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terça-feira, 29 de outubro de 2024

REOLHARES


 REOLHARES vai buscar textos antigos publicados neste Cais do Olhar.

A «Casa Museu de Karen Blixen» foi publicado em 2 de Março de 2010.

A casa Museu de Karen Blixen fica em Rungsted, numa lindíssima parte de Copenhaga, a que chamam a riviera dinamarquesa.

Um sossego de paraíso paira pela casa, nos jardins que a circundam, é suave o cântico dos pássaros que se abrigam pelas árvores. Karen Blixen assim quis. É por isso que custa, imaginar, que perante tanta beleza, Karen Blixen tenha passado os últimos anos da sua vida em ódios e vinganças, egoísmos e invejas com os seus amigos e também com os companheiros de escrita. A amargura de tudo o que se passou no Nepal -“Tive uma fazenda em África” - não pode justificar tudo.

Da casa museu de Karen Blixen trouxe dois postais: a secretária no quarto Ewalds, com a sua máquina de escrever “Corona” e Karen Blixen quando visitou Nova Iorque.

Sentados a uma mesa, vêem-se Karen Blixen, Arthur Miller, Marilyn Monroe e Carson McCullers. A fotografia foi tirada no dia 5 de Fevereiro de 1959.


CarsonMcCullers tinha 42 anos, devido a problemas físicos e emocionais, era quase uma reclusa, todos os anos relia "Out of Africa" e considerava Blixen a sua "amiga imaginária," que sempre "estava lá quieta, serena e com grande sabedoria para me confortar."

Ao saber que Blixen gostaria de conhecer Marilyn Monroe, McCullers ligou para Arthur Miller, ainda casado com Marilyn, e marcou o almoço.

Blixen tinha 74 anos, e estava muitíssimo debilitada pela sífilis que contraiu em África. Por ser anoréxica, pesava 36 quilos e alimentava-se de ostras que acompanhava com champanhe!

Monroe tinha 33 anos e não conhecia, nem nunca lera, McCullers, tão pouco Blixen. Tinha acabado de filmar "Quanto Mais Quente Melhor" e, as usual, chegou atrasada ao almoço.

As três entenderam-se maravilhosamente, embora Arthur Miller diga que faz parte da lenda, a história de que as três dançaram juntas sobre a mesa de jantar de mármore de Carson McCullers. Riram a bandeiras despregadas quando Marilyn contou que, certa vez, tentara acabar de cozinhar macarrão usando um secador de cabelo.

Por sua vez Blixen disse que Marilyn era "quase que inacreditavelmente bonita," cheia de "uma vitalidade ilimitada" e de "uma inocência incrível"

Karen Blixen morreu em 1962 de inanição, Marilyn Monroe, no mesmo ano, de overdose ou, segundo outras versões, assassinada a mando do Clan da família Kennedy. Carson McCullers morreu em 1967 vitimada por um derrame cerebral. Arthur Miller morreu, de insuficiência cardíaca, em 2005.

Vou, agora, buscar o maravilhoso diálogo que encerra o terceiro capítulo da “África Minha”, quando o criado Ndwetti fala do voo que Karen Blixen fizera com Denys:

« — Hoje subiram muito alto. Não vos conseguíamos ver, só ouvíamos o aeroplano zumbir como uma abelha.

Concordei que andáramos a voar muito alto.

- Viram Deus? - perguntou ele.

- Não, Ndwetti – respondi eu. Não vimos Deus.

- Ah, então é porque não subiram o suficiente. Mas digam-me lá: acham que conseguem subir o suficiente no seu aeroplano para ver Deus? - perguntou ele dirigindo-se a Denys.

- Na realidade, não sei - foi a resposta.

- Então - disse Ndwetti - não sei porque é que vocês os dois vão voar.»

sexta-feira, 3 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


As horas em que não sabemos uns dos outros: família, amigos…

O acabar de cada dia é o testemunho de uma profunda e amarga nostalgia.

Há que pontapear as quebras de ânimo, a angústia do guarda-redes, também do pontapeador, no momento do penalty.

Na casa silenciosa lembrei-me de Karen Blixen, do seu livro que deu origem a um filme de Sydney Pollack.

As paisagens africanas do Quénia, as longas panorâmicas, a liberdade livre dos largos espaços.

A última vez que vi o filme numa sala escura, e Out of Africa é daqueles filmes que não suporta o formato televisivo, foi na tarde de 22 de Março de 2006, com a respectiva folha assinada pelo Manuel Cintra Ferreira, que tinha a quase certeza que Pollack poderia ter feito um grande filme em vez de, apenas, um filme bonito.

Quando voltarei à Cinemateca?

«I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Mountains.»

Lá pelo meio, Robert Redford, no safari, a lavar o cabelo a Meryl Street, aquele diálogo quando o criado Ndwetti fala do voo que Karen Blixen fizera com Denys:

« — Hoje subiram muito alto. Não vos conseguíamos ver, só ouvíamos o aeroplano zumbir como uma abelha.


Concordei que andáramos a voar muito alto.


- Viram Deus? - perguntou ele.


- Não, Ndwetti – respondi eu. Não vimos Deus.


- Ah, então é porque não subiram o suficiente. Mas digam-me lá: acham que conseguem subir o suficiente no seu aeroplano para ver Deus? - perguntou ele dirigindo-se a Denys.


- Na realidade, não sei - foi a resposta.


- Então - disse Ndwetti - não sei porque é que vocês os dois vão voar.
»

Também o Concerto para Clarinete e Orquestra de Amadeus Wolfang Mozart que fica como a nossa música de hoje:


1.

Use máscara, não use máscara, use luvas, não use luvas.

A comunidade científica não consegue entender que estas contradições são terríveis.

Num tempo trágico como este, precisamos de confiança.

Sinto que não tenho confiança.

Isso provoca o desleixo, o «que se lixe!»

Alivio a figadeira com «o que se lixe!» … mas: o que me pode acontecer?

2.

O que este estupor do vírus tem para nos dizer é que é mito difícil ultrapassar o medo, que, de modo algum, se os povos não estiverem juntos nesta luta, se pode resolver esta tragédia que se abateu sobre o mundo. Importantes são os avanços tecnológicos mas de nada servem se falharmos a solidariedade.

Que ajuda deu a Europa, quando face às primeiras centenas de infectados e de mortos, a Itália entrou em fúnebre delírio?

Nenhuma!

Somos de uma fragilidade assustadora.

Será bom começarmos a olhar para o que alguns países europeus, aproveitando-se da pandemia, querem impor aos seus povos.

A Comissão Europeia lembrou o primeiro-ministro da Hungria, Victor Órban, que os poderes que foram aprovados serão para usar durante a pandemia de covid-19 e que não haja a suspensão da democracia no país.

Em causa está a lei que permite a Orbán governar por decreto, sem necessidade de validação parlamentar e por um período indefinido do Estado de Emergência. Teme-se que o primeiro-ministro húngaro use os novos poderes para apertar ainda mais o controlo à sociedade civil.

Mas a gente como Orbán, o que há a fazer é «lembrar»?

3.

Dez milhões de norte-americanos perderam o seu emprego nas duas últimas semanas.

4.

Durante anos e anos, e anos, ouviram dizer que tinham de cultivar as terras, criar gado, pescar. De repente, passaram a ouvir que iriam receber subsídios para deixar as terras ao abandono, abater os barcos.


Vitor Dias, em O Tempodas Cerejas, citava o Expresso-on Line, e face à constatação do semanário, aproveitava para lembrar um discurso do Miguel Viegas, deputado do PCP no Parlamento Europeu em 2018:

« Apenas três cereais asseguram quase metade das calorias que a Humanidade consome: trigo, arroz e milho. Apesar da sua importância, Portugal é profundamente deficitário. Em apenas três décadas o país perdeu 71% da área cultivada com cereais. No final dos anos 80, a superfície cultivada com cereais ocupava cerca de 900 mil hectares, quase 10% do território nacional. No ano passado, a área circunscrevia-se a 260 mil hectares, ou seja, menos 71%, uma perda de 640 mil hectares. De acordo com especialistas, o fim das ajudas ligadas e a liberalização das Política Agrícola Comum explica uma boa parte deste quadro.
Hoje Portugal tem um dos níveis mais baixos do mundo em matéria de autoaprovisionamento de cereais. Mas se atendermos aos cereais utilizados para a alimentação humana, a situação é ainda mais alarmante com a produção de trigo a garantir apenas 5% das necessidades do país.»

5.

Os negros números:

Itália

14.681 mortes

Espanha

10.395 mortes

Estados Unidos

6.586 mortes

França

5.387 mortes

Grã-Bretanha

3.605 mortes

China

3.318 mortes

Irão

3.309 mortes

Holanda

1.487 mortes

Bélgica

1.011 mortes

Alemanha

1.017 mortes

Portugal

246  mortes

No Mundo

58.773 mortes

6.

«Abril é o mês mais doce, pensou. Tinha a impressão de que escrevera a frase numa das suas novelas, Abril é um mês azul, os lilases, os jacarandás, os lírios. E o mar, que se estendia à sua frente, o mar no qual podiam surgir monstros de olhos verdes. Fechou o livro e pousou-o no muro, estendeu as pernas para o lado das rochas.»

Ana Teresa Pereira, de uma crónica no Público s/d

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



A Festa de Babette e Outras Histórias

Karen Blixen
Tradução: Maria Jorge de Freitas
Colecção Asa de Bolso nº 46
Asa Editores, porto, Setembro de 2002

Na Noruega há um fiorde – um apertado e longo braço de mar cavando as altas montanhas – Chamado o Fiorde de Berlevaag. No sopé das montanhas, a cidadezinha de Berlevaag mais parece um brinquedo com casas miniaturais pintadas de cinzento, amarelo, rosa e tantas outras cores.
Há sessenta e cinco anos, duas senhoras de meia idade viviam numa dessas casas amarelas. Outras senhoras, nesse tempo, usavam a tournure e as duas irmãs bem podiam tê-la usado também, e com a mesma graciosidade, pois eram altas e esbeltas. Mas nunca seguiram os ditames da moda: sempre se acostumaram a vestir, com modéstia, de preto ou de cinzento, Receberam elas os nomes de Martine e Philippa, em homenagem a Martinho Lutero e a seu amigo Filipe Melanchton. Eram filhas de um Deão, um profeta, o fundador de uma facção ou seita religiosa conhecida e respeitada em toda a Noruega. Os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Desses lábios não saía uma inocente blasfémia, todos os seus colóquios não iam além de um «oh, sim», «oh, não» e dos nomes de Irmão i Irmã que na Congregação se davam.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Sinto que, onde quer que vá no futuro, questionar-me-ei sempre se não está a chover em Ngong

Karen Blixen

Legenda: Imagem da Wikipédia.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

PRÉMIOS, PREMIADOS, DESPREMIADOS


John Steinbeck ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1962.

Como passados cinquenta anos a Academia Sueca abre os ficheiros que contém as actas da atribuição dos prémios, ficou, agora, a saber-se que a atribuição do Nobel a Steinbeck aconteceu porque a Academia considerava não existir nada melhor.

Na lista dos finalistas desse ano encontravam-se o dramaturgo francês Jean Anouilh, a escritora dinamarquesa Karen Blixen e os britânicos Lawrence Durrell e Robert Graves.

Karen Blixen foi retirada da lista por ter morrido naquele ano, as hipóteses de Anouilh esgotavam-se porque Saint-John Perse vencera o Nobel em 1960 , quanto a Lawrence Durrell, foi considerado que não estava maduro o suficiente para receber o prémio, já para não falar do erotismo que navega na sua obra, Robert Graves era um poeta britânico e a Academia, enquanto Ezra Pound estivesse vivo, tendo em vista as suas simpatias pelo fascismo italiano, não daria o prémio a um poeta inglês.

Restava John Steinbeck que, para além de outras obras, já publicara A Um Deus Desconhecido, As Vinhas da Ira e Ratos e Homens.

Considerar que estas obras não têm o valor para atribuir um Nobel ao seu autor é, no mínimo estranho, bizarro, não dá mesmo para acreditar.

Curiosamente, Steinbeck, no discurso da entrega do prémio, manifestara as suas dúvidas se não existiam outros autores, autores que reconhecia e respeitava,  que não merec4essem ganhar o Nobel, mas isso é apenas Steinbeck numa de humildade.

Não leio livros porque os seus autores ganharam o Nobel, não vejo filmes porque os seus realizadores venceram óscars da Academia, não ouço música por lhe ter sido atribuída um qualquer prémio.

Já era, há muito, seu leitor, entusiasmado leitor, quando José Saramago recebeu o Nobel.

As razões da Academia, os estranhos critérios, na atribuição do Nobel a Steinbeck, voltam a pôr a nu as omissões que se têm verificado, as atribuições a gente que hoje ninguém sabe quem foi, ou, sequer que livros escreveram.

Jorge Luís Borges, por exemplo, não recebeu o Nobel devido ao seu alinhamento político que manteve com a ditaduras argentina.

Pode-se, discordar... mas Jorge Cortazar contava que Jorge Luís Borges recusara assinar um manifesto contra a ditadura, alegando que não sabia de nada.

Amargamente, Cortazar, lembrou que ele vivia junto do edifício da polícia política.

É cego, mas não surdo, e, certamente ouviu, os gritos dos suplicantes encarcerados.

O meu livro preferido de Steinbeck é A Um Deus Desconhecido, mais do que As Vinhas da Ira um grande romance que originou um admirável filme realizado por John Ford.

O começo do livro mostra logo a envolvência poética que percorre todo o livro, aquela frase solta, com humildade:

A terra vai deixar de chegar, senhor pai.

E, apesar das reticências do pai, este acaba por o abençoar e ele parte em busca dessa terra, uma terra que ali não esticava.

Depressa veio o Inverno, com a neve alta, e o ar enregelou-se em agulhas. Durante um mês Joseph vagueou pela casa, custando-lhe abandonar a sua juventude e todas as fortes recordações materiais da juventude; mas a bênção paterna desligava-o de tudo. Era um estranho naquela casa e sentia que os irmãos ficariam contentes quando ele se fosse embora. Partiu antes da chegada da Primavera, e as colinas da Califórnia estavam cobertas de verde quando ele lá chegou.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DO BAÚ DOS POSTAIS

Sepultura da escritora Karen Blixen na sua casa museu em Copenhaga.

terça-feira, 2 de março de 2010

CASA MUSEU KAREN BLIXEN


A casa Museu de Karen Blixen fica em Rungsted, numa lindíssima parte de Copenhaga, a que chamam a riviera dinamarquesa.

Um sossego de paraíso paira pela casa, nos jardins que a circundam, é suave o cântico dos pássaros que se abrigam pelas árvores. Karen Blixen assim quis. É por isso que custa, imaginar, que perante tanta beleza, Karen Blixen tenha passado os últimos anos da sua vida em ódios e vinganças, egoísmos e invejas com os seus amigos e também com os companheiros de escrita.A amargura de tudo o que se passou no Nepal -“Tive uma fazenda em África” - não não pode justificar tudo.

Da casa museu de Karen Blixen trouxe dois postais: a secretária no quarto Ewalds com a sua máquina de escrever “Corona” e Karen Blixen quando visityou Nova Iorque.

Sentados a uma mesa, vêem-se Karen Blixen, Arthur Miller, Marilyn Monroe e Carson McCullers. A fotografia foi tirada no dia 5 de Fevereiro de 1959.


CarsonMcCullers tinha 42 anos, devido problemas físicos e emocionais, era quase uma reclusa, todos os anos relia "Out of Africa" e considerava Blixen a sua "amiga imaginária," que sempre "estava lá quieta, serena e com grande sabedoria para me confortar."

Ao saber que Blixen gostaria de conhecer Marilyn Monroe, McCullers ligou para Arthur Miller, ainda casado com Marilyn, e marcou o almoço.

Blixen tinha 74 anos, e estava muitíssimo debilitada pela sífilis que contraiu em África. Por ser anoréxica, pesava 36 quilos e alimentava-se de ostras que acompanhava com champanhe!

Monroe tinha 33 anos e não conhecia, nem nunca lera, McCullers, tão pouco Blixen. Tinha acabado de filmar "Quanto Mais Quente Melhor" e, as usual, chegou atrasada ao almoço.

As três entenderam-se maravilhosamente, embora Arthur Miller diga que faz parte da lenda, a história de que as três dançaram juntas sobre a mesa de jantar de mármore de Carson McCullers. Riram a bandeiras despregadas quando Marilyn contou que, certa vez, tentara acabar de cozinhar macarrão usando um secador de cabelo.

Por sua vez Blixen disse que Marilyn era "quase que inacreditavelmente bonita," cheia de "uma vitalidade ilimitada" e de "uma inocência incrível"


Karen Blixen morreu em 1962 de inanição, Marilyn Monroe, no mesmo ano, de overdose ou, segundo outras versões, assassinada a mando do Clan da família Kennedy. Carson McCullers morreu em 1967 vitimada por um derrame cerebral.

Vou, agora, buscar o maravilhoso diálogo que encerra o terceiro capítulo da “África Minha”, quando o criado Ndwetti fala do voo que Karen Blixen fizera com Denys:

“ — Hoje subiram muito alto. Não vos conseguíamos ver, só ouvíamos o aeroplano zumbir como uma abelha.

Concordei que andáramos a voar muito alto.

- Viram Deus? - perguntou ele.

- Não, Ndwetti – respondi eu. Não vimos Deus.

- Ah, então é porque não subiram o suficiente. Mas digam-me lá: acham que conseguem subir o suficiente no seu aeroplano para ver Deus? - perguntou ele dirigindo-se a Denys.

- Na realidade, não sei - foi a resposta.

- Então - disse Ndwetti - não sei porque é que vocês os dois vão voar.