por José- Augusto França nas suas Memórias:

«Num tão longo regime totalitário, quer se queira quer não, todos estiveram comprometidos. Salvo raras excepções em casos de sacrifício merecedores de respeito e de rendida homenagem, a grande maioria teve de acomodar-se. Viver…»

Volto a lembrar o que, aqui,  já deixei escrito:

 Ano de 1967, o Helder Pinho levou-nos a visitar a cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei ao Artur Bual, a colaboração com o S.N.I.

 Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.

 Como pude ser tão idiota, tão ordinário, tão estúpido, tão repugnante, tão mania de ser chico-esperto?

 Tinha o exemplo do senhor meu pai, e alguma vez o Artur Bual merecia que lhe perguntasse o que perguntei?

 E não há nenhuns 20 anos que desculpem uma imbecilidade daquelas!

 Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

 José Gomes Ferreira entristecia-se quando se lembrava que os seus compadres e vizinhos, Bernardo Marques, sua mulher Ofélia Marques, para sobreviverem, aceitavam fazer capas e ilustrações para as publicações do S.N.I.

O meu pai foi funcionário do S.N.I. para a parte gráfica das suas publicações.

Sempre que saia uma qualquer das publicações do S.N.I., livros, revistas, catálogos, etc., levava um exemplar para casa. Isto durante anos a fio. Tudo se foi acumulando e começou a faltar espaço para acondicionar outros livros.

 Naquele tempo andavam homens e mulheres pelas ruas a comprar jornais, garrafas, outras velharias. Mais ou menos uma vez por mês, alguém ia lá a casa perguntar se havia algo para vender.

 Um dia, para arranjar o tal espaço para livros que começava a faltar, o meu pai decidiu  vender ao quilo as publicações do S.N.I.

 A minha costela anti-regime rejubilou e até ajudei a fazer os molhos e a atar cordas.

 Nesse monte estavam os muitos números da Panorama e também, entre muitos outros, Férias com Salazar, da jornalista francesa Christine Garnier com fotografias do pide Rosa Casaco.

Ao tempo, rumores-cor-de-rosa, dão a jornalista francesa como uma paixão assolapada pelo Botas de Santa Comba, e vice-versa, ao ponto de se ter divorciado.

 Pelos anos 80, comprei o livro editado por Fernando Pereira, mas sem as fotografias do pide Casaco, o que faz alguma diferença.

 Há uns anos, comprei, na Feira da Ladra, 4 exemplares da Panorama ao preço de 2,50 euros cada exemplar.

 Dessa pilhagem anti-S.N.I. restaram 29 volumes do “Notícias de Portugal” devidamente encadernados em carneira porque o SNI, ao fim de cada ano, enviava esses volumes para a Presidência da República, para o Conselho de Ministros, para todas as entidades gradas do regime.

 Outra história para contar.

 Legenda: no topo, capa de Bernardo Marques para a Panorama nº 8, Abril de 1942. A outra capa é da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia para a Panorama nº 27 de 1946, sem indicação do respectivo mês.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Estrutura na Antiga Sociedade Portuguesa
Vitorino Magalhães Godinho
Orientação gráfica de Mendes de Oliveira
Editora Arcádia, Lisboa Junho 1971

Em 1782 o intendente geral da Agricultura, D. Luis Ferrari de Mordau, analisa as causas da decadência da agricultura portuguesa e propõe a sua modernização. Entre aquelas, destaquemos agora as que interessam ao nosso propósito:

1 – Abatimento dos lavradores.
…………………………….
4 – Pouca gente de trabalho nos campos.
……………………………….
8 – Muita família pobre, e muita preguiça.
……………………………….
10 – Muitos vadios, muitos criados, muitos ociosos e muitos soldados extrahidos da
        lavoira.
……………………………….     
12 – Muito dias feriados, e muito vagar nas obras.


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

UMA PESSOA QUE ME CONFRANGE



Um olhar por uma entrevista que Vitorino Magalhães Godinho deu a João Céu e Silva e publicada no “Diário de Notícias” de 27 de Fevereiro de 2009, no tempo em que José Sócrates era primeiro-ministro:

“Sim e os desvarios do 25 de Abril levaram à posição contrária, a de destruir tudo o que havia de melhor e até o que o 25 de Abril trouxe. Houve essa destruição progressiva e as pessoas não se apercebem do que se passa nos hospitais: um descalabro total. Tal como nos sistemas de ensino e económico, que não poderiam escapar no meio desta reviravolta. Além de que a revolução técnica que vem de 1975 para cá criou condições inteiramente novas na economia.

Porque o sistema capitalista não se pensa?

Creio que já não estamos no capitalismo. As pessoas apegam-se a nomes, mas a verdade é que tivemos um capitalismo no século XX que foi engolido por uma evolução que levou a um hipercapitalismo em que as empresas que vendiam para o mercado desapareceram e foram substituídas por grandes redes que conglomeram actividades múltiplas e fazem motores de aviões, perfumes e marroquinaria...

Qual será o futuro deste hipercapitalismo?

Este hipercapitalismo engasgou-se porque criou uma contradição insanável. Quando a Toyota despede 20 mil é porque criou um sistema produtivo que é absurdo e não corresponde às necessidades.

O que motivou o estrangulamento da procura?

O estrangulamento da procura resulta do excesso de produção e saturação de mercado e das pessoas.
Acusa a classe política pela situação. Acha que a nossa classe política não está à altura?
Acho que a nossa classe política é mais do que lamentável. Os nossos políticos não têm ideias e não debatem. Assiste-se a qualquer sessão do Parlamento e verifica-se que há afirmações mas nunca as demonstram. Diz-se que o TGV é fundamental mas ninguém o justifica. Quando há uma crítica ninguém responde, porque há uma incapacidade de argumentar nos nossos políticos. Em todos!

À excepção do primeiro-ministro!

É a pessoa que mais me confrange porque ainda não o ouvi responder a uma pergunta com argumentação. Até deixei de o escutar.

Então pensa que este Governo não sabe o que está a fazer?

Sabe sim, infelizmente. Sabe como destruir o Sistema Nacional de Saúde e o ensino público, como entregar as universidades aos privados... Sabe pôr de parte todas as conquistas do mundo civilizado.
Um Estado corporativo como Salazar sonhou e nunca conseguiu. Realizámos o que desejava, que é o poder nas mãos de organizações profissionais.

Quem tornou esse sonho em realidade?

O Governo actual e os últimos… Foi uma evolução num país que era feito à medida para conservar o mais possível a sociedade tradicional em que Salazar acreditava. Portugal ficou no século XIX e como não era moderno não havia preparação para o que veio com o 25 de Abril. Voltaram-se aos defeitos antigos e acrescentaram-se os modernos. O movimento militar acabou com esse regime odioso de 48 anos sem uma transformação social geral. Imitaram-se modelos estrangeiros, houve a sedução pelo trotskismo, pelo maoísmo e por coisas que nem sabíamos o que eram, que resultaram no desencontro entre o importar de ideias e os programas que não tinham nada a ver connosco. Portugal continua a imitar o que se faz lá por fora. |