Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos
terça-feira, 28 de abril de 2026
O POEMA ORIGINAL
terça-feira, 7 de abril de 2026
EPÍGRAFE
De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento
movimento
quando passam ao longo
do que invento
como pré-feitos blocos
de cimento.
De palavras não sei.
Apenas quero
retomar-lhes o
peso a consistência
e com elas erguer a
fogo e ferro
um palácio de força e
resistência.
De palavras não sei.
Por isso canto
em cada uma apenas
outro tanto
do que sinto por
dentro quando as digo.
Palavra que me lavra.
Alfaia escrava.
De mim próprio matéria
bruta e brava
- expressão da multidão
que está comigo.
José
Carlos Ary dos Santos
quarta-feira, 25 de março de 2026
MINHA MÃE QUE NÃO TENHO
Minha mãe que não
tenho meu lençol
de linho de carinho de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.
Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço ai mãe ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.
De que Egipto vieste? De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.
Minha mãe que não tenho minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila virgem buda
corça
ou apenas um mundo em que não entro?
Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
constrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.
José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia
segunda-feira, 2 de março de 2026
EM NOME DOS QUE CHORAM
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo
José Carlos Ary dos Santos
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
EPÍGRAFE
De palavras
não sei. Apenas tento
desvendar o
seu lento movimento
quando
passam ao longo do que invento
como
pré-feitos blocos de cimento.
De palavras
não sei. Apenas quero
retomar-lhes
o peso a consistência
e com elas
erguer a fogo e ferro
um palácio
de força e resistência.
De palavras
não sei. Por isso canto
em cada uma
apenas outro tanto
do que
sinto por dentro quando as digo.
Palavra que
me lavra. Alfaia escrava.
De mim
próprio matéria bruta e brava
- expressão
da multidão que está comigo.
José Carlos Ary dos Santos em Insofrimento in Sofrimento
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
TEU PAI UM POTRO DE SANGUE
Teu pai um potro de sangue
emprenhou uma gazela
tu nasceste mas exangue
a vencida foi sempre
ela.
A pouco e pouco
cresceste
nos túneis da liberdade
nos túneis porque nas
ruas
era bem outra a verdade.
Um povo inteiro pagava
o tributo de existir
e servia a quem mandava
agonizar a sorrir.
Depois menino batido
por tantas feras à
solta
foste aprendendo o
sentido
da vingança e da
revolta.
Em ti deitaste raiz
tronco fino mas não frágil
e inventaste um país
maior mais livre e mais
ágil.
De tudo te disfarçaste
cigano vadio actor
mas nunca te
amordaçaste
nem português nem
escritor.
Escrevendo com sangue e
letras
entraste na grande
guerra
e dos operários poetas
que escreveram esta
terra.
Hoje a luta recomeça
mas já de igual para
igual
muito obrigado Bernardo
Santarém de Portugal.
José
Carlos Ary dos Santos
NOTA DO EDITOR:
Este poema/canção
faz parte da peça Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade de
Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 5 de Julho de 1974 no
Teatro Maria Matos, numa encenação de Rogério Paulo. A música é de Fernando
Tordo.
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
PAVANA PARA UMA TIA DEFUNTA
A cabeça de vaca da minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério
maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da
orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem
cor.
Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o
estrume que é.
A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família
enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha
frustrada.
A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim i não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.
Se não fosse o desgosto se
não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no
ventre
se não fosse de força tinha feito a
escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos
dentes.
Minha tia mastiga minha tia
castiga
na saleta do inferno as almas dos
criados:
– não me limpaste o pó a
campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.
A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à
história.
Dissolve-se na
boca resolve-se na fome
Do senhor que a devora em sua santa
glória.
José Carlos Ary dos Santos em Resumo
segunda-feira, 21 de abril de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
Esta é a semana em que Abril faz 51 anos.
A Música pela Manhã acompanhará algumas das canções, dos acontecimentos, que marcaram aquela madrugada que esperávamos.
A velha
história: todos os começos são difíceis.
Mas poderemos
começar com aquela noite de 29 de Março de 1974, no velho Coliseu dos Recreios
a escassos 28 dias de passarmos a ser livres.
Pegamos em O
Cinéfilo nº 27, datado de 6 de Abril de 1974.
Macário
Contumélias, a quem foi dado reportar o acontecimento, escreveu assim:
«A coisa chamava-se – chamou-se o I Encontro da
Canção. Estavam marcados para se encontrar com a malta o Quarteto de Marcos
Resende, o duo Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Manuel José Soares,
Carlos Paredes (com Fernando Alvim); o conjunto espanhol Vino Tinto, que a
televisão já vira; Pablo Guerreiro; Ary dos Santos; José Barata Moura; Manuel
Freire; Fernando Tordo; José Jorge Letria; o conjunto Intróito; Adriano Correia
de Oliveira; José Afonso; Ruy Mingas e Paulo de Carvalho; cá por mim fui lá, por
dever de ofício, a contar com uma grande estopada. Não que, de um modo geral,
eu estivesse com dúvidas sobre a importância da maioria dos convidados no
contexto da nova canção portuguesa (embora não percebesse muito bem o que iriam
lá fazer dois ou três dos que eram para – e acabaram por estar e não – estar
presentes. Nada disso. O que eu temia era que, no meio da confusão, a coisa
resultasse numa pepineira intragável. Mas fui! E agora que aquilo já passou, há
uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção. Fosse lá porque fosse,
naquela noite, no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias.
Isso é importante!»
Para cima de cinco mil encheram por completo o Coliseu dos Recreios em Lisboa e
assistiram a algo que lhes marcou as vidas.
Tinha acontecido
o 16 de Março, a confusão instalada, alguns a dizerem dizer que estava para
breve, muitos, tantas vezes esperançados e depois frustrados a não acreditarem.
Naquela noite de
emoções várias, passadas as portas do Coliseu, poderíamos pensar que talvez se
aproximasse, assim como o poeta dissera à rapariga, o tal dia em que a
Primavera se soltaria no País de Abril.
Assim foi.
De uma vez só,
ficámos a saber que o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que
canta e as que o escutam.
Vou assinalar
três passos da reportagem do Mário Contumélias:
1.
«Carlos Paredes
Guitarra foi recebido com gritos isolados de «Tira a gravata, pá». Mas veio a
música, e aquela sim, não era comercial, ou por outra, aquela era para ouvir
com todo o corpo.
Os Verdes Anos
foram impostos pelo público, muito mais maduro do que se pensaria.
2.
E entrou, /De pé
como um poeta ou um cavalo/, José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre
assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary, como poeta ou declamador, a
verdade é que ele tem muita força (aquela força que havia de faltar a Fernando
Tordo). Eu venho cá dizer. Se não gostarem manifestem-se no fim.
E a malta
manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à
insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.
3.
«Quando, depois
de Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas
rebentaram. Venho aqui cantar uma canção, a GRÂNDOLA, disse Zeca.
Cerraram-se as
luzes, e toda a sla, todos os 5 mil, de pé, entoaram em coro os versos da
canção. Braços dados, corpos balanceando, pés, batendo no chão.
Quando o Zeca
acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na
plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»
segunda-feira, 1 de abril de 2024
SONETO PRESENTE
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de
mim
a terra de onde venho é
onde moro
o lugar de que sou é estar
aqui.
Não me digam mais nada
senão falo
e eu não posso dizer eu
estou de pé.
De pé como um poeta ou um
cavalo
de pé como quem deve estar
quem é.
Aqui ninguém me diz quando
me vendo
a não ser os que eu amo os
que eu entendo
os que podem ser tanto como
eu.
Aqui ninguém me põe a pata
em cima
porque é de baixo que me
vem acima
a força do lugar que for o
meu
José Carlos Ary dos Santos
de Resumo em Vinte Anos de Poesia
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
FÉRIAS
Era
uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar como um abraço.
Era
a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.
Era
um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão
E
bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.
José Carlos Ary dos Santos de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia
domingo, 30 de abril de 2023
LABIRINTOS DE SONHO
![]() |
Tempos de Primavera. Corria o mês de Outubro do ano de 1971.
Talvez ninguém pensasse que teríamos de entrar pela Europa dos comércios.
As palavras publicitárias de José Carlos Ary dos Santos para a publicidade da lã virgem portuguesa:
Minha lã meu amor
Meu livre
movimento
Minha festa de
cor
Meu novelo de
vento
Minha lã meu
amor
Meu sol de
formosura
Meu nilho de
calor
Meu toque de
ternura
domingo, 23 de abril de 2023
OUTROS QUOTIDIANOS
Aquando da morte de Joaquim Pessoa, em buscas na net, encontrei no blogue «Ié-Ié» esta curiosa história que, aparentemente, deverá marcar o aparecimento público de Joaquim Pessoa:
«O Trio Araripa, de que falou no post do Paulo
de Carvalho, fez-lhe recordar
uma velha história.
No século passado, fez parte de uma lista candidata à Direcção do Sindicato dos
Trabalhadores de Terra da Marinha Mercante, Aeronavegação e Pesca.
Escolhido para Presidente da Mesa da Assembleia Geral encontrava-se Luiz
Villas-Boas que entendeu que se deveria encerrar a campanha eleitoral com um
convívio musical.
Ele trataria de tudo.
Numa tarde de domingo conseguiu juntar na “Guilherme Cossoul”, José Carlos Ary
dos Santos, Carlos Paredes, Fernando Tordo e o Trio Araripa.
Segundo Villas-Boas, o Trio Araripa fazia ali a sua estreia e era constituído
por José Eduardo, Emílio e João. Navegavam, principalmente, na área jazzistica.
Ary dos Santos, pela primeira vez, recitaria, “Bandeira Comunista”.
Uma figura tímida, praticamente desconhecida, que não estava no programa, e que
também recitou poemas. Tratava-se do Joaquim Pessoa.
O convívio acabou no bar da “Guilherme Cossoul” e não pode esquecer essa força
da natureza que era Ary dos Santos. Acompanhava lulas recheadas com “gin-tonic”
e pelo meio recitava poemas e contava histórias deliciosas.
Tempo, agora, para uma chapelada a esse extraordinário Vilas, outra força da
natureza, que nos deixou em 1999, um companheiro bem-humorado, com uma cultura
musical, simplesmente de arrasar.
Não tem qualquer tipo de dúvidas em afirmar que a História do Jazz em Portugal
está balizada com um “antes de Villas-Boas”e um “depois de Villas-Boas”. »
domingo, 26 de dezembro de 2021
SONETO PRESENTE
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu
José Carlos Ary dos Santos em Resumo
quarta-feira, 17 de março de 2021
O MEU É TEU
O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.
O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso,
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.
Dizem que sou. Dizem que faço,
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço,
que é dos poemas que eu não ouço?
O meu é teu. O teu é meu
e o nosso, nosso quando posso
olhar em frente para o céu
e sem o ver galgar o fosso.
Mas tu és tu e eu sou eu
não vejo o fundo ao nosso poço,
o meu é meu, dá-me o que é teu
depois veremos o que é nosso.
José Carlos Ary dos Santos
Legenda: pintura de Alice Jorge
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
IN MEMORIAM
Requiem
aeternam dona reis,
Domine, et lux
perpetua
luceat eis
Que a terra lhe
seja pesada.
Que lhe apodreça o
corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os
dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a
tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a
memória gravada
Na lembrança
demente dos que o choram.
Que a mulher que
foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e
uivos
E garfos aguçados
E que reparta o
medo com o primeiro intruso
E o vento se
insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no
olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os
ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os
cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o
rosto como um ácido em chama.
Que a mulher que
foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que
foi dele oiça o vento na cama!
Que o nome que era
o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto
as gargantas com sede,
O murmurem no
escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade
as crianças com fome,
O soluce o amante
de súbito impotente,
O maldigam no
exílio as almas sem descanso
Que o nome que era
o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de
sangue..
Que o gesto que era
o seu o imitem as mães
Que se torcem de
dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume
os braços amputados,
O perpetue o esgar
dos jovens mutilados,
O dance o condenado
que morre na fogueira.
Que o gesto que era
o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.
Que o sangue que
era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do
pobre.
E que o
Exterminadsor, no seu trono de enxofre,
O faça
tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o
esqueça
E mais ninguém o
chore.
José Carlos Ary dos Santos de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia
quinta-feira, 23 de julho de 2020
CONVERSANDO
Como hábito antigo, para além de ler as obras dos autores de que gosto, sempre me habituei a ler o que sobre esses autores está escrito.
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.
Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.
Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS
Na Europa, serão 12 milhões de desempregados, incluindo milhares de portugueses.
4.
Legenda: Largo de São Domingos, aguarela de que não foi possível saber o autor. A Casa das Iscas localizava-se, ao fundo, por detrás do quiosque.
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
O HOMEM DAS CASTANHAS
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.
sexta-feira, 22 de março de 2019
RETRATO DO POVO DE LISBOA
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.
Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.
É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.
Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

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