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quarta-feira, 8 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Desculpem lá, mas hoje tenho que zarpar.

Há não sei quantos dias que dou voltas á casa.

De cá para lá ando, não direi que sejam dias completamente opressivos, porque sempre vou lendo, ouvindo música, alguns filmes, tentando alguns petiscos, mão na massa para fazer um bolo, mas hoje tenho mesmo de zarpar.

Um vizinho dizia há dias que tinha de dar umas voltas e para isso ia-se enfiar na máquina de lavar.

Eu vou sair para ir às iscas.

Pelo-me por iscas. Terrivelmente: de cebolada, com elas, batatinhas novas, no pão, de qualquer maneira.

Iscas.

Foram-me proibidas. Porque engrossam o sangue, elevam os níveis de colesterol.

Mas hoje vou às iscas, e levo como parceiro Albino Forjaz de Carvalho, que, em caminho, me vai dizendo, ia-se às iscas, ah!, mas não se julgue que as iscas eram o que são hoje. Não. Perdeu-se a poesia das iscas.

Que frase maravilhosa: «a poesia das iscas».

O cozinheiro era sempre galego e o segredo da sua preparação culinária, devia-se a dois factores: primeiro à espessura quase inverosímil da isca; segundo, a que nunca se lavava a frigideira, a não ser de ano a ano, quando os galegos iam à terra.

Num alguidar, um molho de muito vinagre, sal, pimenta, louro, muito alho e as iscas, largo tempo, aboboravam naquela molhanga.

Para a fritura: banha de porco e baço raspado para lhe dar grossura.

Havia outras, mas a melhor casa de iscas de que me lembro, ficava no canto do Largo de São Domingos,  onde está a igreja com o mesmo nome, paredes meias com a Rua Barros Queiroz.

Mas já não havia galego, a frigideira era lavada, as autoridades de bons costumes proibiram a venda de baço, a banha era do Nobre no Montijo, o tasqueiro cortava-se nos alhos e no vinagre.

Tudo sem a tal poesia das iscas.

Claro que vocês já perceberam que isto foi tudo uma divagação, um sonho breve e sem paladar. 

Não saí da cadeira da tal casa-de-lá-para-cá e por aqui fiquei com o Carlos do Carmo, em fundo, a cantar um poema do José Carlos Ary dos Santos, o «Fado dos Cheirinho» onde, a páginas tantasse diz «gosto mais de amor contigo do que das iscas com elas.»

Por vezes, um tipo tem que se meter numa destas, para fazer de conta que nada disto nos está a acontecer.


1.

O líder da extrema-direita em Itália, Matteo Salvini, defendeu que as igrejas devem estar abertas ao público para os ritos da Páscoa, mas a Conferência Episcopal recusou, apelando à responsabilidade em plena pandemia.

2.
A Ministra da Justiça rejeita que haja sobrelotação nas prisões portuguesas, mas diz que é preciso libertar espaço, porque o sistema em camaratas favorece a propagação do vírus. Portugal tem o quarto sistema prisional mais envelhecido da Europa.

Há presos que não vão sair das cadeias por não terem casa para regressar, lê-se, em título no Público.

3.

A Organização Internacional do Trabalho calcula que a pandemia vá lançar 195 milhões de pessoas no desemprego nos próximos três meses.

A maior parte na Ásia: 125 milhões.

Na Europa, serão 12 milhões de desempregados, incluindo milhares de portugueses.

4.

Os negros números:

Itália

17.669 mortes

Espanha

14.673 mortes

Estados Unidos

10.335 mortes

França

10.869 mortes

Grã-Bretanha

7.097 mortes

Irão

3.993 mortes

China

3.212 mortes

Holanda

2.248 mortes

Bélgica

2.240 mortes

Alemanha

2.183 mortes

Portugal

380 mortes

Mundo

86.979 mortes

5.

«O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona.»

José Saramago


Legenda: Largo de São Domingos, aguarela de que não foi possível saber o autor. A Casa das Iscas localizava-se, ao fundo, por detrás do quiosque.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O HOMEM DAS CASTANHAS


Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, 22 de março de 2019

RETRATO DO POVO DE LISBOA


É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto. 

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

José Carlos Ary dos Santos em fotos-grafias

Legenda: Fotografia de Nuno Calvet em fotos-grafias

sábado, 9 de março de 2019

CANTO FRANCISCANO


Por onde passaste tu
que não soubeste passar?
Pela sandália do tempo
pelo cílio do luar
pelo cilício do vento
pelo tímpano do mar?
Por onde passaste tu
que não soubeste passar?

Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?

Pois bem: nos campos da fome
ou nos caminhos do frio
se eu encontrasse o teu nome
lançava-te o desafio:
por onde passaste tu
pétala viva dos pobres
Irmão dos cardos   dos cerdos
rei das chagas e dos podres
- por onde passaste tu
não passaram as minhas dores!

Nasci da mãe que não tive
do pai que nunca terei
e aquilo que sobrevive
é o irmão que não sei:
uma espécie de fogueira
de corpo que me deslumbra.
Tudo o mais à minha beira
é uma réstia de sombra.
- Por onde passaste tu
com artelhos de penumbra?

Eis-me. Eis-me incendiado
por não saber perdoar.
Meu irmão passa de lado
- Eu sei como hei-de passar.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

MEU LIMÃO DE AMARGURA


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 3 de julho de 2018

MEMÓRIA DE ADRIANO


Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa de amanhã.
Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde rosto de maçã.
O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.
Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 16 de abril de 2018

KYRIE


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos Ary dos Santo de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia

domingo, 14 de janeiro de 2018

O CACHECOL



A paisagem escocesa no pescoço esgalgado
Um quadro de vento
                               um quadro de frio
uma franja de medo
                              um sorriso coçado
e o silêncio traçado em desafio.
O rosto passajado pendurado num gito
a alma cinzelada num museu moderno.
Ter a palavra exacta
o talento prescrito
e uma écharpe de imagens num postal escrito
duma lua-de-mel nos desportos de inverno.

José Carlos Ary dos Santos em Adereços, Endereços

sábado, 18 de novembro de 2017

DESESPERO



Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero. 

José Carlos Ary dos Santos de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cadernos Despertar - I

Eduardo Olímpio, José Carlos Ary dos Santos, José Jorge Letria, José Vultos Sequeira, Luís Maçarico, Manuel Branco, Miguel Serrano, Orlando César
Prefácio: Miguel Serrano
Capa: Miguel Eduardo
Publicação não periódica
Edição dos Autores, Lisboa, Junho de 1982

Soneto de Cabeceira

Em mim próprio me gasto e me desgasto
em mim próprio me vergo e desgoverno
de mim próprio varrasco me vergasto
quando pretendo ser perfeito ou terno.

De mim, que eu tanto gosto me desgosto:
sempre que rasgo as teias do inferno
revejo a aranha de viscoso rosto
comendo a mosca do meu sono eterno.

De mim me desencanto e desagravo
De mim me distancio e me separo
Cada vez mais humilde e mais altivo.

É esta a luta que camigo travo:
se o dia de amanhã fôr dia claro
morro cem vezes para ficar vivo.

(José Carlos Ary dos Santos)

sexta-feira, 11 de março de 2016

O CAFÉ


Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

José Carlos Ary dos Santos

Música: Fernando Tordo

domingo, 10 de janeiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Alentejo Não tem Sombra

Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo,
Organizada por Eugénio de Andrade,
Com uma pintura de Armando Alves e outra de Jorge Pinheiro
Colecção O Aprendiz de Feiticeiro nº 2
Editorial O Oiro do Dia, Porto, Primavera de 1982


A Cortiça

É preciso dizer-se o que acontece
            no meu país de sal
há gente que arrefece      que arrefece
                  de sol a sol
                 de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
             no meu país de sal.

Passando o Tejo       para além da ponte
              que não nos liga a nada
                   só se vê horizonte
                          horizonte
                  e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
           no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
         o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
           no meu país de treva:

mal finda a noite       escurece logo o dia
                e uma espessa energia
                feita de pus no sangue
                    de lama na barriga
      nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede       é o calor do medo.
                  a cama do ganhão
                 a casca do sobredo.
                  É o suor com pão
          que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
      no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
                à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado       um lado
              do nosso orgulho ferido
         e por cada sobreiro despojado
     um homem esfomeado e mal parido.

                         Ah não, filhos da mãe!
                         Ah não, filhos da terra!
                         Os enjeitados também vão à guerra.

José Carlos Ary dos Santos em Resumo

domingo, 29 de novembro de 2015

PORQUE HOJE É DOMINGO


Na passada quinta-feira morreu Beatriz da Conceição, uma das grandes senhoras do Fado.
Tinha 78 anos.
Neste domingo recordo-a numa das suas mais sentidas interpretações: O Meu Corpo, poema de José Carlos Ary dos Santos para música de Fernando Tordo.


Meu corpo, é um barco sem ter porto
Tempestade no mar morto
Sem ti
Teu corpo, é apenas um deserto
Quando não me encontro perto
De ti

Teus olhos, são memórias do desejo
São as praias que eu não vejo
Em ti
Meus olhos, são as lágrimas do tejo
Onde eu fico e me revejo
Sem ti

Quem parte de tal porto nunca leva
As saudades da partida
E as amarras de quem sofre
Quem fica é que se lembra toda a vida
Das saudades de quem parte
E dos olhos, de quem morre

Não sei, se o orgulho da tristeza
Nos dói mais do que a pobreza
Não sei...
Mas sei, que estou pra sempre presa
À ternura sem defesa
Que eu dei

Sozinha, numa cama que é só minha
Espero teu corpo que eu tinha
Só meu
Se ouvires o chorar duma criança
Ou o grito da vingança
Sou eu

Sou eu, de cabelo solto ao vento
Com olhar e pensamento
No teu
Sou eu, da raiz do pensamento
Contra ti e contra o tempo
Sou eu

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O CAFÉ



Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Letra: José Carlos Ary dos Santos

Letra: Fernando Tordo

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


As Portas Que Abril Abriu

José Carlos Ary dos Santos
Ilustrações: António Pimentel
Editorial Comunicação, Lisboa, Novembro de 1975

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

terça-feira, 30 de junho de 2015

OS IDOS DE JUNHO DE 1975



 30 de Junho de 1975

FUGIRAM de Alcoentre 88 pides.
O recorte pertence à primeira página do Diário de Lisboa.
Pela sua leitura fica a saber-se que na Penitenciária de Alcoentre estavam detidos 843 agentes da PIDE/DGS.
De uma prisão, considerada pelos técnicos como uma das mais seguras da Europa, os ex-agentes conseguiram descer os altos muros servindo-se de escadas improvisadas com ferros das camas, presos por cordas de plástico.
Do estranho e insólito acontecimento, José Carlos Ary dos Santos e Fernando Tordo escreveram o Fado de Alcoentre.

A introdução recitada por Ary dos Santos:

Mas enquanto homens lutavam com uma entrega total
Outros homens conspiravam contra o novo Portugal
Essas hienas que apertavam o garrote da tortura
Enquanto a Democracia se distraía em ternura
Esses homens que hoje saem da prisão em liberdade
Cães que rosnam, cães que traem, e passeiam na cidade

A letra do fado:

Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça.
Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça.
Deixaram fugir mais oitenta e nove…

Os pides desceram pela corda alegremente.
Os guardas andavam passeando em Alcoentre.
E a esquerda levou com mais um corno pela frente.
Esta maldade não se faz à gente.
Que merda!

As grades foram todas serradas a preceito.
A fuga aproveitou-se do que era imperfeito.
E a esquerda, por causa da vergonha deste feito,
pode apanhar uma bala no peito…
Que merda!

Quem foram os que de fora das grades ajudaram?
Quem foram os que dentro das grades os armaram?
A esquerda não esquece tubarões que a torturaram.
Não pode perdoar se a enganaram.
Que merda!

Agora, a vigilância é tudo o que nos resta.
Pr’ós pides, a vida na prisão… era uma festa.
E a esquerda tem mais do que razão quando protesta,
pois pode apanhar um tiro na testa…

Que merda!


ENTRETANTO o Decreto-lei nº 329-C/75 demite da Armada, com efeitos retroactivos a 25 de Abril de 1974, o ex-Presidente da república, almirante Américo Tomás.

NO DIA 26 MOÇAMBIQUE tornou-se independente.
Do Rovuma ao Maputo.
Samora Machel é o presidente da República Popular de Moçambique, o 34º maior país do mundo
Em nome do governo português esteve presente Vasco Gonçalves.
À partida para Maputo, Vasco Gonçalves dissera: não recebemos lições de ninguém em matéria de descolonização.
Na conferência de imprensa, após a cerimónia da investidura de Samora Machel, disse:
Nós pensamos que as relações de novo tipo que Portugal está estabelecendo com as nações que hoje estão ascendendo à independência, foi a Guiné, hoje Moçambique, dentro de poucos dias cabo Verde, mais tarde Angola e os outros territórios, nós pensamos que estamos dando ao Mundo um exemplo de fraternidade, um exemplo de amistosidade, um exemplo de encarar com a maior nobreza e com a maior esperança as novas relações que se estão estabelecendo. Pensamos que estas relações podem ser seguidas por todos os povos do Mundo no caminhada independência de todos esses povos no caminho da paz, do progresso e do bem-estar da Humanidade


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sábado, 7 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Vinte Anos de Poesia

José Carlos Ary dos Santos
Círculo de Leitores, Lisboa, maio de 1984

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

EM LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS


Por quê Mário?
Por quê Cesariny?
Por quê — ó meu Deus de Vasconcelos?
Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino
da moral dos vitelos?

Alarga Mário a larga pássara do canto
e verás que à ilharga da imagem
o deus da vadiagem
fará de ti um santo.

Meu santo minha santa
Filomena tirada dos altares
quando a alma dos outros é pequena
melhor é ir a ares.

Areja Mário a pluma que sobeja
ao teu surrealismo
antes o ar de Londres que o de Beja
antes a bruma do que o sinapismo

Fornica meu poeta
sem a arnica
dos padrecas da terra.
Antes em Telavive que o tal estar
aqui
de cu pró ar
a ver quem nos enterra.

A fundo     Mário se quiseres
baratinar os chuis.
Nem vinho     já sabemos     nem mulheres
mas os colhões de teres
os três olhos azuis.

José Carlos Ary dos Santos em Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa s/d

Legenda: Marinheiro, pintura de Mário Cesariny de Vasconcelos

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Insofrimento in Sofrimento

José Carlos Ary dos Santos
Edição do Autor, Lisboa, Março de 1969

É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal
há gente que arrefece      que arrefece
de sol a sol
de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal.

Passando o Tejo       para além da ponte
que não nos liga a nada
só se vê horizonte
horizonte
e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
mal finda a noite       escurece logo o dia
e uma espessa energia
feita de pus no sangue
de lama na barriga
nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede       é o calor do medo.
a cama do ganhão
a casca do sobredo.
É o suor com pão que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado       um lado
do nosso orgulho ferido
e por cada sobreiro despojado
um homem esfomeado e mal parido.

Ah não, filhos da mãe!
Ah não, filhos da terra!
Os enjeitados também vão à guerra.

domingo, 18 de janeiro de 2015

MINHA PALAVRA DITA À LUZ DO SOL POENTE


José Carlos Arydos Santos.

Morreu porque já não queria mais estar vivo.

Ao contrário de Vinicius, não morreu de tanto ter vivido.

Tinha 46 anos.

De cirrose, como se infere da certidão de óbito por que era bebedor com muito gosto.

A rataria deve estar contente, As madamas até vão dar chás-canasta, Pudera! Lá se foi mais um comuna, que alívio.

( José Carlos Gonzalez em O Diário)

Um dos seus últimos actos, foi a assinatura de um contrato para a reedição, pelo Círculo de Leitores, da antologia Vinte Anos de Poesia.

Havia inúmeras garrafas de gin espalhadas pela sala.

Um vulcão de afectividade como lhe chamou esse outro vulcão que foi Natália Correia.

Um ser humano admirável no dizer de José Saramago

Através de um sobescrito lacrado consegui chegar à TV. De dentro do sobescrito saíu a Desfolhada e, sobretudo dois versos que escandalizaram a burguesia: Quem faz um filho fá-lo por gosto.

Quando o Joaquim Pessoa alertou-o para o facto de estar sempre a beber gin, que deveria por isso, ter o fígado mais que sofrido, teve esta resposta: «Cala-te, tu queres é que eu morra para ficares sozinho. Seres tu o poeta do povo. Mas fica sabendo que, quando eu morrer, vai ser em glória. Vai a classe operária toda ao meu funeral e eu, sentado no muro do cemitério, a vê-los passar.
(Em Ary dos Santos – O Homem, O Poeta, O Publicitário de Alberto Bemfeita).

Foi uma enorme manifestação de pesar.

Título de O Diário:

Nunca um Poeta teve um funeral assim.

Foi a assistir ao funeral de Ary dos Santos que Luiz Pacheco decide ser militante do Partido Comunista:

É porque é giro, um gajo morre e vai lá com abandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos – Ary, amigo, o Partido está contigo! – e pensei: «Isto é o que me convém, porra!» Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu um sou um gajo muito friorento.

(Luiz Pacheco, em entrevista na revista Ler, Verão de 1995, citado de O Crocodilo que Voa de João Pedro George).

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado      não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é seu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já se não fala
‑ é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
‑ a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
‑ Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
‑ Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
demagogo       mau profeta
falso médico       ladrão
prostituta       proxeneta
espoleta       televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


José Carlos Ary dos Santos em Resumo